Amores ímpios

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às 10.33.45 PM“Por favor, reprime as chamas desse amor ímpio”. A frase é de Sêneca, o filósofo. O que seria um amor ímpio? Pela definição de um honesto dicionário, ímpio é tudo que ofende a moral, a justiça, a religião, o estado das coisas. Parêntese.

A linguagem separa o ser humano da natureza. Quando conhecemos a linguagem, deixamos de dar vazão aos instintos porque passamos a ser mediados por valores e conceitos que aprendemos junto com a sintaxe e a morfologia da língua. São valores morais, éticos, religiosos, jurídicos e outros que servem para nos regular as práticas e os comportamentos. Mas os desejos regulados não somem. Os desejos proibidos são reprimidos e jogados no gavetão do inconsciente, onde ficam fervendo, esperando uma chance de se realizar. São pulsões. Pulsam, falando a seu modo em nossa vida. Querem o que queremos e os outros não deixam. Algumas viram amores platônicos e o que se ganha e o que se perde ninguém precisa saber, como diz a música. Mas algumas não se contentam com o platonismo e pagam para ver. Vazam do controle e se permitem. Parêntese.

Ímpios são os amores proibidos. Ímpios são os amores impossíveis. Amores que desafiam as regras, a moral, a ética, a religião, os costumes. Não são menos amores, qualitativamente falando. São proibidos de fora para dentro, pois de dentro para fora anseiam por jorrar, por se lambuzar, por suar, por gozar até o corpo ficar dormente. São desejos de qualquer amor legítimo, embora sejam ilegais, por assim dizer. Quem nunca desejou em uma dessas circunstâncias? Quem nunca se viu entre a irracionalidade do querer que manda se jogar e a razão controladora que diz para sossega o facho.

O amor proibido tem sua mecânica: as hesitações, a sedução, o arrebatamento. Hesita-se enquanto se tem forças, na luta feroz entre o desejo e a razão. Seduz-se ludicamente porque a entrega é clandestina e homeopática. “Apenas amamos aquilo que não possuímos por completo”, diz Proust. Arrebata-se ao nirvana quando a razão joga a toalha, vencida por nocaute ou por pontos. Aí começa.

“Não pode!”, diz a grossa voz da moral. “Como se querem pessoas que estão ligadas pela compromisso social a outras? Como ficam as outras?” Se entrar a razão no meio, a coisa morre. Por isso amores proibidos são irracionais. Exemplo: se uma das duas pessoas é livre e entra na roda-viva, ela acaba entregando sua liberdade em troca de migalhas de tempo, de possibilidades de arranjos, de esquemas, de encontros fugazes. A razão diz que isso não é vida. Mas para ela, que se entrega, está tudo bem. Há para compensar as loucas horas de Guilherme Arantes, com as quais ela vive a sonhar. É nelas que os clandestinos se amam feito dois animais, pois o breve tempo da permanência juntos pode ser o último tempo. Nunca se sabe. O sexo do amor ímpio é sempre o sexo da saideira. O tempo mínimo tem de compensar o desejo máximo. Ah,o submundo do amor clandestino… ruas ermas, estacionamentos de supermercados, motéis em horas insuspeitas, o ritual do apagamento de mensagens, o duplo comportamento numa casualidade de um encontro a três. Além, claro, de uma brutal capacidade de encenação da vida. É possível não ser você mesmo por muito tempo? Não sei…

Na conta do amor proibido, cobra-se o cuidado redobrado para não ter o delito desvendado. Dobram-se os cuidados com os olhos de ressaca que se entregam a uma certa distância, dengosos demais. Dobram-se os cuidados com a leitura pública do que está acontecendo. O público jamais poderá saber ou impiedoso escreverá a letra escarlate no peito dos ímpios. Esse é um amor ímpio e o seu preço é ser um amor só dos dois, sem registro, sem história escrita, sem história alguma, o que é uma tristeza medonha em se tratando de amor. Deletar é sempre a ordem. Da lixeira inclusive. Amores precisam de história.

Por isso, um dia acontece. A razão chega e quer por ordem na casa. Amores proibidos sempre estancam mais cedo ou mais tarde na sua encruzilhada: e agora? Seu ponto de interrogação é a frase do Gonzaguinha dita por um dos dois: “Eu preciso é ter consciência do que eu represento nesse exato momento”. Porque há de se querer mais espaço, há de se querer mais tempo, há de se querer mais atenção, há de se querer prioridade. A vida reclama uma história. Ser figurante sem nome na trama da vida é muito pouco para quem sonhou ser protagonista de uma história de amor blockbuster.

E agora? A lógica aponta dois caminhos: zerar tudo – com todas as dores envolvidas – e buscar o protagonismo pleno ou continuar num amor sem passado e sem futuro, com breves e tórridos presentes – e esquecer desse papo de história. Não há receitas. A vida de cada um vem e não pede licença. Toda maneira de amor vale a pena, mas amar passa necessariamente por ser feliz. Se a infelicidade visita, há algo para rever, há rotas a alterar. Há quem, como Sêneca, implore para que se mate as chamas do amor ímpio no nascedouro: quem brinca com fogo, diz a sabedoria popular, pode se queimar. Mas há quem goste do calor dessas chamas ímpias. Pois então que elas sejam eternas enquanto durem. É uma questão de escolha. Como tudo na vida. Poetas ou filósofos: qual a sua?

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4 comentários em “Amores ímpios

    Dara Alves disse:
    27/01/2013 às 23:35

    Aaah trasendo esse texto pra nossa realidade de hoje. Percebo que os “amores impios” são o que chama a atenção das pessoas, aquela coisa proibida que te puxa com um instinto mais forte que o seu.
    Acho que muita gente prefere sem perceber, os amores impios.
    Alguns se decepcionam, outros são felizes. Uns preferem, outros não.
    É aceitar a sua própria decisão, e ser feliz, porque apesar de qualquer decisão que alguém faça, o importante é se sentir bem.
    Bjinhos

    Luciola disse:
    05/03/2013 às 22:50

    Falas do amor ímpio.
    Imoral, ilegal, diz o dicionário. Impossível, irracional, proibido, concluis.
    Reconheci um amor nesse texto.
    Tentando esquecer o passado, continuei a pensar no rótulo dado àquele amor. Ímpio. Será que era isso? Só isso?
    Rótulos são sempre perigosos. Diante de algumas semelhantes características, todos os amores são iguais. Algo assim como horóscopo. Basta nascer entre este e aquele dia e a pessoa será assim ou assado. Decretou-se: Amou ímpio é amor errado.
    E quem define a pessoa certa a se amar?
    Determinado amor pode até contrariar as leis postas e ofender a moral de muitos. Pode mesmo ser considerado ímpio. Mas nunca poderá ser acusado de impuro.
    Trata-se de sentimento genuíno, que ocupa a alma e o coração de quem está apaixonado pela “pessoa errada”. Até por ser proibido, vive de si mesmo, sem desculpas e sem culpados. Quem navega nesse barco, não o faz por ser conveniente e tampouco para agradar a outras pessoas. Também não é o desejo de transgredir ou de ferir os outros que une os ímpios amantes.
    Navegam juntos, porque juntos sentem-se mais felizes. Porque o vento contrário e o mar revolto, embora tentem fazer a nau afundar, não são maiores que a alegria e a leveza dos momentos em que os ímpios se perdem nos abraços e beijos cheios de desejo e se esquecem de que amar rima com pecar.
    É puro, ainda que os momentos a dois durem tão pouco, condição do amor ilegal. É puro, ainda que carregado de culpa, contingência do amor imoral. É puro, ainda que cheio de obstáculos, essência do amor proibido. É puro, ainda que se esconda dos olhos alheios, necessidade do amor impossível. É puro, apesar de contrariar o senso comum, que o vê como irracional.
    É puro, bruto, verdadeiro e sincero. Por ser Imoral, ilegal, impossível, irracional e proibido, torna-se ímpio. Por ser puro, é amor. Absolutamente Amor..

    arty disse:
    07/03/2013 às 21:10

    A mesma doce e tormentosa dúvida do amor e da paixão, de que vc falou em ” a química do amor”. Se é ímpio, tem que passar, ir embora…. novamente, esse texto se enquadra perfeitamente em minha vida, e ajuda a ver as coisas de forma consciente.

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