Peregrinações: a lei, a forma, o acontecimento

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I’m looking for the face I had before the world was made.
Yeats

Esse é um texto pessoal, escrito mais para mim do que para os outros. Leia se quiser.

Um dos livros que mais me influenciou dentre os muitos que li é Peregrinações, de Jean-François Lyotard. Volta e meia o pego na estante e o começo a ler de novo. O que me fascina no livro é sua discussão sobre sua trajetória de vida, considerando a lei, a forma e o acontecimento. Fiquei pensando na minha trajetória sob as perpectivas de Lyotard.

A lei sempre me foi cara. Não falo aqui da lei jurídica apenas, mas incluo no sentido o juridismo, a lei não escrita. Sempre fui um cara muito “certinho”, para usar um termo mais corriqueiro. Um bom filho, um bom aluno, um bom irmão, um bom amigo, um bom professor, um bom pai. O adjetivo bom me persegue. Não pense você que isso é um autoelogio. Reconheço sem falsa modéstias algumas qualidades que tenho, mas sei também dos limites e defeitos que me habitam. É que desses poucos sabem, dando a impressão de que o bom domina. Mas ser adjetivado nunca é bom, nem mesmo quando o adjetivo é bom. Quem mata um leão por dia sofre muito quando deixa escapar uma tartaruga num instante relapso.

Sinto falta de não ter sido mais fora-da-lei. Nunca sumi sem deixar notícias, nunca tomei um porre, nunca namorei sem ser a sério – a não ser numa fase bem galinha em que curti as ficações por ordem médica para recompor a autoestima depois de ter um casamento arrancado de mim por uma escolha fora-da-lei da outra parte. Aliás, tendo em vista o peso da lei, você que me lê deve imaginar o quanto sofri com isso. Grosso modo, nunca fui irresponsável. Sim, estou me ressentindo de não ter sido porra-louca. A lei sempre me foi cara. Eu sempre lhe fui subserviente.

A forma. A forma sempre foi subjugada à lei na minha trajetória. O estético sempre se definiu pelo que a conjuntura determinava. Apesar de ser um admirador explícito das rupturas, quase nunca me permiti ser seu sujeito. Sou um conservador. Não costumo me permitir experiências que não me são conhecidas. Não gosto de provar pratos novos, prefiro lugares e gente que já conheço. Morro de medo quando a lei me impõe novas formas. Mas como de costume, sempre obedeço. Apesar de ser curioso, a boa forma para mim é aquela que não apavora a mente.

Viver na lei e dentro de formas controláveis é, no entanto, impossível. Porque a vida tem o acontecimento. O acontecimento, um rebelde, não se permite controlar. Chega sem pedir licença, muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Foi o acontecimento que me levou a casar três vezes. Foi o acontecimento que encerrou meu primeiro casamento por um excesso de religião que ironicamente desligou o diálogo do casal. Foi o acontecimento caprichoso que me levou a conhecer minha mulher atual. Foi o acontecimento que me trouxe inesperadamente a minha filha caçula. Foi o acontecimento que me fez decidir fazer um concurso para professor da universidade no último dia de inscrição, no último minuto. O acontecimento é a falha na matrix. O acontecimento é o outro da lei, desafiando-a com novas formas, com novas trilhas, com novos sentidos.

Lei, forma, acontecimento. O que tenho percebido é que com o tempo, com a idade, tenho me flexibilizado quanto às três coisas. Isso tem seus motivos.

Ando muito triste com algumas escolhas que a lei me impôs. Estudei muito. Muito mesmo. Sempre gostei de estudar. Fiz mestrado. Fiz um doutorado na melhor universidade do país na minha área com a orientadora mais fodona na minha área. Tirei A em todas as disciplinas do curso. Estudar foi um acerto. Mas a forma foi errada. Fui ser professor universitário. Confesso que cada vez mais só gosto disso pela metade. Gosto da parte do trabalho, das aulas, das pesquisas, de escrever livros e artigos. Mas odeio o meu salário, me sinto humilhado ganhando o que ganho depois de estar no topo da titulação e no quase no topo da carreira , com vinte anos de universidade. Isso tem me deixado desgostoso, sem tesão acadêmico. Qualquer início de carreira de nível médio na Receita Federal ganha mais do que eu, com tudo isso. A lei não me foi mãe, me levando à forma equivocada, com grande parcela de (ir)responsabilidade minha, decerto.

Você que me lê pode estar dizendo: “Não está satisfeito? Muda!” E eu vou ser bem sincero: não dá. A essa altura do campeonato, a forma já fincou estacas. Passei batido. Tenho virado noites pensando em alternativas de dar uma boa qualidade de vida para a minha família sem me deixar abater pelos números do meu contracheque. O problema de ser aparentemente bom e forte o tempo todo faz as pessoas se desacostumarem de que a gente também fraqueja. Meus fraquejos são solitários. Não é por falta de ombros, não. Mas por escolha de não levar coisas ruins para os que eu gosto. Mas eu choro, fico acordando olhando o horizonte pela janela da cozinha, dirijo me perguntado por que a lei me trouxe essa forma. Tenho olhado a minha estante, cheia de livros, e me perguntado reiteradas vezes, com certa angústia ressentida: para que tudo isso?

A decepção com a lei e com a forma tem me levado a ser mais condescendente com o acontecimento. Estou menos exigente comigo mesmo e com os outros. Às vezes até displicente. Ando me permitindo fazer coisas pelas quais o eu de dez anos atrás me condenaria ao fogo eterno. Tenho apreciado novas formas, novos gostos, novas estéticas. Numa apropriação do Zeca Pagodinho com licença poética, eu diria que estou deixando o acontecimento me levar. Isso é bom. Isso é ruim. Quando a alma se acomoda, ela se apequena. É inevitável lembrar Pessoa. As coisas parecem não valer a pena às vezes. Ecos da boca torta da lei.

A lei vem e nos sugere as formas. O acontecimento vem e embaralha tudo. A ordem e a desordem. É ilusão acreditar que podemos programar a vida. A desordem é desejável para a própria existência e valorização da ordem. O que não está e não é também faz parte. A pausa do silêncio é que faz a música. A ruptura, filha do acontecimento, deve ser recebida com tapete vermelho, sem culpas ou remorsos por alterar formas conhecidas. Sem espaço para o acontecimento, represamos nossas vontades na lei. Presos à lei, as formas enferrujam. Formas estanques levam a almas mofadas. Tudo é episódico. Como sabê-lo sem vivê-lo? A lei é inimiga da ousadia, do deslimite e da felicidade. Lyotard diz:

“Declaramo-nos filósofos ou escritores, devemo-nos confessar impostores. Não existe pensar verdadeiro que o sentido de sua indignidade não escolte. A única maneira de sair desse atoleiro, pelo menos em parte, é exibir o inelutável. (…) De modo que o que ameaça o trabalho de pensar (ou de escrever) não é ele permanecer episódico, é ele fingir-se completo”.

Vou vivendo uma incompletude a cada dia, procurando o rosto que eu tinha antes do mundo ser criado, como disse Yeats no começo deste texto. A lei não me deixa arriscar muito as formas novas por conta de três pessoas que dormem aqui ao meu lado nesse instante. Mas boto minha fé no acontecimento. Que ele seja breve na chegada e longo no tempo de estadia. Certamente o acolherei com olhos menos casmurros, mesmo que aos olhos da lei ele se apresente criminoso, se me entendem a metáfora.

Lei, Forma, Acontecimento. Acabei de ler o livro pela enésima vez. Como você peregrina na vida, caro leitor? Vai, me ajuda a pensar aí. Estou à deriva, achando que quase tudo não vale a pena. A alma anda pequena.

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10 comentários em “Peregrinações: a lei, a forma, o acontecimento

    _Maga disse:
    12/03/2012 às 06:57

    Vida, vida, Sérgio. O acaso sempre exerce um papel importante em nossas vidas. Mas, se a mudança é desejada, as vezes um pouco de planejamento ajuda. “O acaso favorece a mente preparada.” Pasteur, serendipidade.

    Apenas divago, também não tenho respostas.

    Um abraço e boa sorte

    Céu disse:
    12/03/2012 às 07:40

    Putz Velho tu te superaste! Amei!

    Ana Paula Teixeira de Souza disse:
    12/03/2012 às 10:01

    Alguem conseguiu escrever o que venho sentindo ha pelo menos uns 5 anos!!! Vc conseguiu!! Tirando os 3 casamentos e as filhas, eu vivo nessa imensa peregrinação e sendo mulher, sem filhos, separada e sem ta de rolo com laguem, me pergunto o que ainda posso esperar da vida. Não sinto que fiz minhas escolhas mas que elas me escolheram como a unica escolha delas, assim, meio sem graça mesmo!!!
    Parabens pelo texto!

    Luciane Pimentel disse:
    12/03/2012 às 10:40

    Parabéns professor, excelente texto, conseguiu me emocionar e traduzir perfeitamente meus sentimentos. Sempre fui boa filha.amiga.neta.madrinha.aluna e professora sim senhor. Sempre tive zelo com os sentimentos do próximo, mas pra quê? Não quis acreditar no ditado “os bonzinhos só se f..” mas arrumando meus livros, lutando por um mestrado, sempre sou trocada pela descolada piriguete. Rs. Triste comparação, noites em claros em vão. Do salario nem reclamo mais. 3 cadeiras e 0 vida social. . . É minha alma anda tão pequena. (vou começar a jogar,será que terei sorte? Pq olha…)

    jeduardodantas disse:
    12/03/2012 às 16:29

    Esses textos mais “pessoais”, Sérgio, geralmente são os mais interessantes. É preciso coragem para se questionar em público e expor as feridas de forma tão sincera, clara e honesta como você fez. O texto ficou ótimo e as reflexões são válidas para todos que porventura passem o olho nisso aqui. Que você encontre logo aquele elemento – um Deus, uma droga, um hobby, um exercício, o que seja – que lhe traga paz e conforto necessários para lidar com essas angústias. Boa sorte,

    Deborah Barreiros disse:
    12/03/2012 às 17:43

    Caro Sérgio, você me fez lembrar de mim… aliás, você sempre faz isso.
    Também planejei mal minha vida profissional e quando acordei tive a sensação de ter sido atropelada por tudo e pelo tempo!
    Tem nada não! Disfarçarei meus fios de cabelo enbraquecendo e me reinventarei. No meu caso, voltei a estudar!

    Quando li seu texto estava ouvindo “Flor da pele” de Zeca Baleiro… coicidência?

    Flor da Pele Zeca Baleiro

    Ando tão à flor da pele,
    Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
    Ando tão à flor da pele,
    Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
    Ando tão à flor da pele,
    Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser,
    Ando tão à flor da pele,
    Que a minha pele tem o fogo do juízo final.

    Um barco sem porto,
    Sem rumo,
    Sem vela,
    Cavalo sem sela,
    Um bicho solto,
    Um cão sem dono,
    Um menino,
    Um bandido,
    Às vezes me preservo noutras suicido.

    Oh sim eu estou tão cansado,
    Mas não pra dizer,
    Que não acredito mais em você
    Eu não preciso de muito dinheiro graças a Deus
    Mas vou tomar aquele velho navio,
    Aquele velho navio..

    Um barco sem porto,
    Sem rumo,
    Sem vela,
    Cavalo sem sela,
    Um bicho solto,
    Um cão sem dono,
    Um menino,
    Um bandido,
    Às vezes me preservo noutras suicido.

    Zayra disse:
    13/03/2012 às 00:52

    Você não está só neste barco! Somos muitos nesta situação. Somos as escolhas que fazemos? Ou somos o que pensamos? Também não tenho respostas, só tenho minha Fé, e nela me seguro, meio capengando às vezes, mas sigo tentando fazer a parte q me cabe, seja ela qual for: mulher, filha, mãe, servidora pública federal sem aumento há cinco anos, ex-esposa de alguém, cristã, espiritualista, aprendiz de Yoga e da vida? E como é difícil ser tudo isso e com alguma competência… por que tantos nos cobramos? as mulheres, principalmente, que têm essa mania de serem perfeitinhas em tudo. Mas isso é outra questão.

    Interessante seu questionamento sobre a escolha da carreira. Já fiz o mesmo trocentas vezes: por que larguei mão de meu sonho de criança de ser jornalista, correspondente internacional e pela Globo hein? rsrsrs Por que eu larguei a linguística, depois de formada na Unicamp e fui fazer Direito por sugestão e influência familiar sabendo que não me identificava com aquilo? Não sei…ou sei: escolhas que fiz. Mas com ou sem arrependimento isso não vai mudar o que passou. Sou imensamente grata pelo meu trabalho, é dele que tiro meu sustento e de meu filho, mas sou sincera comigo mesmo e as pessoas até se espantam quando admito que não morro de amores pelo Direito. E assim como você também penso: tarde demais pra mudar, não posso largar um trabalho estável e arriscar em algo que gosto. Tenho contas a serem pagas.

    Tem um ensinamento yogue que diz que tudo está certo do jeito que é, O que se foi, foi, O que será, ninguém sabe. Viver o agora, mas vivê-lo verdadeiramente, é o que vale. Como observadora de longe, eu acho q vc faz isso e bem… veja sua linda família!
    Você não planejou errado, você fez escolhas, percorreu caminhos e sim, sempre vale! Cobramos demais de nós mesmos, muitas vezes somos os nossos maiores algozes. Um pouco de complacência conosco, de vez em quando, não é pecado.

    O que para nós são dificuldades, mudanças forçadas, escolhas equivocadas, fazem parte da vida… e ainda que doam,são elas, bençãos para o nosso espírito aprendiz nessa arte de iluminar-se. Custa-nos encará-las, aceitá-las, resignando-nos muito a contra gosto? sim, de certo, mas podemos superar. Somos fortes, somos capazes, e temos sempre a possibilidade de escolher de novo e usar a criatividade. Você diz que a lei o forçou a tomar um rumo que hoje já não é suficiente e não dá pra mudar? ok pode ser que não dê pra mudar 100%, radical, mas quem sabe dê pra arriscar uns 45, 50%, hein? Criatividade, alegria, inteligência, força de vontade, armas poderosas que Deus nos deu.

    O importante é a sensação do dever cumprido. Tudo que você estudou, tudo que você ensina aos seus alunos e tudo que você compartilha na net por meio de seus textos e posts fazem parte de sua missão. Até nosso Mestre maior, Jesus, balançou nas bases certa vez durante a missão dele, que dirá nós. Você é lido, respeitado, você tem coisas a dizer e coisas valiosas, Pessoas se identificam com o que você escreve. Sim, o mundo material nos cobra, sufoca, atropela. Como minha sábia mãe diz: “tem que engrossar o couro, ter jogo de cintura, tem que aprender a viver”. Mas a vida (a verdadeira vida) é bem mais que isso.

    O que me conforta em meus piores momentos, naqueles em que sinto minha alma minúscula, é que sou um pedacinho da luz Dele, assim como vc, assim como a Luciane Pimentel, a Ana Paula Teixeira de Souza, a minha mãe, o porteiro da escola, cada um fazendo suas escolhas, acertando, errando, caminhando nesta vida terrena para um dia retornar ao que verdadeiramente somos: um só na mesma luz de Deus.

    Assim sendo, vou seguindo pela vida e pela manhã, embora eu deteste acordar cedo, coloco um sorriso no rosto, beijo meu filho na porta da sala de aula e vou trabalhar. AH, mas vez ou outra eu jogo na mega, na lotomania, nunca se sabe né? Vai “ni qui”…

    Ei já escrevi muito neste brainstorming… rsrs espero ter ajudado. Vou deixar aqui duas citações de espíritos enviados ao mundo pra nos ajudar com seus exemplos e ensinamentos:

    A mesma rocha que bloqueia o caminho poderá funcionar como um degrau. OSHO

    A vida
    A vida é uma oportunidade, aproveita-a.
    A vida é beleza, admira-a.
    A vida é beatificação, saborei-a.
    A vida é sonho, torna-o realidade.
    A vida é um desafio, enfrenta-o.
    A vida é um dever, cumpre-o.
    A vida é um jogo, joga-o.
    A vida é preciosa, cuida-a.
    A vida é riqueza, conserva-a.
    A vida é amor, goza-a.
    A vida é um mistério, desvela-o.
    A vida é promessa, cumpre-a.
    A vida é tristeza, supera-a.
    A vida é um hino, canta-o.
    A vida é um combate, aceita-o.
    A vida é tragédia, domina-a.
    A vida é aventura, afronta-a.
    A vida é felicidade, merece-a.
    A vida é a VIDA, defende-a.

    Madre Teresa de Calcutá

    Onídia Rodrigues Pedraça disse:
    13/03/2012 às 20:35

    Parabéns professor, texto maravilhoso, me emocionou muito e disse tudo e muito mais do que sinto… como alguém pode expressar tão bem o sentimento de tantas pessoas… tudo não vale a pena… alma pequena…também não tenho resposta. Cada dia o admiro mais, grande abraço!

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