Je vous salut, UA (28 anos depois)

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O ano era 1986. Dire Straits arrebentava os alto-falantes do meu fusca branco com o sax de “Your latest trick”, sax que até hoje ainda me treme as carnes. Eu começa o curso de Letras na UA. Era assim que a gente chamava a UFAM naqueles tempos coloridos do new wave e dos cabelos mullets. A UFAM veio um pouco depois. UA ou UFAM, a universidade tem o seu papel.

Fazer faculdade muda a vida da gente. Reclamamos porque, como dizem os veteranos, só há duas alegrias: uma quando entramos e outra quando saímos. Reclamamos das noites mal dormidas e viradas para fazer aquele fichamento do texto chato de Metodologia que a professora jura que é legal, filosofamos com Platão e mito das cavernas, achamos complexo, mas genial Marx e a sacação da mais-valia da aula de Sociologia. E conhecemos gente. Gente que vai seguir com a gente e dividir as angústias, os sorrisos e o salgado na cantina. Eu, por exemplo, conheci a minha primeira esposa na sala de aula. Ficamos batendo papo e rolou numa das ausências frequentes do professor de Psicologia. Aliás, isso é outra coisa que preciso pontuar: os professores e as disciplinas.

Em qualquer curso na UA, na UNICAMP ou em Harvard, há disciplinas boas e há disciplinas ruins. Há professores cujas aulas a gente não quer perder nem em dia de chuva torrencial e há outros para cujas aulas não ir se justifica por qualquer nuvem pesada no céu, um dia bonito de sol ou até mesmo um fio de tristeza nos olhos do cachorro. Tudo é motivo. Mas é assim. Logo a gente aprende que das boas aulas temos que sugar tudo e morrer de prazer. Eu e mais uns seis sempre ficávamos depois do horário ouvindo o professor João Bosco Araújo falar de filosofia numa das aulas mais encantadoras que tive oportunidade de assistir. Para as aulas ruins e chatas, resta cumprir tabela e torcer para o professor não atrapalhar. Tirei dez em Psicologia com o professor faltoso que certamente vale muito menos do que o 6,9 de filosofia registrado no meu histórico escolar, histórico esse resgatado com carinho meio amarelado de uma pasta de arquivo. A aula boa, aproveitemos. A aula ruim é fazer e seguir em frente do jeito que der. E por que escolhi falar sobre isso?

Vinte e oito anos depois, eu sou calouro de novo. Comecei meu curso de Psicologia. E tudo isso veio na memória como um filme bom. Lá estou eu de novo, caderno na mão, anotando nome de osso e estudando de madrugada as partes da escápula. Lá estou eu de novo, conhecendo pessoas legais, cheias de juventude – que um dia eu tive -, me fazendo querer que o fim de semana passe logo para a gente se encontrar de novo. O brilho nos olhos dessa moçada me energiza de uma forma bacana. Confesso que tenho gostado mais de ser aluno do que de ser professor. Pode ser mérito da novidade unida ao decurso de prazo mesmo. Afinal são 23 anos dando aulas na UFAM. Eu juro que eu tento dar uma aula bacana. Jamais assustaria os alunos batendo a cabeça do fêmur na mesa de ferro. Pausa. Risos. Volta. Mas por mais que eu tente dar uma aula agradável, penso que vez por outra meus alunos já me sentem meio cansado. Alguns devem certamente me colocar na lista das aulas chatas, preferindo ficar na cantina a me ouvir falar. Faz parte. Perceber-se cansado é um toque da vida para buscar mudanças. Talvez ser aluno de psicologia seja uma maneira de buscar a compreensão desses toques de forma fundamentada. Quem sabe?

Fazer outro curso de graduação me rejuvenesce, de certa forma. Colegas e amigos perguntam: “Por que diabos tu ainda vais estudar?”, “Mas tu já não és doutor? Pra quê?” Talvez uma pergunta responda a outra. Por ser doutor é que eu sei que não posso parar de estudar. Estudar o que eu não sei me exercita a mente e funciona como uma fonte de juventude para meus ânimos. O rádio é lateral. A Ulna é medial, Ci Thaline. O nó que esses 206 ossos estão dando na minha cabeça me devolve a humildade socrática: só sei que nada sei. Mas ando com o Atlas do Sobotta debaixo do braço para saber. É meu desafio. Acrômio, trocanteres, fossas e tubérculos. A linguagem anda enciumada de meus novos amiguinhos. Mas eu saúdo o novo sempre.

O título desse texto é o mesmo de um texto que escrevi em 1986, quando entrei na UA como calouro de Letras. Estava justamente a saudar a universidade. À época, o filme “Je vous salut, Marie!” de Godard havia sido censurado no Brasil. Eu saudava a UA, empolgado e desejoso de que aqueles tempos fossem tempos grandiosos na formação de um moleque de 17 anos. Queria aprender o mundo sem censuras, daí a provocação do título. Retomo o título 28 anos depois. Vivemos na democracia, tempos de liberdade de expressão, tempos de liberdade política, tempos outros, enfim. As roupas não têm mais aquelas cores berrantes, K&K e Company não são mais marcas da moda, eu já casei três vezes e Dire Straits só toca na sessão naftalina das rádios. Mas nesse lapso de vida de lá até aqui, aprendi a respeitar o conhecimento, a reverenciar a dúvida e a duvidar das certezas. Por isso resolvi começar de novo. Je vous salut, UFAM. Onde foi que deixei o meu CD azul do Dire?… SF

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