A Bienal do Livro Amazonas: sobre livros, letramento e uvas

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Livros e revistas fazem parte do meu cotidiano desde que eu me entendo por gente. Sem muita opção quando criança em tempos bicudos, eu devorava os livros didáticos que meus pais, que eram professores, usavam nas suas aulas. Eu também vibrava quando meu pai, um fã do futebol, trazia para casa a Revista Placar. Passava horas lendo tudo aquilo. Minha vida mudou substancialmente quando meus velhos compraram uma Enciclopédia Britannica. Todo dia eu lia um verbete aleatório. Podia ser sobre a Antártida ou sobre o Zaire, que hoje se chama Congo, mas que naquela época em que os planetas do sistema solar eram nove se chamava Zaire. Aprendi, para o espanto de uma plateia familiar que até hoje cita isso, que em Cingapura um casal que tivesse mais de três filhos era multado pesadamente. Eu me divertia pegando as taxas de crescimento demográfico de um país e projetando a sua população para o distante ano 2000. Esperava ansioso o Livro do Ano para cotejar com o Almanaque Abril, presente garantido dos meus pais todos os anos.

Desde cedo, portanto, fui inserido na prática do letramento. Termo introduzido na década de 80 no Brasil, no livro “No mundo da escrita”, de Mary Kato, o letramento é o uso social da tecnologia da linguagem. Por um lado, temos a oralidade,  o nosso equipamento de linguagem que vem de fábrica. Por outro, temos a escrita, uma tecnologia criada pelo homem, que precisa ser adquirida. Não basta ser alfabetizado, aprender a ler, decodificar a frase “Ivo viu a uva”. É preciso compreender por que Ivo viu a uva e o Divanilson nunca vai ver. É necessário saber por que Ivo viu a uva e não o maracujá-do-mato. Letramento é diferente de alfabetização. Alfabetização é a aquisição do bê-a-bá. O que queremos para todos é letramento, que é o uso sócio-político da alfabetização. É isso que faz do sujeito um sujeito pleno, que circula socialmente.

Como se fomenta o letramento? Entre outras coisas, para além do trabalho escolar – que deve ser significativo para o aluno -, se fomenta o letramento com políticas públicas. Entre elas, as que incentivam o gosto e o acesso à leitura. Aí entra, por exemplo, uma Feira de Livros, como a I Bienal do Amazonas, que está acontecendo por estes dias.

Feiras de Livros são importantes como parte de uma política pública que se preocupa de fato com o letramento de seus cidadãos. Nelas, além do viés comercial de editoras vendendo livros com descontos, são desenvolvidos conversas, apresentações e bate-papos com escritores famosos e nem tantos, em uma interação que faz ranger o comodismo do quase sempre entediante processo da leitura obrigatória escolar.

A Bienal do Livro Amazonas finalmente aconteceu. Depois de anos de resistência interna do titular da Cultura no Estado, alguém com um poder decisório maior, creio eu, foi mais feliz e fez a coisa acontecer. Quem vive o meio literário na cidade  e conhece os bastidores, sabe da luta inglória de anos para tentar fazer algo dessa natureza acontecer e da resistência do gestor do Governo à ideia, não só não fazendo a coisa, como de certa forma boicotando quem queria fazer.  Em 2009, participei como escritor convidado da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, quando o Estado homenageado foi o Amazonas. Senti vergonha alheia quando soube que os organizadores da Feira, por onde circulam quinhentas mil pessoas a cada ano, receberam um chá-de-cadeira das secretarias de Cultura do Estado e do Município, quando vieram buscar apoio para divulgar nossa cultura. Mas isso é para outro papo. Voltemos à Bienal.

A programação está muito boa. No Tacacá Literário ou no Território Livre, Carpinejar, Eliane Brum, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’anna, Cora Rónai, entre outros, se juntam aos nossos Márcio Souza, Thiago de Mello, Zemaria Pinto, Alisson Leão, Turenko Beça, Carlos Oshiro, para citar alguns, para falar de literatura, arte e questões de contemporaneidade. A despeito de alguns nomes locais que foram escolhidos muito mais por outros motivos do que pertinência à causa – e não os cito exatamente como forma de citá-los –,  no balanço geral, todo mundo só tem a ganhar. Há também o lançamento programado de dezenas de livros, algo de que as pessoas gostam de participar.

Houve um cuidado com a programação infantil. Isso é muito bom também. As crianças precisam gostar de andar entre livros e precisam igualmente simbolizar um feira dessa natureza como um lugar aconchegante e desejável. Minhas duas filhas, de quatro e cinco anos, gostaram do que viram. Assistiram à peça no teatrinho e folhearam deliciosamente os livros nos stands. Eu gostei dos preços dos livros infantis, bons, diversos e baratos (mas só dos infantis. Já explico o porquê). Se se pensa seriamente em fazer de um evento dessa natureza algo para além da vitrine política – o que é perfeitamente compreensivo e justo –, pensando no já falado letramento, é indispensável envolver os pequenos leitores. Novo ponto para Bienal.

Tenho observações críticas, no entanto.

A primeira é a variedade de livros. Se pensarmos com o parâmetro de Manaus, que não possui uma cultura literária ampla estabelecida, a Bienal é um grande avanço. Mas se pensarmos comparativamente com outras feiras Brasil afora, chega a ser entediante vencer os corredores da Bienal em meia hora. Com exceção dos livros infantis, como disse, a oferta de livros mais gerais e mais específicos deixa a desejar e os preços não são convidativos, como são os da Feira de Porto Alegre e da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que são as que conheço de perto. Tudo bem, vamos dar um desconto, coisas que muitos na Bienal não dão. Esse é o primeiro evento desse porte e Manaus tem o custo-Manaus do frete, o que inviabiliza uma comparação mais direta com as feiras do centro-sul do país. Vista grossa.

A outra observação também me faz trazer as feiras de Porto Alegre e de Ribeirão Preto como exemplos. Ambas são totalmente gratuitas. São montadas, inclusive, nas ruas da cidade, integradas à cidade, com shows musicais que encerram as programações do dia. E antes que alguém diga que o ingresso de R$ 2,00 que se está cobrando na Bienal do Amazonas é simbólico, eu contra-argumento: se é simbólico, por que colocaram? Para mim e uma parcela da população que já circula no mundo do letramento, o valor pode ser quase nada. Mas se se pensa em uma feira como uma ação de uma política pública de letramento, e não como um evento comercial isolado, uma nota de R$ 2,00 pode ser um desincentivo à população que mais precisa participar dessa política. O valor acaba sendo simbólico mesmo, simbolizando um muro invisível que insiste em excluir em vez de incluir. Pior: como uma economia de alfinete e um dinheirinho a mais facilmente absorvível pelo Governo do Estado, que está investindo R$ 20,8 milhões no Projeto Mania de Ler, com 40 ações de incentivo à leitura, sobre que vou falar em outro texto e que me parece muito legal. Mas cobrar a entrada não me convence. Pisada de bola.

Por fim, a iniciativa da Feira precisa ser desdobrada. Penso que o Governo do Estado deva sanar esses senões para ter um maior impacto social na busca da criação de uma memória de leitura na cidade. Penso também que essa ação não pode ser fragmentada e desligada de outras ações de incentivo ao letramento, como a abertura de bibliotecas públicas (como andam a estadual e a municipal, a propósito?), como a ampliação dos acervos das bibliotecas escolares para além de sobras de livros didáticos e como a ampliação das políticas públicas de acesso à Internet à população em geral, entre outras coisas. O letramento da população que precisa dessas políticas só será alcançado se o problema for pensado sistemicamente, para além das ações pessoais ou do diletantismo de quem tem o poder decisório no momento. Espero que o já citado Projeto Mania de Ler, que se propõe a articular isso, faça seu papel. Por fim, como disse a Elisa Bessa, o sotaque da Feira é estranho. Precisava importar curador?

Eu vi, saudoso, que estão vendendo a Barsa na Bienal. Mas não é preciso da Barsa para entrar no mundo da leitura. Um panfleto, um gibi, um mangá, um cordel basta. Desde que se tenha o gosto genuíno pela leitura. Marina, minha filha de quatro anos, acaba de me trazer um “livro” feito por ela com quatro folhas de papel ofício coladas com fita crepe. Tem uma história com início, meio e fim, desenhada com lápis de cor e com algumas palavras escritas do seu jeito. Certamente ela foi inspirada pelo mundo de livros que percorreu hoje. Marina viu a uva. E o Divanilson vai ver?

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4 comentários em “A Bienal do Livro Amazonas: sobre livros, letramento e uvas

    Wania disse:
    01/05/2012 às 07:02

    Adorei sua análise. Também percebi a diferença dos preços entre os livros, tanto que fiz a festa nos infantis. Vamos torcer para que as próximas edições sejam melhores e mais abrangentes!

    Giselle Cristine Moreira Ayres disse:
    01/05/2012 às 08:01

    Oi, Sérgio! Tudo bem? Realmente uma vergonha que até hoje em Manaus não tinha acontecido uma Bienal!!! Sou de Manaus, mas moro no Espírito Santo e aqui já chegamos na 5ª Bienal Capixaba!!! Mas, parabéns pra quem venceu as barreiras e conseguiu levar esse evento p/ os amazonenses, que certamente vão aproveitar a oportunidade… Principalmente as crianças, que assim como a sua Marina, estão sempre ávidas por novidades!!! Um abraço!

    diegohatake disse:
    01/05/2012 às 10:29

    Como falei no Twitter, concordo com tudo. Especialmente sobre como a iniciativa de fazer a comunidade ler mais precisa ser vista de um modo mais abrangente, e não com projetos isolados. Reforço, inclusive, a pergunta: como estão as bibliotecas de Manaus hoje?
    Sobre a Bienal especificamente não tem como não falar do valor dos livros (que dependendo do caso, assustam em vez de convidar leitores) e na variedade. Eu não consegui encontrar nada na questão de HQs/mangás. Será que valeram da ideia ridícula de que quadrinho não é leitura?
    Mas enfim, é a primeira Bienal, é “tolerável”. Só de ter finalmente tal evento aqui eu já agradeço muito, e que ele continue por um bom tempo.

    marcelo disse:
    07/05/2012 às 17:10

    No domingo (06/05), a Bienal apresentou um debate de 1h30 de duração com o Romahs e Rafael Coutinho sobre HQ.

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