Brisas e bafos

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Na sociedade da visibilidade ė arriscado ser visível. Parece contraditório, mas à medida que cada vez mais se faz necessário estar presente no mundo das redes de relacionamento, maior parece ser a briga pelo espaço, virtualmente infinito. Ter contatos, desenvolver networking, se relacionar bem: tudo isso passa a ser passaporte para ser levado à boca do sapo por um alguém acredita que você está roubando uma luz que deveria estar apontada para ele. Como dizia Tom Jobim: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”.

Falamos de democracia, respeito à diversidade e cada vez mais estamos agindo por instinto animal em relação aos outros. É gente derrubando gente, gastando seu tempo para prejudicar o colega de trabalho ou simplesmente fazendo o mal como hobby. Gente cuspindo sua amargura no prato alheio como forma de exercer o seu sadismo contra o próximo. Aliás, essa gente ruim quer manter o próximo próximo para ter com quem malinar. É um rancor à flor da pele. Aí vem a pergunta: o que leva alguém a odiar gratuitamente? Refazendo, num pensamento corrigido: o que leva alguém a odiar? Porque nada é gratuito.

Vou tentar responder fazendo a regra de três da pergunta. O que leva alguém a gostar de alguém? Gostamos de alguém quando essa pessoa nos faz bem. Quando ela nos traz brisa. Porque tem gente que traz brisa e tem gente que traz bafo. Gostamos de alguém que nos faz sentir melhor ao sair do encontro com ela. Bem melhor do que estávamos ao chegar. Gostamos de pessoas que o corpo sinaliza, que nossos olhos buscam, que nossa alma anseia encontrar. Gente que tem perfume, sem passar nada no corpo. Pense aí nas pessoas que lhe atraem das diversas formas, leitor. Veja como elas são magnéticas pela leveza que representam. Elas fazem parte daquela gente que quando chega num ambiente todos sorriem. São pessoas cujas companhias são disputadas, queridas, desejadas. São pessoas que queremos do nosso lado e nos esprememos todas para que caibam. Pois é. Dessa gente a gente gosta fácil. Mas por que não se gosta de alguém?

Para fins de argumentação, pressuponhamos que não se gosta de alguém por questões inversas daquelas pela quais se gosta. Então, não se gosta de uma pessoa porque quando chega ela traz consigo uma nuvem escura que faz com que o ambiente fique pesado. Por conta dessa energia ruim, que dá gastura, saímos mofinos de um encontro com ela. Por isso, passamos a evitá-la ao máximo, fugimos dela sempre. Nossos olhos fingem que eles não a estão vendo. Nossas almas desguiam desse corvão da urucubaca. É uma gente que fede, ainda que seja limpinha e perfumada.

Ok. Até aqui morreu o Neves. Mas quando a pessoa não gosta de você porque você traz brisa? Quando a pessoa não lhe suporta porque você é querido? Quando a pessoa se treme de raiva porque você deu certo, depois de muita ralação? Aí, caro leitor, entra em jogo o bichão verde da inveja.

Sobre ela muito se escreveu. “A inveja é a arma dos incompetentes”, dizia um adesivo pregado no vidro lateral do fusca azul que meu pai tinha quando éramos crianças e do qual nunca esqueci. “O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”, diz Zuenir Ventura num livro invejável sobre a inveja. “A inveja é uma merda”, complementam alguns mais diretos. Por que a gente é vítima das ondas azedas da inveja?

Uma pessoa que você não conhece desejar lhe ver morto e enterrado no cemitério do Mauazinho só pode ser indício de uma inveja patológica. Um colega de trabalho que passa seu tempo maquinando traquinagens para lhe prejudicar só pode ser um invejoso incompetente que queria muito, mas muito, ser como você. Ou ter você, sei lá. Não consegue e se projeta negativamente. Começa a espalhar que a uva está verde.

Conquistar um lugar ao sol dispara imediatamente uma nuvem de chuva pesada, cheia de raios e trovoadas, na cabeça da criatura invejosa. Ela fica ruminando para si palavras de ordem, como se fossem mantras vodus. Pois é. Só foi eu descrever e você já está pensando numa pessoa específica que é assim, não é, caro leitor? Confesso que eu estou pensando em uma aqui também. Ela é meu modelo para a escrita desse texto. Se ela ler esse texto (porque ela me lê, claro), ela vai saber que é dela que estou falando. O invejoso adora enfiar a cabeça em carapuças que passam.

Os invejosos são perigosos. Simpáticos às vezes. Amáveis quase sempre. Venenosos feito uma cascavel sempre. Meu conselho: isole-se de gente assim. Ninguém precisa delas. Bloqueie-as em suas redes sociais, dê unfollow em suas pretensas amizades. Em um mundo tão complexo e cheio de desafios de tantas ordens, deixe essas criaturas para nossos colegas psicólogos e psiquiatras cuidarem. Otimize as suas relações e sua felicidade. Tenha relacionamentos sustentáveis.

Essas pessoas urubulinas são fáceis de reconhecer. Mesmo quando não se rasgam abertamente em seu incômodo com nossa vida, elas se manifestam de outras formas identificáveis. No Twitter e no Facebook, sempre discordam de você por padrão, mais para marcar posição e se amostrar do que pelo mérito do assunto em discussão. Reclamam demais de você e para você, mas não largam o osso e continuam lendo o que você escreve e compartilha. Ficam putinhas da vida quando são bloqueadas. Não admitem isso e xingam você de arrogante, prepotente e boçal. Mas, como assim, Bial, eu não tenho direito sobre meus espaços virtuais? No trabalho, são elas que falam mal do outros para você. E não se iluda: de você para os outros também. Olhe para o lado e identifique os sinais. Porque a baba escorre. É viscosa. Cheira a enxofre.

Eu acredito veramente que o que é nosso está guardado. Mas também acredito que a gente tem de levantar a bunda da cadeira e ir lá buscar. Só que quando a gente vai, acaba ferindo de morte os bundões que não se dão ao trabalho de correr atrás. Eles ficam lá, babando sua raiva, seu ódio, seus maus fluidos. Tudo porque são medíocres, mesquinhos, amargos, infelizes e mal-amados. Falta-lhes amor. Falta-lhes sexo bom. Precisam de análise, de Deus, de maconha, do Santo Daime, sei lá, mas de alguma coisa que lhes mostre que os problemas do mundo de que tanto reclamam estão dentro deles mesmos. Eles precisam urgentemente deitar na BR.

Viver a necessária visibilidade, vivendo seus ônus e bônus, ou manter um low-profile e ir ficando para trás na sociedade em rede? Dureza de escolha, claro. Mas uma coisa é certa: nesse novo começo de era, quero conviver com gente fina, elegante e sincera, com habilidade para dizer mais “sim” do que “não”, mas que saiba dar um “não” sem culpa à gente grossa, deselegante e falsa. Chega de ser politicamente correto com quem é incorreto em tudo que pode. Que levem suas amarguras para seus umbrais e que lá fiquem. Gente bonita é tão mais legal para os olhos e para a alma. Ser gente boa é muito mais in. Os hipsters acham tudo que é mainstream ruim. Mas há algo mais mainstream do que o amor e a amizade?

Eu quero gente que ama. Eu quero abraço apertado, eu quero o riso frouxo, eu quero “oi” que dê frio na barriga, eu quero os pés se embolando embaixo do lençol. Eu quero apenas olhar os campos e rir meu riso e cantar meu canto. Eu quero é brisa no rosto. De bafo, leitor amado, já basta o clima da minha Manaus.

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Um comentário em “Brisas e bafos

    raposoluana disse:
    20/06/2012 às 19:17

    AHAZOU!

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