O selo de Tutankamon

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The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

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