Covid, negacionismo, discurso e psicanálise: flores no concreto

Postado em Atualizado em

Sérgio Freire
Doutor em Linguística (UNICAMP), Psicólogo
Professor da Universidade Federal do Amazonas

Com tantas informações disponíveis sobre a gravidade da situação e a necessidade de seguir orientações básicas da OMS, muitas pessoas ainda se recusam a aceitar a realidade dos fatos. Por quê? Afinal, que diabos acontece que faz com essas pessoas não aceitem algo que nos parece tão claro? É de deixar perplexo mesmo. Como a gente explica isso?

Motivado por vários comentários nas minhas postagens nas redes sobre a gravidade da situação da COVID-19 em Manaus, andei pensando na questão. Refleti e trago essa reflexão a partir da Psicologia e da Teoria do Discurso, que é por onde transito teoricamente.

Em “O ego e os mecanismos de defesa”, de 1946, Anna Freud nos apresenta as técnicas de defesa a que o ego recorre para não sofrer tanto com a realidade. No caso dos “teimosos” da Covid, trata-se claramente do acionamento de um desses mecanismos apresentados pela autora: a negação. Está na literatura psicológica que as pessoas desenvolvem estratégias para se proteger. Uma dessas estratégias é simplesmente negar a existência de qualquer fonte ameaçadora, seja ela um fato ou uma dor. A negação é uma forma que as pessoas encontram para se defender da ansiedade intrusiva, para fugir de algo que, inconscientemente, sabem que não podem enfrentar. Por exemplo: quando alguém da família morre e uma pessoa não chora, não sofre, mantém a vida como se nada tivesse acontecido, diz-se que está em negação. Situações que causam muita ansiedade, como a perda de alguém ou uma pandemia que mata muita gente, são percebidas como ameaças e podem, por isso, disparar o mecanismo de defesa da negação.

No caso da pandemia, a negação se manifesta de várias maneiras. Pode ser se recusando a usar máscara em público ou participando de grandes aglomerações. Pode ser, ainda, refutando a ciência porque ela contradiz sua crença de que a ameaça não é nada e por não ser nada pode ser controlada com medicamentos ou produtos sem comprovação científica de eficácia. Há ainda os que esvaziam a realidade, negando-a, criando teorias conspiratórias como a de que o vírus foi uma criação chinesa, ou a de que a vacina vai alterar seu DNA ou, ainda, de que o número de mortes reportados são alterados para algum fim maquiavelicamente planejado. O limite é a criatividade.

Basicamente, as formas de negar são variações daquilo que no discurso chamamos de frase de base. A frase de base é “Bem, como eu não quero ou não posso lidar com ela, a pandemia é uma farsa. Ela realmente não existe. É uma invenção com algum propósito escuso.”  É claro que essa fase de base que sustenta o discurso negacionista é um pilar inconsciente e, por isso, escapa à razão do indivíduo. O sujeito negacionista nunca admitirá isso – porque ideologia e inconsciente são transparentes ao sujeito – e ele continuará racionalizando, ou seja, achando razões que sustentem a sua negação.

Usar a negação como mecanismo de enfrentamento nem sempre é uma escolha ruim. Ela faz parte do repertório do sujeito para lidar com a vida. No curto prazo, a negação dá à pessoa tempo para se ajustar a uma situação. Quando se torna uma muleta de longo prazo, no entanto, ela coloca outras pessoas em perigo e passa a ser perigosa. É o caso da pandemia. Daí as pessoas continuarem a fazer festas clandestinas, a ir às praias lotadas, a minimizar o risco, sempre apoiados num discurso racionalizante de que a economia e convivência social não podem parar “por causa da gripezinha.” Mistura-se a isso o que o pai de Anna, Sigmund Freud, chamou de “pulsão de morte”, no livro “Além do princípio do prazer”, de 1920.

Falamos de racionalizar. A negação às vezes se confunde com a racionalização, que é outro mecanismo de defesa. A racionalização se dá quando as pessoas tentam explicar ou diminuir a ameaça da fonte de ansiedade. Por exemplo: quando as pessoas dizem que “a Covid-19 é apenas uma gripezinha”, elas estão admitindo que ela existe, mas estão minimizando a coisa e dizendo que não é tão grave quanto todo mundo – “os conspiracionistas ou mal informados” – está dizendo. Quando citam uma médica ginecologista negacionista para legitimar práticas clínicas que desautorizam a ciência verdadeira – aquelas das pesquisas comprovadas –  e a refutam com crendices ou achismos, é a racionalização que está trabalhando. Acha-se sempre uma razão para o que se acredita. No fim, o argumento acaba sendo: “é a minha opinião e pronto!”. Como se ciência se reduzisse a opiniões. Portanto, há graus e graus de negação e racionalização.


Tanto a negação quanto a racionalização que se perpetuam são consideradas inadequadas. Isso significa que elas não ajudam o indivíduo a se adaptar à fonte da ameaça. Na verdade, podem expô-los a uma chance ainda maior de qualquer coisa que seja ameaçadora, como a vulnerabilização de pessoas que se automedicam, prejudicando seu fígado ao ingerir doses descontroladas de medicamentos prescritos por médicos negacionistas ou ao tratar baixos níveis de oxigenação no corpo com mastruz ou jambu.

Ok. Negacionistas são pessoas que se protegem da realidade negando que ela existe e agindo a partir dessa crença. Mas o que leva uma pessoa a ser negacionistas e outra não? Aqui entram de novo psicologia, psicanálise e discurso.

Segundo a psicologia do desenvolvimento, é por volta dos 6 ou 7 anos que uma criança é capaz de entender o que é fato e o que é ficção. Em nossa cultura, a ficção é reforçada. Há Papai Noel, há Fada do Dente, há Coelhinho da Páscoa. Essas construções fazem parte do desenvolvimento e ajudam as crianças com a fantasia e a fantasia é necessária para o desenvolvimento do simbólico e do imaginário. No entanto, a fantasia precisa ser balanceada como o aprendizado de como tomar decisões com base em informações factuais. E a escolarização tem, junto com os pais, um papel fundamental nisso. Quando os adultos foram criados em um ambiente onde crenças infundadas fizeram parte do discurso, é muito mais provável que acreditem em teorias da conspiração e boatos. Eles também tendem a tomar decisões com base em palpites e ideias preconcebidas e preconceitos, em vez de usar informações factuais e baseadas na ciência. Assim se constroem discursos: crenças são baseadas em ideologias e as ideologias sustentam as verdades em que acreditamos. Quando o sujeito se desenvolve dentro de discursos não acostumados a enfrentar diversidades, tem-se o cenário propício para o protonegacionista. A criança que aprendeu essa prática de pensamento sempre fugirá do enfrentamento como prática de comportamento na vida adulta. Sim, estou dizendo que há uma grande correlação entre negacionistas e sujeitos que tiveram escolarização falha e uma falta para a prática do enfrentamento a situações ansiogênicas na infância. É a hipótese.

John Cook, professor da George Mason University, nos EUA, passou a última década estudando a psicologia dos negadores do clima e os últimos meses tentando entender seus primos ideológicos: pessoas que zombam do coronavírus. Em uma entrevista para o The New York Times, ele diz: “A ideologia é um grande indicador das atitudes das pessoas em relação às mudanças climáticas, mas o tribalismo é ainda mais”, disse ele. “Em última análise, os humanos são animais sociais. Se minha tribo acredita que a mudança climática é uma farsa, é muito mais provável que eu acredite nisso também. E isso definitivamente também está em jogo com a Covid.” É o tal do comportamento de rebanho, de gado. Faz sentido o apelido da turma?  O pesquisador ainda é mais incisivo: “Em ambas as questões, [porque a questão é tribal], a liderança é crucial para mudar atitudes e conquistar a negação.” Mas não é isso que acontece no Brasil, com o presidente que temos, um negacionista também. Vamos é na direção contrária com Bolsonaro.

Até aqui explicamos por que as pessoas negam a realidade da COVID, de onde vem essa prática negacionista e qual é a importância de um líder para modificar comportamentos de grupos. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud apresenta suas considerações sobre o fenômeno psicológico que mantém coesa uma massa de pessoas. Vale a leitura, de tão atual que é.

Ok. Sabemos por que negacionistas se comportam assim, o que provavelmente faz as pessoas serem negacionistas e a necessidade de um líder para fazer esse grupo mudar de rumo ou ampliar seu comportamento negacionista, que é o caso do Brasil. Aqui, no Patropi, há saída para esse atoleiro?

Em um artigo de novembro de 2020, chamado “Psychoanalysis in combatting mass non-adherence to medical advice”, o pesquisador Austin Ratner diz: “Como os psicanalistas podem ajudar a tratar a negação em massa e a não adesão em massa? Tanto epidemiologistas quanto psicanalistas resolvem problemas aumentando a conscientização; epidemiologistas conscientizam sobre os perigos para a saúde pública, enquanto psicanalistas conscientizam as pessoas sobre suas próprias defesas psicológicas, que trabalham para tirar o perigo e a ansiedade da consciência, precisamente porque são difíceis de enfrentar. Embora os psicanalistas não possam tratar cada caso de negação individualmente, eles podem educar os profissionais de saúde e líderes governamentais sobre a negação e trabalhar com eles em mensagens eficazes que ajudem a dissipar e delimitar essa força psicológica serpentina.” Claro. Isso quando líderes estão dispostos a tal. Dançamos de novo no Brasil.

Ratner talvez aponte um caminho. Se as pessoas são negacionistas e não se cuidam, parece que o amor pelas pessoas de sua família seja a única coisa mais forte que pode fazer o negacionista cair na real. E o discurso deve ser esse: se não for por você, que seja pelo seu pai, sua mãe, seus filhos. Campanhas de saúde e prevenção devem sustentar essa linha discursiva, ao mesmo tempo que o governo deve agir com poder de polícia para decretar recolhimentos e lockdowns para os mais resistentes. Força e jeito.

Querer convencer individualmente a pessoa, em comentários infinitos nas redes sociais, tem se mostrado improdutivo, ineficaz e cansativo. Porque a barreira do negacionismo inconsciente é feita de concreto semântico. Mas resta a poesia: flores nascem nas fissuras do concreto. Parece piegas terminar o texto assim: mas só amor salva.

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