O que se perde, o que se ganha, o que se guarda

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Estou ficando velho. Sei que estou mesmo porque música para mim no rádio do carro só se for as light dos anos 80, Rod Stewart cantando as tradicionais americanas ou Diana Krall, naquele jazz relaxante. Nada desses troços barulhentos. Sinto um verdadeiro mal estar ouvir música assim no carro ou nos supermercados de algumas áreas da cidade. Sério. Quero cada vez mais minha casa, meu canto, minha cama, minha patroa aconchegada com a cabeça por sobre meu ombro direito assistindo às séries de TV e filmes água-com-açúcar. Acho que é fisiológico: as células que envelhecem com o tempo ficam mais rabugentas e curtem cada vez mais os retalhos de cetim de  Benito de Paula e as estradas do sol da Perla – quem tem menos de 40, pergunte para o papai e para a mamãe quem são. Aproveite e pergunte o que era a promoção do Bingola.

Todo esse preâmbulo para localizar o humor de quem vos fala é para dizer que a minha reflexão passa por analisar minha vida e fazer um balanço. 43 anos, terceiro casamento, mestrado feito, doutorado feito, duas filhas. Está bom, eu acho. Um filho ainda? Continuo no preâmbulo picotado de informações desconexas, não é? Deixa eu ver se dou um rumo ao texto…

Minha vida – e, claro, a de todo mundo – é uma sequência de mudanças. Grandes e pequenas, diárias. Filosofando na varanda de casa, cheguei a uma teoria. Cada passagem na vida nossa de cada dia tem três pontos: o que se perde e fica para trás, o que se ganha com a nova fase que chega e o que se guarda como experiência desse movimento de leva e traz, contínuo como o banzeiro dos rios.

Conselho para a vida não se dá. Quando muito damos uma dica de que em buffet de comida a quilo não se deve comer purê de batata, pois pesa muito. Todavia – e há muito tempo eu não uso “todavia” –, a minha vida tem melhorado depois que compreendi o mecanismo da danada e dou essa dica para quem quiser.  É como eu disse antes: perdas, ganhos, restos.

Cada passagem, cada mudança faz com que percamos algo da fase anterior. É preciso morrer o velho para germinar o novo. O botão morre para a flor nascer. O menino morre para que o adulto apareça. Um amor acaba para que outro surja. O segredo é entender a perda inevitável como sendo inevitável e parte mesmo da chegada do novo. Dois caminhos lógicos a serem seguidos quando isso acontece: o primeiro, viver eternamente essa perda, o que é morrer para o novo, de certa forma, pois se paralisa no tempo. O segundo, curtir o luto da perda como um rito de passagem necessário para a gênese de um novo eu numa nova fase e tocar em frente, com todos os choros e dramas que se tem direito na passagem.

Tem gente que não sai do luto das perdas de suas mudanças. Choram, lamentam, mas não um choro e uma lamentação instrumental, ou seja, para resolver e purgar a dor. Cristalizam-se num simbólico que se esfacelou, que acabou, que deu. Por outro lado, tem um povo que curte o novo de cabeça, como um exílio, sem olhar para trás, para o que perdeu, com medo de virar estátua de sal como a mulher de Ló. E fica amargo. Só que ignorar o que se perdeu sem simbolizar a perda, sem lhe dar sentido, é ter um luto não vivido. Ele voltará como um fantasma a lhe assombrar eternamente em dores de cabeças, neuroses, tristezas sem razão aparente, depressão, síndrome do pânico, manias e cacoetes. É preciso o meio termo: Perdeu? Perdeu! Aceite e pronto. Zap! Foi-se! Mór-reu, Nerson da Capitinga! É preciso perder para ganhar coisas novas. Tem gente ainda que, não contente, quer consertar o inconsertável. Mas o essencial não é inventar consertos (a neurose é a ciência dos consertos e das ocultações que não dão certo). O essencial é indicar, apontar e reconhecer um real contraditório que não tem conserto, para fazer com isso, com o inevitável, algo interessante.

Por sua vez, as coisas novas, motivos da mudança, devem ser curtidas com gozo pleno, mas não sem luzes traseiras. Caraca! Mudei minha vida – ou mudaram para mim – e então tenho que aproveitar ao máximo o que ela me traz de novo. É lógico. O que vivi, olho e deixo para trás como ponte para eu chegar até aqui. Então para o resto, como diz a música do Chiclete – e eu nunca pensei que fosse usar uma música do Chiclete em um  texto – , “diga que valeu!”  Mudar é bom, cada vez mais percebo isso e faço disso uma filosofia de vida. Para viver o novo devo apagar o velho, o ido? Em absoluto.  Assim como se mede a capacidade de carga de uma ponte por sua estrutura mais fraca, as dores, as perdas e os danos servem para revelar a medida de nossa resistência humana. É preciso não ignorá-las, mas conhecê-las para nos conhecer melhor.

Isso aponta para a terceira perna da coisa: o que resta. É o que nós, velhos, chamamos de experiência. As coisas ruins e dolorosas servem para o que servem: para nos ensinar certas lições. Fiquemos com essa parte. A parte da dor, depois de curtida, gasta e processada, repito, deve ser jogada fora sem dó na lixeira da memória.  As coisas boas, por sua vez, devem ficar registradas na antologia do amor e, igualmente, devem servir para nos ensinar também. Os fatos são pedagógicos. Ou deveriam.

 As pessoas são de certo modo ou amargas (se focam o eterno luto), ou utópicas (se focam o solitário gozo sem história) ou felizes (se balanceiam luto e nascimento e sabem guardar os restos úteis do parto). Eu, como todo mundo, já passei por infernos astrais e dores inomináveis. Vivi a dor. Vivi o luto. Mas passou. Aprendi a curtir o novo e me relacionar com ele por meio da milhagem de vida, meus restos úteis. Sei que muitos podem dizer que essa classificação é simplória. E é. Não pretendo escrever nenhum tratado sobre isso, mas colocar a minha opinião sobre um fato comum e complicado, que é esse negócio de viver. Daí o escrito ser uma crônica e não uma tese.

Pergunto então a la Edir Macedo: e você, minha amiga, meu amigo? Que perda ainda chora e que não lhe deixar ir em frente depois de tanto tempo? Já não está na hora de curtir, gastar, purgar, exorcizar essa dor? Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. Não adianta fugir nem fingir pra si mesmo. Agora há tanta vida lá fora.  Toca aqui, Lulu!

E que alegria incompleta é essa que mascara a necessidade de olhar o que passou nos olhos? Que tal chamar seus monstros para uma conversa a sós, na boa? Encarar um ao outro, só vocês, tête-à-tête. É preciso resolver o que pende. Seu gozo pleno depende do que pende. Tome tenência e meta a cara. Depois, saia para o abraço de uma vida sem fantasmas ou, no máximo, com Gasparzinhos, uns fantasminhas camaradas.    

Mas não esqueça de vez em quando parar para avaliar a vida. Pode ser numa rede na varanda ou ouvindo Kenny G ou as líricas de Zeca Baleiro bem baixinho. Pode ser antes de dormir. Tá bom, vai… pode até ser ouvindo Exaltasamba. O fato é que pode ser.  Aí você vai ver que a vida é lógica: você é quem manda. Coloque o balanço de sua vida para descansar no carnaval e na quarta-feira pegue suas cinzas e jogue no rio ou no mar. Segue a vida. Tem de seguir.

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