Drops da Florida

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Estávamos num Wallgreens e a Fabiana olhando uns cosméticos. Eu zanzando por perto. Aí eu ouvi a frase:
– Wait! I don’t speak English! My husband! Wait!
Ela usava essa frase quando o dialeto que ela inventou pra se comunicar – uma espécie de papiamento misturando português, espanhol, inglês, caipirês – não funcionava mais e ela me chamava para ser intérprete, se fiando no fato do papai aqui ser professor de inglês na universidade.
– O que foi, amor?
– Traduz pra ela o que eu quero.
– E o que é?
– Um cc-cream com um necessário fator de proteção semi-intenso 20 para tez suave. Matizada. Tem de ser matizada, tipo fosco, mas nem tanto.

Foi assim que eu vi que tenho de mudar de profissão. Ou fazer um curso de inglês instrumental de makes. Arreguei. Fui ver meus cabos de computador. E ela teve de apelar pro papiamento dela. Comprou.

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Era umas oito da noite e a Fabiana resolveu que a gente tinha de comprar toalhas para levar pro Aquatica Orlando, de manhã cedo, no dia seguinte. Todo mundo podre de cansado. Ela disse:
– Me dá dinheiro aí. Vou a pé nessas lojinhas do outro lado da rua.
– Vai sozinha?
– É perigoso?
– Não, não… é por causa do inglês. Vai usar o papiamento?
– Me dá dinheiro.
Levou 25 obamas e foi. Daqui a pouco ela volta, com duas toalhas.
– E aí? Deu certo?
– Tu nem sabes… Eu achei essas duas toalhas, $12 cada. Eu tinha $25, calculei que dava daí. Quando fui pagar, deu $ 25.44. Tinha esquecido da pegadinha do imposto de 6% separado do preço. Falei pra mulher: “Wait!Best Western International Drive – Orlando! Go money!”. Disse pra ela guardar a toalha que eu vinha aqui pegar no hotel os ¢50. Mas ela disse: “No! Don’t worry!” e pegou uma moedinha de um potinho. Acho que um potinho que eles têm pra isso. Eu disse “Thank you!”, sorri e vim embora.

E assim o Brasil teve um superávit de ¢50 na balança comercial com os EUA na primeira quinzena de setembro e a vendedora teve um prejuca de ¢50 na sua tip jar.

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Primeiro dia de Universal e Islands of Adventure. Chegamos com os parques abrindo, saímos com eles fechando. Felizes, mas muito, muito, muito cansados, pés doloridos, doidos pra chegar no hotel, tomar um banho e cair na cama. Na saída, já perto do globo, uma moça bonitinha perguntou se não gostaríamos de participar de uma pesquisa de satisfação. Eu e minha mente brazuca pensamos: – “Opa! Vai ter brinde!”. Aceitei com um solícito “Oh, yes! Why not?”. Foram 20 minutos de perguntas. Fabiana me fuzilando com os olhos. Marina, com dor de viado de tanto andar, já respondendo tudo “excellent” por mim para acabar logo. No final, um “Thank you!” fajuto. No gifts. Ninguém tocou no assunto até o outro dia de Universal, na saída, quando as meninas ao verem os entrevistadores recrutando gente para a pesquisa disseram, quase juntas: “Nem pensar, pai!”. Nem pensar. Nem pensar.

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Reconheçamos: os americanos são grandes entrepreneurs. Tudo que se metem a fazer fazem muito bem, de forma planejada, impecável. As gramas nas laterais das ruas são sempre verdinhas porque quando são colocadas lá, também já se colocam os sprinklers para regá-las na hora certa. As regras são cumpridas nem tanto por sua existência – ter regras não garante nada –, mas pelo enforcement, ou seja, pela certeza de que tem algo mais forte que vai fazê-las ser cumpridas. Se isso é admirável por um lado, é inevitável que por outro esse preciosismo no enforcement em tudo crie uma panela de pressão no sujeito que, curiosamente, não tem sprinklers de escape, de deriva. A americana é uma sociedade sem deriva, diferente da brasileira em que derivar é a regra e seguir a regra não é cool. Aqui as coisas são frouxas e perdemos muito por isso. A gente não planeja. A gente resolve no caminho. O psicanalista Contardo Calligaris fala disso no livro “Hello Brasil!”. Há regras, mas não se cumprem. Chega a ser até coisa de otário para muitos. Lá, ter de cumprir tanta regra leva o sujeito às vezes a bater a biela. Ou puxar o gatilho contra pessoas que são, pra ele, a sociedade que oprime personificada. Navegar, como dizia o poeta, exige precisão: da bússola, da carta, do trajeto. Viver não é preciso. Viver requer deriva, escape. Ou paga-se um preço alto quando as pulsões explodem. É o toma lá da cá das coisas.

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Nunca planejei tanto uma viagem. Fiz uma planilha no Excel e lancei previsão de gastos diários, com um plus por dia para imprevistos. Para cada atividade prevista, pesquisei preços, alternativas, detalhes importantes, pegadinhas para ficar atento, roteiros. Andei pelos lugares no Google Street View. Consultei o Yelp.com e o app para ver a reputação dos lugares. Comprei um GPS aqui – mesmo preço de lá e não entrou na cota por ser nacional, da Multilaser –, baixei nos fóruns de GPS um programa melhor (iGo), o mapa da Florida atualizado e pré-programei todas as nossas rotas. Está tudo na internet. Tem de garimpar, tem de organizar. Planejei comprar um chip pré-pago da T-Mobile com internet, mas ganhei um da minha amiga Marta que acabara de voltar dos Estêites e que valia até fim de setembro. Economia de $40. Lá, ao fim de cada dia, atualizava a planilha com os gastos reais no celular. Levei dinheiro baseado na planilha. E só dinheiro. Usar cartão de crédito nem pensar. Visa Travel Money não compensa também com o IOF alto. Escolhi hotéis com cofres peloBooking.com. Saía com o dinheiro do gasto planejado do dia e um plus de 100 dólares, só pra garantir. Sempre voltaram ao cofre. Sobrou dinheiro. Era para sobrar, já que tinha um plus previsto. O que pude pagar no Brasil, em Real, parcelado e antecipado, eu paguei: seguro-saúde, entrada dos parques e aluguel do carro. Como disse, evitei usar cartão de crédito. Com esse câmbio maluco e o IOF nas alturas é suicídio. Só usei para carregar o pedágio pré-pago no App do celular porque não tinha jeito, e, claro, para as garantias de praxe no aluguel do carro e nos hotéis. Nos parques, usava os apps para escolher os brinquedos e saber o tempo de filas. Tanto a Disney quanto a Universal tem programas bem bacanas, que mostram onde você está. Só errei numa coisa: programei dez dias e não contava que a lista das encomendas da minha sogra demorasse tanto para ser vencida. Se viajar e tiver as encomendas inevitáveis, ponha pelo menos mais dois dias aí no seu roteiro para distribuir melhor as coisas e ficar menos corrido. Já comecei a planejar nossa viagem ao Chile.

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Alguém falou pra Fabiana que comida industrializada podia levar. E líquido também, desde que limitado a 150 ml e dentro de um ziplock. Pronto. Lá fui no Carrefour antes da viagem comprar saquinhos ziplock. Miojo, Sustagen, Fandangos, Ruffles, Chocolate, Ninho 3+, tudo ziplockado. Quando vi, até minhas cuecas estavam no ziplock. Era tanto ziplock que o cara da alfândega perguntou se a gente representava a marca no Brasil. Depois de dois dias de parques, confesso que fiquei assado de tanto andar. Só me ocorreu colocar gelo no ziplock e… zip! fazer uma compressa geladinha nas partes. Que alívio! Dica: não esqueça dos seus ziplocks se for pros Estêites.  

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deio montanhas-russas. Aliás, qualquer coisa com movimentos bruscos. passo mal, fico gelado e tudo isso. Mas fiz um esforço de pai, jurando para a Ana Clara – que estava com medo, mas a fim de ir – que a Mina dos Sete Anões, no Magic Kingdom, ia ser show, que ela ia adorar e tal. Acabei convencendo e fomos. Ela e a mãe no carrinho da frente. Eu e a Nina no de trás. Quando aquele negócio acelerou, eu gritava:
– “Viu, filha! U-huuuu! Que show! WOW! Bacana! Uêba! U-huuuuu! Que massa!! Que legaaaalllllll!”
Quando acabou, na saída, disfarcei meu quase-desmaio e perguntei:
– “E aí, filha? Gostou? Não é bacana?”
Ela disse:
– “Adorei, pai. Valeu!”
Aí a Marina arrematou:
– “Papai quando fica apavorado fica gritando que está gostando pra disfarçar.”
– “Eu sei”, disse a Clara.
Pensei que estava enganando todo mundo.

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A comida nos EUA, pro meu gosto, é muito ruim. E, pro meu bolso, muito cara. A não ser que você tenha um cartão Platinum sem limite, não dá pra almoçar e jantar em restaurante, não. É quase um iPhone 6s por dia. Mas cansados de comer fast food, resolvemos ir ao Uno, restaurante bem em frente ao Best Western da International Drive, onde ficamos. Fomos atendidos por um garçom muito simpático que começou anotando nossos pedidos em inglês. Depois perguntou de onde éramos. Quando eu disse que éramos do Brasil, ele disse que se precisasse chamaria alguém para nos atender em português. Era gaiatice. Ele falava português, logo revelou. Adão – ou Adam – é um português que tinha imigrado há uns 15 anos para os States. Muito falador, se dirigia sempre a Bia. Até que disse, em bom português:
– Estou impressionado. Você é muito bonita e se parece com uma namorada brasileira que eu tenho, mas que ainda não conheço.
Pediu até pra tirar foto com ela.
Senti um clima. Domei meu ciúme e me concentrei no meu steak com molho barbecue que comi com a gana dos biafras africanos. Ao final, quando trouxe a conta, eu falei:
– Ok. Pode por mais 20% pelo serviço.
Ele olhou encantado pra Bia e disse:
– Não precisa tanto. 15% está bom.
Só não fiquei com mais ciúmes porque a moça que fez pesquisa de satisfação comigo quando estávamos saindo da Universal disse, quando eu falei que tinha 47 anos:
– Não acredito. Você é muito bonito e não parece tão velho.
É claro que não traduzi isso pra Bia. I’m not dead. Desmaiado talvez. Not dead.

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Papo no avião:
– Estou com frio na barriga.
– Normal. Ansiedade. Outro país, coisas novas.
– Mas estou com medo.
– Medo de quê? Vai dar tudo certo, amor.
– Medo, sei lá, de ser presa.
– Presa?! Tu não está pensando em roubar nada no Walmart, não, tá?
– Claro que não! Sei lá… Nos EUA de repente aparecem aqueles policiais vestindo preto e levam a gente.
Chegamos, pegamos a fila da imigração. Uma hora de fila. Quando estava chegando a nossa vez, uma gritaria vindo da fila de imigração dos diplomatas. Pelo que entendi, um gaiato hispanohablante não quis esperar na filona e tentou ir na dos diplomatas. Só veio o papoco. Uns cinco policiais, vestindo preto, chegaram perguntando alto:
– Who’s is he? Where is he?
E já foram algemando o cara, que gritava:
– ¡Ella está mintiendo! ¡No arrestarme!
Quando eu olho para Bia, ela está lívida, branca, como se ela fosse ser a próxima a ser algemada.
– Viu? Viu?
E passou o resto do tempo da fila em um silêncio sepulcral, com medo de ser presa por estar levando Sustagen e miojo na bolsa.

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Não gostei do pouco que vi de Miami, não. Já Orlando é uma cidade bacana. Chegamos em Miami e já fomos direto pra lá. Aluguei um Chrysler 200, muito confortável, todo completão, automático, cruise control, com tudo que se tem direito. Um carro que custa US$ 22 mil lá e a bagatela de R$ 190 mil aqui. Aluguei pela Thrifty e paguei em reais, parcelados, fugindo do dólar alto e do IOF idem. Marina ficou fascinada com o carro. E descobriu o botão para abrir o teto solar justamente na hora de um toró violento. Molhou todo mundo. As locadoras querem empurrar o SunPass – transponder de pedágio automático –, só que elas cobram muito caro. Disse que não queria. Saí do aeroporto sem o transponder e parei numa Walgreens num mall bem pertinho do aeroporto. Quis gastar meu inglês, mas só se fala espanhol na coxinhalândia americana. Comprei por US$ 5 dólares o sticker do SunPass (minha mulher aproveitou pra comprar o primeiro dos 375 Aussies), carreguei US$ 30 dólares pelo app da SunPass no celular e tchau e benção. Deu pra ida e ainda sobrou. Saí daqui de Manaus com a rota do Car Rental Center até o Wallgreens já armazenada no GPS. Aliás, todas as nossas rotas. Dá para ir de Miami para Orlando pela Florida Turnpike ou pela I-95. Preferi pagar mais pedágio e ir pela Turnpike. Ela tem plazas para parar no meio do caminho e lavar o rosto. A estrada é um retão e dá um sono. Já tinha tudo esquematizado aqui. Planejamento é tudo.

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Lá estávamos nós. Primeiro dia de parques. Começamos pelo Islands of Adventure. Entramos e eu, seguindo a dica do Eduardo Jorge S. Honorato, disse que era meu aniversário. Ganhei um bottom de aniversariante e mais de mil Happy Birthdays durante o dia. Na verdade era quase meu aniversário. Tinha sido no dia anterior. White lie. Fomos na área do Gatola da Cartola. De repente eu vejo o Gatola e grito, extasiado:
– O Gatola! Vão lá tirar foto com ele! Vão lá!
– Mas pai…
– Cuida! Se não ele vai embora!
– É que…
– Vão logo!
Elas foram. E tiramos as fotos. Andamos mais um pouco e vi uma fila pra tirar foto.
– Quem é esse?
– É o Gatola, pai.
– Gatola?! Mas e aquele?
– Era o que eu estava tentando dizer, pai. Que aquele não era o Gatola.
Preciso assistir mais aos desenhos…

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Na pausa pra comer alguma coisa no Outlet Premium, em seu Orlando, decidimos comer pizza e massa na Villa Fresh Italian Kitchen, na praça de alimentação. Tinha um gordinho muito mal-humorado que servia as coisas. Eu passei até que mais ou menos pelo humor dele. Mas o cara depois de mim na fila levou um esporro quando perguntou como era o talharim deles.
– “Listen, my friend! Here, in China, in Italy, in New Zealand, in Africa, everywhere, taglierin is taglierin, exactly the same!”
– “Ok, sorry for asking”, disse o homem desolado.
Me senti em Manaus por alguns minutos.

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Estávamos saindo do estacionamento do hotel em Orlando. Um senhor, bem apessoado, bem vestido, uns 50 e pouco anos, fez sinal para eu parar. Parei, baixei o vidro. E ele disse:
– Você pode me ajudar? Estava indo pro trabalho e fiquei sem gasolina. Você poderia me dar dinheiro pra eu poder ir trabalhar?
– Desculpa, amigo, mas não ando com dinheiro.

Lá também tem golpe e Miguelation. Saidinha de hotel.

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Duas coisas interessantes. Não tem moto nas ruas de Orlando. Aliás, vi uma Harley-Davidson, mas já perto da Nasa, em Cabo Canaveral. Se bem que HD não conta. É hobby, não é meio de transporte. Lá, a sociedade é dos carros. Ponto. Nada de mototaxistas com camisas da Sportline Nell fazendo zig-zags. E a outra coisa interessante é que não tem mosquito. Aliás, tem. Tem uns mosquitinhos safados que só voam transando, os marotos. Vi muitos deles na NASA, mas tinha em seu Orlando também. Depois descobri que eles se chamam love-bugs. That figures!

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