2023

Inteligência Artificial e Educação

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A popularização de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), como o ChatGPT (Chat Generative Pre-trained Transformer), vai requerer um movimento necessário no processo educacional.

O Chat-bot de IA, como ChatGPT, é um chat de inteligência artificial treinado e projetado para simular conversas entre humanos. O modelo de rede neural utiliza em seu treinamento e aprendizado um enorme banco de dados de textos. Por isso, aprende a gerar conteúdo, frases e parágrafos naturais e compreensíveis para os humanos, com respostas detalhadas. Se se escrever: “Escreva um artigo sobre a importância da água para a vida humana”, o GPT gerará um artigo sobre o assunto automaticamente, com detalhes.

“Como isso pode impactar o processo educacional?”

No processo metodológico, o GPT pode produzir respostas para conteúdos estudados, auxiliando o aluno no aprendizado sistemático de sala de aula. Teria, assim, função parecida com os vídeos do YouTube no reforço do aprendizado. Assim, é um recurso a mais para se trabalhar naquilo que temos chamado de sala de aula aumentada, o ambiente de aprendizagem que vai além do espaço físico e sistemático de aprendizado. Ponto positivo.

“Como o GPT pode impactar positivamente o processo de ensino-aprendizagem?”

1. Gerando conteúdo de alta qualidade: o GPT pode ser usado para gerar conteúdo educacional de alta qualidade, como artigos, resumos, perguntas de múltipla escolha e mesmo aulas inteiras. Isso pode ajudar os professores a economizar tempo e esforço, enquanto fornecem aos alunos conteúdo relevante e atualizado;

2. Melhorando a personalização da aprendizagem: o GPT pode ser usado para personalizar a aprendizagem de acordo com as necessidades e habilidades individuais dos alunos. Isso pode ajudar os alunos a progredir em seu próprio ritmo e aumentar a eficácia da aprendizagem;

3. Gerando feedback automático: o GPT pode ser usado para gerar feedback automático para os alunos, o que pode ajudar os professores a fornecer orientação rápida e precisa;

4. Ajudando alunos com dificuldades de leitura ou escrita: o GPT pode ajudar os alunos com dificuldades de leitura ou escrita, gerando textos simplificados, crítica à produção do aluno (ele corrige produz e corrige códigos de programação, por exemplo), ou traduções;

5. Aumentar a eficiência de ensino: O GPT pode ser usado para aumentar a eficiência do ensino. Por exemplo, automatizando tarefas de ensino como a correção de provas e a elaboração de relatórios.

“Mas e os impactos negativos? É uma ferramenta e como tal pode ser utilizada de forma ruim. Como o GPT pode impactar negativamente o processo ensino-aprendizagem?”

O GPT pode impactar negativamente o processo ensino-aprendizagem de várias maneiras:

1. Encorajando a cópia: o GPT é capaz de gerar textos muito semelhantes aos textos de humanos, o que pode levar a cópia de conteúdo sem compreensão, crítica ou reflexão;

2. Reduzindo a motivação para pesquisar: o GPT pode fornecer respostas rápidas e precisas, o que pode levar a uma diminuição na motivação dos alunos para pesquisar e aprender por conta própria;

3. Desencorajando a criatividade: o GPT é capaz de gerar conteúdo com muita rapidez e precisão, o que pode desencorajar os alunos a serem criativos e a pensar de forma independente;

4. Falta de pensamento crítico: o GPT pode fornecer respostas precisas, mas sem questionar a veracidade ou relevância do conteúdo, o que pode levar a falta de pensamento crítico dos alunos. Lembrando: são bancos de dados e dados são produzidos por humanos.

É importante lembrar que o GPT é uma ferramenta e como qualquer ferramenta agregada ao ensino é preciso que seja utilizada de forma consciente e orientada para que os alunos possam se beneficiar do potencial sua utilização de forma crítica.

“Mas o que nós, professores, podemos fazer agora, agorinha, enquanto a gente aprende o que é isso e como incorporar a ferramenta em nossos processos metodológicos? E como avaliar? E o plágio?”

O primeiro movimento para os educadores é conhecer o que é um chat-bot IA e cartografar seu uso potencial, positivo e negativo, para o processo ensino-aprendizagem. Não me parece inteligente negar que sua existência e seu potencial de afetar o processo de ensino-aprendizagem.

Penso que a primeira reação, em urto prazo, vai ser a alteração do processo avaliativo. Deverá haver uma volta para avaliações presenciais, como forma de garantir a autoria da produção do aluno. Produções em grupo e fora da sala de aula serão evitadas por redução drástica de controle de plágio. É um movimento reativo de controle. Se eu, professor, não posso controlar a produção de cópia de textos, ainda mais com sua potencialidade aumentada por uma ferramenta de IA, vou tentar reduzir os danos controlando o ambiente de produção do aluno…

Uma opção mais inteligente, mas mais trabalhosa, em médio prazo, é incorporar a avaliação da interação do aluno com o GPT no processo de produção. Fazer o aluno trazer o relato dos caminhos que percorreu para que o GPT produzisse, sob sua demanda, o texto. Meta-aprendizagem.

Há muita coisa a se pensar sobre isso. Há questões éticas, teórico-metodológicas, de política de acessibilidade digital, de formação de professores… enfim, um grande desdobramento para os pensadores da educação e para os sujeitos da sala de aula.

Isso aqui é só um pequeno texto provocativo. Mas o fato é que mais uma vez educadores são demandados pela vida real para que repensem suas práticas, tarefa, convenhamos, necessária e diária. A meu ver, isso deve ser feito sem demonizar as novidades, mas as deglutindo antropofagicamente.

É o desafio.

Para experimentar o ChatGPT: https://openai.com/blog/chatgpt/

Sobre linguagem e Todes

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Todes

A primeira-dama Janja, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e cerimonialistas usaram a palavra “todes” em cerimônias ao longo da primeira semana do governo Lula.

“Todes” não faz parte da norma-padrão da língua portuguesa. No entanto, vem sendo utilizada como uma palavra para se dirigir a pessoas não-binárias — que não se identificam exclusivamente com o gênero masculino ou com o gênero feminino.

A primeira coisa que devemos entender para compreender a questão é o conceito de língua que se sustenta para abordar a questão. Pode-se entender a língua como sinônimo de norma-padrão, a norma de investimento, a linguagem “oficial” que está nos livros, jornais, concursos, revistas, que segue a gramática e suas regras cristalizadas nos compêndios. Se entendemos língua assim, “todes” não cabe. Fim de papo.

Pode-se entender língua, no entanto, como algo histórico e dinâmico, com a oralidade sendo o reflexo mais preciso do seu tempo — a língua muda primeiro na oralidade para muito depois a mudança chegar ao uso na língua padrão. Entender língua assim abre para outras questões.

Uma dessas questões é a de que a língua serve para comunicar, mas que também serve para não comunicar; serve para incluir e para excluir. A língua é, portanto, política em sua natureza. Em sendo política, ela é arena de disputas ideológicas. Logo, o uso de “todes” e de outras palavras e locuções ligadas à chamada “linguagem neutra” — que de neutra não tem nada do ponto de vista ideológico —, é uma marcação, uma tomada de posição política em relação às questões de gênero. Por isso incomoda.

As questões de língua nunca são só questões de língua. São sempre questões sociais. O preconceito linguístico não é contra a língua, mas contra quem usa aquela língua. Vale para palavras, vale para sotaques, vale para grupos em geral. A sociolinguística estuda isso há anos.

“Sim, professor, mas é certo ou errado usar ‘todes’, afinal?”

A pergunta linguística não está na dicotomia certo/errado, mas no binômio adequação/inadequação. Vamos pensar língua como roupa. Todo lugar tem, convencionalmente, um dress code adequado. Uma cerimônia de casamento requer, historicamente cristalizados, certos tipos de roupas. Posso ir de tênis e jeans? Posso. Mas isso vai significar algo, vai gerar um efeito de sentido, desnaturalizando o naturalizado. Se alguém vai a um casamento vestido de tênis, jeans e uma camiseta estampada, o significado pode ser: “estou aqui, mas não concordo com alguma coisa disso e minha forma de me posicionar é desafiando o estabelecido.”

O mesmo raciocínio vale para o uso da língua. Se eu acho que esses pronomes ou termos não me representam e agridem a minha subjetividade, vou protestar não usando mais ou substituindo por outros que os desafiem e que me posicionem politicamente de forma bem clara.

“Mas isso em qualquer lugar e circunstância, professor?” Depende do quanto você está disposto a enfrentar o já estabelecido. Sempre há preços a pagar em lutas contra o establishment, inclusive o establishment linguístico.

Usar “todes” em cerimônias de um governo que se propõe inclusivo em relação aos grupos minorizados é perfeitamente adequado como sinalização linguística de um posicionamento político; bolsonaro — em letra minúscula, como marcação política — não usaria em seu governo excludente.

Usar “todes” na redação de um concurso que define a norma-padrão como regra — a não ser que o tema seja esse — não é adequado para quem quer passar no concurso. “Ah, mas eu quero. Foda-se!”. Ok. Legítimo. Mas vai pagar o preço da reprovação pelo posicionamento político. E ok.

O uso da língua nos posiciona politicamente. Uma luta por espaço político requer tomada de posição e embates, com preços a pagar por aquilo em que acreditamos. O grau de adequação depende de quão desafiadora é a questão: quanto mais desafiadora for, mais incômodo vai causar.

Mas é assim que se mudam as coisas. A língua é, sim, dinâmica, histórica, social. A norma-padrão tem seu lugar e é necessária. Não vamos demonizá-la também. Porém não é o único uso da língua. A oralidade a precede no uso. A escola precisa discutir o que estamos discutindo aqui.

A língua não é estática e acolhe as mudanças sociais, embora sempre o faça com resistência. É o lugar de embates ideológicos por excelência. Aborto/Interrupção de gravidez? Presidente/Presidenta? Golpe/Revolução? Milhares de exemplos de briga pelos sentidos. É só cavucar.

Se o inadequado na língua é o que lhe subjetiva, desafie pela língua o inadequado na prática social até ele virar socialmente adequado e até refletir na língua-padrão. O caminho é longo, a luta é árdua e vão resistir. Requer às vezes ir vestido de Batman para um casamento.

Este governo, ainda bem, deixa entrar o jeans e o cocar numa cerimônia social de posse de ministros. Este governo deixa entrar não só quem detém o poder econômico, mas todos, todas e todes também. Embora meu corretor ortográfico ainda sublinhe aqui ‘todes’ como erro.

“Mas o certo e o errado?” O certo é incluir quem está excluído. Socialmente e na linguagem. E na guerra linguística, como em qualquer guerra, é preciso pensar nas estratégias adequadas para vencer as batalhas.

Há o tempo e o lugar. E há o tempo e lugar. O vale-tudo todo tempo não é inteligente. É isso, por enquanto.

Fiquem bem. Todos, todas e todes.