Terra Nova, barco reformado

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Hoje estivemos nós e um grupo de amigos visitando um trabalho missionário no bairro da Terra Nova, Zona Norte de Manaus. É um trabalho da Pastoral do Menor levado no muque por duas irmãs que se mudaram de mala e cuia para o bairro. A Arquidiocese comprou a casinha, bem no meio de uma área de alta vulnerabilidade. A redondeza é barra pesada, segundo me falou uma das irmãs na conversa que tivemos quando fomos buscar os salgadinhos encomendados ali perto. Sim, salgadinhos. Era dia de festa. A festa que as duas, com apoio de jovens engajados, preparam para as mães da região.

E como fomos parar lá? Já há algum tempo, motivados por um pedido no Facebook, um grupo de amigos, pais das turmas de minhas filhas, resolveu se organizar para proporcionar um Dia das Mães diferente a senhoras idosas de uma casa de repouso. Cada um colaborou com o que pôde. Minha mulher passou a semana montando kits, coisa que ela adora, sabe fazer bem e faz com prazer. Só esquecemos de combinar com o pessoal da casa de repouso. Quando entramos em contato, a agenda deles estava cheia. Que bom que estava. Precisávamos então dar outro destino aos kits. Eis que ontem foi o Dia das Mães na escola de minhas filhas. Ocorreu de perguntarmos à irmã diretora da escola se ela sabia de algum lugar. Ela sabia. Tínhamos trinta kits. O lugar indicado pela irmã, soubemos ao ligar, iria fazer a festa do Dia das Mães, exatamente a do salgadinho que fui buscar. Para trinta mães. Os caminhos e atalhos infalíveis da mão divina. Deus não dorme.

O trabalho que as irmãs fazem é muito bonito. É missionário no sentido mais divino do termo. Uma delas contou na conversa que sempre teve tudo na vida, que era fresca até pra comer. Até o dia em que conheceu um lixão e viu a realidade de catadores. Foi seu pentecostes. Largou tudo e resolveu viver a vida que vive, contra, inclusive, parte da família. Além de tudo admirável, aquelas irmãs são absolutamente carinhosas.

Pediram para eu dar uma palavra para as mães. Eu falei de fé, de vida, de agradecimento a Deus. Falei coisas que saíram Deus sabe de onde. Talvez eu tenha sido impulsionado pela minha fé dormida, despertada pela situação. Cantamos parabéns em torno de um bolo e os meninos – as minhas duas inclusive – entregaram cada um dos kits, recebendo um abraço carinhoso de cada mãe e aprendendo, na prática, as diferenças da vida e a importância de se importar com o próximo, como a minha mãe me ensinou.

Estávamos exaustos, pois estávamos desde cedo lá e já passava de nove e meia da noite. Mas mesmo cansados, estávamos leves. Ao nos despedir das irmãs, uma delas me chamou de lado, me deu um papelzinho e um pacotinho e disse: “Guarde no seu bolso. Abra depois. E leve para onde você for”. Recebi um beijo sincero e fomos.

Paramos num restaurante no meio do caminho para jantar. Peguei o presente e o papel no bolso. O presente era um terço de madeira. Sim, eu vou levá-lo para onde eu for, conforme recomendado. E vou usar para rezar hoje antes de dormir, como há muito eu não rezo. O outro presente, o papelzinho, tinha o desenho de um barco e dizia:

“Tenho um barco a conduzir: de mim depende o seu rumo. Eu preciso desse barco para empreender travessias, para descobrir lugares novos e percorrer aqueles conhecidos. Tenho sempre trabalho com o meu barco, pois preciso cuidar das rachaduras que aparecem com o tempo. Preciso pintá-lo como uma nova cor e deixá-lo sempre deslizante para que não complique a travessia.”

Fomos lá pensando em ajudar e alegrar aquelas pessoas. E fomos nós os ajudados e alegrados. Fomos lá para levar presentes. E fomos nós que recebemos presentes. Eu, por exemplo, descobrindo lugares novos, tive as rachaduras do meu barco cuidadas. Eu tive a cor do meu barco, meio desbotada, trocada. Meu barco hoje está mais bonito e deslizante para essa travessia chamada vida. E o seu barco, leitor querido? A quantas anda? Feliz Dia das Mães. SF

Um comentário em “Terra Nova, barco reformado

    Paola disse:
    11/05/2014 às 12:29

    Nossa que belo, de fato cada experiência ao lado Dele nos conduz a continuar nesse caminho, quando faço caritativa também saio sempre com essa sensação de que ajudou muito mais a mim .😀

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