Olhos de metáfora

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MetáforaComo eu não tenho a disposição nem a disciplina de quem vai às cinco da manhã para a academia para exercitar o corpo, racionalizei um jeito de dizer que queimo calorias de outra forma. Há algum tempo, eu inventei um jogo para exercitar a minha mente. Faço uns spinnings e uns supinos, seguidos de steps e jumps, mexendo e ocupando toda a massa encefálica das áreas de Broca e de Wernicke, responsáveis pela linguagem no cérebro. Chamo meu joguinho de “olhos de metáfora”.

Metáfora é a palavra ou expressão que remete a sentidos figurados por meio de comparações implícitas. Ela sempre dá outros sentidos à frase e às coisas, desde que mantenha um ponto de interseção. Minha mãe dizia que meu pai era um “pão”. Pão é gostoso. Logo, o ponto de interseção da metáfora de minha mãe é a gostosura do pão e do meu pai, que não por acaso deu em mim. Em um livro interessantíssimo chamado Metaphors we live by, o linguista americano George Lakoff propôs  a tese que de que a metáfora não é só uma figura de linguagem, mas a maneira própria da linguagem se estruturar. Estou com ele. Pensa melhor quem usa mais metáforas para pensar.

Então, como funciona meu joguinho? É o seguinte: quando eu leio uma frase, um fato ou qualquer texto, eu imediatamente aciono com uma piscada tripla o meu botão que ativa os olhos de metáfora. Meus olhos desfocam o sentido óbvio e passam a procurar possibilidades de sentidos derivados. Isso serve tanto para a leitura – que fica mais rica – quanto para a escrita – que fica mais poética. Olha o que eu fiz aqui: peguei um amor de um homem mais velho por uma moça mais nova, descrevi uma transa dos dois e como essa relação rejuvenesce o cara. Mas nem falei de sexo. Metaforizei usando a figura da torneira velha: virou poesia. Esse é o trabalho dos escritores: metaforizar a vida em textos.

Páscoa é passagem. Em hebraico, temos o “pessach”, a chamada “Páscoa Judaica”, que se originou quando os hebreus, há mais ou menos três mil anos, celebraram o êxodo e a libertação do seu povo pelas mãos de Moisés, após escravidão no Egito. Saíram do solo egípcio, ficando quarenta anos no deserto até chegar à região da Palestina, a terra prometida, atualmente Israel. Já dá para ler essa historinha não como uma história real, mas como uma metáfora. Mas vamos tomá-la como verdadeira. Pisc, pisc, pisc. Olhos de metáfora para a Páscoa. Vamos bater nos ovos de Páscoa. O ovo traz vida nova. O chocolate é doce. Quem inventou esse negócio de ovos de Páscoa metaforizou bonito a história religiosa: além de ganhar centenas de calorias, a Páscoa é um momento de vida nova e, queira o bom Deus, de vida doce e boa. Minhas filhas ganharão ovos de Páscoa no domingo e junto darei de presente a elas as historinhas de renovação de vida.

Pisc, pisc, pisc. Olhos de metáfora para a vida. Saiamos do conceito de vida biológica e pensemos na vida do dia a dia, dos afazeres, das verdades. Será que não há nada nessa nossa vidinha que precise renascer? Um amor? Um projeto? Uma tomada de decisão que vem sendo empurrada com a barriga? Porque Páscoa, amigo, é passagem. Passe agora que a porta está aberta! Aproveite o momento! Será que não está na hora de se libertar daquele amor bandido que só lhe faz mal? Dar uma bicuda naquele emprego de bosta que só lhe faz infeliz? De dar um block naquele “amigo” chato das redes sociais? É Páscoa! Aproveite! Será que não está na hora de respirar fundo e partir para aquela luta que lhe espera pacientemente faz tempo? Metaforize-se em Moisés e saia das suas autoescravidões, cruze o seu deserto, se liberte de si mesmo, se desencontre de si para se reencontrar consigo.

Encontro, desencontro, Páscoa, escolhas, paciência, paixão. Nos encontros e desencontros da vida, a felicidade é uma questão de tempo. Entre momentos tão diferentes, entre nossas dores e amores, altos e baixos, nossa Páscoa individual depende fundamentalmente de nossas escolhas. Os frutos dessas escolhas serão colhidos cedo ou tarde. Vai sem dizer que necessitamos de paciência para colhê-los na hora certa para não arrancá-los da árvore ainda verdes. Mas é preciso, sobretudo, paixão, para também saber não deixá-los passar. Passar da hora, passar do ponto. Passar pela vida. Ficar passados. Ficar no passado.

Experimente jogar, leitor. Veja como os sentidos explodem. Feliz Páscoa! Pisc, pisc, pisc. Depois me conta suas metáforas para a minha frase.

Um comentário em “Olhos de metáfora

    Robson Cosme disse:
    29/03/2013 às 22:53

    Páscoa como renovação através da metáfora, sei que muita gente vai precisar disso, palavras bonitas e positivistas são tudo o que as pessoas precisam, e claro, com um toque especial do ensino da língua vernácula. Enfim, bom texto e irei compartilhá-lo.

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