Tão forte, tão perto

Postado em Atualizado em

“Em cada despedida existe a imagem da morte”.
George Eliot

Há verbos bons e verbos maus. Perder é um verbo mau. Perder sempre envolve lacuna, falta, desencontro. Perder uma pessoa torna o verbo mais malvado ainda.

A morte de alguém que amamos é devastadora. Um vazio psíquico de repente irrompe no mecanismo acomodado da vida. É como se nos fosse arrancada uma engrenagem na máquina da existência. A mente entra em desalinho e o mundo é instado a parar. Quer-se que o mundo estanque para que a sangria psíquica também estanque. Não se deseja levar a vida adiante para que não se lembre da perda do ser amado e para que não se sofra sua ausência. Esse desajuste, esse descarrilamento se chama luto.

Estudado por muitos, o luto é o período de reelaboração da realidade sem uma peça que até então era fundamental na convivência. É, portanto, um mecanismo necessário para o reequilíbrio psíquico. Acontece que o trabalho de curtir o luto, no sentido de gastar, como se curte o couro, é diferente de pessoa para pessoa. O normal – e é estranho falar em normal nesse assunto – é a pessoa passar pelo que Freud chamou de “teste de realidade”. Permitindo-se o contato com o mundo real, o enlutado descobre e redescobre que a pessoa amada não existe mais e a dor lancinante vira memória, saudade, lembrança, carinho. A máquina psíquica, de forma autopoiética, se recompõe e a vida segue. Alguns, no entanto, não se permitem voltar à realidade necessária à elaboração do luto.

Certas características do indivíduo podem fazer com que o processo de luto não se desenvolva e se torne patológico. Freud chamou o luto cristalizado de melancolia. Para Freud, no luto, há uma perda consciente. Na melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Diz ele: “A melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”. Dizendo de outro jeito: quando se perde alguém e se compreende a perda como parte do processo da vida, o luto é normal, com sua dor e tudo o mais, porque passa. Quando se perde alguém e nesse alguém se depositava um valor simbólico inconsciente, o próprio inconsciente não deixa a vida seguir em busca do fechamento de sentidos.

Ainda Freud: “Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo, a perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão de recriminação e autoenvelhimento, culminando numa expectativa delirante de punição”. O sujeito se pune porque quem amava se foi sem ser simbolizado.

Ok, talvez você não curta muito esse papo psicanalítico. Mas ele serve para eu tentar argumentar o assunto desse texto: a perda.

Tentando traduzir um pouco o jargão da psicanálise, depois de uma perda é preciso se permitir viver a vida para poder pô-la nos eixos. É necessário saber que também há perdas sem razões, por mais que isso nos desafie a mente cartesiana. Buscar uma explicação para a perda quando a explicação não existe é ficar eternamente dependente de uma resposta que nunca virá para que se possa ir adiante. O efeito colateral de se deixar enredar pela teia da melancolia é não perceber que outras coisas e pessoas precisam também de sua atenção para que a máquina psíquica não pare literalmente.

Isso vale tanto para pessoas quanto para fatos na vida. Há fatos que se perdem e que reclamam luto. Há amores que se vão e que precisam de alforria para se e lhe libertar. Há pessoas que terminam um relacionamento e não elaboram o luto porque inconscientemente acreditam que perderam a capacidade de amar e ser feliz junto com a pessoa que se foi. A melancolia bate palmas para esse sentido e ancora a pessoa na tristeza eterna. Se, por outro lado, se vence o luto da ruptura, o mecanismo psíquico se ajusta e aquela pessoa que se foi passa a ser memória, saudade, lembrança. E uma outra passa a simbolizar a felicidade e o amor.

Há sempre a possibilidade de se elaborar e reelaborar. Há sempre a necessidade de simbolizar. O Real, inacessível ao sujeito, é mediado pelo imaginário, que é o conjunto de imagens inconscientes que fazemos do mundo por meio da linguagem, simbólica por natureza. A língua, daí o meu interesse por toda essa conversa, nos separa da natureza ao nos forçar a dar sentidos a tudo. Que imagens fazemos das coisas que perdemos? Melhor perguntando: o que perdemos junto com aquilo ou aquele que perdemos? Até que ponto o que perdemos não é ressimbolizável? Luto ou melancolia? De dentro do luto, a estrada a tomar passa por gastar a dor e seguir adiante. E  antes que alguém diga, falar de fora do luto é mais fácil, reconheço.

Discursivamente falando, pessoas são conceitos ou um conjunto de conceitos. Nós as lemos, nos as consultamos, nos as admiramos, elas nos sustentam. Daí a perda dolorosa quando algum desses nossos alicerces conceituais desaparece. Os sentidos nos faltam. Mas a falta não é de todo ruim. Os sentidos sempre nos faltarão porque a falta é constitutiva da subjetividade. Aprender a conviver com a falta é meio caminho para evitar a melancolia.

Se você tiver a chance, assista a “Tão Forte, Tão Perto” (“Extremely Loud and Incredibly Close”). Foi esse filme que me inspirou essa conversa. É um filme sobre perdas, sobre luto, sobre melancolia, sobre culpa por não compreender, sobre a busca insana de uma chave que abra a porta da explicação inexistente, sobre cegueira afetiva, sobre a vida, enfim. Porque tudo isso está tão perto de cada um de nós. E chega de forma tão forte. Porque perdemos. Quando se aprende a perder, começa-se a ganhar. Ganhar é um verbo bom.

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4 comentários em “Tão forte, tão perto

    Adrienne Nascimento disse:
    25/02/2012 às 12:10

    Já leu o “Perdas Necessárias”, professor?

      Sérgio Freire respondido:
      28/02/2012 às 22:47

      Não. Tenho aqui. Queria dar uma olhada para ajudar neste texto, mas não achei na minha bagunça!

    Dulce lake disse:
    01/05/2012 às 22:23

    Insightfull. Should be mandatory before watching the movie.

    Ana Paula Cândido disse:
    24/02/2014 às 21:00

    Há quase dois anos eu vivi esse luto, perdi meu namorado, estávamos juntos há 6 anos. Sofremos um acidente de carro e só eu sobrevivi, após um período de internamento em uti, algumas cirurgias e sessões de fisioterapia. Tive q ressignificar muitas coisas da minha vida, graças a Deus não vivi a melancolia de Freud, “curti o luto” e deixei doer até florir de novo, parafraseando algum escritor. A sua descrição é a melhor de todas que li até hoje. Parabéns pelo texto, sou sua fã!

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