Onde os doces da mãe? Onde o cheiro do filho?

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colher de pau
solitária na parede
onde os doces da mãe?

Aníbal Beça

Hoje é o dia das mães. Presentes, abraços, beijos, carinho. Tudo que as mães merecem. Eu vou lá dar um beijo na minha, me aninhar no seu colo, me fazer criança pelo seu cafuné. Sou absolutamente feliz com a mãe que Deus me deu. Com ela aprendi valores e atitudes que trago e levo por onde vou. Por ela ignoro todas as regras de estilo de um bom texto e tasco um grande lugar-comum: minha mãe é uma das duas melhores mães do mundo, só rivalizando com a mãe das minhas filhas, simplesmente perfeita também. Cara sortudo eu no quesito mãe.

O exercício da escrita tem me ensinado uns truques. Um bom texto é aquele que fala de temas universais sob perspectivas diferentes das que escorrem nas tintas comuns que celebram uma data. Eu, que ando escrevendo pouco, queria escrever um texto diferente sobre o Dia das Mães. Pensei, cá com meu teclado: nada das louvações justas e merecidas. Não. Essas estão subentendidas. Queria falar das mães, sim, mas fiquei pensando em como chegar no tema por um caminho alternativo. Falar algo diferente, que fosse além do que eu disse aí em cima no primeiro parágrafo. É onde entra a Zazá.

Zazá é a moça que trabalha na escola onde estou dando um curso. Ela serve o cafezinho, a água, arruma as coisas. Há mais ou menos um ano, Zazá perdeu um filho. Dengue hemorrágica. O menino tinha treze anos. O Dia das Mães de Zazá será diferente. O Dia das Mães de muita gente sempre é diferente. Sim, é sobre esse Dia das Mães que eu quero falar.

Mãe que perde um filho vive o desnatural. Quem perde pai e mãe fica órfão, quem perde o cônjuge vira viúvo, mas quem perde um filho não tem nome. As outras perdas são do processo natural da vida, mas perder um filho é uma dor sem nome. A linguagem não se atreve a nominar em respeito. A dor sem nome não lê os encartes das lojas, a dor sem nome não sabe mais o que é o calor do abraço, a dor sem nome lamenta um futuro que nunca virá, a dor sem nome chora o cotidiano que se perdeu. A dor sem nome rasga a carne ao arrumar o quarto vazio. Eu me coloco no lugar das mães que carregam em si a dor sem nome no Dia das Mães. Dói muito só de pensar. Como diz Chico Buarque, perder o filho é um sentimento reverso de um parto. Essa saudade é o pior tormento. “É pior do que se entrevar”. Ouvindo “Pedaço de Mim” e chorando. Pausa.

Rearrumar os afetos depois de perder um filho é algo que só me permito imaginar como exercício de escrita. Até na imaginação machuca. Fiquei reticente em continuar este texto, confesso. É tão lancinante a dor só de imaginar isso que nós, que temos o beijo cotidiano de nossas crias, expulsamos o pensamento ao menor vislumbre do assunto. Dia das Mães em que há um vazio impreenchível chega a ser torturante. Bem-aventuradas as mães que conseguem minimamente sobreviver ao bombardeio comercial da época. O capital faz tudo para quem tem mãe, mas o capital não tem mãe. Nem de longe pensa nas mães que carregam a dor sem nome. As mães de maio, machucadas como as da Plaza.

Outros que são esquecidos no Dia das Mães são os filhos sem mãe. Deve ser perturbador viver o Dia das Mães sem ter tido a figura materna. Não me refiro à mãe biológica, mas à mãe que tece na gente o afeto com o mundo. Aquela pessoa para quem a gente corre quando pede arrego da vida, mesmo com quarenta anos. É que o mundo é feito para a normalidade. Aí as fichas que preenchemos pedem o nome da mãe, as pessoas na boa fé desejam feliz Dia das Mães, pressupondo  que você tenha uma relação com a sua. Quando não é o caso, quando  não se teve ou nem se tem, deve dar em quem tem essa ausência de mãe uma sensação de deslocamento, de não-pertencimento. Algo tipo, “nesse assunto, eu fico devendo. Vamos mudar o papo…”

Deve ser igualmente doloroso viver o Dia das Mães tendo tido uma figura materna que não está mais ao alcance dos lábios para um beijo de amor. Quem tem uma história com sua mãe, quem a tem entranhada no corpo e na alma, quem conhece de cor o poder acalmador que tem o cheiro de sua bata, sabe o valor de poder abraçar e beijar aquele corpo com rugas marcadas pelo tempo, conhece a paz infinita de pedir a bênção beijando sua mão, já cheia de manchas da pátina do tempo. Mas a vida tem ciclo. Um dia a mãe se vai. De muitos, ela se já se foi. Como é o Dia das Mães de quem não tem mais a mãe? Deve dar vontade de gritar, mesmo que psiquicamente: “Parem de falar em mãe porque a minha não está mais aqui e isso está me torturando!” É outro tipo de vazio para a mesma sensação de ausência do impossível reabraço. Saudade é a presença ostensiva da ausência.

Mães que perderam filhos, filhos que perderam mãe. Para eles, o Dia das Mães não tem o almoço do domingo. Para eles, não há a preocupação do presente para comprar no corre-corre da última hora. E como eles gostariam de tudo isso…

Para os povos andinos, como os quechuas e os aymaras,  Pacha Mama é a deusa “mãe do universo”. O mito de Pacha Mama se refere ao tempo, vinculado com a terra: o tempo que cura as dores, que fecunda a terra. Pacha significa tempo na língua kolla. Com os anos e as alterações da língua terminou confundindo-se com a terra.  O dia primeiro de agosto é o dia de Pacha Mama. Nesse dia, as pessoas enterram em um lugar próximo da casa uma panela de barro com comida cozida. Nesse mesmo dia deve-se pôr cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama. Esses cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço, para evitar o castigo de Pacha Mama.

A terra, o tempo, a mãe. Hoje é 13 de maio. Não é primeiro de agosto. Mas desejo profundamente  para quem está incompleto no Dia das Mães que Pacha Mama cuide com ternura, lamba suas feridas, fecunde suas lembranças. Que a panela de barro da mãe, enterrada com ela, renasça no amor afetuoso que ela deixou no gosto inconfundível e inesquecível de seus doces, no seu sorriso, no seu ralho, no seu olhar, um olhar que lhe compreendia como o de mais ninguém é jamais será capaz. Nesse Dia das Mães, que as mães que carregam em si a dor sem nome gastem sua saudade – porque só tem saudade quem viveu plenamente. Que atem nos tornozelos, pulsos, pescoço e coração os cordões do amor, não feitos de fios preto e branco de lã de lhama, mas de fios trançados pelos laços coloridos do amor incomensurável que só pais e mães têm pelos filhos, pelas lembranças de seus sorrisos abertos, de seus abraços gratuitos, de seus desenhos rabiscados no papel ou na parede, de suas histórias lindas, de seus segredos pactuados com confiança. Filhos que têm mãe e mães que têm filhos, se aproveitem enquanto podem. Senão Pacha Mama castiga.

Feliz Dia das Mães a todos. Feliz Dia das Mães, Zazá. Do jeito que for possível.

Um comentário em “Onde os doces da mãe? Onde o cheiro do filho?

    ralfsouza disse:
    13/05/2012 às 11:14

    Texto muito bom! Parabéns!

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