Serendipidade

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Aquele encontro não era obra do acaso. O acaso não existe. Já está tudo escrito e planejado desde sempre. Quando seus olhares se cruzaram, sabiam-se de outros tempos. Os olhos refletem as memórias das almas. Ali havia uma convergência de afetos, recordações, momentos. Ela era o amor proibido e nunca consumado naquela tribo nômade da Mongólia. Ele foi o seu filho amado perdido para a Peste Negra na Europa no Século XIV. Ela havia sido levada e morta pelos invasores brancos, que devastaram sua tribo Catawba, na Carolina do Norte no massacre de 1890. Ele, soldado de Franco morto na Guerra Civil espanhola que nunca voltou para casa. Não estavam aprendendo a se amar. Estavam relembrando. Estavam retomando de onde não puderam continuar.

O amor atravessa os tempos. O poeta já escrevia isso. Acreditam os espiritualistas que todo encontro é sempre um reencontro. Duas almas que vagam por dimensões, emprestando corpos terrenos no vale de lágrimas para acertar as contas. A busca do amor. O amor é eterno. É uma linda concepção que nos ajuda a lidar com os desarranjos da vida real. Vamos tomá-la como pressuposto.

Se existe esse amor que nos busca nos labirintos do tempo das vidas, existe o amor que com a gente resiste ao tempo na vida. Alguém dessa vida que nessa vida nos acompanha, por onde a gente vai, do jeito que podemos ir.

Um dia a gente se encontrou. Seja destino, acaso, Deus ou serendipidade, uma palavra linda que sigifica uma descoberta afortunada. Não interessa. Interessa que a gente encontrou uma pessoa e sabe que é ela. Com ela, vem tudo aquilo que todo mundo já sabe: frio na barriga,mãos suadas, coração palpitante, tensão, tesão. A criatura entra na nossa vida e começa a fazer parte dela. Ela, a pessoa, vira ela, a vida. O par simplesmente se reconhece.

Essa cara-metade, alma gêmea, tampa da panela ou qualquer outra locução que a defina, se entranha na gente. Ela se confunde com a gente. Passamos a nos conhecer mutuamente por dentro, entregamos a ela a outra chave que nos abre. Misteriosamente passamos a sincronizar pensamentos, adivinhar reações, nos comunicar sem dizer, dizer sem se olhar, se olhar e se amar no olhar. Ficamos até fisicamente parecidos.

Essa pessoa é especial. Ela fala a coisa certa na hora certa. Ela também cala quando a gente só quer colo e cafuné. Ela sabe nos receber em si e ser bem-vinda em nós. Ela conserta nossos vasos quebrados, ela limpa a sujeira que os nossos pés deixam, ela concerta as músicas que fazem a trilha sonora de nossa vida.

E vem o mundo, azedo por natureza, para nos testar.

Outras pessoas surgem atravessando nossa vida, cutucando nossa felicidade e nossa fidelidade. Às vezes, quase conseguem. Os guerreiros destruidores do amor apostam na falibilidade humana. No entanto, essas almas, com suas contas para acertar com os nossos eus de outras vidas, encontram pela frente nossos exércitos mais espartanos e batem em retirada. Nada conseguem. A liga produzida pelo nosso encontro com a pessoa que amamos gera uma espécie de campo de força que nos protege. É, suas pessoas, vocês terão de esperar pela próxima vida para fechar sua conta.

Aí vêm as dificuldades mundanas para nos atormentar o equilíbrio. O estresse da vida cotidiana tensiona a relação, faz com que a paciência mútua falhe, como as velas de um carro que precisam de conserto. Mas o motor é bom e não pára. Uma pausa para reparo é suficiente para a máquina da vida a dois seguir azeitada. Descobrimos com nosso parceiro que os problemas são do tamanho que os fazemos: se os fizermos grandes, eles serão grandes; se os fizermos pequenos, eles serão pequenos.

A falta de grana vem pesada e derruba com seu choque de realidade. A impotência de não poder fazer acontecer os planos pensados frustra e deixa triste qualquer um. No entanto, quando há amor, existe um fio que segura o colar mesmo quando as pérolas faltam. Um fio feito de um material inincontrável na natureza, irreproduzível nos melhores laboratórios. Um fio feito de textura de almas, feito araldite, que precisa de dois para fazer-se forte. Uma liga que liga e nunca desliga. Grana vai e volta. Mas o fio perdura, intacto. Uma má fase.

Por vezes, pasmem, nosso encontro também é dasafiado pelos nossos. Amigos, pais, irmãos, parentes. Julgam que não combinamos, que não nos merecemos, que não, nada a ver. Isso dá um cheque no nosso xadrez porque afinal são pessoas que amamos. Acontece que elas também têm suas contas pendentes entre si, para continuar na linha espiritualista. Sorry. Elas terão que deixar fiado também para outros tempos porque esse tempo é nosso. Ponto. Passamos por cima de tudo e de todos porque o amor está acima de tudo isso.

Com a pessoa certa, quando chove, ouvimos os pingos na telha como cantiga de ninar. Quando faz sol, andamos de mãos dadas na praia. Se faz frio,nos aquecemos nos toques mútuos, bebendo vinho. Se faz calor, nos refrescaremos com o suor de nossos corpos se misturando sem fim numa tarde de setembro.

No mar bravo, surfamos na crista da onda. Na calma nascente do rio, ficamos de bubuia olhando a luz que rasga em raios a copa das árvores como se fossem holofotes a nos iluminar. No oásis, dormimos agarrados numa rede. No deserto, bebemos nosso beijo para matar a sede.

Na alegria, dividimos gargalhadas de tirar o fôlego. Na tristeza, fazemos do ombro aconchegante o nosso remanso. Na saúde, nos amamos em sintonias memoráveis, com corpos incansáveis a se penetrar em um balé horizontal, em um sexo lindo, sem fôlego, com suspiros em falsetes. Na doença, seguramos as mãos para amainar a dor e puxar para nós o desconforto da alma que amamos.

O tempo será a testemunha de nossa caminhada. Às vezes, caminhamos calçados; às vezes, pés desnudos. Às vezes, pisamos em terra firme, às vezes, areia movediça. Às vezes, pau; às vezes, pedra. E vem o fim do caminho.

Uma história, uma trilha sonora, um enredo. Um encontro, um acerto. Uma certeza. A certeza de que de todos os desencontros passados, seja aquele amor proibido na Mongólia, seja amor perdido para a Peste Negra, seja a morte trazida pelos invasores brancos, seja o soldado de Franco morto na Guerra Civil, todos, absolutamente todos foram caminhos, percursos, passagens para o nosso encontro final nessa vida.

Não há acertos a fazer nessa vida entre nós, a não ser o acerto da escolha. Sem contas a acertar, a gente pode ser feliz aqui e agora e plenamente. Até a hora de devolvermos os corpos. Como dois velhinhos, cansados e enrugados, vamos nos despedir quando um dos dois fechar os olhos. Quem ficar vai chorar. Porque pelo amor encantamos a vida e desencantamos a morte.

Há uma certeza final: a mão que será estendida para a nossa, vindo da derradeira luz, será a dela, será a mão da pessoa que amamos de verdade. É ela quem nos receberá do outro lado. O amor verdadeiro transcende vidas. Porque há encontros que não são obra do acaso. O acaso não existe. Já está tudo escrito e planejado desde sempre. A serendipidade é, certamente, Deus sendo humilde.

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Um comentário em “Serendipidade

    Silvia disse:
    15/06/2012 às 10:32

    Tudo acontece assim mesmo, pode passar o tempo que for, mas o amor verdadeiro entre duas pessoas, igual a esse escrito sabiamente por você, sempre irá resistir. Eu acredito no amor!

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