A escrita do tempo

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Marina pescando[Publicado originalmente no site Amazônia Real]

Meus pais nunca curtiram fotografia. Até porque era caro demais curtir fotografia nas décadas de 60 e 70. As poucas fotos que meus irmãos e eu temos quando crianças estão espalhadas pelos álbuns de meus tios, de onde volta e meia surrupio um par delas para escanear ou para incorporar descaradamente ao meu acervo. Talvez uma incursão no divã de um psicanalista aponte que nessa falta nasceu a minha crescente paixão pela escrita com a luz. As compensações inconscientes que nos moldam a vida: bate aqui, Freud.

Quando a minha mulher engravidou pela primeira vez, eu me dei de presente uma Nikon D50. Depois comprei uma D7000, mais potente, e umas lentes. Essas máquinas estão a anos-luz de distância da Olympus Trip, das Kodaks e das Love com flash descartáveis da década de 70. Mas como qualquer leigo não sabe, não basta ter o equipamento. Se você quiser irritar um amante da fotografia, elogie uma foto sua e pergunte que máquina consegue fazer uma foto tão bonita. É como perguntar a Machado de Assis qual foi a caneta tinteiro que ele usou para escrever Dom Casmurro. Por isso, eu estudo, leio, experimento. Estou aprendendo. Até penso que acho que estou me saindo bem para um lambe-lambe autodidata. Enfim, tudo isso para não ouvir, lá na frente, reclamação das minhas filhas sobre não ter tido a vida registrada. Bem, não sei se elas vão se ligar nisso tanto quanto eu. Os tempos mudam. Talvez mais do que eu.

Cada época tem seu espírito. É o zeitgeist que faz com que sintamos que estamos ficando velhos, anacrônicos, descompassados em relação a conceitos, ideias, valores. Quando nos sentimos deslocados, o anseio pelo que passou traz um sentimento que nos faz voltar no tempo e recordar o que nos tocou a existência: nostalgia. Recordar, na etimologia, tem a ver com cordis – coração. Recordar é passar de novo pelo coração.

A memória é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É por meio da memória que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida. A minha geração fazia uso da memória biológica, que é basicamente a única que estava à sua disposição. Exceção para os mais abastados e suas filmadoras Super 8 ou seus projetores de slides. Mas, grosso modo, para lembrar o que passou, fechávamos os olhos e evocávamos lembranças de lugares e pessoas que estiveram em nossas vidas só na cabeça mesmo. Mas à medida que a memória biológica falhava, iam-se com ela as nossas lembranças do passado.

Com as novas tecnologias de informação, com o registro digital do mundo, a memória biológica tem tido o seu papel ampliado. A ele foi acrescentada uma memória virtual infinita. É a tal da extensão do corpo, pedra cantada por Marshall MacLuhan em 1964. Não cabe mais somente à memória biológica armazenar dados sobre nossa vida. Esses dados foram levados para fora do corpo, sendo registrados em fotos, vídeos, sites, Instagram, Facebook e coisas afins. Tudo isso nos permite recuperar rapidamente o momento passado com uma qualidade estética inigualável, qualidade essa que a memória biológica jamais poderia oferecer. É como se o passado se esticasse para dentro do presente em um eterno agora.

Por conta disso, as gerações atuais são muito mais nostálgicas do que as anteriores. Não é porque a minha geração, que nasceu no fim dos anos 60, deixou de gostar do passado. Mas é porque esse gostar está restrito ao limite de nossa memória humana. Com o tempo e com a idade, as imagens da cabeça vão esmaecendo e sumindo. Fora os registros impossíveis de determinada época. Eu nunca vi, por exemplo, um vídeo meu de quando eu era criança, coisa que qualquer adolescente pode trazer armazenado no celular ou no seu canal do YouTube. Fotos minhas quando era bebê são mais raras do que ouro de Ofir. Minha geração não sabe qual é a sensação dessa nostalgia de se ver presentificado de forma tão viva.

Para as novas gerações, a memória é rapidamente recuperável. O ontem vira hoje a um clique de mouse. A nostalgia não é mais a mesma. A geração atual tem um carinho maior por seu passado, por suas viagens, por seus momentos, pelas pessoas que passam nas suas vidas. Porque as têm à mão, muito mais do que as gerações de antes.

O poeta Paul Valery afirmou e Renato Russo popularizou a frase “O futuro não é mais como era antigamente”. Pensando na memória modificada pelos tempos atuais, dá para dizer que o passado também não é mais como era antigamente. Esse é o espírito dos tempos da Internet, das redes sociais. É um tempo em que nossos conceitos estão a toda hora sendo alterados, deslocados, repensados. Não é ruim nem bom. É apenas diferente. Àqueles que sentem nostalgia à moda antiga resta aproveitar o que de novo surge para recuperar aquilo que sua memória biológica não dá mais conta.

Minha memória humana já havia falhado e deixado escapar muita coisa da minha época de colégio. Eis que o Facebook coloca de novo na minha frente não só a minha escola, mas também meus amigos mais parceiros, com quem joguei bola aos sábados, com quem dividi meu tempo vivo de adolescente. Trinta anos de lapso entregues vivo para mim, com nome, sobrenome e fotos. Mais longe: uma amiguinha da terceira série me mandou uma mensagem, tímida e confessional dizendo: “sabia que sempre fui apaixonada por ti?” Os meios atuais ajudam o sentimento humano a se perpetuar. Precisamos da memória. Precisamos recordar. Precisamos passar de novo e sempre pelo coração. Não interessa como nem com a ajuda do que quer que seja. É isso que nos humaniza.

A fotografia tem algo de mágico. Há índios e caboclos que não gostam que tirem fotos suas. Dizem que a câmera lhes rouba a alma. Eu compreendo a leitura. Mas poetizando o imaginário, a fotografia também devolve a alma, trazendo junto o cheiro e os ares do instante em que foi tirada. Digamos, pois, que a fotografia nos pede a alma emprestada em um momento específico na vida e depois a devolve a nós em um tempo futuro. Eu gosto de escrever. Fotografar é escrever com luz. Há um interessante jogo de tempo aí. Escrita, luz e tempo. Matéria prima para uma vida. Escrever o tempo com luz é um pó de pirlimpimpim ao alcance de cada um de nós. Evocar o pó de pirlimpimpim em um texto é uma forma de voltar no tempo também e tentar tomar a história nas mãos. Como se fosse possível agarrar o tempo. Magia pura. E necessária numa vida finita.

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