Jogando caxangá

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O escritor francês Georges Bernanos disse uma vez: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Essa frase tem muito a ver com a amizade. Tenho pensado muito na amizade recentemente.

A amizade é um sentimento que tem sofrido as adequações dos novos tempos, quando tudo é fugaz e escorre pelas mãos. Zygmunt Bauman, um velhinho polonês do cacete, chamou essa fugacidade de liquidez. No mundo em que vivemos, tudo se liquefez: os valores, as identidades, os afetos e, claro, as amizades.

Grosso modo, as pessoas não possuem mais as amizades de uma vida inteira. As amizades deixaram de ser pessoas para ser lugares vazios ocupados por pessoas por e para a nossa conveniência. Ninguém mais é amigo de ninguém. As pessoas estão amigos até que a vida cante “Escravos de Jó” e mude tudo de lugar.

Antes que você, leitor amigo, pule daí querendo deixar de ser meu amigo porque você tem, sim, um amigo à moda antiga, eu faço uma ressalva: claro, há bons amigos que ainda se enquadram na versão vintage em que amizades eram alicerçadas em afeto, companheirismo, ombro nas cagadas, colo na tristeza, divisão na vitória ou na derrota. Mas por toda a vida e não por um período sazonal somente. É dessa amizade de que eu falo neste texto aqui. Elas ainda estão por aí, lógico. Como o Mico-Leão-Dourado também está. Mas, convenhamos, manter uma amizade sólida em tempos de liquidez é correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada…

Uma boa metáfora para a amizade de hoje é o amigo do Facebook. Ser amigo em tempos de redes sociais é estar o tempo todo no interruptor do liga/desliga. É comum ouvir as pessoas dizerem: “Ah, é meu amigo no Facebook!” e logo depois “ah, era meu amigo no Facebook. Bloqueei”. Bloquear equivale a dizer: tranquei a porta desse lugar para o qual dedico um pouco de atenção diferenciada. Não me interessa mais. O Facebook ressignificou a palavra amigo.

Não estou aqui advogando que amizades de Facebook não valem. A minha questão não é essa. A minha questão é o conceito de amizade, que  mudou porque o mundo mudou. As amizades do Facebook valem de outra forma. Eu mesmo tenho quase cinco mil amigos no Face. Muitos eu nunca vi pessoalmente, mas por eles tenho um carinho verdadeiro. Com eles eu adoraria ter uma amizade estendida, aos moldes do século passado, daquelas em que as pessoas olham nos olhos em vez de ficar de cabeça baixa de olho na tela do smartphone. Com alguns, a amizade migrou, apesar de eu furar com eles de vez em quando como os bons amigos às vezes furam e pedem desculpas na cara dura sabendo que vão ser desculpados [Oi, Briglia! Oi, Mari!]. É. estou falando daquelas amizades do tipo fazer coisas juntos, comer um churrasquinho cada-um-leva-o-seu, jogar Imagem & Ação, ver a final da copa no mesmo lugar, rir de si e um dos outros. Há pessoas nas redes sociais com quem adoraria sentar  numa mesa de bar e falar do mundo e das coisas, da poesia da vida, da política cada vez pior, do Fluminense líder, dos filhos que estão crescendo, do novo iPhone 5, enfim, de tudo aquilo que falamos e postamos nas redes sociais. Conviver e partilhar de verdade em vez de somente compostar e compartilhar.

Mas esses amigos virtuais irão até quando? Eu tive vários amigos que se foram com a morte do Orkut. Nem sinal deles. Esses de quem gosto tanto também irão com a morte do Facebook e com o fim do Twitter? E os amigos reais, carne-e-osso, com quem convivi até semana passada? Se liquefizeram pelo ralo ao deixar os lugares que ocupavam vazios? Amizades de 140 caracteres? Não são, ou melhor, não estão mais meus amigos? Estão confirmando a hipótese da migração da fugacidade da rede para a vida real? Juro que com toda a minha capacidade reflexiva de um pesquisador dos sentidos, algo ainda me escapa à compreensão. No entanto, depois dos quarenta a gente desenvolve a capacidade de usar a serenidade como um dos mais importantes parâmetros avaliativos para amortecer os solavancos da vida. Tranquilo.

Quem pertence às gerações mais novas talvez nem perceba a volatilidade dos afetos porque já nasceu na época da amizade líquida, que se liga e se desliga num botão de unfollow. Mas nós, velhinhos com mais de 40, vez por outra ainda tomamos um susto danado quando um amigo que deixamos no seu lugarzinho querido na noite anterior desaparece quando a gente abre a porta na manhã seguinte. É complicado pensar nessa rotatividade afetiva quando o coração da gente foi feito antes da obsolescência programada do mundo. Dói de verdade. Mendigar amizade, no entanto, dói mais. Cada um tem o direito de suas escolhas e rumos. É um egoismo danado insistir em amizades quando uma pessoa não quer mais.

Fui fazer as contas aqui. Tirando família, meus amigos no sentido antigo da palavra não me ocupam todos os dedos das mãos. Gente que, qual Forrest Gump, vai passando junto com a vida da gente, sempre lá, do lado. Aquele amigo para quem você liga de madrugada para dizer que está mal e ele lhe escuta. Aquele parceirão para quem você pede para ir tirar você do prego ou da cadeia e ele vai, com sono, mas com a gasolina na garrafa de coca-cola ou com o dinheiro da fiança.

A amizade nos tempos líquidos mora em Las Vegas. Tem uma hora em que a mesa da vida de bits & bytes lhe cobra e você tem de optar: ou aposta tudo no vermelho 23 e se ganhar ganha big time ou sai do jogo para não perder o que lhe resta. É assim que rola o jogo hoje. Tudo é binário, sem meio-termo. Mas e quem não sabe jogar apostando afetos na roleta russa da vida líquida? E quem prefere jogar Imagem & Ação, em que a gente joga para rir, pelo lúdico, como as amizades – das antigas – fazem?  E quem nem queria estar no Cassino? E quem nem é preto nem branco, mas cinza?

Ok. Sem essa de dizer que “no meu tempo era melhor”. Não. No meu tempo era diferente. Nesses tempos, as coisas são outras. É uma mera constatação. Perdoem minha nostalgia. Não quero ser valorativo, já sendo. Se antes os amigos eram sólidos e referenciados nas pessoas, hoje eles são, como disse, lugares ocupáveis que abrimos e fechamos quando nos é conveniente. Se não nos interessam mais porque não têm prestígio, dinheiro, afagos, poder, talento, felicidade para dar ou porque têm tanto isso a ponto de não caber em nosso mapa afetivo sem nos incomodar, nós clicamos o mouse e resolvemos. A maré alta da amizade se desertifica num oceano sem água, geralmente com mágoa. Estamos facebookeando a amizade offline. Sabe o controle de realidade do filme “Jogos Vorazes”? Pois é… Acho que tudo isso vale para amores também. Mas aí é papo para outro texto.

“Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Os tempos atuais reescreveram a frase de Bernanos. Agora ela está assim: “Saber encontrar a minha alegria na alegria que os outros me proporcionam é o segredo da minha felicidade”. Houve uma mudança de vetor. O foco cada vez mais é no eu. Se não nos interessa mais, a gente canta a plenos pulmões: “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira, bota, deixa o Zambelê ficar… Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”. Ao ritmo e ao som da música, as pessoas ficam trocando as peças das amizades com os jogadores ao lado. Quem erra a disposição das pedras é eliminado. Big Brother, brother. E sai do jogo. Porque a pedra é minha. Dane-se o Zambelê. A fila anda no mundo prêt-àporter. Até nas amizades.

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2 comentários em “Jogando caxangá

    Sérgio Freire respondido:
    15/09/2012 às 19:00

    Vero, Danna. Vero. Beijo. SF

    Anderson Briglia disse:
    16/09/2012 às 23:31

    Algumas amizades nós temos que “fazer força” para ter. Sou meio intransigente quanto a isso, não acredito que trabalho, filhos, novos namoros, etc… possam causar esses “afastamentos” entre amigos. Mas quando lembramos das risadas, das trolladas em cooperação e dos bons momentos fica evidente do porquê fazemos tanta força. 🙂 Abraços!

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