Sobre a amizade

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A amizade nasce no momento em que uma pessoa diz para outra: “O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único!” (C.S. Lewis)

Hoje é o Dia da Amizade. Esses dias temáticos são bem propícios para ajudar na escolha de um tema sobre o que escrever. Suspendi até um texto em que estava trabalhando, e que vou retomar mais tarde, sobre o exagero como causa dos problemas da vida.

Segundo o honesto Houaiss , “amigo” vem do latim “amicus”, aquele “que ama, que gosta de; benévolo, propício; aliado confederado; aprazível, deleitoso; querido, amado”. Vou usar essa etimologia como roteiro das minhas mal digitadas.

Amizade é um sentimento que envolve amor. Amor no sentido de querer bem, de vibrar com o sucesso e se lamentar solidariamente com o fracasso do amigo. Abraçar esse amigo apertadamente com um abraço quebra-costela num momento de grande felicidade compartilhada. Querer falar loguinho com ele para contar que algo deu certo. Espalmar as mãos no ar num “yessssss” de felicidade conjunta. Amigo é correr junto, como no atletismo, passando o bastão da vida, na confiança de que ele não cairá na hora da passagem. É roubar minutos de um tempo impossível para compartilhar segredos mais íntimos ou um sorvete de três bolas.

Amizade é um sentimento que envolve gostar. Gostar é diferente de amar? É. O gostar é a sintonia gratuita em relação a alguém de pouca convivência contínua. É aquela sensação deliciosa que sentimos quando vemos aquela pessoa chegando ao mesmo ambiente em que nós estamos e aquela sensação lamuriante de “já vai?” quando ela sai. Gostamos de várias pessoas sincera e profundamente pelos mais variados motivos. Colegas de trabalho, alunos, o porteiro do prédio, a moça da limpeza, o @ do Twitter ou aquele friend do Face que nunca vimos pessoalmente. Há conhecidos, pessoas que cruzaram com a gente uma vez na vida, lá na época da copa da México, que quando encontramos na fila do banco ou numa happy hour qualquer faz questão de dar um abraço sincero comemorando o encontro casual. E você sabe que é sincero mesmo.  Você sente na força do amplexo hercúleo. É assim: há níveis de amizades, sem que um seja melhor que outro, entende? Há os amigos que amamos, até por que convivemos mais, e os que gostamos. Mas como eu disse, não significa que aqueles de quem gostamos são menos amigos do que aqueles que amamos. São sentimentos diferentes, incomparáveis. Fico tão feliz em estar com um amigo que amo quanto em estar com um de quem gosto.

Amizade pressupõe benevolência. Sem dúvida. A boa vontade em relação ao amigo sempre existe e é gratuita, quando a amizade é sincera. Um bom amigo tem um coração do tamanho da China, com uma batida caribenha, salsada e merengada. Sempre se dá um jeito: está precisando de uma informação? Vou dar meus pulos aqui para conseguir para você. Está numa sinuca-de-bico e precisa de uma mãozinha? Vou mudar meus planos aqui para a gente encaçapar essa. Quer que eu resolva isso pra você, já que estou por aqui? Vou lá agora que isso não pode ficar assim mesmo. Acredito que a boa-vontade gratuita – porque existe a forçada! – é um dos melhores parâmetros para avaliar uma amizade, se é que uma amizade precisa de avaliação. Tem gente que se diz amiga e até engana (eu sou um amigável ingênuo demais nesse aspecto), mas na hora da prova da boa-vontade falta uma afabilidade que chega a doer pela expectativa frustrada por aquele comportamento. Para um bom amigo, o relógio é instrumento inútil: não há hora. Os meteorologistas podem ser todos demitidos: não há tempo ruim. A não ser que o relógio seja presente do amigo metereologista…

Amizade envolve propiciosidade. Ser propício é estar disposto favoravelmente como opção padrão. É ser compadecido, oferecer proteção. Ser propício é ser conveniente, oportuno, adequado. Só o bom amigo, aquele que conhece a lixeira da sua caixa de correios e não se escandaliza com ela. Só ele é capaz de sacar no ar o momento de ir e vir, de falar e calar, de te puxar pelo braço e de te empurrar no tatame. Ser amigo é ser encorajador. Mas um encorajador que não decide por você: decide com você. O que você decidir, brou, estou nessa contigo.

Ser amigo é ser aliado confederado. Gostei dessa definição do Houaiss. Porque é isso mesmo. Ser amigo é ir à guerra juntos. Unir forças para combater um inimigo comum. É saber que na hora H, como nos filmes, o amigo vai estar lá para dar o tiro fatal naquele cara que está vindo para cortar sua garganta quando você está ali, preso na areia movediça do pântano. Bang! Cai o inimigo, sangue na boca. Corta a câmera: aparece o amigo, arma fumegando. E sorri. Nossas guerras, diferentemente das dos filmes, são metafóricas e diárias. Precisamos dessa certeza da proteção. Precisamos desse aliado contra os combates da roda-vida, de alguém que dê uma voadora por nós e só depois que estamos salvos pergunte o que houve.

Amizade envolve deleite e prazer. Saber que você faz parte do bem estar do outro, prestando atenção a detalhes, lhe fazendo bem. Ser amigo envolve pensar em mil razões e desculpas para estar junto. Pensar que você é capaz de passar o dia todo ali, no tapete da sala, ouvindo música, comendo pipoca, contando piada, falando besteira, lembrando dos bons tempos idos ou imaginando os bons tempos a vir. E que no dia seguinte seria capaz de repetir tudo de novo. Ou que você passaria o dia todo ali, do lado do amigo doente, botando o termômetro no sovaco, dando remedinho na boca ou fazendo compressas na testa. Não há nada pior, na humilde opinião desse escriba, do que você perceber indícios de que você não agrada mais como agradava, que sua presença não traz o brilho que trazia aos olhos do outro. É duro dar conta de que agora há sempre uma razão, um motivo, uma desculpa para interromper o fluxo que antes fluía como  o volume d’água de um Rio Amazonas, que o relógio está sendo usado pelo amigo e que ele voltou a assistir à previsão do tempo. A gente meio que murcha por dentro. Eu, particularmente, fico triste. Não sei disfarçar. O Rio Amazonas vira um riozinho moribundo: pobre, sem velocidade, sem vida. Você até tenta recolher as garrafas plásticas da indiferença, as espumas da poluição afetiva, mas… eventualmente morre. Como o Tietê. E ficam as boas memórias de um tempo que não volta mais. Um amigo tem de ser querido. Querido no sentido de desejado. Sua presença, sua opinião. Tudo seu é importante. Menos sua indiferença.

Um amigo tem de ser radical. Tem de ser capaz de amar quando você é inamável. Abraçar quando você é inabraçável. Suportar quando você é insuportável. Tem de ser fanático. Aplaudir quando todos vaiam, porque você, a despeito de tudo, é amigo. Vaiar quando todos aplaudem, para lembrar que a vida tem fissuras, é cíclica e que não se pode ignorar que a bola cheia um dia esvazia. Um amigo tem de dançar com suas boas notícias e compartilhar a lágrima furtiva que rola na hora da tristeza. Acima de tudo, um amigo tem de ser matemático: deve multiplicar a alegria de compartilhar as vidas, buscar dividir as tristezas e os momentos de vazio e desânimo; deve subtrair o passado nocivo e adicionar o futuro desejável na relação. Um amigo deve calcular a necessidade mais profunda do seu coração e sempre, sempre, ser maior do que a soma de suas partes.

Que delícia quando você acha alguém assim para, além de tudo, dividir a vida com você. É quando as pessoas casam e são felizes. Um casamento começa a terminar, digo eu, quando a amizade fenece. Amor e amizade são as duas bisnagas de Araldite de um relacionamento duradouro. É perfeitamente possível querer bem as outras pessoas sem querê-las para si. Amizade sincera existe mesmo. Dialeticamente se desenvolve na própria amizade, ganhando ou perdendo espaço, achando ou perdendo o rumo. Mas existe.

Enfim, meus amigos. Tenham um bom Dia da Amizade. E já que estava escrevendo um texto sobre o exagero, dizendo inclusive que ele pode ser positivo, quero um número exageradamente grande de amigos. Hoje lembrarei dos meus amigos de ontem e os de hoje no meu bate-papo noturno com Deus. Se faz um tempo que a gente não se vê, não se preocupe: qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar…

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2 comentários em “Sobre a amizade

    sandra disse:
    14/02/2012 às 09:41

    Perfeito ! Dizem que quem tem um amigo tem um tesouro..eu acho que mais que isso, quem tem um amigo tem a chave mestre que abre tudo que é realmente valioso 🙂

    Ana carolinna disse:
    14/06/2012 às 19:06

    muito bom é maravilhoso eu mi apaixonei com cada palavra amei

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