Amado I

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Há dias seus olhares se cruzavam. No início, coincidiram. Com o tempo, se buscavam. Agora, se caçavam. Nenhuma palavra. E quem falou que para haver conexões de alma a palavra é necessária? Para estabelecer a conexão, a palavra é dispensável. Para exercê-la, no entanto, é essencial. A cada dia, a sensação do por vir certeiro consumia corpos e mentes. Ambos. Sóis queimavam, um dia atrás do outro, como assumindo para si o calor dos corpos, emanação adiada por caprichos do destino, por desencontros. As noites chegavam e iam, impacientes pela não cumplicidade exercida.

Ele sabia que poderia encontrá-la. Para isso se preparava, mesmo sabendo da inevitabilidade de falhar em todos seus ensaios textuais. Ela perfumava-se com uma fragrância tão suave e gostosa que inevitavelmente forçava as pessoas que a sentiam a querer lamber seu corpo, como se fosse possível sorver o sabor que perturbava os sentidos através da língua. Ao esfregar as gotas do perfume em seu corpo, fechava os olhos e imaginava que efeitos aquele cheiro teria nele. O perfume era para ele. Ela era para ele. Ao amassar o cabelo, para secá-lo, imagina outras mãos percorrendo os embaraços dos fios. Essa era a trama.

Nunca se falaram. Mas se diziam por completo. O destino, o mesmo que os fez esperar longamente, é esperto e sabe o que e como faz. Encontraram-se, engraçado, em uma festa de aniversário de um filho de uma amiga dele, de um amigo dela. Os olhares acharam-se. E caçaram-se por boa parte da noite. Anitta tocando, numa trilha sonora surreal para o tamanho desejo latente. Garçons passando por entre as mesas, quebrando a ligação invisível entre os olhares, bloqueando a conversa sem palavras, os gritos de desejos sem sons.

Ele era e sempre foi tímido. Jamais tomaria a iniciativa. Ela, decidida e audaciosa, sorriu. Era o máximo que se permitia como estratégia de preservação. Falsa preservação. Ele baixou a cabeça. Quando a levantou, ela não estava mais. Parou de rir. Caçou o olhar dela por entre balões, palhaços e homens-aranha. Ficou preso na teia de sua desatenção. Ficou preso na teia dela. A lua, feliz cúmplice, observava tudo, pacientemente.
Ela passa por trás de sua mesa, junto com seu perfume. Ele olha. Ela sorri, num riso largo que força as bochechas a fechar os olhos. Ela o encara. Ele levanta. Ela sorri. Ele anda em sua direção. “Eu preciso dizer que te amo” substitui convenientemente Anitta no som. Ela vai para o seu carro. Ele vai para o seu carro. Ela dá a partida e ronco do motor frio compete com o frio que lhe percorre o corpo. Ou seria o calor. Agridoce temperatura. Ele faz o mesmo.

O semáforo fechou. Ela passa. Ele passa. Duas multas da fiscalização eletrônica. Assim foi documentado o momento do início. Ela chega em casa. Estaciona em frente. Ele atrás dela, mimetizando o por vir. Ela olha para ele. Ele para ela. A Lua para ambos. Ela entra e deixa a porta aberta. Ele entra e abre seu desejo contido. A porta se fecha, decretando o início do jogo, tão anunciado pelo silêncio.

Os olhares que tanto se caçaram. Ali, sozinhos. Ela liga o som. “Explode coração”. Zizi Possi, magnífica transmutação de Gonzaguinha. A música é o diálogo não travado. Eles se aproximam. Sem piscar. Faz parte do jogo. Abraçam-se e começam a dançar. Chega de tentar dissimular e disfarçar o que não dá mais para ocultar. Eles já não podem mais calar já que o brilho dos olhares foi traidor e entregou o que tentaram conter. A respiração ofegante dele em seu ouvido, no ritmo de seu coração acelerado a deixava em transe. O perfume dela em seu nariz o entorpecia. O desejo querendo se derramar. Não dava mais para segurar. O coração a explodir.
Seu rosto colado, num leve movimento à esquerda, coloca seus lábios junto ao ouvido dela. Mais perto. Ele de leve morde a pontinha de sua orelha, tocando-a com a ponta da língua em seguida. Ela inspira o ar descompassadamente, como se perdesse o equilíbrio da respiração. As bochechas se tocam. Ele faz uma espécie de sim com a cabeça, bem lentamente. O primeiro contato de pele. Quer senti-la. Quer tocá-la com seus poros. Sua mão desliza pela costa, explorando a superfície, ainda por cima da blusa. Sua mão sobe por entre a costa e os cabelos longos ondulados. Toca-lhe a nuca. Acaricia com a ponta dos dedos. Massageia. Ela fecha os olhos e suspira. Sua boca entreaberta pelo relaxamento natural do corpo. Sua mão esquerda desliza por sobre o rosto dela, como um cego a tatear um rosto desconhecido. A mão vira. Agora é o dorso da mão que percorre o rosto quente. Ele sente a respiração acelerada nos dedos. A ponta do indicador percorre o contorno dos lábios. Ela movimenta a cabeça lateralmente, como quem diz que seu desejo é ser tocada.

Diana Krall, suave, canta “Let’s fall in love”. Ele toca, boca fechada, seus lábios em seu pescoço, aspirando o cheiro dos longos cabelos encaracolados. Concorda com a música. “Let’s fall in love, why shouldn’t we?” O que impedia? Estavam fazendo seu próprio paraíso. A língua úmida toca seu pescoço. Ela relaxa e aperta o corpo dele contra o seu. No movimento da música, se deixam cair ao tapete, por sobre as almofadas floridas. Delicadamente se olham. Nunca a distância entre seus olhares foi tão curta. Ele sorri. Ela sorri, dando uma piscada em câmera lenta pela sedução. Os lábios, enfim, se tocam. Estão molhados. As línguas, rápidas aprendizes, se buscam, se caçam. Isley Brothers, “Let’s fall in love”. Trilha perfeita.

Um beijo longo, tão esperado, perde a noção do tempo. Como ele pode ser tão igual e tão diferente de como foi sonhado? E os cabelos? Tão macios… O perfume, tão embriagador. A pele. Doce como seda. Macia como mel. O beijo longo cede espaços para pequenas mordidas nos lábios. Dollar, “I need you”. A música diz tudo. Precisavam-se. “Por que demoramos tanto?” se perguntariam se se lembrassem de perguntar algo naquela hora.
Seus lábios descem. Mordem o queixo oferecido. Beijam o pescoço e continuam a descer. Um botão atrapalha sua jornada pelo corpo dela. As mãos vêm socorrer. Ele olha para ela como a comunicar o que vai fazer. Ela sorri. É a senha. Earth, Wind & Fire, “Could it be right?” Mas o que seria certo ou errado ali? Nada de valores. Só o desejo. Puro desejo mútuo de viver o momento. Carpe diem. A mão esquerda desabotoa o primeiro botão. O segundo. O terceiro. O quarto. Não, a sala era perfeita. O corpo parcialmente descortinado à sua frente. Um minuto de admiração. Led Zeppelin, “Stairway to heaven”. O paraíso a caminho. Sua boca desce até a barriga, que sobe e desce ofegante. Sua língua percorre a região do umbigo, acompanhando a geografia irregular de seu corpo. As mãos, independentes, buscam um leve toque na depressão entre os seios. A palma da mão percorre quase sem tocar o seio esquerdo. Ele sente no meio da mão o rígido mamilo. Toca com polegar. Ela suspira. Ele sobe a cabeça e lhe beija longamente no ritmo do dedilhar da guitarra de Jimmy Page. Ao descer a cabeça, desce também a alça do sutiã, liberando a pressão. Sua mão retira a cobertura que separa sua boca da parte do corpo dela que quer e irá beijar.

Djavan, “Oceano”. O dia amanheceu no mar alto da paixão. Sua boca buscou seu peito. Com movimentos leves, a ponta de sua língua circulou o cume do seio diligentemente, como uma criança que cobre uma linha guia desenhada para ela. Várias voltas, como a avisar que vai entrar. Com movimentos lentos, a ponta da língua agora entra em contato direto com a ponta do seio. Ela suspira. Os lábios tomam conta e envolvem toda a área. Um beijo cheio de desejo. Corpos se conhecendo. Ela o empurra levemente, colocando deitado de costas. É sua vez.

Desabotoa um a um os botões da blusa preta que ele veste. Desnuda seu corpo, seu peito. Beija sua barriga. Lambe sua barriga. Seu cabelo escorre e varre o corpo dele. Joe Dassin, “Et Si Tu N’existais Pás”. Um toque francês. Ela desce e beija seu umbigo. Olha cheia de desejos. Morde os lábios. Abre o cinto. Abre o fecho éclair. Retira a calça e deixa-o quase nu. Seu desejo é grande. É visível. Sua boca beija suas coxas, morde de leve os músculos da perna. Seus dedos percorrem os pelos que se estendem por toda perna, numa gramado negro que convida os pensamentos à diversão.

Vercilo, Fênix. Segue…

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