A Chispita vai ser mãe

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[Um texto de 29 de novembro de 2001]

Fui à médica que minha mulher marcou para mim. Como havia esquecido meu “livro da espera” no carro – sempre levo um livro comigo para as esperas da vida -, tive que recorrer às revistas esparramadas sobre a mesinha do canto. Procurei uma Caros Amigos, mas só achei mesmo de Contigo para baixo. Não que tenha algo contra essas revistas. É só uma questão de preferência. Havia também uma Ícaro no bolo. Quando ia pegá-la, uma senhora gordinha foi mais rápida. Bem no estilo carcará-pega-mata-e-come. É engraçado como senhoras gordinhas podem ser rápidas. Para disfarçar, sem tirar a mão da trajetória, peguei então a revista que estava na sequência na pilha. Era uma revista do SBT, do Show do Milhão. Sem o cupom, claro.

Comecei a folhear em busca de algo útil, foto da moça da banheira e tal. De repente a notícia: “Chispita vai ser mãe”. Confesso que essa notícia caiu como um banho de antraz em cima de mim. Chispita? A Chispita? Aquela Chispitinha, do seriado do SBT. Mas ela é uma crian…Vi a foto. A Chispita está uma senhora. Foi aqui que caiu a ficha: estou ficando velho. Foi aí que me dei conta que até minhas expressões são do tempo do ronca. “Cair a ficha”? “Tempo do ronca”? Meu Deus. O templo é implacável. Foi com a Chispita, meio bombada, e está sendo comigo.

“Senhor!”, disse a secretária da médica. “Sua vez. O senhor poderá estar me acompanhando. Eu sem saber se prestava atenção nas possibilidades semânticas do “senhor” ou no tempo futuro de aspecto gerúndio-comercial, muito em moda hoje em dia. Seria o “senhor” um mero marcador de distância de uma relação comercial? Ou seria o “senhor” de senhor mesmo, o que já não é mais “você”? Será que ela não poderia ter dito “meu jovem”, “filho”, “bebê”… Ok, forcei.

A médica achou que eu era autista ou coisa assim. Passei a consulta olhando pela janela o skyline de Campinas, grilado com esse negócio de velho. Tudo bem que quando eu era criança meus tios e meu pai me chamavam de “velhinho” porque eu sempre que parava de fazer algo costuma ficar de cócoras para descansar. Até hoje meu pai e minha tia Céu (já uma tia-avó, coitada!) me chamam assim de vez em quando.

Cheguei em casa, liguei o computador. Click, click. Explorer… Altavista… “ficando velho”. Enter. Muitas páginas de teste para saber se a gente está ficando velho. Triste, eu constatei: estou. Passei Magna Cum lauda em todos.

Mas não vou ficar nessa sozinho. Compilei alguns para que você, da geração Globinho, compartilhe comigo a inexorável marcha do tempo…

Você sabe que está ficando velho quando já não acha ruim carregar o guarda-chuva para cima e para baixo, erra o caminho de casa, quando vai conversar com alguém diz “na minha época” ou “na minha mocidade”, assobia por aí melodias sem nexo nenhum, carrega o jornal para onde for, o saco começa a  inchar, refere-se ao dinheiro como “mirréis”, segura no “puta merda” quando anda de carro (aquele pegador localizado acima da janela do passageiro), leva sempre uma sacolinha para carregar coisas de velho, arruma companheiros de caminhada, se pega “curtindo” love songs e odiando disco music (Antena 1 é sua favorita), seus sobrinhos caem na gargalhada quando você diz que quando você era adolescente o Michael Jackson não era branco. Você está ficando velho quando instintivamente você encolhe a barriga, estufa o peito, prende a respiração e contrai os músculos do bíceps sempre que nota que alguém vai tirar uma foto, acha que o tempo passa cada vez mais depressa,  seu corpo entrega os pontos e sua alma consente.

Tem mais: Dói saber que os indivíduos que “poderão estar entrando” na faculdade nasceram aproximadamente em 1985. Eles não têm a mínima ideia de quem foi Tancredo Neves e mal ficaram sabendo que ele morreu antes de assumir a presidência. Eles estavam na infância quando aconteceu a Guerra do Golfo.

No máximo, recordam do nome de um presidente da república. Eles tinham sete anos quando a União Soviética se dissolveu e não se lembram da Guerra Fria. Nunca sentiram medo de uma guerra nuclear. “The Day After” para eles é uma pílula, não um filme. URSS para eles é um conjunto de letras. Eles conheceram somente uma Alemanha. Eram jovens demais para lembrar a explosão da Discovery, que pensam ser o canal a cabo. Eles não sabem quem é Kaddafi. Em toda sua vida sempre ouviram falar de AIDS. Atari é algo que não existiu para eles, tanto quanto discos de vinil. A expressão “isso soa como um disco quebrado” não tem nenhum significado para eles. Eles nunca jogaram Pac Man. Star Wars parece algo bobo com efeitos especiais patéticos, que o computador do quarto faz. Eles sempre ouviram falar em secretária eletrônica, a maioria nunca ouviu falar em TV com 13 canais e, provavelmente, nunca viram uma TV P/B, máscara-negra. Sempre tiveram videocassete e nunca ouviram falar em formato Beta. Não se imaginam sem controle remoto. Eles tinham quatro anos no ano em que o Walkman foi introduzido no mercado pela Sony. Patins para eles sempre foram inline. Nunca ouviram falar de Crush ou Cruzeiro Linhas Aéreas. Pipocas para eles sempre foram feitos em micro-ondas. Nunca viram Zico, Roberto Dinamite ou Cerezzo jogar. Sócrates, para eles, é, no máximo, irmão mais velho do Raí. Guerra do Vietnã é algo muito antigo para eles, tanto quanto Primeira ou Segunda Guerra Mundial. Watergate para eles é o precursor de Monicagate. Aliás, diriam eles: “o que foi Watergate?” Eles não se importam quem matou Odete Roitman, ou até, quem foi Odete Roitman. Nunca assistiram “Perdidos no Espaço” ou “Os Três Patetas”. John Travolta é o ator do filme “A outra face” e não de “Os embalos de sábado à noite” ou “Grease”. Nunca viram programa em Cobol, nem Assembly. Não sabem o que é um MSX. Disquetes de 1.2 nunca existiram para eles. Muito menos os de 360K. E carregar joguinho no computador pelo gravador Panasonic, no volume 7,5? Ah, e quando tossem, não tomam Xarope Brandão: “Tosse, gripe e rouquidão: Xarope Brandão. Acalllllllllma enquanto cura”.

Você está achando cruel? Então toma lá, seu velho: Lembra quando inaugurou a TV Manchete? Do Jota Silvestre em Essa é Sua Vida? Lembra quando Tancredo morreu e ficava tocando “Coração de Estudante” o dia todo na TV? Lembra do Bozo, da Vovó Mafalda e do Papai-Papudo? Lembra da Família Barbapapa? Você chorou com o ursinho Micha da abertura da Olimpíada de Moscou? Tem o primeiro numero da Superinteressante? E se lembra de Ciência Ilustrada? Lembra que você aprendeu a desenhar com Daniel Azulay (“Algodão doce pra você!”)? Já ouviu falar em contaminação por Radiação em Goiânia? Relógios Grand Prix para homens e Champions para mulheres (aqueles que trocavam de pulseira) faziam parte do seu dia-a-dia? Assistia ao Cassino do Chacrinha aos sábados? Teve o Forte Apache e o circo do Playmobil? Depois de ter um Stratus, pediu um carrinho de controle remoto como o Pegasus série ouro e prata ou o Colossus vermelho? Teve um Falcon? Brincava de Autorama ou de Ferrorama? Detetive? Assistiu filme dos Trapalhões no cinema, na época em que eles ainda eram quatro? Ria com Guerra dos Sexos, Dancing Days e Ti-ti-ti? Comprou a fita K-7 do Plunct-Plact-Zum? E a Blitz, não tinha documentos ou instrumentos? Usava caneta de 10 cores com cheiro? Comia geleia de mocotó Embasa pela manhã (aquela que a mãe ficava com o copo)? Comia quebra-queixo e pirulito de cone da tábua furada com bandeirinha no cabo? E cascalho? Dava seus pulinhos com o Pogobol? Colecionou o álbum de figurinhas “Amar é”? E o Bingola, nas tampinhas de refrigerante Coca-cola? Tomou Fanta-guaraná? Fanta-limão? Guaraná Taí? Assistia na sessão comédia Super Vicky e Caras e Caretas? Chips para você não eram batatas, mas dois policiais, no estilo Fucker & Sucker? E ao Homem de Seis Milhões de dólares e a Mulher Biônica, assistiu? Você sabe quem é o Tatoo da Ilha da Fantasia? Lembra do Halleyfante? Foi na estreia dos Caça Fantasmas e Goonies no cinema? E na de Tron, War Games e a trilogia de Guerra nas Estrelas? Assistia Armação Ilimitada depois que chegava da escola? Depois da novela a sua mãe queria ver o Casal 20 e Dallas? Sabe com detalhes sobre a reportagem do Jacques Cousteau fez sobre o Pantanal e que passou no Globo Repórter, que era apresentado pelo Hélio Costa, que virou político profissional? Você jogava Genius? Colecionava Mad e o Manual dos Escoteiros Mirins do Huguinho, Zezinho e Luizinho? Queria um Kichute, pois era uma chuteira confortável, mas sua mãe só lhe comprava Conga ou, com sorte, um Bamba? Agoniava-se quando no Domingo no Parque trocavam uma bicicleta por uma caixa de fósforos? Viu o Ronnie Von ganhar todas e só perder para a Maria Alcina no Qual é a Música? Lembra-se que o tênis Montreal era antimicrobiótico? Brincava de Acquaplay? Sabe o que era Trovão Azul? E o kit da Super Máquina? Lembra da briga entre VHS e Betamax ? E entre Odissey e Atari? Boliche, River Raid, Enduro, PacMan, Frogger, Pitfall e Tênis no Atari. Come-come e Didi na Mina Encantada no Odissey? Lembra quando assistia aos Saltimbancos? A Feiticeira e Jeanie É Um Gênio antes do Agente 86? Sítio do Pica-pau Amarelo, desenhos do Homem de Ferro, Incrível Hulk e do Capitão América? Desenhos da Turma do Zé-Colméia, Hardy a hiena e Lippie o leão, Tartaruga Touché e Dum-Dum, Pepe-legal e Babaloo, O Urso do Cabelo Duro, Manda-Chuva, Wally Alligator, Maguila o Gorila? O seriado do Batman (Bif, Pow, Sock, Smack … – “mesma bat-hora, mesmo bat-canal, Comissário Gordon”). Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Viagem ao Fundo do Mar (com o submarino Civil e o marinheiro Kobasky)?

Calma, idoso… Não acabou, não. Você também cantou “Ursinho Blau Blau”, “Mama-Maria” e “Johnny Love”?  Ouviu Menudo (“Não se reprima…”), Tremendo (“Todos batendo palmas, isso é tremendo…”) e Dominó (“Companheiro vem, vem no balanço do mar…”)? Torceu contra a Lucinha Lins (Purpurina) no Festival dos Festivais? Lembra dos Abelhudos – “Diz qual é o nome, do dono da terra…”)? Deu aquele disco em formato de coração, com o Melô do Piano,  para a namorada? Achou que o Gurgel ia ser, finalmente, o carro nacional? Teve revólver de espoleta (Fox – 6 tiros ou Fúria – 12 tiros)? Viu a estreia do Balão Mágico com Mike (o filho do ladrão), Tobby e Simony (a mulher do ladrão, de roupa)?  Morria de medo de ser ovado na escola e na quadra no dia do aniversário – pensava até em faltar nesse dia? Brincou de Vai-Vem? Teve Geleka e Massa Lunar, e quase quebrou o braço com aquelas bolotas que ficavam presas a um fio e ficavam batendo em cima e embaixo, enchendo o saco de todo mundo com aquele tectectectectectectectectectectetec…? BIBOQUÊ. Era esse o nome. Lembrei. Colecionava garrafinhas de MiniCoke e Fanta? Gostava de ver a Xuxa batendo nos baixinhos no programa da Manchete e cantando “O Alfabeto da Xuxa – A de Amor, B de Baixinho, C de Coração…”? Usou calça OP ou K&K verde limão com a camiseta Hang Loose laranja, achando que estava combinando? Para arrematar, o tênis quadriculado? E o gel New Wave no cabelo? Dançou como Travolta os “Embalos de Sábado à Noite” e Achou a Sandy de “Nos Tempos da Brilhantina” uma chata de galocha? Comprou o disco dos Bee Gees? Sabia cantar quase todas as músicas da Blitz (“Você não soube me amar…”)? Colecionou figurinhas Ping Pong com os jogadores do campeonato nacional, o Futebol Cards? Tinha o Paúra, feio pra cacete, jogador do Coritiba.

É. Mas minha pesquisa foi mais além. Para você, amiga velha, aqui vão algumas também: você tinha Melissinha sabor Coca-Cola? Colecionava as figurinhas de bichinhos que vinham no chocolate Surpresa? Brincava de Fofolete, Cicciobello, Pega-vareta, Suzy e Ken? Colecionava papel de carta da Hello Kitty, Bonnie e Clyde e Moranguinho? Usou saia balonê? E calca semi-bag? E sandália de plástico com meia soquete prateada? Usou aquelas pulseirinhas de linha, que tinham o nome da pessoa? Assistiu ao show  do  A-Ha ? Brincava de bambolê – antes de se chamar bambotchan?  Morria de pena da Polyanna, que pregava o “jogo do contente”? Comprava aqueles discos tipo “Hits 82”, que sempre tinham na capa uma moça andando de bicicleta, de costas, com close no bumbum? Pulava corda com aquela musiquinha: “Um homem bateu na minha porta e eu…”? Brincava de “Enha la enha lagosta lagoe” (Que diabo era isso?), de “adoleta” e “1 2 3 Chocolate Inglês”?

Se você respondeu afirmativamente a maioria dos itens acima ou teve um ataque de risos durante esses testes, você é um privilegiado, meu caro ou minha cara. A felicidade é o resultado de vários fatores na nossa vida e um deles pode ser medido pela forma como encaramos nossas lembranças. Aliás, acho que sou um velho de 33 anos feliz, depois de ler tudo isso. Se nostalgia fosse gente, eu seria a China.

Ah, o Tempo! “O tempo não pára!”, como disse Cazuza. Ou teria sido Roberto? Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo. Aqui frases de alguns famosos, diretamente do Almanaque Capivarol: “O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente…” (Mário Quintana). “Haja Hoje para tanto Ontem” (Paulo Leminski). “O tempo é a substância de que sou feito” (Jorge Luís Borges). “O tempo corre em direção com sua bandeja de hospital repleta de narcóticos, deixando-nos preparados para a sua operação inevitável e fatal” (Tennessee Williams). “Quem mata o tempo injuria a eternidade” (Henry David Thoreau). “O homem que envelhece vai tomando gradativamente consciência de que não é eterno. Agita-se menos e, assim, os sons das vozes que vêm do além se fazem ouvir” (Romano Guardini). “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem” (Marcel Proust). “O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido” (Bertrand Russell). “O tempo é sucessivo porque, tendo saído do eterno, quer voltar ao eterno. Quer dizer, a idéia de futuro corresponde a nosso desejo de voltar ao princípio. Deus criou o mundo. E todo o mundo, todo o universo das criaturas, quer voltar a este manancial eterno que é intemporal, não anterior nem posterior ao tempo, mas que está fora do tempo” (Jorge Luís Borges, de novo e atemporal).

Por fim e para não tomar mais seu tempo, umas frases retiradas da contracapa da Revista do Show do Milhão, que afanei do consultório da Dra. Eliana: “Tudo que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível”. “O maior erro é a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade”. “Nada está sempre errado. Até um relógio parado está certo duas vezes por dia”. “O futuro é o passado desejado”. “O tempo no céu demora uma eternidade para passar”. “Amanhã é o hoje em relação ao ontem”. “Nada é mais rápido que a velocidade da luz. Para provar, tente abrir a porta da geladeira antes da luz se acender”.

Quando meu pai me chamar de velhinho de novo, vou rir feliz e sem neura. E vou lembrar o Futebol de Mesa dos campeonatos de domingo, que deixavam minha mãe ensandecida porque a gente só chegava tarde para almoçar. E vou lembrar a primeira vez que ouvi uma música mais de cinco vezes seguidas: “Something”, dos Beatles. De Harisson, que se foi hoje, fazendo com que o dia ensolarado promissor chegasse triste ao seu final. Se bem que deve estar cantando My Sweet Lord ao vivo para o homenageado. Ele também disse que “all things must pass”. “Tudo passa”. Tudo passa e a vida continua. O meu irmão caçula Mauro vai ser pai (está feliz como pinto em merda, para usar mais uma do meu tempo) e a Chispita vai ser mãe. Mas o pai do da Chispita não é o Mauro. É um tal de Juan Xavier Mendoza.

Dia 04 eu volto lá na médica. Tomara que a gorda esteja lá e pegue a Ícaro. Tomara também que a Dra. Eliana tenha comprado a nova Revista do Show do Milhão. Senão eu troco de médica.

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Um comentário em “A Chispita vai ser mãe

    Gabriela Pezete (@GabiPezete) disse:
    02/04/2012 às 16:27

    Ops !

    Pois é… o tempo voa! Ameeei o post, muito legal!
    mas só corrigindo que o pai da Chispita é Antonio Hogaza López, e do filho dela é o Manuel Mijares!

    Beijao!

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