A única certeza

Postado em

“Sabia que a morte era a única certeza do futuro. Talvez essa certeza o fizesse fugir tanto de qualquer coisa relativa a ela. Não ia a velórios, ignorava notícias da ida de pessoas conhecidas, silenciava quando  o assunto era esse.  Mas desconhecia o peso do silêncio. O silêncio é denso e cheio de sentidos. O silêncio é o estado primeiro da linguagem. Por isso se diz ‘ficar em silêncio’, ‘quebrar o silêncio’. Quanto mais alimentava o silenciamento, mais a morte se fazia presente. Aí morreram seus ídolos, seus amigos próximos, seus parentes. Até que o silêncio saturou dentro de si e transbordou. E ele chorou. Percebeu que sua ignorância quanto à morte era um vã tentativa de se proteger da dor inevitável da perda. Porque sabia que quando se perde alguém se perde junto um pedaço de si. De forma irrecuperável. De maneira irrecorrível. Perder é uma certeza. A única garantida. A imortalidade é uma utopia. A sua e as dos seus queridos. Deixou de lutar com o luto. Viu que a morte faz parte. Como nascer. Como crescer. Entre os dois pólos, a necessidade de viver intensamente. Simples assim. Complexo assim”. SF

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s