A gente chora porque a gente se importa

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Hoje é dia de falar do jogo do Brasil e da derrota que nos tirou a possibilidade do hexacampeonato na Copa em casa. Há textos para todos os gostos, afinal foram 200 milhões de técnicos, 200 milhões de torcedores, 200 milhões de comentaristas esportivos, 200 milhões de ortopedistas especialistas em vértebras e 200 milhões de frustrados com a derrota. Por que não 200 milhões de escritores? Esse dia seguinte me traz algumas reflexões.

A primeira delas é quanto ao futebol e o que ele representa para o Brasil. Antropólogos já discorreram tinta bastante sobre o assunto e não vou reinventar a roda. Não há povo sem história e a história é sempre convocada a entrar em campo para explicar comportamentos coletivos. Em época de Copa, somos todos Brasil. É como se fôssemos convocados a vestir a camisa e nós mesmos tivéssemos de entrar em campo e fazer valer um traço pelo que somos respeitados pelo mundo: ser os melhores com a bola no pé. Daí a entrega, daí a garra, daí o choro. Perder tem um gosto de “sossega, aí, menino, que você não é isso tudo, não”. Perder é nos tirar o orgulho de dizer que se não somos o melhor em matemática, pelo menos não fazemos feio nos jogos escolares. As pessoas precisam ser reconhecidas e, para muitos, não confirmar ser campeão de uma Copa, ainda mais em casa, é a suprema frustração de uma superexpectativa de sucesso que salvaria a autoestima do sujeito, muitas vezes, talvez, a única em que ele se agarra nessa vida difícil que o joga para baixo.

Mas o mulato é inzoneiro e isso leva a uma segunda reflexão. Como inzoneiro é quem gosta de intriga, essa Copa também trouxe a inzona a seus limites, potencializada pelas redes sociais. Muita gente, num sinal de que o país está adolescendo, se revoltou com a Copa e com o sentimento coletivo de pertencimento ao momento de catarse da identidade de brasileiro via futebol. Como jovens rebeldes negando o pai, chutaram o balde do sentimento coletivo da realização pela bola e invocaram novos sentimentos coletivos, como a indignação pela falta de hospitais, de educação de melhor qualidade, de uma política mais decente. Admiro essas pessoas pela força de romper com um traço tão forte de nossa personalidade identitária, ainda que desconfie que tenham sofrido horrores com a derrota acachapante que levamos da Alemanha. O adolescente, sabe, no fundo, ama o pai mesmo quando diz que odeia.

Mas o adolescente, para se afirmar, quer causar, chocando, provocando, enfrentando, machucando. Foi isso que alguns fizeram com o sentimento de brasilidade que uma Copa traz. Criou-se um confronto inócuo entre os que queriam a Copa e os que não queriam a Copa. Dicotomizaram as opções: ou você torce pelo Brasil na Copa ou não tem sensibilidade social e está desautorizado a lutar por escolas, hospitais e tudo o mais. Mataram a possibilidade de você se indignar com a desigualdade social e, sem ser insensível à qualidade da educação, da saúde e da política, gritar um “Pega, porra!” bem alto, vindo das entranhas no gol do Fred no Neuer, gol que – Porra, Fred! – não veio. Mal perceberam os adolescentes subjetivos, mas eles transferiram sua paixão fundante pelo futebol para outro jogo: vocês, de camisa amarela, e nós, sem camisas. Qual um Zúñiga, entraram para rachar nas costas de gente que estava ali no campo só para se divertir, no lúdico, para gozar. Aliás, o gozo dos sem-copa nessa Copa foi tentar, com o fôlego do Robben, interditar o gozo alheio.

Freud fala em atos falhos: o lapsus linguae, o lapsus calami e o lapsus memoriae. Falamos coisas, escrevemos coisas e esquecemos coisas sem querer querendo. O pai da psicanálise acredita que nenhum “defeito” na língua é na sua totalidade um mero acidente ou acaso. Todo ato falho é um discurso bem-sucedido, do desejo que, licença Valesca, foi recalcado por alguma razão. Eu vi, nessa Copa, os revoltados falharem na sua tentativa de se desvincular de algo que lhes constitui: a brasilidade pelo esporte. Falharam pela jocosidade, pelo humor ácido, pela raiva que punham o tempo todo no centro do palco o amor do Brasil pelo futebol. Tal qual Malafaias e Bolsonaros, elegeram e combateram sua homoafetividade mostrando a importância do tema para si, não o retirando de suas pautas, sintomatizando sua importância. É como aquele católico que vira evangélico e tem de negar Nossa Senhora: deve ter doído para esse pessoal essa troca ilusoriamente necessária. Ilusioriamente porque, sim, dá para torcer pelo Brasil sem abrir mão de sua indignação social, desde que não compreendamos o mundo em preto e branco. Há muitos tons de cinza entre os dois extremos. Pun intended. Há dispersão. Faltou para muita gente a capacidade de compreender que um indivíduo é uma dispersão de sujeitos na ilusão de ser um só. Dá para ser pai, filho, professor, militante, amigo, adversário político e torcedor ao mesmo tempo. Basta saber circular e não abrir mão dos outros lugares para falar monotematicamente de um lugar só. “Alienare”, do latim, significa “abrir mão de”. Abre-se mão das possibilidades de dizeres diferentes para se alienar no sempre mesmo dizer. Aí fica chato.

Perdemos. Estamos fora da possibilidade de ser hexa em casa. Muitos choram. Compreensível: gozo interrompido. Alguns celebram. Gozo atingido. A complexidade do tecido social legitima os vários comportamentos. Concordar ou discordar é meramente um posicionamento em relação a tudo isso, mas não apaga, claro, a diferença, que sempre é melhor do que a singularidade imposta. O que eu ainda não consegui entender, no entanto, é como a tristeza de amigos, familiares, filhos e gente querida pode virar motivo de alegria para alguns. Porque quando a gente gosta, a gente chora junto. No mínimo, a gente respeita a dor. Eu me permiti bloquear pessoas nas redes sociais com esse sentimento daninho de tripúdio gratuito, que foram desrespeitosas com minha tristeza, que usaram suas questões mal resolvidas para machucar. A gente chora porque a gente se importa. Como minha filha, de sete anos, que dormiu soluçando e com febre no meu colo porque o Brasil perdeu. Valeu, Brasil. Vamos rir agora porque outro traço nosso é rir das nossas tristezas. Que entre o time-fora. Até a próxima Copa, claro. SF

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