A falta que nos faz

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O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?

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