Discurso & Psicanálise

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A gente é o que a gente tem sido. Somos produtos de nossa prática de pensamento. Ninguém nasce de direita, de esquerda, preconceituoso, religioso, machista, amigo dos animais, liberal, comunista, fã do Roberto. A gente aprende a pensar assim pela vida que chega e não pede licença. E a vida entra via linguagem, no conjunto de experiências a que somos expostos. O jeito de pensar as coisas como nossas verdades se chama discurso. Quem compartilha o mesmo jeito de pensar, então, está certo, coerente, correto, é um dos nossos. É até uma pessoa mais bonita. Quem não compartilha é cego, é estúpido, está errado, é dos deles. E como fica feia a pessoa que pensa diferente de mim… É esse o efeito. O certo e o errado, o bom e o mau são efeitos. Efeitos reais, mas efeitos. Tanto para um grupo quanto para os outros a verdade se constrói da mesma forma sólida e verdadeira. Funciona igual para todo mundo, por isso as pessoas divergem. Isso acontece porque a história não é igual para as pessoas. Daí a diversidade. Assim se produzem verdades. Mas e daí em diante? Daí em diante, no aspecto do jogo das relações humanas e sociais, há um jogo de impor verdades – as nossas – sobre a dos outros. E isso é o político da linguagem: entender como se dá a correlação de forças na sociedade. Há discursos que querem superar as diferenças e achar um modo de sobrevivência nas diferenças. E há discursos que querem suprimir a diferença e aniquilá-las. No aspecto subjetivo, há também de se pensar sobre a relação de harmonia/resistência do sujeito com os discursos que o compõem. Há sujeitos que entram azeitados nas engrenagens discursivas a que estão sujeitos e há outros que tentam, inconscientemente, exorcizá-las, libertando-se desses discursos incomodadores e sofrem com a tarefa. A Análise de Discurso (AD) estuda o jogo de correlação de forças na sociedade, o político, a pólis. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para explicitar como está funcionando a construção do sentido para cada grupo de sujeitos. E a Psicanálise cuida do sujeito e sua relação com seus discursos fundadores. Analisar o sentido que se tem de governo – se deve ser mais social, se deve ser menos interventor na economia – é de interesse da AD. Interrogar o que o ódio mortal que seu Zé tem pelo Lula significa e o que que esse ódio metaforiza do não simbolizado em sua história de vida é de interesse da Psicanálise. Compreender como a discursividade sobre a homoafetividade tem mudado no tempo com os deslocamentos das relações humanas é de interesse da AD. Explicitar por que o seu Zé tem uma raiva atávica de gays e o que isso tem a ver com questões mal elaboradas de sua sexualidade é o baratinho da Psicanálise. Estou com saudade das aulas de Discurso…

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