Saideira

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“Definitivamente o amor tinha acabado. Eu não conseguia sentir nada por ele naquele momento. Não havia um sentimento conhecido para descrever o que eu sentia ao olhar pra ele, ali, parado, me olhando. Não era raiva, não era pena, não era nada. Percorri a lista de todos os sentimentos conhecidos e nenhum serviu. Quando a sensação não tem um nome é porque ela é grave. Escapar da linguagem não é pouca merda. Eu apostei todas as nossas fichas na gente. Eu queimei minhas pastas de planos alternativos. E ele agora me diz que é uma outra pessoa que lhe deixa as mãos suadas, que lhe dá frio na barriga. Só falta me dizer que ela goza mais do que eu. Sim, ele agora me pede pra eu apagar memórias, as sensações rasgadas na minha carne ao longo do tempo em que dividimos tudo. Filho da puta… Minha vontade era de apagá-lo da minha vida, como se fosse possível deletar porções de vida. Mas o cheiro dele estava entranhado na minha pele, no meu cabelo. A sensação daquelas mãos macias deixaram digitais por todo meu corpo. Ia levar anos pra eu tirar esse cara das minhas entranhas, abortá-lo a fórceps de mim. Eu não aguentei e avancei. Me joguei em cima dele com todas as minhas forças. Transamos feito loucos. Como no começo. Foi a visita da saúde. Antes do derradeiro suspiro, o corpo pede que se use o resto do que se tem na alma antes de morrer. Por isso as pessoas melhoram e, de repente, morrem. A gente morreu naquele dia, depois da saideira.” SF

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