Tempos da caça

Postado em Atualizado em

costela“Fragilidade, teu nome é mulher”. Essa frase é de Shakespeare. Como a literatura tem a ver com a sua época para desvelar seus sentidos, a frase do bardo é um retrato da mulher do Século XVI. Se o escritor inglês chegasse hoje em uma máquina do tempo, com toda a poesia do mundo, e gritasse a frase na praça de alimentação de qualquer shopping center, é provável que fosse vaiado. Pelas mulheres. Muita gente diria, certamente: “Esse barbadinho pode até entender tudo de poesia. Mas não entende nada de mulher”.

A questão é, claro, a mudança no papel social da mulher. Esqueçamos aqui o machismo que acha que o único movimento possível para a mulher é o dos quadris e o feminismo que acha que a mulher não pode usar um vestido de alcinha para seduzir. São extremos e me dão sono. Vejamos: desde a queima dos sutiãs em 1968, no bra-burning de Atlantic City, a mulher vem dando um chega pra lá nos homens e ocupando papeis que antes eram reservados por convenção social e cultural a eles. Em tempos atuais, nas sociedades ocidentais, soa muito estranho e démodé dizer que o homem tem de sair para buscar a caça e a mulher deve ficar em casa cuidando da cria.  Hellô-ô! Por opção, vá lá! Mas por obrigação? É ruim, hein!

Os papeis que homem e mulher desempenhavam no sexo tinham regras claramente estabelecidas. Fazia parte desse jogo de sedução e conquista o homem insistir na proposta sexual e a mulher recusar. O homem, claro, apostava no sucesso da empreitada e para isso movia mundos. Quando homem quer não tem vó doente, dor de dente, final de campeonato ou chuva que o impeça. Quanto mais a mulher recusava, mais o homem insistia, aumentando a emoção do jogo – uma emoção restrita a ele, diga-se. Para a mulher não era tão lúdico assim. Além da culpa cristã por estar permitindo intimidade a um homem, seu desejo e prazer eram solenemente desconsiderados. Como lidar com o paradoxo? Porque ela queria, mas ela não podia relaxar na vigília um segundo. Sabia que se não se controlasse seria descartada e ainda por cima chamada de fácil. O homem continuava insistindo e ela resistindo. O importante era chegar ao objetivo final. Aprisionados a uma moral antissexual, nenhum dos dois tinha chance de experimentar o prazer das trocas de sensações eróticas. Se a mulher cedesse, aí pronto: o homem se apaziguava com a confirmação de se sentir competente e se afirmar como macho. E o ciclo recomeçava.

“Ah, mas ainda é assim!”, se apressa em dizer a leitora mais afoita. Sim, ainda é assim. Com uma diferença: a mulher está ocupando esse lugar de sujeito proativo, de quem vai para cima, algumas como um jaguar. O homem se vê na defensiva. Com o espaço conquistado em outras áreas, ela também conquista terreno na autonomia sexual. Na medida em que a mulher passa a disputar o papel de independência social, profissional e financeira, ela se lança na disputa também pelo pacote completo. E leva. No pacote está incluso o passe-livre para tomar a iniciativa nas questões afetivas e sexuais também. Mexendo a posição das peças em jogo, a mulher passa a dar xeque naqueles homens que não conseguiram ainda pensar fora da caixa dos conceitos de antes.

A cotação do machão comedor está em baixa. Há quem ainda compre suas ações, mas a mulher quer um homem que se relacione com ela de igual para igual, inclusive no sexo. Essa repentina mudança tem deixado a macharada em níveis de ansiedade comparáveis aos daqueles caras do esquadrão antibomba: se não cortar o fio certo… Para evitar o estresse, muitos homens ainda procuram mulheres passivas, acreditando estar mais garantidos. Pfff. O problema é que, pelo andar da carruagem, em pouco tempo elas entrarão em extinção. É Darwin, parceiro…

As mudanças não são totais, no entanto. A maioria dos homens ainda vê o sexo como uma questão quantitativa e não qualitativa. Tire-se pelo ciúme. O ciúme do homem é quantitativo: queremos saber com quantos caras a mulher foi para a cama. O da mulher é qualitativo: pouco importa a ela se o homem teve trinta mulheres. À mulher importa de fato se ele foi apaixonado de verdade por alguma dessas trinta. Essa vaca é seu alvo.

Vivemos numa fase de transição e reacomodação de papeis. O homem flerta mais cuidadoso, se ajeitando aos novos tempos. “Sabe-se lá se ela é predadora…” A mulher resiste de charminho, mas se tiver a fim não dispensa, cada vez mais sem a culpa da moral. “Será que eu vou ter outra chance com o boy magia?” Nisso tudo, há uma monogamia social esperada a ser considerada para complicar as coisas. Os limites são tênues. Mas a linha é sempre tênue para quem não sabe o que quer. Desejos, mesmo antes de Freud, já estavam a nos mover. Freud ajudou a dar o nome aos bois. Há os casos em que conquistar é uma necessidade compensatória de uma falta na infância. Mas isso é papo-cabeça para outro texto. Fato é que ninguém está livre dos encantos alheios.

Encantar-se e desejar faz parte. É da natureza da afetividade humana. Dar sinais de encantamento é biológico. Não dá para sentir culpa por pensar como seria bom estar com alguém num momento ideal. Bate, Platão! Dar o próximo passo já é da razão, pois aí entram desdobramentos que precisam ser avaliados e ponderados em suas implicações. Às vezes, nessa hora, o Batman precisa dar um tapa de alerta no Robin, para usar a imagem do meme do Facebook.

Deixar fluir ou guardar para explodir de outros jeitos? A pergunta é: muita adrenalina ou muita ocitocina? Ser um sujeito – ou uma sujeita – que vive na plenitude seus quereres ou ser alguém que não se permite sair do paradigma da racionalização dos afetos? Aproveitar a vida porque ela é como uma nuvem que passa  e vai ou sossegar o facho em nome de uma escolha eterna? “Eis a questão…”, completaria um resignado Shakespeare, sob os olhos desconfiados de Freud e de um liberado Platão. Enquanto Darwin ri alto de tudo ao fundo…

2 comentários em “Tempos da caça

    Gabriel Mota disse:
    10/12/2012 às 11:35

    Muito bom!

    Janaina disse:
    10/12/2012 às 12:04

    Poeticamente doce. Politicamente amargo. E vamos nós para a dialética do confronto.

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