2009

Quarenta e um

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Já vai umas décadas...Segundo a Wikipedia, o 41 é o número natural que segue o 40 e precede o 42. É o 13º número primo, depois do 37 e antes do 43. É o 7º número primo de Sophie Germain e o 3º número primo de Newman-Shanks-Williams, seja lá o que isso for.  Pelo polinômio f(n) = n2 + n + 41 obtêm-se primos quando n está entre 0 e 41. É a soma de dois quadrados, 41 = 42 + 52.  É a soma dos primeiros seis primos, e a soma de três primos consecutivos, 41 = 11 + 13 + 17.  É o número atômico do nióbio (Nb), que é  usado em alguns aços inoxidáveis,  em soldas elétricas e na produção de joias como, por exemplo, os piercings.

Aos 41 anos, Celine Dion anunciou sua segunda gravidez e Suzy Rego anunciou que ia ser mãe também. Aos 41 anos, Adãozinho encerrou a carreira no Bragantino. A top model dinamarquesa Helena Christensen provou em um ensaio nua que, aos 41 anos, ainda é capaz de fazer os homens perderem o rumo.  Os atores Irving São Paulo e Thales Pan Chacon morreram aos 41 anos. Aos 41 anos, o folclórico goleiro Higuita voltou ao futebol. Aos 41 anos, Glauber Rocha filmou “A idade da terra”.  Lima Barreto morreu aos 41 anos.  Djalma Santos encerrou a carreira somente aos 41 anos, no Atlético-PR. Lya Luft começou sua carreira literária aos 41 anos. Há 41 anos morreram Manuel Bandeira, Vicente Celestino, Assis Chateaubriand e Yuri Gagarin. Há 41 anos o escritor japonês Yasunari Kawabata ganhou o Nobel de Literatura.

Há 41 anos os estudantes mudavam a França. Há 41 anos começava a Primavera de Praga. Há 41 anos começava a Guerra do Vietnã.  41 anos atrás as mulheres queimaram sutiã na praça e os hippies mudavam o conceito de normal. Há 41 anos Martin Luther King foi assassinado. 41 anos atrás foi feito o primeiro transplante de coração na Europa e o primeiro no Brasil, pelo Dr. Zerbini. Foi há 41 anos que mataram Bob Kennedy. Foi há 41 anos que o Rio de Janeiro viu a passeata dos Cem Mil, em plena ditadura. 41 anos atrás os Beatles lançaram Yellow Submarine, o filme. Há 41 anos foi lançada a Apollo 7, cuja missão foi a primeira televisionada. Há 41 anos a nave espacial Apolo 8 foi colocada numa órbita circular em torno da Lua. Há 41 anos Aristóteles Onassis e Jacqueline Kennedy casam-se na Grécia.  Há 41 anos foi lançado o Chevrolet Opala no Brasil. Há 41 anos o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, fez um discurso no Congresso criticando a ditadura militar. Márcio ironizou os militares, pedindo para as jovens moças evitarem dançar com cadetes, o que irritou os generais. O Presidente Costa e Silva decretou o AI-5 – Ato Institucional número 5 -, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil. O Ato, que durou dez anos, foi motivado pela recusa do Congresso Nacional em condenar o deputado por seu discurso.

Há 41 anos nasceram Cuba Golding Jr, Carolina Ferraz, Liza Marie Presley, Daniel Craig, Mara Maravilha, Ashley Judd, Sandra Annenberg, Will Smith, Brandan Fraser, Luciano Safir e eu.  1968 foi um ano e tanto.

Nasci no dia do sexo: 06 de setembro. Nesses 41 anos eu convivi com quatro irmãos maravilhosos, um pai e uma mãe sem igual. Brinquei na rua quando criança. Tive vários cachorros. Tomei banho de igarapé dentro da cidade. Joguei muito futebol na rua e fui mascote do Fast Club, com foto na capa do disco e tudo.  Fui campeão amazonense de futebol de mesa. Estudei em escola pública. E em escola salesiana,  eu e quarenta meninos.  Depois em escola de freiras, eu e quarenta meninas. Sempre CDF. Chorei na copa da Espanha, mas vi o Brasil ser campeão do Mundo duas vezes.  Dei aulas de inglês em cursinho, dirigi um fusca 76, fui professor de escola da prefeitura no São José à noite. Dei cabeçadas. Ousei sem arrependimentos. Fiz faculdade de Letras e, recém-formado, passei no concurso de professor da Universidade Federal. Tive meu primeiro computador em 1986 e o primeiro celular em 1993. Chorei quando o Senna e o Tancredo morreram. Viajei muito. Namorei pouco. Casei muito. Casei três vezes. Para sempre. Nos dois primeiros não deu.  Flutuei de amor. Chorei de amor. Fiz mestrado. Quase morri num acidente em 1999. Morei em Campinas. Fiz doutorado em Linguística. Perdi minha vó, um grande vazio. Quitei um apartamento. Fui subsecretario de educação de minha cidade. Conheci o céu e o inferno da política. Muitos amigos, poucos de fé, várias decepções. Tive milhares de alunos. Perdi a conta, nunca o encanto. Escrevi livros e plantei árvores. Com a mulher que vai ser minha viúva, eu tive duas filhas : as minhas melhores obras, de longe.

É. Já valeu a pena.

Acordo Ortográfico

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O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que entra em vigor hoje, foi assinado em Lisboa, em 1990, e ratificado pelo Brasil, Portugal e por outros três países de língua portuguesa.

Para quem não conhece o acordo: o trema deixa de existir, a não ser em nomes próprios. O hífen não é mais usado quando o segundo elemento começar com ‘r’ ou ‘s’. Essas letras deverm ser duplicadas (antissemita e contrarregra). Também não é mais usado quando o primeiro elemento terminar em vogal e o segundo elemento começar com uma vogal diferente (extraescolar e autoestrada). O circunflexo não é mais usado nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver (creem, leem, deem). Apenas quando os prefixos terminarem em “r” se mantem o hífen (hiper-realista, super-resistente). O acento circunflexo também não é mais usado em palavras terminadas com hiato ‘oo‘, como em enjoo e em voo. O acento agudo não é mais usado em palavra terminada em ‘eia’ e ‘oia‘ (ideia, jiboia). Os portugueses deixam, por exemplo, de escrever “húmido” para escrever “úmido”. Desaparecem também da grafia em Portugal o “c” e o “p” mudos, como em “acção” e “óptimo“. Com a incorporação do “k”, “w” e “y”, o alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26.

Como toda proposta, a da unificação ortográfica traz debates acalorados. Entre os argumentos a favor estão a maior penetrabilidade da língua portuguesa no mundo (ainda pequena apesar de ser uma das mais faladas, quer em número de falantes quer em número de países), a ampliação do mercado editorial para os países lusófonos sem o custo da adaptação, a abertura para um entendimento entre Portugal e o Brasil sobre a certificação comum de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros (o Brasil emite hoje o certificado CELPE-Bras, enquanto que em Portugal o único diploma válido é o emitido pelo Instituto Camões), além da expansão e do fortalecimento da cooperação educacional em língua portuguesa. Os do contra alegam que ela é insuficiente para atingir seus propósitos, uma vez que muitas palavras continuarão apresentando possíveis variantes ortográficas; sustentam que haverá uma súbita obsolescência de dicionários, gramáticas e livros, além de uma custosa reaprendizagem ortográfica por parte de uma grande massa de pessoas, incluindo crianças.

A favor ou contra, o certo é que a reforma é destinada à língua escrita e, portanto à normatização da língua culta padrão, não atingindo a oralidade dos países lusófonos. Com ou sem trema ou circunflexo, diga-se, a lingüiça/linguiça continuará dando enjôo/enjoo em muita gente. A unificação tem lá suas vantagens, mas uma língua não se estabelece no mundo por unificação ortográfica, mas por peso simbólico de sua economia e sua influência geopolítica, vide o caso do inglês e, mais recentemente, do chinês, que já começa a ser estudado devido ao seu boom econômico.

A questão estética do acordo, de fundo econômico, aponta para uma outra mais urgente, de fundo social: a do letramento, que é o uso social da linguagem, tema que merece um texto próprio e ao qual voltarei em breve. Um detalhe: agora sou doutor em linguística, sem trema.

Um 2009 alado.

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Que 2009 seja um ano alado! Que as asas dos desejos e das vontades lhe levem aos melhores momentos de sua vida. 2008 foi-se. Que vá, levando as coisas ruins e chatas. Que passe o bastão dos novos desafios e das mudanças para o ano que entra tomar conta e correr feliz para a linha de chegada. Viva! Intensamente. Sem arrependimentos e pleno de novas emoções, sensações e descobertas. E que aquele plano secreto, que você não contou pra ninguém, também se concretize. É o que quero para mim. É o que eu desejo para você que me lê, daqui do meio do mato, nos arredores de Campinas. Beijo gordo e feliz. SF.

Lista de desejos 2009

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[Outro texto antigo (de 2005) adaptado para 2009, mas com votos tão sinceros quanto os da época. Feliz Ano Novo!]

“Sonho que se sonha só é sonho. Sonho que se sonha junto é realidade”.
Dom Helder Câmara
As festas de fim de ano estão dobrando o canto. “Canto” é esquina, para quem não fala Amazonês. Lá vêm elas, serelepes. O Natal com seus papais-noéis, saiuns-de-Manaus, suas luzinhas amarelas e suas inefáveis músicas de harpa. O comércio vibra com o seu melhor momento no ano. Todo mundo correndo atrás dos agrados e mimos. Shopping centers lotados. Amigos-secretos pululam nas repartições. Limite de dez reais, claro. O que vale é que ele venha cheio de boas intenções. Logo depois do Natal vem o novo Ano Novo, com seus brancos nas roupas, taças para o champagne do brinde e a uníssona contagem regressiva. Queima de fogos, lista de intenções.
Falando em intenções, quero então fazer uma lista de desejos para o ano que se aprochega. E ao contrário do que se acredita, desejos a gente revela, sim, para que os outros desejem conosco olhando para a mesma estrela. Assim podemos dar vida às palavras de Dom Helder, aí em cima na epígrafe.
Então, que em 2009 a meta primeira de todas as pessoas seja atingida. Ticar mais um xiszinho nas tarefas a realizar na vida é sempre gratificante. Muitas vezes, dessa meta dependem outras metas, metas-corolárias – corolária é uma palavra difícil, mas linda. A minha primeirona para o ano que vem é ter meu filho com saúde e tranqüilidade.
Que em 2009 as pessoas amem mais e sofram menos por causa de outras. Que entendam que há sempre um caminho para felicidade, mesmo que o que as leve para lá não seja aquele trajeto tão cuidadosamente planejado. Que descubram, no novo e por vezes improvisado caminho, o riacho límpido que perderiam se não houvesse o desvio feito a contragosto. E que não destruam o caminho caminhado, pois foi ele que lhes trouxe até aqui.
Que em 2009 possamos dar continuidade ao trabalho que estamos desenvolvendo no nosso espaço profssional. Há uma sede desértica e uma fome de mudança africana por mudanças qualitativas na sociedade. Que possamos nos regozijar com uma esperada justiça social – regozijar também é uma palavra linda.
Que em 2009 quem se perdeu se ache. Quem se achar, se curta. Quem se curtir, que sonhe. Que use como barômetro da vida não as pequeninas coisas do dia-a-dia, as más e mesquinhas, mas as pequeninas coisas do dia-a-dia, as boas e agradáveis. Que, assim, nosso bem-querer e nossa disposição em viver nossa vida, única e nossa, beijem a boca e despertem do sono a Pollyana bela e adormecida que existe em cada um de nós. Robertocarlianamente, é preciso saber viver. Sonhar não custa nada, frase trivial e tão verdadeira. É da trivialidade que surgem os geniais insights. Devemos olhar com cuidado o comum que nos cerca, pois ele guarda surpresas inimagináveis e mudanças de vida impensáveis.
Que em 2009 as inevitáveis lágrimas que rolarem em nossas faces sirvam para enxágüe da alma. Que sirvam para limpar os olhos dos travos de amargura que porventura tenham tocado a boca de nosso espírito. Que as lágrimas vertidas sirvam para regar o verde do jardim de nossa alma, por vezes cinzentas. A dor é o maior aprendizado do ser humano. Sempre haverá algo a doer. Quanto mais cedo reagimos e aprendemos a domesticá-la, mais cedo creio que seremos mais serenos e lépidos diante das drummondianas pedras no meio do caminho.
Que em 2009 novas pessoas especiais surjam em nossas vidas. A cada ano, acredito, um bom punhado delas é colocado a dedo no traçado de nossa existência com alguma missão que só muito mais tarde descobriremos. Ou não. Pessoas que simples e profundamente nos fazem bem. Pessoas cujo simples cruzar de olhar já dá um tom especial à melodia do nosso dia até então desafinado. Pessoas que fazem o coração jovializar surpreso e agradado ao vê-las inesperadamente e que levam esse mesmo coração a esperar ansioso pelo próximo encontro. Pessoas que atrasam nossas programações mais mundanas por conta de suas inestimáveis companhias, quase divinas. Pessoas especiais a quem nossa linguagem chama autonomamente de amigas, independente do tempo de convívio. Pessoas como essa em quem você está pensando agora.
Que em 2009 as velhas mágoas se aposentem e vão curtir a vida em qualquer outro lugar. Que abram vaga nova no coração, onde nunca deveriam ter ocupado assento. Que em seus lugares, alegrias joviais e cheias de gás, recém-nascidas ou formadas, assumam e sintam o prazer em servir doses sem medida de paciência, tolerância e carinho em relação aos que nos circundam.
Que em 2009 aquele velho amigo que se pôs distante ponha-se achegado. Que as gargalhadas e risadagens compartilhadas e registradas no amarelado álbum do tempo, e suspensas pelos rumos da vida, retomem seu viço e seu som estridente de então, quando lágrimas corriam soltas lavando a alma de felicidade. Uma amizade resgatada é como uma nota de cinqüenta achada no bolso daquela bermuda que há muito a gente não usa: alegra e permite a retomada de planos. E que também aquele amigo que se porá distante no ano que entra não se desachegue. Que vá, mas fique, deixando sua presença fraterna no lugar de sua presença física. Deixando seu cheiro em nossa alma para a lembrança eterna.

Que em 2009 aquele velho projeto secreto tenha sua vez. Ele sempre esperou quietinho por ela. Chegou a hora. Desengavete-o!

Que em 2009 seja o Ano Internacional do Reencontro. Reencontro consigo, com seus amigos, com sua família. Reencontro com aqueles de quem nos desencontramos por causa da teia dos acontecimentos cotidianos. Reencontro com aqueles de quem nos perdemos no tumulto da multidão dos fatos. Reencontro com nossos valores mais pueris de solidariedade, afetividade e humildade. Reencontro com Deus, grande maestro do show da vida e de vida que nos cerca.
Que 2009 seja o ano da virada. Seja lá qual for essa virada. Desde que seja para melhor. Que seja o ano do recomeço, seja lá o que for que precise ser recomeçado. Rupturas virão, ao certo, mas novos laços imediatamente surgirão para não deixar o entremeado tecido da vida roto e maltrapilho. A roupa que veste a vida espelha a aura que reveste a alma. E vice-versa.
Que 2009 seja o ano da coragem. Da coragem de rever autocriticamente nossas pisadas de bola e nossas mancadas, sem punições ou autoflagelos. Quem não dá testadas nessa vida de quando em vez? Que sejam momentos de introspecção positiva. Momentos de rever nossos planos, conceitos e preconceitos daninhos. Coragem para, tudo revisto, assumir posturas claras. Coragem para não esquecer que ninguém é eterno e que a vida é efêmera como uma florzinha no campo. Exatamente por isso não vale a pena ficar ruminando em cima daquela questiúncula miudinha e pequena. Coragem para dizer diretamente o que tem a ser dito, mas de forma tranqüila, serena e verdadeira, como só os corajosos sabem fazer. Os fracos de alma sentem a necessidade de dizer por terceiros, de mandar recados. Aliás, não é necessidade: é falta de opção. É a única forma que sabem fazê-lo. Então, que aprendam outras formas em 2009.
Que em 2009 aquele dia anual de cabeça quente sirva para aquecer o coração. Explodir para quê? Que o calor da cabeça gere energia termoelétrica para processar as perguntas sem respostas, refletir a vida, refletir as tomadas de rumos, refletir os novos momentos e sua significação. Refletir a reflexão. Dormir antes de decidir.
Que 2009 seja um ano de tolerância. Que se perceba que as pessoas são diferentes e que nessa diferença reside a beleza de uma relação. Mapear o amor que sentimos e que funda nossa relação com os outros é uma das tarefas mais primordiais e gostosas de qualquer relação. É bom demais construir nossa história, riscar nossos corações nas árvores dos fatos, nas calçadas da mente. E lembrar, sem dramas, que cada um às vezes precisa de um minuto sozinho no seu cantinho. Não é nem preciso verbalizar essa necessidade para o outro. O amor proficiente no amor aprende a ler silêncios, textualizar olhares, significar sorrisos e gestos. Enfim, compreende a necessidade de transcender as palavras enunciadas. O não-dito grita o que as palavras calam.
Que em 2009 aquele velho conselho de Victor Hugo prevaleça: tenha dinheiro, mas não esqueça quem manda em quem. Dinheiro é conseqüência e não meta. Pense nisso, mas não se desvalorize enquanto profissional. A felicidade no trabalho é elemento importante para o equilíbrio da felicidade global, mesmo que por vezes ela pareça encurralada por desânimos e sensações de imobilidade. Os ritmos das pessoas para a cadência da vida são diferentes: alguns sambam, outros valsam. Alguns bregam no Calypso, outros viajam na mais deliciosa MPB. Ninguém muda tudo, mas alguma coisa se muda. Concentre-se nesse alguma coisa e toque a canoa que o chibé lhe espera.
Que em 2009 as pessoas façam algo que nunca fizeram. Ou porque não gostam ou porque não tiveram chance. Que descubram nessas coisas diferentes um prazer diferente. Que tomem Guaraná Baré, comam tucumã no pão, bife com ketchup. Que criem coragem para provar Yaksoba e beringela. Que assistam filmes do Almodóvar , experimentem uma bala de araçá-boi. Que se desapoquentem ouvindo Jorge Aragão ou Carpenters. Que assistam ao Domingão do Faustão e se deliciem com aquelas velhas videocassetadas de dez anos atrás. Que tome um delicioso banho de chuva a dois ao som de “Que maravilha”, cantada pelo Toquinho. Que leia um livro à cama, trocando calorzinho pelos pés que se chamegam por baixo do edredom. Que comam o doce abio e riam juntos do beijo de boca grudenta que a fruta proporciona. Que riam dos outros e, acima de tudo, riam de si. Aprender a ri de si é fundamental.
Que em 2009 a saudade venha e venha forte. Só sente saudade quem viveu intensamente. Que haja vida intensa no ano que rebenta. Que essa intensidade não signifique assoberbamento, mas compactação, viçosidade e viscosidade ao vinho da celebração aos fatos. Que brindemos à vida sem ficar de porre, mas apenas levemente felizes.
Que 2009, enfim, seja seu ano. Ao desejar um Natal maravilhoso, peço a você que me lê para não esquecer algo fundamental: de dar os parabéns ao aniversariante.
Meu último mas nem por isso menos importante desejo é o de que em 2009 minha lista de desejos tenha apenas uma frase: um 2010 igual a 2009: feliz. Aliás, feliz é uma palavra muito linda.

Sérgio Freire

Vamos pecar em 2009!

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[Um texto de 2007, desejando muitos pecados em 2008, adaptado para 2009…]

Nesta época, nossas caixas-postais se enchem de reflexões. Particularmente, espero que cada um de nós exercite seu lado pecador em 2009. Um mundo novo sempre é possível se capricharmos nos pecados capitais.

Que a ira acometa o coração de todos nós. Que nos iremos contra as injustiças, contra o terror, contra as formas de fazer o mal. Que a cólera nos tome em acessos para que, com os dons a nós dados gratuitamente pelo bom Deus, possamos fazer diferença na defesa dos fracos e humildes. Que o furor de cidadania guie nossas ações contra um mundo indignamente famélico num planeta farto.

Que em 2009 tenhamos gula. Gula de amores, de carinhos, de solidariedade. Que sejamos vorazes em nosso consumo de bom humor. Glutões de paz, que possamos rir soltos juntos às crianças, ajudar a um desconhecido, abrir a porta para alguém, devolver uma carteira forrada de grana ao dono. Que consumamos mais amizades, de todas as cores e sabores.

No ano que nasce, que brote em cada de um nós uma luxúria desenfreada. Por que não se esbaldar sem rédeas de vez em quando? Por que não deixar as crianças pisarem na areia, comerem uma barra de chocolate? Que tenhamos um tempo para pequenos prazeres com nossos irmãos. Que resgatemos o gosto do sorvete de domingo. Que o viço retorne à nossa vida, se por acaso tivermos permitido que ela tenha desbotado.

Um ano novo começa. Que tenhamos muita inveja nos próximos 365 dias. Inveja de quem faz trabalho voluntário, de quem vive pensando no outro, de quem cuida de si, de quem cresce sem derrubar os outros. Invejemos a pureza e a inocência das crianças. Permitamo-nos cobiçar a mulher do próximo para querê-la bem e para aproximar mais o próximo da gente. Muita inveja da capacidade de catalisar o bem para todos nós em 2009.

Que a virada do ano nos traga momentos de muita preguiça. Preguiça na hora de fazer atos ou praticar omissões que só façam mal, na hora de corromper o guarda, de praguejar, de cometer o menor dos delitos. Que cada vez que formos convocados para o mal em suas várias formas possamos usar nossa mandriice como álibi. E se o malvado que lhe convidou lhe perguntar o que que é isso, mande-o pastar.

2009 é um bom ano para ser avaro. Sejamos econômicos com nosso mau-humor e com nossos momentos nervosinhos. Sejamos morrinha quando as situações conspirarem para sermos mesquinhos: que nessa hora pensemos somente em nós. Pensemos que não vale a pena fazer nada contra os outros. Pensemos em suas coisas em 2009: na nossa família, nos nossos filhos, nos nossos amigos, no nosso mundo. Sejamos sovinas de fofocas, de maledicências, de derrubações.

Sejamos, por fim, bastante orgulhosos no ano novo. Tenhamos orgulho de nossos aprendizados, de tal forma que possam servir de exemplo para os que vêm depois de nós. Sejamos presunçosos quanto à nossa capacidade de fazer um mundo melhor. E não nos acanhemos em sermos arrogantes com os que não acreditarem em nós quanto a isso. Assoberbemo-nos de boas intenções para o raiar do primeiro dia do ano.

“Pecar” significa “errar o alvo”. Pois que erremos o alvo. Desejo que pequemos muito e com fervor. E sejamos felizes. É o que lhe desejo para 2009: doces pecados capitais para uma vida melhor e mais feliz. E quem não quer ser feliz que atire a primeira pedra.