Amor do avesso

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Toda maneira de amor vale a pena. Toda maneira de amor vale amar. Também acho. Mas há maneiras e maneiras de amar.

Há o amor escancarado, declarado, esparramado para o mundo. Rosas e poesia, mel e John Green. Há o amor tímido, que só se mostra de vez em quando, saindo da toca às vezes para mostrar seus afetos mais sinceros. Desconfiado. Há o amor platônico, que habita nossos desejos mentais e não ousa ganhar mundo. É aquele que a gente deixa assim ficar subentendido e que pode até parecer fraqueza. Que seja fraqueza então. E há o amor pelo avesso.

Quando sofremos um trauma muito grande, a gente desmaia. O corpo desliga o disjuntor para a gente aguentar o tranco. O corpo é uma máquina perfeita. Desmaiamos para não ter de encarar uma parada maior do que podemos suportar. O amor pelo avesso é mais ou menos isso: um desmaio nos afetos por amar demais. Explico melhor.

Há pessoas que amamos muito, mas reconhecer e exaltar esse amor é, de alguma forma e por alguma razão, algo absolutamente insuportável para nossa ordem das coisas. Por muitas razões: por vaidade (reconhecer que amo a pessoa é assumir que há coisas nela que admiro e – me poupe! – não posso dar esse cartaz para ela), por impossibilidade social (abrir meu amor me trará cobranças sociais imensas) ou até para não assumir gostar de alguém socialmente ingostável (“Ain, como assim você ama justamente essa pessoa, esse traste, esse lixo?!”). Aí o disjuntor do amor desliga – pela sobrecarga de amor intolerável – e a gente manda o amor achar outra forma de ser. Ele que se vire. É nessa hora que esse danado se vê desafiado e parte para a ignorância, para a força bruta.

Quem ama do avesso generaliza os defeitos e particulariza virtudes do ser amado. Critica quem queria elogiar, rejeita carinhos que amaria receber, empurra para longe quem se oferece para ficar perto e cuja pertidão – à moda de Guimarães Rosa – quer mais que tudo. Procura o ponto que machuca no outro para praticar sua acupuntura hostil.

O amador do avesso é um autossabotador e um narcisista. Autossabotador porque não se permite usufruir do amor aberto que, convenhamos, é gostoso pra caralho. É um narcisista porque acredita de verdade que todas as 7 bilhões de pessoas do planeta Terra têm a obrigação de entender sua forma de ser e se adaptar ao seu jeito de amar, esse com a costura para fora. Em ambos os casos, uma boa terapia pode ajudar a descobrir por que quem ama pelo avesso acredita que não merece ser amado plenamente – e daí se sabotar – ou pode ajudar a se tocar de que não se é o centro gravitacional do universo. Se achar a bala que matou Kennedy é muito peso para uma cabecinha só. Tem de ver isso aí.

Quem ama pelo avesso pensa que ninguém nota. Ok, uns não notam mesmo e preferem ir embora porque ninguém aguenta a insuportabilidade de quem só chora miséria e não abre a porta dos afetos. Nem se dão ao trabalho. As pessoas vão embora, saiba. Às vezes para sempre. Mas uns notam. Porque também amam, começam a devolver o amor do avesso. Começam a gostar ignorando, provocando, irritando, espezinhando, ironizando, cutucando e – eventualmente – machucando. Além de tudo, ainda tem essa: amar do avesso evoca o masoquismo. Se o amor direito traz prazer no próprio ato de amar, o amor do avesso traz prazer por meio da dor, que é para confirmar a certeza que habita a cabecinha dura de que só se pode amar assim, com o velcro virado para fora.

Qual é a saída desse labirinto? Nenhuma para quem não quer sair e curte ficar dando de cara com os becos sem saída. Mas se reconhecer amando do avesso é o primeiro passo para mudar esse estado de coisas. Identificar quem é o objeto do nosso amor pelo avesso e o porquê da impossibilidade do amor pleno, do lado certo da força, é um outro passo à frente. É preciso se mexer para sair do lugar. Botar a cara no sol, mana. Fazendo lobby para os psicólogos, uma boa ajuda de um bom eletricista pode ajudar a consertar a caixa de força da mente. Tem curto-circuito por aí, parceiro. Não adianta tentar derrubar paredes na marra. E quem está a fim mesmo, sabe, sai do labirinto é por cima. Porque a regra da vida não é força. É jeito. É jeito. SF

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