Descendo…

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A idade tem me feito ter certezas de muitas dúvidas e duvidar de muitas certezas. O tempo tem me feito descobrir que cada um – e mais ninguém – é responsável pelo seu caminho. Que a vida é feita de escolhas acertadas na mosca e de cabeçadas em quina de parede. As pessoas têm me feito crer na humanidade pelo que elas têm de mais belo e igualmente jogar a tolha pela parte dela que não tem jeito e nunca terá. Depois dos quarenta a vida começa, dizem. Começa a fazer sentido. Começa a desfazer sentidos. Batem umas certezas, umas dúvidas, algumas vontades e alguns arrependimentos. Nessa idade, precisamos, como zumbis famintos, a buscar nos sorrisos das crianças a razão para se manter vivo. A única, às vezes, em certas horas de solidão. Mas um sorriso basta para quem é filho do sonho. Há uma inversão: se na infância é preciso as mãos dos pais para que as nossas doces ousadias não se tornem amargas, na meia-idade é necessário adoçar a boca diariamente com pílulas de belezas perdidas e fragmentadas em cores, livros, arte, música e pessoas especiais e tirar, com essa dose diária de bem, um certo amargo que se instala pelo decurso do prazo da vida. À moda de Guimarães Rosa: a infância é doce; a adultidão é agridoce.

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