A redenção pelo McFly

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McFly FreireHoje é o dia em que Marty McFly chega, vindo da década de 80. Todo esse buzz, os memes e vídeos que derivam da chegada do McFly nos apontam para duas coisas. A primeira é a apropriação voraz na internet de agendas que ela mesma cria – para depois desaparecer com a mesma rapidez. E a segunda coisa é o fascínio que o futuro exerce sobre cada um de nós.
A liquidez evidenciada por Zygmunt Bauman foi acelerada. Vivemos uma quase condensação das coisas. É tudo tão rápido que já não são mais tempos líquidos, mas tempos gasosos. “Senhora, senhora” já é coisa do ano passado, parece. Tudo que era sólido se liquefez e tudo que é líquido se desmancha no ar. O passado se adensa, se atulha com a memória metálica das tecnologias e o presente corre desesperadamente em um tempo que tudo é urgente. Vivemos a morte da contemplação. Ser permanente em tempos de impermanência chega a ser um ato de rebeldia, um ato revolucionário. Daí algumas pessoas irem montanhar sem relógio e sem internet. Resistência pura. Daí as pessoas serem tragadas por religiões que prometem organizar a vida, tão caótica porque em pó. Desistência pura. Essa mudança do passado que antes ficava na memória biológica para um passado que se tem disponível a um click de mouse e do presente contemplativo da racionalidade moderna para um presente que urge as urgências urgentes da pós-modernidade potencializaram a necessidade de desejar pelo futuro. Desejar mais. Para fugir do atoleiro. Para, como avestruzes dimensionais, enfiar a cabeça em outra dimensão e escapar do mal-estar do presente.
Mote da trilogia que está na pauta, o desejo pelo futuro é uma maneira inconsciente do sujeito exilar-se do presente. Buscamos desesperadamente as mudanças porque não temos como pagar a conta psíquica dessa realidade. E por que não damos conta dela?
Com a globalização, pós-modernidade, sociedade da informação ou em rede – escolha no cardápio o nome –, deu-se fim à hierarquia e à ordem como desejável. O saber virou genérico. Todo mundo sabe tudo. Basta o Google e enter. Flatou-se tudo, de flat, do inglês. Com a desordem como o novo parâmetro – sem o peso pejorativo do termo – não nos queixamos mais de não conseguir atingir nossos objetivos, mas reclamamos porque nos afogamos nas infinitas possibilidades que se apresentam como objetivos. É tanto objetivo possível que angustia. Se antes buscávamos uma certeza verdadeira para a pacificação e alívio do sujeito, hoje buscamos uma certeza convencida porque a verdadeira leva tempo de maturação, tempo que já não temos mais. Basta uma certeza convencida. Não cabem mais verdades no figurino desse mundo. Mas espera aí. Mudou tudo assim tão rápido e nem nos demos conta? Sim. Muita coisa, muito rápido, não nos demos e não damos conta. E agora? Agora? Agora vamos então falar sobre a nova TekPix? Ou sobre o futuro?
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Freud: ”O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”. No filme, McFly só sabe o que tem do outro lado quando chega lá. Mexer com o passado exige coragem e ousadia, pois reverbera no presente. E aí? Vamos esperá-lo na praça do relógio? E você leitor, para ir lá, o que deixa do lado de cá que lhe angustia tanto? SF.

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