O açúcar é doce, o sal é salgado

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O mundo é pequeno pra caramba/Tem alemão, italiano, italiana/O mundo, filé à milanesa/Tem coreano, japonês, japonesa…/O mundo é uma salada russa/Tem nego da Pérsia/Tem nego da Prússia/O mundo é uma esfiha de carne/Tem nego do Zâmbia/Tem nego do Zaire…/O mundo é azul lá de cima/O mundo é vermelho na China/O mundo tá muito gripado/Açúcar é doce/O sal é salgado…/O mundo caquinho de vidro/Tá cego do olho/Tá surdo do ouvido/O mundo tá muito doente/O homem que mata/O homem que mente…/Por que você me trata mal?Se eu te trato bem!/Por que você me faz o mal?/Se eu só te faço bem!…/ Todos somos filhos de Deus/Todos somos filhos de Deus/Só não falamos/As mesmas línguas…/Everybody filhos de God/Everybody filhos de God/Só não falamos/As mesmas línguas…/Everybody filhos de Gandhi/Everybody filhos de Gandhi/Só não falamos/As mesmas línguas…

Já diziam os antigos filósofos gregos que a virtude está no meio. Eu respeito muito os filósofos gregos. Assim como respeito os velhos e sábios provérbios chineses. A propósito, há um velho e sábio provérbio chinês que diz que “a fruta madura não é a verde nem a podre”. Simplicidade de ideias. Sonho de consumo de quem escreve.

O ponto tanto dos filósofos quanto dos chineses é o mesmo: a vida precisa de equilíbrio. O desequilíbrio ferra tudo. O corpo precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a doença. O amor precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a crise. O bolso precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a falência. A fé precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é o fanatismo. O humor precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é o preconceito. Se há o meio, há sempre os dois lados.

Por um lado, a vida é feita das preocupações sociais. Não podemos esquecer da crise do Euro, CPI do Cachoeira, Mensalão petista, Privataria tucana, Belomonte, Código Florestal, Adote um Bichinho Coitado, das liberdades das práticas religiosas que oprimem. É enriquecedor apreciar o cinema alternativo do Canal Brasil, a música metafórica de Chico Buarque, a bem-cuidada literatura de Milton Hatoum e dos clássicos russos Dostoievsky e Tostoi. Como são lindos os quadros retratando o feminino de Modigliani. Ainda que não saibamos, cada uma dessas coisas faz parte de nossas vidas, uma vez que vivemos em um mundo enredado em que o bater das asas de um borboleta na Indonésia tem efeitos no clima do Brasil, como nos ensina a teoria d’O Efeito Borboleta de Edward Lorenz. Seu “capital simbólico”, um conceito de Bourdieu, aumenta se você conhecer a teoria de Lorenz. E a teoria de Bourdieu, claro.  Precisamos mais do que nunca estar antenados para tudo isso aí de cima, conhecendo a história humana e ampliando nosso espaço de circulação cultural.

Mas a vida tem um outro lado. Se ela é feita das necessárias preocupações sociais, ela exige para seu equilíbrio um lado mais leve, o lado do lúdico. A vida é feita também de humor, de alegria. “O que que um gás disse pro outro? Vamos vazar!” Eu achei isso muito engraçado.  É do Patati & Patatá, que me lembram o humor direto, básico e politicamente incorreto d’Os Trapalhões de quando eu era criança. É legal pegar uma roupa de boneca,  vestir o Manolo, meu gato, e postar a foto engraçada no Facebook. Ele é nosso gatinho, brincamos com ele, o amamos de paixão e isso não fere “o direito dos animais”, como às vezes uns azedos comentam. É fundamental respeitar quem encontra em Deus e na religião o seu refúgio e seu bálsamo. A intolerância religiosa se refere inclusive àqueles que não têm religião em relação aos que têm. Deixa o cara rezar! Se ele enche sua timeline de post religiosos que lhe incomodam, bloqueie ou deixe de seguir suas postagens. A não ser que você curta um masoquismo. Sinceramente, eu acho que é bom demais cantar aquela música grudenta das empreguetes da novela, ler vez por outra Paulo Coelho com sua literatura de autoajuda, que vende e que, por isso, incomoda muita gente. Eu penso que é inveja pura do Mago. E os grafittis de rua? Cada coisa mais linda… Quem foi para o Roça d’A Fazenda? E para o paredão do Big Brother? Sim, a vida tem suas horas de Djavan. Mas a vida também  é feita de  tchu, de tcha, de tchu tcha tcha tchu tchu tcha, tchu tcha tcha tchu tchu tcha. É feita de videocassetadas, de jogar gelinho, de chorar de rir de piada tosca e politicamente incorreta com os amigos na mesa de bar.  A vida precisa de tosquices. A tosquice tem um caráter balanceador na sanidade das pessoas. Eu tenho medo das pessoas que não se permitem curtir tosquices.

Antes que cheguem e-mails e comentários cabeças me xingando, um aviso: não estou dizendo que as pessoas devam curtir uma coisa ou outra, seja na linha do papo-cabeça ou da cultura pop. São exemplos apenas. O que estou sustentando – e este é o assunto desse texto – é que a vida precisa de equilíbrio. Em vez do Chico, Beto Guedes. No lugar da Big Brother, JackAss. Sei lá. Que cada que um ache os seus. É o tchiiiii da panela de pressão de cada um que precisa funcionar, senão ela explode. Gente sem equilíbrio é azeda ou é fanática. Ou as duas coisas. De qualquer forma, é sempre insuportável. As pessoas precisam de açúcar e de sal.

O mundo é uma salada russa. O mundo é azul lá de cima. O mundo é vermelho na China. O mundo tá muito gripado. O açúcar é doce, o sal é salgado.

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Um comentário em “O açúcar é doce, o sal é salgado

    Adrienne Nascimento disse:
    26/05/2012 às 16:57

    Curti! Sonho de consumo desta que comenta. \o/

    Abraço, prof!

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