Parceiro das Delícias

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Parceiro das DelíciasAmor/Vem me tirar a sede/Amor/Vem me tirar da rede/Amor/Nem que seja das intrigas/Vem me tirar/Vem me botar na vida/Amor/Vem me tirar o cinto/Amor/Vem me tirar a pele/Amor/Nem que seja sem malícia/Vem me tirar/Vem me fazer carícia/Vem me tirar/Às vezes pra dançar/Até me machucar, Amor/Vem me botar na rede/Reviver a sede/Vem me fazer aquele/Amor/Parceiro das delícias/Amor.

Foi Tom Jobim quem disse que fundamental é mesmo o amor e que é impossível ser feliz sozinho. A vida, muita sábia essa danada, com o tempo vai dando as dicas de como entender melhor essa necessidade do amor. Porque se fundamental é mesmo o amor, fundamentalmente não é o mesmo tipo de amor que nos move as querências. A idade vai mudando e com ela e a gente vai mudando o tipo de amor que acaricia a alma. O tempo chronos, contínuo, tem pressa. O tempo aevum, infinito, não tem. Na juventude, vivemos chronos em sua plenitude. Queremos aproveitar o máximo no mínimo de tempo. Na meia-idade, somos mais aevum. Preferimos aproveitar o mínimo no máximo de tempo.

No florescer da vida, queremos Bon Jovi. Guitarras gritando estridentes, fazendo nossos hormônios ferventes dançarem rock´n´roll. Mãos suadas, calafrios, frios na barriga, panapaná de borboletas zanzando em nosso estômago.  Saídas furtivas, escondidas dos pais ou da moral, guardam em si lembranças de histórias que só os dois, e mais ninguém, vão saber para sempre. Como foram especiais aqueles momentos de rock com aquelas pessoas que, que coisa…, não temos a menor ideia de por onde andam. Ou não tínhamos até aquela página do Facebook escancarar o passado num perfil que se oferece num susto. O Facebook acabou com o passado. Ele esticou o transformou num permanente agora. Quantas pessoas, quantos sorrisos trocados, quantos olhares olhados, quantos carinhos doados mutuamente… Tantos amores desajeitados de quem estava aprendendo as delícias dos tempos e dos movimentos do sexo. Quantos amores bateram na trave e hoje, ambos, ainda se arrependem de não terem levado a efeito. Por que não, né? Basta se encontrar para que os olhos, porta-vozes da alma, lembrem polida e secretamente a dívida que ficou para trás e que jamais será quitada nessa vida. Ok. Talvez jamais.

Eis que o tempo passa. A pressa passa. Com alguma bagagem no currículo em troca de vigor juvenil deixado na negociação, seguimos para a segunda metade da vida. A vida começa aos quarenta.

Na idade adulta, nós queremos Vivaldi. Em vez da guitarra, o piano. Em vez da adrenalina da paixão, a endorfina do amor. As mãos suadas dos calafrios são trocadas pelas mãos entrelaçadas da companhia. A inquietude das borboletas é substituída pelo voo do casal de arara que diária e rotineiramente rasga o céu na janela do escritório, onde guardamos as contas a pagar. As saídas são furtivas, mas das crianças. Nada de muita gente nem muito barulho. Um jantar, com vinho, para falar da vida, dos filhos, dos planos. A multidão do show de rock é transformada na solidão desejada da companhia única para apreciar o violino d´As Quatro Estações. Passadas a Primavera e o Verão da vida, envelhecer juntos no Outono de folhas caindo para esperar o Inverno inevitável da existência. Paramos de procurar desesperadamente pessoas para dormir para começar a procurar alguém com acordar junto o resto da vida.

Antes que alguém me acuse de dicotomizar a vida, eu peço meu habeas corpus preventivo. No geral é assim. Claro que há jovens cronológicos que querem a paz de Vivaldi. Como há outras pessoas, na meia-idade, que não abrem mão do seu rock. Gente que quer verão o tempo todo e gente que prefere o vento do outono a lhes lamber os rostos. Gente que no Verão se encapota e no Inverno quer dar uma saidinha de bermuda, se me entendem a metáfora. O que seria do amarelo se todos gostassem da mesmo cor?

Seja como for, precisamos de alguém para nos tirar a sede. Com cerveja ou vinho. Com vodka ou suco de laranja. Seja como for, precisamos de alguém que nos tire da rede e nos convide à vida, num bar de rock ou num piano bar. Que nos salve da rede de intrigas que a outra vida, real e de viés, nos inventa de colocar. A vida das coisas ruins, das pessoas más, da gente amarga, das injustiças, dos azedos pessimistas e de outras coisas que nesse texto não terão espaço para além dessa frase que você lê. A felicidade que dá quando encontramos alguém que nos bota na vida é algo que nenhum texto jamais fará justiça em descrever. Alguém semanticamente normal precisa de um parceiro para lhe tirar o cinto, seja arrancando num puxão impaciente ou  deslizando vagarosamente pelo cós da calça, como querendo que aquele tempo seja eterno. Alguém que nos tire a pele de roupas que nos envolve e nos envolva com a pele do seu corpo, com e sem malícia, no ritmo do rock´n´roll ou do violino clássico. Quem de nós, pobres mortais, não quer alguém para nos fazer carícias no rosto, nas mãos, nas costas, na nuca, no peito, na boca, nos pés, nas partes? Quem de nós, homens banais, não sucumbimos ao convite para dançar com a pessoa certa? Dançar, dançar, dançar, até se machucar… Quem de nós não quer acabar na rede e reviver a sede? Quem de nós não quer de novo e sempre fazer aquele amor com seu parceiro de delícias?

Chronos, Aevum. Muitos, um. Bon Jovi, Vivaldi. Violento, manso. Qualquer maneira de amor vale a pena. Tom Jobim foi preciso: “Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho”. Quem é o seu o parceiro das delícias?

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3 comentários em “Parceiro das Delícias

    Lourdes disse:
    02/01/2013 às 10:00

    Preciso rever meus conceitos a partir do primeiro parágrafo do teu texto. Após certa idade, estou querendo viver o máximo no mínimo de tempo a mim permitido. Meus cabelos brancos denunciam a minha idade, mas meu coração e mente são eternos adolescentes.

    Claudinha Moura disse:
    04/01/2013 às 20:45

    Precisamos de alguém sempre não consigo por mais que eu ouça alguém falando que vive só, isolado, precisamos dessa troca, estamos vivo…

    Dara Alves disse:
    27/01/2013 às 23:41

    Sim, o tempo passa.
    Ainda passará muito pra mim. A nossa beleza e maturidade, não então nas rugas que irão aparecer, ou na pele que me irá enfraquecer. Mais sim no coração que irá rejovelhecer muito mais. Acredito que a idade não é dita no RG, mais sim no coração

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