A miss e nós

Postado em Atualizado em

Saiu o resultado. O cumprimento elegante de praxe à vencedora dado pela segunda colocada. Mas na hora da coroação da miss, a vice-miss perdeu o rebolado, atacou a ganhadora e lhe arrancou a coroa, atirando longe. E saiu triunfante, de punho erguido, sob vaias e aplausos da plateia e das outras candidatas a miss.

Acordei com essa história bombando nas redes. Ao G1, a vice-miss Sheislane Hayalla disse que não aceitou o resultado. Que aquilo era um protesto contra a grana. “Simplesmente, em Manaus, é o dinheiro que manda e eu estou mostrando para o povo amazonense que o dinheiro não manda aqui. Ela não mereceu!”, disse ela, racionalizando seu gesto, um gesto que, como todo gesto, convoca as interpretações. Apesar do caráter inusitado e até pateticamente engraçado do fato, penso que o que Sheislane fez exemplifica e muito o tempo em que vivemos.

Na sociedade da visibilidade, aparecer faz parte da necessidade básica de sobrevivência social. É preciso ocupar espaços. Inconscientemente, brigamos por espaço no trabalho, nas relações grupais, nas relações afetivas. Só que as regras sociais nos impedem de arrancar as coroas alheias quando temos vontade. Pode-se argumentar que sempre foi assim. Sim, sempre foi assim. O que tem mudado radicalmente é o conceito de espaço, que hoje está inegavelmente atrelado à visibilidade mais do que ao espaço físico, como já foi na época das conquistas territoriais. A questão é simbólica. O poder, palavra-chave para compreender meu argumento, passa necessariamente pela construção de um capital imagético que se configura e se sustenta pela circulação nas redes via capital digital. Resumindo: tem de aparecer e tem de circular. Só assim a gente consegue ser hoje na sociedade da informação. Se você digitar seu nome no Google e ele não voltar nada, pode esquecer: você não existe.

Estamos vivendo uma crescente instagramação da vida. No mundo da imagem, da evasão da privacidade, viver o momento vira secundário. O registro do momento é potencialmente mais valioso para a construção do capital imagético e digital. Vide a moça que sofreu o acidente e, em vez de se preocupar em buscar socorro em primeiro lugar, imediatamente postou nas redes a foto de seu rosto todo arrebentado. Fez uma selfie de sua cara estropiada. Há algo mais sintomático do momento em que vivemos?

Mas voltando às misses. O próprio concurso entra em um jogo de imagens arquetípicas. Há a princesa, que ganha a cora, e há a plebeia, seu contrário. A miss, que vai aumentar seu capital imagético, e a vice-miss, que não vai ser nada, num país em que vice e nada são a mesma coisa. As coisas não deram certo para Sheislane. Se tivessem dado certamente a sua crítica ao poder da grana como determinante nessas e em outras questões não teria aparecido. Só veio porque as coisas desandaram. Aí ela, que perdeu o papel de princesa, assumiu o papel de Fora-da-lei, que rompe com as regras que, como sabem os foras-da-lei, foram feita para ser quebradas. O arquétipo do Fora-da-lei é conhecido também como Revolucionário. Esse arquétipo libera as vontades reprimidas da sociedade, daí tanta gente vibrando, gozando com o pau de Sheislane. Quem de nós não queria, como ela, chutar o pau da barraca ou dar com o pau de selfie nas injustiças que conhecemos? A identificação nos faz feliz com seu gesto. Quando a consciência do Fora-da-lei está presente, as pessoas têm uma percepção mais aguda dos limites que a civilização impõe à expressão humana.

Aí a gente se pergunta: será que ela não pensou nas consequências disso? Arrisco a dizer que sim e que não. Que não porque agiu por impulso. Que sim porque, de certa forma, exatamente porque foi por impulso, deu vazão ao inconsciente e à sua avaliação, também determinada pelo discurso da ideologia inconsciente, de que o barraco lhe capitalizaria imageticamente mais do quer ser miss. Não deu outra. Sheislane deve estar adorando os flashes de ser notícia nacional enquanto Carolina Toledo – who? – ficou com essa faixa chinfrim.

Enfim, na guerra da vida, estamos lutando a Batalha da Imagem. Eu tenho de ter mais experiências bacanas, em lugares bacanas, com os melhores vinhos, nas melhores praias, comendo as melhores comidas. Meus filhos têm de ter as melhores festas, o melhor celular, as melhores colocações no ranking escolar. Se alguém posta uma foto de um hotel em Katmandu, tenho de sequestrar a singularidade de sua experiência e postar nos comentários uma minha lá também. Não nos enganemos. Praticamente nada vale se não se tiver um câmera por perto para mostrar para outros, para postar no Instagram, compartilhando ao mesmo tempo no Twitter, Face, Tumblr, Pinterest, Vine, Flickr…

Como toda ação traz uma reação, já vivemos a contracultura da imagem. Gente que resiste ao discurso da visibilidade não tendo perfis em redes, andando com celular peba que nem foto tira, se desligando, no que pode, da ditadura da imagem. Quem não consegue se desligar, evita pôr sua foto no perfil. Usa cachorro, borboleta ou qualquer outra coisa no lugar de sua foto como forma de resistência. Estou nas redes, sim, pero no mucho. Há gente, no entanto, que vira a miss e parte para a briga contra a sociedade da informação, arrancando-lhe a coroa, valorizando o encontro olho no olho e a conversa sem registro a não ser na memória dos interlocutores. E que sai triunfante com seu ato político. No entanto, sem saber – e sem querer – essas pessoas entram de novo no jogo arquetípico: para a sociedade da imagem não passam de meros bobos-da-corte. “Se eu não puder dançar, não quero tomar parte da sua revolução”, diz o bobo. Pergunta dos integrados: “como pode, gente, alguém resistir às redes sociais? Durma segurando um forninho desses”.

Jung à parte, onde é que você se localiza nesse jogo todo, leitor? Faz uma selfie com a coroa, arranca a coroa e joga longe ou nem sabe o que aconteceu porque evita as redes? Ou tudo junto e misturado?

Fato é que é assim. Nem ruim nem bom. É, ponto. Ruim ou bom já é dar valor a partir de onde nos localizamos. É isso que eu tinha para dizer. Deixa agora eu postar logo esse texto no meu blog do WordPress e na minha página no Face para aumentar meu capital digital. Beijo, Leila Lopes!

Um comentário em “A miss e nós

    adnnascimento disse:
    11/04/2015 às 23:35

    Super me encontrei no “celular peba, que nem foto tira”.😀

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s