Ostra

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Há sempre o tempo de se estender a mão, pedindo que alguém lhe puxe para ver a luz do dia, à beira da praia, para rolar na areia, depois de um tempo de escuridão e silêncio no fundo do mar. Mas, antes, é fundamental passar por essa solidão à sombra, curtir o silêncio do isolamento como se curte couro, gastar o encontro consigo como se gasta a felicidade. Nessa hora, como uma ostra, é necessário se fechar em si, reconhecer a pedra da dor em suas entranhas e transformá-la em pérola. Isso é um processo. É preciso interagir com a pedra: deixar ela arranhar o seu corpo, cortar sua mão, quebrar seu dente. E também reagir a ela, mordê-la, engoli-la, excretá-la. A tristeza também precisa de seu tempo e seu tempo precisa ser respeitado para o equilíbrio da vida. Dura horas, dias, meses ou anos. Ninguém sabe o tempo alheio para isso, ninguém sabe as correntes marinhas que nos engolem. Por isso é preciso compreender a necessidade da retirada da cena na hora da tristeza. Para o que vai e para os que ficam. Não é razão de lamento. Quando a hora chega é para se ir, de cabeça erguida. Porque essa hora eventualmente chega, como chega o nascimento no início e como chega a morte no final. Brincar de ser feliz na hora que é da dor é uma pantomima que faz mal ao artista da vida porque tem o pano da realidade, que sempre cai. É isso. SF

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