Sua bença

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“Quando olhei com calma foi que percebi. Eles envelheceram. O acordar e o buscar cotidianos nos distraem de notar que o tempo que passa para mim passa também para eles. Ela anda mais devagar, repete histórias, passa horas sentada na varanda com o gato no colo. Seu prazer é alimentar os outros e ver a casa cheia de gente. Ele dorme no mais das vezes, reclama do seu Josué, o vizinho gagá, e passa horas a preencher bilhetes de loteria na cabeceira da mesa com os óculos na ponta do nariz. Está magro, a pele do seu rosto entregue à gravidade do duro tempo vivido. Com peso na alma, constato que meus heróis, infalíveis, começam a falhar. Começo a prestar atenção em suas histórias inventadas, os pego pela mão para atravessar a rua, quero pegá-los no colo, colocá-los para dormir ao som de uma canção de ninar. As mesmas que eles cantavam para eu dormir. Acaricio suas cabeças com um leve passar de mão enquanto penso nas vezes em que fizeram tudo isso por mim. O tempo não só passa como inverte as coisas. Agora sou eu que tenho que cuidar deles, lhes ensinar certas coisas, ver sempre se está tudo bem. Entro no quarto deles, fecho os olhos e sinto seus cheiros, que me acompanham desde infância mais remota. A mente afasta pensar no dia em que eu tiver de entrar lá para arrumar suas coisas porque eles não vão mais mexer nelas e precisar delas. Tudo fica, exceto a possibilidade do beijo e do abraço. Relíquias de amor. Lugares de saudades escondidos em cada objeto. Dizem que é a ordem natural das coisas. Mas podem passam milênios e a saudade deles vai ser sempre um buraco impreenchível. Onde a comida da mãe? Onde as piadas do pai?…” SF

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2 comentários em “Sua bença

    ADRIANO BARRETO disse:
    23/01/2013 às 01:16

    parabéns! sua escrita me faz navegar na graciosidade de degustar a leitura , sou compositor e gosto de novas palavras, ainda velo pelo direito de vê-las de uma forma reciproca também gostarem de viverem em mim, e quem sabe vivermos uma harmonia de efeito tostines, como que eu nela e ela em mim..
    sempre estou lendo não sei como faço pra incentivar minha filha a ler, mas gostaria de saber, gostaria tambem de saber como adquirir alguns livros seus, pois vejo que prseva uma forma lúdica de ensinar..
    forte abraço!
    ADRIANO BARRETO

    Dara Alves disse:
    27/01/2013 às 23:18

    Maravilhoso texto. Derramei baldes de lagrimas, pensando em minha linda mãe. Que um dia eu inverterei os papeis com ela. Mais isso dói, porque quando se inverte os papeis, é sinal que estamos mais perto de perder quem deu o sangue por nós

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