Quando Barbies arrumam as malas

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Decidimos ir na sexta-feira à tarde ao Lar Batista Janell Doylle, uma casa que acolhe crianças de 0 a 12 anos abandonadas pela família, vítimas de HIV e com necessidades especiais. A visita tinha um duplo objetivo: doar os brinquedos com que minhas duas filhas não brincam mais e mostrar a elas a dura realidade de crianças sem uma família estruturada. Elas mesmas separaram os brinquedos, com a ajuda da mãe. Marina, de cinco anos, sempre muito apegada a tudo, desde a pessoas até a uma chupeta velha furada, teve mais trabalho para decidir se desfazer de alguns dos brinquedos. A maior dificuldade foi uma bicicleta de rodinha das princesas. Ela ganhou uma maior de aniversário. Para Clara, seis anos, mais decidida e desapegada, foi mais fácil. Várias Barbies arrumaram as malas.

Tudo e todos prontos. Caiu uma chuva torrencial em Manaus que impediu qualquer saída prudente de casa. Adiamos para o dia seguinte, então.

A ida teve minha tia Céu como cicerone. Ela disse que conhecia a Magaly Arruda, diretora do lugar, o que era verdade. Ela disse também que conhecia o caminho até o lugar, o que era mentira. Depois de um tempinho perdidos no Mauazinho, um dos bairros mais afastados da Zona Leste de Manaus, chegamos, contando para isso com a ajuda de um mototaxista e dos solícitos moradores. Um deles muito bêbado, é verdade. Mas muito solícito. No meio do caminho, Marina sussurrou no meu ouvido algumas vezes: “Pai, quando você puder, você compra outra bicicleta de princesa pra mim?”

Ao chegar, vimos que havia um grupo de pessoas de uma congregação religiosa com as crianças. Eles fizeram uma oração, distribuíram brinquedos e brincaram com elas. Nossos brinquedos tinham sido deixados na sala da administração. Eu e a mãe já havíamos explicado às meninas o que faríamos ali. Mas ao chegar, elas ficaram sentadas por alguns minutos olhando tudo e processando o ambiente e as informações. Conheço minhas filhas. Suas cabecinhas estavam a mil. As instalações nos foram mostradas. Depois,  aproveitamos e nos misturamos a todos, brincando e conversando com as crianças. Minhas filhas, como crianças que são, logo se misturaram também.

Quando ainda estava na sala da administração, fui surpreendido por um abraço apertado e carinhoso de uma criança muito simpática e conversadora. Fazia tempo que eu não era abraçado assim por uma criança sem ser minhas filhas. A ausência da figura paterna faz o afeto acumulado vir em estado bruto, em busca desesperada de uma pessoa sobre quem se derramar. Pergunto o seu nome e ele responde com um sorrisão aberto: É J. E saiu correndo para brincar.

Enquanto todo mundo se mistura, eu fico tirando fotos, devidamente instruído de que não posso publicá-las por razões óbvias. As fotos que tirei mostram crianças com olhos trazendo uma  felicidade gorda pelo brinquedo recebido, numa pausa momentânea da tristeza amarga pela situação de cada um. J chega abraçando e pede para eu bater uma foto sua. Depois pede para ele mesmo bater uma foto. Emprestei meu brinquedo para ele, uma Nikon D7000. Ele bateu umas três fotos e ficou felicíssimo. A foto acima é de sua autoria.

Minha mulher pede para eu dar a máquina para que ela faça algumas fotos em que eu apareça. Um menino meio lourinho logo se joga no meu colo, sem que eu precisasse fazer qualquer menção. A foto é batida e ele continua lá. A Bia leva a máquina e eu fico ali, sentado no batente com o menino recostado em meu peito, como se aquele fosse o lugar mais aconchegante do mundo para ele. Desconfio que era. Passo a mão em sua cabeça. Depois de uns cinco minutos, ele salta do meu colo, dá um sorriso e vai jogar bola.

De repente, uma menina um pouco mais nova que a Marina começa a chorar no colo de um moço da igreja. Eu chego perto, pergunto o seu nome e por que ela chora. O rapaz diz que ela queria um brinquedo que a outra pegou. Olho para a Bia e, sem falar nada, ela entende na hora. O amor tem dessas. Ela vai buscar duas Barbies lá no meio de nossos ex-brinquedos. Chamo Clara e Marina para entregar as Barbies. Marina entrega uma à menina que chorava. A menina abre um sorriso imenso. Minha filha também. Clara entrega a outra Barbie para uma criança maior, que acompanhava tudo de perto e se aproximou mais ainda se insinuando. Seu rosto era de uma alegria indescritível. Minhas filhas sentiram a felicidade que dá fazer alguém feliz, tenho certeza.

A ida ao Lar Janell Doylle não foi só uma lição de solidariedade para as minhas filhas. Teve seus efeitos em mim também. Algumas vezes fui até o fundo do pátio com o pretexto de trocar a lente da máquina ou qualquer desculpa assim. Mas fui mesmo enxugar algumas lágrimas que saiam por conta própria por causa de um monte de coisas: da pobreza, da desigualdade social, do destino daquelas crianças, do trabalho bonito feito por aquelas pessoas, pelo carinho recebido das crianças, por minhas filhas terem uma família. Minimizei centenas de problemas meus, da greve que estou fazendo na universidade à falta recorrente de grana, diretamente relacionada a ela. Tudo é questão de parâmetros. O que se tem de importante é intangível. O resto é resto.

A chuva da sexta nos fez ir no sábado, na hora da final do vôlei feminino. Pensei em ficar em casa para ver o jogo. Mas desliguei a TV no início do segundo set e fui tranquilo. Deus é sábio, fazendo chover na hora certa. Fiquei feliz ao saber pelo Twitter que o Brasil ganhou a medalha de ouro numa modalidade esportiva, mas inevitavelmente triste ao lembrar que se o Brasil é ouro no vôlei, ele ainda se encontra na rabeta da desigualdade social, que gera grande parte daquilo que estava vendo.

Na volta, no carro, Clarinha disse: “Pai, quando eu crescer eu vou fazer um lugar para tomar conta de todos os gatos e cachorros que não tiverem casa. Eu vou tomar conta deles todos.” Foi a sua forma de dizer o quanto aquilo tinha mexido com ela, que ama bichinhos. Marina disse, desapegada de fato: “Eu tenho certeza que o presente que elas vão gostar mais vai ser da bicicleta de princesa”. E completou: “Sabe, pai, estou morta de tristeza por dentro, mas viva de felicidade por fora”. Ninguém precisou dizer mais nada.

Feliz Dia dos Pais. Para você que teve ou tem um.

8 comentários em “Quando Barbies arrumam as malas

    Leonardo Marcell disse:
    12/08/2012 às 00:02

    Parabéns pela atitude, professor. De maneira responsável, considerando a pouca maturidade emocional delas, assim como fez você e sua esposa; nossas crianças precisam entrar em contato com as diferentes realidades. Preocupa-me pais que criam os filhos dentro de redomas e não os transmitem a responsabilidade que todos temos sobre questões que ultrapassam os muros, grades e cercas de nossas casas.

    Céu disse:
    12/08/2012 às 09:52

    Puxa Velho, não foram só vcs q sentiram o efeito da visita. Embora já mais acostumada a ir lá, SEMPRE volto assim, pequeninina! Obrigada pela cia. Obrigada por traduzir o q eu não sei dizer.

    Raquel Rúbia Pereira disse:
    12/08/2012 às 12:00

    Depois nossos governantes acham educação coisa pra depois. Sem ela não chegaramos a lugar nenhum, isso inclui remunerar bem os professores e, só assim, minimizaremos a desigualde sociai.

    neide silva disse:
    12/08/2012 às 13:29

    São dessas atitudes que precisamos para compensar a falta que essas crianças possuem em suas vidas,parabéns vou seguir sua atitude com minha flor e meu amozão .

    martamonteiro20 disse:
    12/08/2012 às 17:24

    Sergio, belo texto, como sempre, lindas as emoções vividas com sua família. Parabéns pelo gesto de desapego ensinado a todos nós! Feliz dia dos pais pra vc, amigo! Abssssssssss!

    magaly araujo disse:
    12/08/2012 às 18:30

    Que relato! Obrigada por verbalizar de forma tão magnífica a experiência vivida e desta forma ser modelo para os que ainda não tiveram tal atitude. Nossas pequenas que ganharam a barbie, ficaram muuuito felizes! Deus os abençoe!

    Camila Duarte disse:
    14/10/2012 às 13:01

    emocionante!

    Claudinha Moura disse:
    04/01/2013 às 20:56

    DE FATO EMOCIONANTE…

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