Fluxo

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Faz tempo que não escrevo usando fluxo de consciência. Por coincidência, foi na mesma época do filme do Woody Allen, “Meia-noite em Paris”. Digo coincidência porque acabei de assitir ao novo filme dele, “Para Roma com amor”. Gostei muito, como sempre gosto do Woody Allen. É preciso se divertir e me divirto com os filmes de Woody Allen. Eles me fazem pensar ao mesmo tempo. Filme bom é o que te deixa em silêncio quando acaba. Falar em silêncio, minha profissão anda num silêncio barulhento. Estou de greve. Nunca estive tão frustrado com a minha escolha profissional. É um processo crescente que tem inevitavelmente afetado minhas aulas nesses últimos anos, eu sei. Meus alunos devem estar achado minhas aulas meio chatas. Eu tenho achado, imagina eles. Desculpa aí, moçada! Olha… e até que não me acho um mau professor, modéstia à parte. Esse cansaço, que seria normal num ciclo de mais de vinte e cinco anos de sala de aula, tem sido meio agravado e esticado pelo salário baixo. Ando muito resmungão e amargo sobre isso, reconheço. Você que me segue por aqui e acolá já percebeu isso. Fazia tempo que não tinha raiva ao ver a cara de um ministro. A última vez foi na era do FHC. Aí eu vi uma relação de juízes que ganham pequenas fortunas mensais e me deprimi. Não pelo mérito dos que ralaram pra cacete para chegar aonde chegaram. Cada um sabe as esquinas por que passou e eu não tenho nada a ver com isso. Não quero ser injusto. Todos devem ganhar bem. Good for them. Mas o que me machuca é a desproporcionalidade da coisa. Falei num post do Facebook que escolhi errado, citando esse fato. Alguns juízes pularam a se defender de uma acusação que eu nem havia lhes feito. Mas aprendi a não brigar as brigas que não são minhas e a brigar com a espada afiada as que são. Sem perder a ternura, tenho sido duro com quem merece. A idade ensina a gente. Noutros tempos eu ia contra-argumentar e tal. Mas hoje, no geral, não. A tal teclinha está ligada. Ando meio na inércia, querendo só escrever, que é minha forma de terapia. Meus textos parecem agradar as pessoas. Eu acho isso legal. Às vezes perco a dimensão disso. Muitas me mandam mensagens muito legais, deixam comentários gentis no blog. Isso me alimenta. É o meu pão. Acho que se eu parar de escrever eu quebro. De verdade. Quanto pior eu estou, mais eu escrevo. Tenho escrito muito. Devo estar ruim. Estou, sim. Mas mantenho o riso, o humor, ainda brinco com o gato, faço cosquinhas nas minhas filhas, mordo o pescoço da minha mulher. Ainda não estou deprimido. Ando triste. Triste, sim, eu ando. Minha madrinha dia desses no lançamento do livro do meu tio me chamou de lado e perguntou o que eu tinha. Disse que nada, mas ela não engoliu. Quem gosta da gente sente o faro longe. Na minha vida não falta nada. De verdade. Só um pouco mais de grana. Não quero os 60 mil dos juízes. Fiquem tranquilos. Queria o suficiente para pagar umas dívidas, o IPVA atrasado do carro e para os pequenos prazeres da vida, como levar minha família para passar as férias com a banda campineira da família. Minha mulher fica muito feliz junto aos seus. As meninas também. E eu, claro, fico feliz por elas. Mas não deu. Esse ano não deu. A coisa está apertada. Por isso ando triste. Impotência. Isso: sensação de impotência que achei que jamais sentiria a essa altura do campeonato. Meu mal ou bem é esse: minha felicidade é fazer as pessoas felizes. Gosto que elas saiam mais felizes do que chegaram ao me encontrar. Mania. Quando não consigo, minha casa cai. Como resolver esse lance da grana? Entrar na política? fazer esquemas? explorar pessoas? Sim, porque cada vez mais me convenço do que ouvi do meu irmão um dia desses: para que tem certos valores inegociáveis há um teto financeiro. Se quiser mais do que esse teto, só na treta. Pode ser até uma treta legal, mais imoral. Aí é o meu Catch 22. Não rola. Vou andar triste por mais tempo pelo jeito. Ou zerar minha trajetória profissional até aqui e começar de novo. Medicina? Direito? Prático de navio? Enquanto não decido, vou jogando na Mega Sena. Para quem nunca jogou, começar a jogar é sintoma de perda de esperança de que as coisas se ajeitem, pode ver. Se eu ganhasse na Mega, eu ajeitaria a vidinha dos meus irmãos, dos meus pais e de alguns parentes merecedores. E pagava o IPVA. Já disse outra vez: odeio dever. A vida está tipo foda. Mas longe de mim desistir dela. Eu tenho minha pena que não me permite que eu sinta pena de mim. Ainda não. Tristeza é chata, mas passa. Vai passar. Depois da onda pesada, a onda zen. Tenho fé. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Fé de que no fim do ano as minhas filhas vão brincar com as primas caipiras, a minha mulher vai abraçar os irmãos e os pais delas e eu vou comer pastel de queijo com caldo de cana na feira de quarta-feira da rua ao lado. E feliz, vendo tudo isso.

 

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3 comentários em “Fluxo

    Rogério Rayol disse:
    22/07/2012 às 12:15

    Texto sensacional. Como você ao fim de um filme bom, fiquei eu em silêncio após ler sua crônica. Pensando na minha vida, na sua e nas injustiças de nosso país.
    Sua luta, e a dos demais professores, é digna, justa e acima de tudo necessária. A valorização do professor é algo tão óbvio para o crescimento do Brasil que só mesmo aceitando que há interesses maiores que desejam a eterna ignorância do cidadão brasileiro para poder compreender por que isso não ocorre.
    Sempre que puder darei uma palavra de apoio, de incentivo, e espero que possa estar ajudando. Não o conheço bem pessoalmente, sérgio, e nem sua família, mas tenho certeza que você é um ídolo e exemplo maior ainda para eles do que você poderia se dar o crédito.
    Um grande abraço, parabéns mais uma vez e continue forte na luta.

    asmodeu monfardini disse:
    04/12/2013 às 09:20

    essa observacao a respeito do filme foi otima…. realmente so consigo avaliar que um filme foi realmente bom e me transmitiu algo… quanto ao termino do mesmo fico em silencio questionando e digerindo… o ultimo que assisti e fiquei assim foi Pleasantville – a vida em preto e Branco… e inclusivo gostaria de recomenda aqui nesse espaço pois o mesmo e surpreendente…

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