Raízes e asas

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Inspirado por Fernando Pessoa.

Hoje a criança que há em mim escapou. Bobeei e ela fugiu. Minha maturidade cansada olhou e disse: “Deixa! Ela volta”. Eu deixei. Ela já saiu dando uma cambalhota no chão de terra molhado pela chuva, na qual dançou feito Fred Astaire. Pés descalços, chutando uma bola de meia, driblou senhores sisudos que vinham no contrafluxo de sua brincadeira e que, claro, reprovaram a afronta. Tomou nas mãos a bicicleta e disparou, permitindo-se um vento no rosto ladeira abaixo da rua, cabelos desgrenhados, mãos soltas do guidão, numa ousadia de que nem sequer me lembrava mais. Era acompanhado por Laika, uma vira-lata preta e dourada, que lembrava a Lassie. Ela latia como se batesse palmas para  seu dono. A criança não tinha um relógio.  O tempo era o que ela fazia. Minutos podiam ser horas, horas minutos. Uma total anarquia do tempo, como só as crianças sabem fazer.

Mastigava com prazer um chiclete de bola, daqueles de bolinhas coloridas. De cor vermelha. Num vacilo, engoliu o chiclete. Lembrou que ele poderia ficar no estômago para sempre, como haviam lhe dito. Aliás, haviam lhe dito tantas coisas que sua cabecinha inocente chegava a ferver. Logo se esqueceu disso e correu na areia que margeava o igarapé, se imaginando um gigante deixando pegadas no chão para amedrontar os pequeninos. Viu uma fila de formigas e com o dedo interrompeu-lhe a marcha. Adorava embaralhar o certo e formigas ficam perdidas quando um dedo é passado na linha imaginária de seu trajeto invisível. Mergulhou na água fria que fluía infinita, como infinita era sua vontade de ser feliz. Tirou do fundo do igarapé uma garrafa de guaraná, já gelada pela água, entornou num saquinho e bebeu com um canudinho. Largou o saquinho na mesa do caramanchão para correr atrás de um panapaná de borboletas pequenas e brancas que lhe convidara a correr pela areia do banho. Brincou alegre de manja-pira com as ziguezagueantes borboletas até ser enredado por outra brincadeira e se foi.

Voltando para casa, meu menino pegou um lápis e pediu de quem lhe estava próximo uma folha de papel. Nela, com um círculo fez um sol, cheio de raios. Pôs-lhe na boca um sorriso como o seu e desenhou uma árvore, junto a uma casa com chaminé, chaminé, aliás, que jamais vira, mas que tinha de fazer parte das casas desenhadas. Pontuou o céu com nuvens e pássaros.  Fez sete pessoas, em rabiscos. Os dois maiores, dizia, eram o pai e a mãe. A diferença era os rabiscos dos cabelos da mãe, em triângulo. Os cinco menores, em tamanho decrescente, eram os filhos: ele e seus irmãos. Ao explicar o desenho, o que toda criança faz com prazer, mostrou-se o menor de todos, apesar de ser o segundo na cronologia. Pois assim ele se via: sua família toda vinha na frente. Sua menorzeza não era por se achar menos, mas porque era mais generoso. Generosidade que vai se corroendo ao rolar pelas ruas de asfalto da vida, ganhando limo, perdendo rumo. Desenhou ainda um arco-íris, que pintou com sua caixa de lápis-de-cor com 48 cores, um de seus maiores tesouros. Ele pintava a vida como ninguém.

Com fome, tomou o copo de Ki-Suco de groselha nas mãos, um pacote de bolacha Maria e foi brincar na rua. Dividiu com os amigos goles do Ki-Suco e distribuiu, tal qual Jesus, as bolachas multiplicadas para o sem-número de crianças que também fugiram de seus adultos descuidados. Depois do cangapé e das bolinhas de gude – que ponteira linda aquela azul! –, uma pista de asfalto fez-se o Maracanã. As traves, duas sandálias. Par-ou-ímpar, você aqui e você pra lá. Partidas infinitas, uma atrás da outra. Pausas somente para enfiar a boca na torneira da casa sem muro para aliviar a sede de água. A única sede que lhe habitava. As demais eram sempre saciadas. Era um tempo de exploração. Era um tempo de conhecimento. Era um tempo de formação. Eu me perguntara, olhando o meu menino, onde estaria morando aquela vontade de tudo. Na sua casa hoje, com grade e portão de ferro, mora uma vontade de nada, um velho cansado, ranzinza, como aquele que furou a bola-balão colorida, chutada por ele,  que caiu em sua casa, terminando o campeonato. Dali, dia escurecendo, levava de volta o abraço suado dos parceiros, um pescoço com duas voltas de ceroto como medalha, um dedo esfolado na sarjeta, um segredo de um amigo e uma alegria de menino, daquelas que só dá em curumim, feito virose.

Tomou banho a muito custo a minha criança. Seus arranhões do dia arderam, mas ela nem reclamou. Era assim todo dia. No corpo as marcas da vida, da felicidade. Quando a gente se adultiza, chegamos em casa com arranhões também, mas na alma.

Depois do banho, do talco perfumado no corpo, cabelos penteados partidos no lado e Alfazema a lhe exalar o cheiro pela casa, arrumou seu álbum de figurinhas da copa. Olhos pesados de um sono iminente, veio a minha criança se aninhar em meus braços na rede que balançava na casa sem forro, de luz amarela. Cantei para ela Alecrim Dourado e Pica-pau Atrevido. Seu corpinho incessante se entregou ao sono no balanço da rede. Um sonho bom lhe passava à mente, decerto, porque sorria. Era o sorriso de seu tempo. Sorriso inocente, feliz. Sorriso da descoberta, das eurecas. Sorriso do tempo infinito, sorriso das travessuras desmedidas. Sorriso de criança.

Tempo em que o tempo era um tempo diferente. Meus olhos de adultos veem um tempo redefinido. O ontem virou anteontem. O hoje virou o agora. O anteontem, século passado. A urgência não permite à minha criança tardes inteiras sentadas à beira do barranco olhando os carros que passam lá embaixo, como se fossem as formigas da imaginação. Hoje os carros não passam. Quedam inertes em histéricos engarrafamentos. Não cabe mais deitar no chão frio do corodum da casa, jogar sabão e voar num deslize libertador. Crescer enrijece a vida, leve, solta, sem limites quando na infância.

Dormindo, minha criança me sorri. De repente, abre os olhinhos, bêbados de sono, estende um largo sorriso e – como que adivinhando o que penso –  me diz, quase sussurrando: “Não esqueça de mim… E não esqueça de você… ” Cerrou os olhos e voltou a dormir dentro de mim. A maturidade, protocolar e racional, com um maneio de cabeça falou em silêncio: “eu te disse…”. Alguém passou o dedo na minha trajetória de criança…

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