Códigos de Família

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Não é novidade para ninguém que gosto de ler. Muito e de tudo. Até anúncio de missa de sétimo dia. Com a Internet, as possibilidades de leitura se multiplicaram. A informação hoje chega invadindo nossos olhos e mentes por todos os lados.

Ler numa tela é algo tem melhorado com a tecnologia, mas não há nada como um bom livro. Tenho um iPad e o uso para ler de vez em quando. A despeito da proliferação dos “e-books”, o livro é insubstituível. Comprar e cheirar livro novo é um prazer inigualável. Só quem cheira sabe. Compro muitos livros. Precisaria me converter ao espiritismo para poder ler todos eles. Umas três vidas, no mínimo, para ler tudo. Depois de devidamente cheirados e incorporados ao acervo com meu nome, data e local, os ponho para repousar na cabeceira da cama, em uma pilha. Os livros se multiplicam com uma fertilidade nordestina. O que estava na vez e que serve de mote para este escrito é o de Zélia Gattai, cujo título é “Códigos de Família”.

Peguei o livro da pilha às dez e o devolvi, completamente lido e devorado, às duas da manhã. Que livro delicioso. Tão bom quanto um sorvete Hagen-Dazs de morango ou uma boa chupada em um maracujá-do-mato. Gostei dos dois livros que li escritos por Zélia, “Anarquistas, Graças a Deus” e esse. Mas esse é melhor. O livro narra a origem dos vários códigos de família da família de Jorge Amado. Como disse, é delicioso. Vale a pena como presente, nem que seja autopresente ou presente-armadilha (aquele que a gente dá para o cônjuge, mas que quem usa é a gente).

Toda família tem seus códigos, expressões e gestos que só são compreendidos pelos seus membros. Os forasteiros ficam com cara de bobos tentando entender uma frase que contem uma expressão que só os que conhecem a história captam. Lendo os códigos da família Amado, fiquei tentando lembrar os códigos dos Freire de Souza. Depois, refletindo, percebi que cada família poderia fazer um dicionário trazendo manifestações da deontologia familiar.

Resolvi, então, abrir a caixa-preta. Vou começar escrever sobre os códigos de minha família e contar as histórias que os originaram. Em alguns casos, talvez, mude o nome dos envolvidos para evitar uma reedição baré de Caim e Abel.

Abater nos megas. Nos primórdios da computação, quando um pente de memória RAM custava os olhos da cara e mais o lóbulo das orelhas, decidi fazer um upgrade. Passei meu poderoso XT de quatro megabytes de RAM para oito. Desfiz-me de quatro pentes de um mega e coloquei dois pentes de quatro. Sensível diferença. O que fazer então com os quatro pentes de um? Vender, lógico. Vendi para o Paulo, meu irmão mais velho. Hoje digito no meu computador de 8 Giga de RAM o causo do calote dos megas. O Paulo nunca pagou. E, cara-de-pau, ainda fez vários outros negócios comigo. Logo depois, vendi outra coisa de que não me lembro para ele e ele me saiu com a proposta: “Seguinte: em vez de eu te pagar tudo em dinheiro, abate nos megas”. Desde então, abate nos megas virou sinônimo de negócio feito cujo vendedor sabe que jamais verá a cor do dinheiro. Exemplo: “Estou precisando de um cartão de memória. Tem um aí?” “Tenho. Quando é que tu me pagas de volta?”. “Ah, abate nos megas”.

Coça o dente. Tenho um primo-irmão, o Junior. O apelido dele é Nirou. A etimologia do apelido é a seguinte: quando era menor, o Nirou apareceu com um corte de cabelo de cuia, parecido com a cabeleira do Stênio Garcia em “A Muralha”. Como a minissérie ainda não passava, o que mais perto chegou para comparar era a cabeleira do famoso colunista social baré Little Box, o Caixinha, brutamente assassinado. Passamos, então, a chamar o Junior de Little Box e depois só Little. A língua muda e, para a alegria do deputado Aldo Rabelo, o Little foi aportuguesado e virou Nirou. Pois bem. O Nirou namorava a Jana há uns doze anos então. Com o tempo, sabe como é, as pessoas começam a pressionar o cidadão para parar com a enrolação e casar. O Nirou também passou por isso. Em um aniversário lá em casa, o assunto caiu em casamento. O Nirou só olhando, encostado na porta, esperando o povo cair matando. De repente, alguém vira à queima-roupa e pergunta: “E tu, Nirou? Quando vais casar com a Jana?” O sorriso do Nirou foi mais amarelo do que bunda de japonês com hepatite. Ele olhou, riu, coçou o dente e disse: “Ãh? Tão falando comigo?” Mas foi tão falso que ele mesmo comentou, imediatamente: “Ih, ó, olha eu disfarçando… até cocei o dente…” A gargalhada foi geral. Quando então alguém pergunta algo embaraçoso na frente dos outros, algo com o qual o coitado se enrola todo, ficando mudo, o coro vem em uníssono: “Ai, ai… coça o dente, coça o dente!”. O Nirou, a propósito, parou de coçar o dente e casou.

Victor Shaft. Minha irmã Paula namorou um velho piloto da VASP (VASP! Pra você ver como ele era velho). Para se ter uma ideia, meu pai, sacaneando, falava que ele pensou várias vezes em deixar a beldade se servir primeiro no jantar e dizer: “o senhor primeiro, que é mais velho”. Todos estávamos preocupados com as intenções do seu Barrote (nome fictício, claro). Mesmo com todos os “olha!” e “cuidado!” da família, a Paula fez o que sempre faz, ou seja, o que quer. Passou um tempo, o Barrote sumiu. Claro que ele notou que os olhares para ele, nas visitas lá em casa, eram meio enviesados. Um belo dia, chega lá em casa uma carta para a Paula cujo remetente era um tal de Victor Shaft. Eu recebi a carta. Olhei para aquela papagaiada, joguei em cima da mesa e disse para minha mãe: “Esse Barrote pensa que a gente é leso. Será que ele acha que a gente não sabe que essa carta é dele?” E lá em cima da mesa ficaria a carta até a Paula chegar e pegar. Mas antes, chega o Paulo e vê a carta. Levanta, olha para mim e para minha mãe e diz: “Isso é bem presepada do Barrote!” Uns quinze minutos depois chega o Mauro, meu outro irmão. Examina a correspondência para ver se não tinha nada para ele e, ao ver a tal da carta, olha para gente com um olhar de reprovação e diz: “Barrote…” Quando a Paula chegou, dissemos: “Paula, chegou uma carta do Barrote pra ti. Só que ele assinou Victor Shaft”.Ela abriu e não é que era mesmo dele. Os três macacos velhos tinham sentido o cheiro da macacada do Matusalém de longe… Quando alguém quer ficar anônimo, o código é Victor Shaft. “Manda uma carta esculhambando com ela e assina: Victor Shaft”.

32 canais. Não queira participar de uma discussão lá em casa. Todo mundo tem razão. Sempre. Um belo dia, estávamos falando de aparelhos musicais. O Paulo, que é músico, disse que queria comprar uma mesa de som e que ela custava X reais. A Paula, querendo entrar no papo, como se fosse “A” engenheira de som, disse: “Não… essa mesa está cara demais!” O Paulo, respondendo, disse: “Tá não. Tá é barata!” “Tá cara!” Ficaram nessa de tá cara, tá barata, tá cara, tá barata… Até que o Paulo disse: “Tá barata! É de 32 canais!” Aí a Paula deu o braço a torcer, concordando… “Ah, bom! 32 canais! Tudo bem…” “32 canais” virou o código para você dizer “Bom, aí o papo é outro…”.

Vou parando por aqui porque a minha tia Céu acabou de engatar uma terceira. Mas esse código eu explico numa próxima. Aí são 32 canais. E a sua família? Tem algum? Conta pra gente aí!

Um comentário em “Códigos de Família

    Rosi Gonçalves disse:
    22/02/2012 às 11:06

    Família… em sua complexa simplicidade!

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