Melhor lugar

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Melhor lugar

Se fosse por mim/Eu ficava/Mas vê como tudo lá fora mudou/O tempo passou/Feito um louco/Quebrando as vidraças/E a gente ficou/Aqui, sem ter nem pra onde ir/por medo ou preguiça/Aqui, ilhados por nós/Sequer rastreados por nenhum radar/Aqui parecia ser o melhor lugar/Quem disse que a gente precisa/Perder um ao outro pra se encontrar/Se nada nos prende ao passado/Não é o futuro que vai separar/Enfim, encosta seu barco em mim/Que o sol já se pôs/A sós/O mundo termina/Na fina fronteira dos nossos lençóis/Em nós /Espalham-se os laços/Desfazem-se os nós/Sonhamos paisagens/ compramos passagem/E nunca voamos pra lá/Enfim, passeia tua boca em mim/ Até me calar/Aqui ainda parece o melhor lugar.

“O futuro não é mais como era antigamente”. A frase é do filósofo Paul Valéry, mas roda o Brasil na boca de Renato Russo. Dita ou cantada, o que essa frase desperta em nós é a constatação de que as coisas mudam, as mudas viram árvores, os ventos pegam outros caminhos e a vida vem e não pede licença.

Em meio a um turbilhão de acontecimentos dinâmicos, o que buscamos é simplesmente o conforto. Por mais que hoje a vida seja pá, pim, pum, num videogame psicodélico, por mais que mudemos nosso status do WhatsApp todos os dias para dar conta dessa movência e se manter antenados com o espírito desse tempo fugaz, o que queremos mesmo é um lugar para descansar do peso do dia e um bom prato de bons acontecimentos para nos alimentar a fome do cotidiano. No fundo, no fundo, o que se quer de fato é uma pessoa que seja tudo isso: que seja o conforto, que seja o alimento, que seja o amor, que seja o lugar.

Passamos a vida tentando e temos de tentar porque a nossa vocação é ser feliz. Damos cabeçadas e dão cabeçadas na gente. Mas o ser humano, como as araras, são seres de pares. Podem até voar em bandos eventualmente, mas, mesmo em bandos, voam uma do lado da outra, de seu par, de seu duplo. Aí, quando a gente acha… véi, na boa… a vida não tem pra ninguém…

É tão bom ter alguém. É tão bom dividir e, na divisão, multiplicar. Sim, porque a pessoa que a gente acha, nosso melhor lugar, subverte a matemática, inverte a lógica, rasga a sisudez da gramática com sua poesia particular. Entrelaçar dedos e vidas e segurar as mãos literal e metaforicamente potencializam as forças para encarar de frente, com pleonasmo enfático, as chuvas e tempestades da vida. E às vezes o tempo passa, feito um louco, quebrando as vidraças. Depois que passa, a gente constata que a gente ficou aqui, no nosso canto. Molhados talvez. Por causa das turbulências, telhados voam, paredes descascam, portas empenam. Mas a gente vai levando.

Ficamos atônitos com as pancadas vez por outra. Mas ficamos. Segunda pessoa do plural que somos. Depois de nossas tempestades, dá medo, sim. Sim, dá medo. Às vezes, olhando no chão da vida os cacos das coisas que se quebram, dá preguiça de juntar, sim. Sim, dá preguiça. Nesse espaço de tempo em hiato, ficamos ilhados por nós mesmos. Mas seguimos. Seguimos porque só gosta da gente quem insiste em ficar em nossas vidas.

Quem não é nós não entende muita coisa. Não entende o nosso tempo, não entende as nossas manias, não entende os nossos olhares, não compreende os nossos sentidos, tão nossos. Códigos tecidos pela vida construída a cada segundo, desde aquela primeira palavra trocada que nos conectou com a magia que a linguagem asperge sobre os enamorados. Voamos em nossa frequência particular longe dos radares curiosos do mundo. Ah, o mundo que gosta de interferir em tudo, ligando seu celular em pleno voo.

Sem radares, a gente se acha, a gente se encontra sempre. E se acha porque nunca se perdeu um do outro. Brigas, tristezas eventuais, decepções por pisadas de bola? Quem nunca? São essas tempestades que nos fazem reforçar as paredes do afeto. Para quem ama, reconstruir é sempre a primeira opção. O passado é algo abstrato demais já, perdido lá atrás. Não temos como mexer nele. São registros de um tempo bom ou ruim que, como se estivem num museu, servem apenas para ser observados, mas nunca tocados. O futuro é algo abstrato demais, que não existe ainda. Como o passado, o futuro não pode ser mais importante do que o presente. É no presente que se vive. É no minuto que a vida acontece. E precisa acontecer de forma potente. Porque chega o fim da tarde, chega o pôr do sol e se ouve o Bolero de Ravel.

Enfim, é preciso encostar o nosso barco no píer do amor que se tem. O sol já se pôs. Voltar para a casa, esquecer do mundo porque o mundo termina na fina fronteira dos lençóis da nossa cama, do nosso espaço tão nosso. Em nós, espalham-se os laços, desfazem-se os nós. É a dois que sonhamos paisagens. É a dois, na cumplicidade, que compramos passagens para lugares que nem existem, a não ser aqui, pra gente. O melhor passeio é o da boca da pessoa em nós, essa pessoa que se encaixa em nossa vida e em nosso corpo, passeio da boca que nos faz calar e do corpo que nos fazer gemer. É olhando para essa pessoa, em silêncio, sorrindo, que a gente pode dizer com a certeza mais que absoluta, como diz a juventude para avaliar: melhor lugar. E é.

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