aluno

Discurso de Formatura

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[Os alunos de Letras/UEA se formaram hoje. Eles escolheram meu nome para dar à turma. Fico muito envaidecido pela escolha. Estive lá e fiz esse discurso].

 

Um discurso de formatura tem de ter algumas características. Tem de ser breve para não ser chato, tem de ser claro para ser compreendido e tem de ser leve para não ser ignorado. Ao receber o convite da turma, assumi o desafio de escrever um texto com essas características. Fiquei pensando em que escrever…

A brevidade, eu buscarei prometendo não me alongar, como prometem todos os que discursam. Para a clareza e em busca da leveza farei uma analogia da formatura de vocês com o casamento, assunto do qual entendo muito bem, tendo passado por três deles até agora.

Percebo nos dois processos muitas semelhanças. Senão vejamos:

Antes de subir a um altar com alguém, tomamos os primeiros contatos. São momentos de descoberta, de mapeamento do outro, de decisões constantes entre parar ou ir adiante numa relação que por algum motivo nos chamou a atenção. Pare, pense um pouco e se pergunte: em que momento me defrontei com essa profissão de professor e em que momento me vi seduzido por ela? Em que momento eu senti o frio na barriga ao achar que poderia ser ela, dentre as várias que se ofereciam faceiras? Será que embarco ou não nessa relação? Ela terá futuro? Serei feliz com ela para o resto de minha vida?

Tornado público o namoro, começam as cobranças: como é que você vai namorar justamente com ela? Que futuro lhe aguarda, meu filho? Case com a advocacia, a medicina, a engenharia… Namoro sem futuro… A pressão é grande. Dos amigos e às vezes da própria família. Mas a decisão está tomada: “quando o coração da gente se apaixona, fica frágil, fácil de se entregar”, já diz o sertanejo Daniel. E a gente segue em frente. As coisas vão ficando sérias e de repente: pum! Noivado!

Perguntas pipocam com uma fertilidade nordestina: “tem certeza? Olha, menino, isso é muito sério!” Mas você tem a certeza e fica noivo. O noivado é o pré-casamento. É o momento da escolha e do inicio do curso, da formação. Primeiro período. Segundo período. Sofrimento. A relação fica mais intensa, mais exigente, mais íntima. Quando brigamos ou encontramos dificuldades pensamos em desistir, buscar uma outra paixão, começar tudo de novo. Alguns desistem. Alguns correm para outros braços e abandonam o que de gostoso tiveram e os encantos que o seduziram no início. A vida é assim. Se não é para ser feliz é melhor mesmo partir para outra. Mas muitos de nós sabemos, por outro lado, que não há relação sem desgaste, sem brigas, sem vontade de jogar a tolha de quando em vez. E muitos de nós, como vocês, insistiram.

Decidido o casório, vem o curso de noivos. Nas licenciaturas é o estágio. Num curso de noivos, um padre me disse uma vez que quanto maior o índice de desistência mais eficaz é o curso. O objetivo, disse ele, é fazer as pessoas entenderem que o casamento é algo muito sério e que não dá para brincar com ele. Se os noivos concluírem que é melhor terminar por ali, melhor. O estágio mostra ao aluno que nem sempre aquilo que o amigo ou a amiga disse sobre relacionamento a dois é verdade. Que o mar de rosas só existe na teoria. Na prática, faltam muitas coisas. “Na prática, a teoria é outra”, ecoa o ditado. Muitos se assustam e dizem: “estou fora!”. Muitos dizem “eu sei que é difícil, mas acho que dá pra ser feliz”. Quem sobrevive a isso, manda preparar os papéis para o casamento. E casar custa caro. Além disso, tem que definir algumas coisas: comunhão total ou parcial de bens? Cadê a certidão de batismo? Por onde a certidão de nascimento? Cadê os certificados das  horas de atividades complementares? Meu Deus! Descobriram que o Departamento Acadêmico não tem meu diploma do ensino médio. Corre-corre danado. Casar é preciso e se formar é preciso. De repente, tudo pronto.

Hoje vocês estão aqui para a cerimônia oficial. Casam-se com a profissão que conheceram, que namoraram, com a qual noivaram. De hoje em diante, vão viver oficialmente o cotidiano de uma relação que vai até o resto da vida, porque o que Deus uniu o homem não separa. O diploma conquistado, ninguém tira. E para isso tiveram o seu dia de noiva. Foram ao cabeleireiro, usaram creme, pintaram unha, se empetecaram todos.

Saibam que aqui começa um grande desafio. Saibam que qualquer relação a dois envolve tantas coisas boas e más, sonhos e pesadelos, alegrias e tristezas, saúde e doença. Saibam que o casamento sofre com a rotina, como sofre também a profissão. Saibam que há momentos em que pensamos em desistir, porque o outro lado parece não nos compreender. Saibam que vocês, no curso da profissão, serão seduzidos por outras profissões. Poderão até ter um casinho ou outro fora do casamento com o magistério, quando esse abrir lacunas, como acontece na vida a dois, apesar de não ser esse o desejado nos relacionamentos em nossa sociedade. Mas se houver amor mesmo, depois da crise, a gente sempre volta. De coração aberto, com carinho e com paixão. E saibam que a maior responsabilidade serão os filhos. Na vida a dois, seus próprios. Na profissão, os dos outros, o que aumenta a responsabilidade. Educar é formar mentes e corpos para uma sociedade mais justa e mais fraterna. Essa é a missão do professor.

O professor não pode, por fim, esquecer que seu casamento não irá nunca prosperar se ele não compreender que ele, o casamento, se dá em uma dada conjuntura política e social. Que não há como viver uma vida a dois sem esquecer do resto, do ambiente que nos circunda. Que a vida fora da sala de aula é o objetivo da vida dentro da sala de aula. Que uma educação sem significação social é fadada ao insucesso. A educação é um ato fundamentalmente político, como nos dizia Paulo Freire já no fim da década de 60. E por político entenda-se aqui não só o político-partidário. Também. Mas o político no sentido etimológico da polis, da cidade. Do envolvimento com a cidade, do compromisso da cidadania.

Termino dizendo que é neste tripé que a vida, seja afetiva ou profissional, se sustenta. Na ética, no compromisso e no respeito ao próximo. Ética que funda uma sociedade mais equânime, compromisso com o fazer educacional significativo e respeito à diversidade das identidades dos outros. Com isso, a relação de vocês com a profissão que nessa cerimônia é abençoada pela presença dos seus entes queridos será uma relação feliz. Como feliz é também uma relação de casamento que considera o compromisso e o respeito ao próximo, sustentada por uma ética humana. Que Deus abençoe cada um de vocês. E que vocês sejam felizes para sempre. Amém.

Eternos alunos

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 Adoro dar aulas: pessoas reunidas em volta do fogo da curiosidade, como faziam na pré-história os homens em torno do fogo para se aquecer. Uma das belezas em ser professor é a possibilidade de conhecer muita gente. São 26 anos de magistério. Tenho colegas de trabalho que foram meus alunos. Tenho alunos que foram meus colegas de trabalho. São muitos os que me deram o prazer da convivência. Esse percurso fez-me pensar nos tipos de alunos que temos. Se você é professor vai saber do quer estou falando.

O primeiro tipo de aluno é o sabe-tudo. A cada frase do professor, o sabe-tudo levanta a mão. Se deixar, ele fala a aula inteira. Adora testar o professor. Por isso faz par com o desconfiado. O desconfiado assiste à aula com uma sobrancelha alta e outra baixa, como quem diz: “será que o que esse cara sabe do que está falando?” Esparrama-se na cadeira e põe a mão no queixo, como O Pensador de Rodin.

Há também o aluno concordante. É terminar uma frase e ver o concordante concordando, com sua cabeça de mola para cima e para baixo. Mas diferente do sabe-tudo, ele é humilde. Sabe que a educação pode lhe acrescentar algo. Ele concorda convencido. O que concorda para agradar é o puxa. Tive uma aluna que dizia: “Bom dia, professor. Sua aula é a razão de eu estar aqui hoje”. Descobri que ela dizia isso a todos os professores. E eu me achando.

Outro tipo é o reverente. Para ele, o professor é mestre, digníssimo ou, em caso de reverência suprema, digníssimo mestre. Sempre comenta as “sábias palavras muito bem colocadas pelo mestre”. Outra figura é o dialogador pós-aula. A aula termina e o dialogador se aproxima, devagarzinho, e começa a comentar a aula, acompanhando o professor até a sala dos professores. É um momento de individualização do ensino. O paciente é mais um tipo presente. Ele é paciente no sentido médico. O professor é Dr. Freud e dele o paciente espera conselhos sobre sua vida, trabalho, planos ou qualquer encruzilhada existencial.

Há o spammer, que lota o e-mail do professor com mensagens imensas. Os spammer são inofensivos quando se tem um bom antivírus. Há o citador, que a cada aula manda: “Como dizia Paulo Freire, ‘não há docência sem discência’”. O citador trabalha com palavras-chaves: é ouvir uma que está indexada e disparar de pronto. Se você for professor homem, um tipo típico é a apaixonada. Ela joga charme e o chama de fofo. Quer dizer, não precisa ser professor homem, não… Enfim, as paixões no contexto educacional existem, mas são despertadas mais pelo lugar simbólico ocupado pelo professor do que por suas qualidades pessoais intrínsecas.

Há ainda o follower e friend de redes sociais. Às vezes, o aluno esquece que o professor o segue e fala sem filtros pelos cotovelos digitais. Cutuca o(a) professor(a) e leva cutucão de volta no Facebook. Além, é claro, de assistir à aula com o computador ligado e logado na internet, fingindo que está prestando atenção na aula enquanto bate o maior papo no Gtalk.

Poderia elencar mil tipos, mas é dispensável. Cada professor que faça sua lista. Como entendo deste assunto, só usei o espaço para fazer uma breve colocação, ainda que desconfie que você possa não gostar do texto. Se você discordar, tudo bem: o leitor é quem manda. Só saber que você está me lendo torna meu dia melhor. Qualquer dia desses, digníssimo leitor, a gente conversa e conto minha vida. Tenho certeza que sua opinião vai me ajudar. Por enquanto, a gente se comunica por e-mail. Vou enviar uma linda mensagem de apenas oito megas para você refletir. Porque é como dizia Barthes: “o autor está morto. É o leitor que constrói o sentido de um texto”.  A propósito, sou apaixonado por nossa relação. Peraí! Estão me chamando aqui no Gtalk. É… não tem jeito: somos eternos alunos.

O Sal da Terra

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Discurso proferido na festa de formatura da Turma de Letras, Língua Inglesa, da Universidade Federal do Amazonas, em 19/02/2011, turma da qual fui paraninfo.

Anda, quero te dizer nenhum segredo/ Falo nesse chão da nossa casa/ Vem que tá na hora de arrumar / Tempo: quero viver mais duzentos anos/ Quero não ferir meu semelhante / Nem por isso quero me ferir/ Vamos precisar de todo mundo/ Pra banir do mundo a opressão/ Para construir a vida nova/ Vamos precisar de muito amor/ A felicidade mora ao lado/ E quem não é tolo pode ver / A paz na Terra, amor!/ O pé na terra/ A paz na Terra, amor!/ O sal da …/ Terra: és o mais bonito dos planetas/ Tão te maltratando por dinheiro/ Tu que és a nave nossa irmã/ Canta, leva tua vida em harmonia/ E nos alimenta com teus frutos/ Tu que és do homem a maçã / Vamos precisar de todo mundo/ Um mais um é sempre mais que dois /Pra melhor juntar as nossas forças/ É só repartir melhor o pão/ Recriar o paraíso agora/ Para merecer quem vem depois / Deixa nascer o amor / Deixa fluir o amor/ Deixa crescer o amor/ Deixa viver o amor/ O sal da terra…

A música e a poesia são caminhos para eternizar na memória afetiva momentos que representam as dobras no origami de nossas vidas. Formar-se: pôr-se numa forma, pôr-se numa fôrma. Que forma, que fôrma? Não, eu não vou assumir a responsabilidade de lhes dizer isso sozinho, mas eu vou assumir a responsabilidade da escolha da música que vai mapear o que eu tenho para lhes dizer. Empresto de Beto Guedes a sua O Sal da Terra.

O que vou lhes dizer, meus queridos amigos, não é nenhum segredo. E lhes trago o óbvio porque no óbvio estão as bonitezas que passam batidas aos olhos acostumados. É preciso desacostumar os olhos para o óbvio. Essa é a matéria prima dos poetas, dos artistas, do bom professor.

Eu falo nesse chão da nossa casa. Falo do nosso planeta. Falo da Terra. Mas estendo a música metaforicamente para o nosso planeta individual, nossa alma, nossa vida, onde moramos. Venham! Aproveitem essa dobra do origami de suas vidas, esse momento de alegria, para junto com os seus arrumarem as coisas, arrumarem a casa naquilo que vocês sabem que precisam de um olhar arrumador.

Tempo: quem não quer viver duzentos anos? A nossa forma de se perenizar é estar presente em quem por nossa vida passa, nas conversas, na sala de aula, no carinho, nos ombros, nos silêncios, nos conselhos. Mais longevos seremos quanto mais não ferirmos os nossos semelhantes, quanto menos nos ferirmos. Nós temos o desafio de fazer com que cada pessoa que venha até nós, ao sair do nosso encontro, saia uma pessoa melhor, mais feliz, menos amarga. E isso não é um trabalho individual: nós vamos precisar de todo mundo para banir do mundo a opressão.

Não, isso não é idealismo piegas. O que torna a leitura desse desejo algo piegas é a incapacidade embrutecida de alguns que já desistiram. São esses, meus lindos, que precisam de nós que resistimos acreditando na amizade, no afeto, no amor. Eu acredito no amor. Nós vamos precisar de todo amor para construir a vida nova.

Ser feliz. Guimarães Rosa diz que “a infelicidade é questão de prefixo”. Quem sou eu para discordar de alguém que diz que “professor nem sempre é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”. Eu aprendi, meus queridos amigos, que ser feliz é uma escolha. A escolha de eliminar o prefixo. Vamos lá! Vocês se graduaram em Letras! Vocês sabem do que eu estou falando! A felicidade mora ao lado e  quem não é tolo pode ver.

A paz na Terra, meus amores. Precisamos de paz entre os homens. Precisamos de paz entre os pais. Precisamos de pais entre os filhos. Precisamos de paz entre os irmãos. Precisamos de paz entre os amigos, precisamos de paz entre os colegas, precisamos de paz entre professor e aluno. Precisamos construir a paz entre os inimigos. Nós, professores, temos a bela e desafiadora missão de ser construtores de paz, de pontes para serenidade do mundo. Portanto, tenham o pé firme na terra e tenham certeza do que vocês querem, mas não se esqueçam dos preços para chegar lá. Há preços altos. Nenhum objetivo vale subjugar um semelhante. Nenhum.

Ecossistema é muito mais do uma discussão chata sobre meio ambiente. Ecossistema é a nossa própria vida. Ortega y Gasset, filósofo, dizia com propriedade: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”. Cuidem das suas circunstâncias. É de si próprios que vocês estarão cuidando.

Não se maltratem e nem maltratem ninguém por dinheiro. Trabalhem, mas não esqueçam do tempo para os seus. “A abelha fazendo o mel vale o tempo em que não voou”. Sobre o dinheiro, Victor Hugo nos dá a deixa: “Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga ‘Isso é meu!’ só para que fique bem claro quem é o dono de quem”.

Harmonia. Levem suas vidas em harmonia. Quando vocês, jovens, chegarem à minha idade saberão porque sempre eu desejo serenidade ao cumprimentar alguém pelo seu aniversário. Porque a serenidade é um das qualidades mais importantes para lidar com as desigualdades do mundo, com as injustiças da alma, com os caracteres rotos que vez por outra grassam no jardim de nossa existência. A serenidade traz o equilíbrio e o equilíbrio traz a harmonia.

O que estou lhes dizendo, meus queridos amigos, não é nenhum segredo. É o óbvio. Vocês são os frutos dessa Terra. Alimentem quem vier com fome. Vocês são a água do conhecimento. Saciem a sede dos que vierem beber. Nós vamos precisar de todo mundo. Um mais um é sempre mais que dois.

Para melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão. Sejam justos. A justiça é a melhor cama do homem e a injustiça a sua cama de prego. Com justiça, preparemos um mundo melhor para quem vem depois. Precisamos merecer quem vem depois. O mundo não se encerra em nós. Nós é que nos alongamos no mundo. Resta escolher como.

Eu termino pedindo para que vocês ouçam a música do Beto Guedes. Mas mais do que isso: leiam a música de Beto Guedes. E deixem nascer o amor, deixem fluir o amor, deixem crescer o amor, deixem viver o amor. O amor é o sal da terra. Essa é a forma. Essa é a fôrma.

A última frase do professor Sérgio Freire nesse ciclo que finda: Não se apequenem para o mundo pequeno. Sejam felizes, grandes e bonitos, como o mundo, como a vida.

Muito autoritarismo e pouca autoridade

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Discursos...A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no ‘You Tube’.

Fiquei pensando sobre o caso desde quando aconteceu. Li opiniões e comentários, tanto os que criticavam a ação dos alunos assediadores quanto os que parafraseavam em suas críticas o ato dos alunos agressores e, com isso, justificavam tal ato como resultado da provocação da moça. Dá para tentar compreender o fato de vários ângulos. Entro nele pela linguagem.

Parece que as opiniões se filiam, grosso modo, a dois discursos. O primeiro seria o discurso da “moralidade sexual” e dos “bons costumes”. Geisy foi “imoral” ao usar um vestido curto, provocando os assediadores que a perseguiram, “desrespeitando os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”, como diz a nota da Uniban que comunica sua expulsão.

O que seria o segundo discurso se caracterizaria, em tese, pelo respeito à “liberdade de se vestir e de se portar”, do “reconhecimento ao direito das mulheres”, da revolta contra o “preconceito”, do direito à  “democracia”. Segundo ele, todos têm o direito de, não vivendo na ditadura da burca, circular com bem entender. É a ideia de base.

Retirei palavras e sintagmas entre aspas dos comentários em blogs e no Twitter. Há variações, mas sempre são variações sobre esses dois temas: o da condenação da licensiosidade (a vadia mereceu!) e o da condenação do autoritarismo (alunos bárbaros!). Mudam-se as palavras, frases, comentários, piadas, mas ou se está em uma enunciação ou na outra. Qual é a sua?

Condenar a aluna pela saia curta ou condenar o ato dos alunos e agora a posição da universidade, filia o sujeito que condena a um discurso. Em sua nota, A Uniban diz que “a educação se faz com atitude e não com complacência”. Com isso, ela própria, como instituição, assina embaixo que concordou com o ato dos alunos, parafraseando de novo seu ato (dos alunos) com sua atitude (da universidade).

O que a primeira enunciação conceitua como abuso, a segunda chama de direito. O que a primeira chama de exagero, a segunda conceitua como liberalismo. O que a primeira conceitua como provocação, a segunda chama de preconceito. E vão-se infinitamente as falas diametralmente opostas porque vêm de discursos pretensamente diferentes e excludentes. Mas seriam mesmo dois discursos? Um da moralidade e um da democracia?

Todo discurso é funcionamento, prática. Discurso não é o quê se diz, mas como se diz e de onde se fala. Assim, na condenação moral à moça – leia-se moral cristã fundamentalista –, a imoralidade também se faz presente na total ignorância das regras de convivência social. E estou falando agora do comportamento instintivo dos alunos. Pensa-se assim: quando alguém passa dos limites que julgo razoável, tenho que suprimir esse alguém para resolver a desfeita. Superar a diferença é uma opção impensável. Para ficar na mesma linha de raciocínio, a título de exemplo: e se Jesus estivesse na Uniban naquela hora? Gritaria ele, como fizeram os alunos, “Pega a vadia! Liberta essa puta do cativeiro!” ou a cobriria com seu manto? Sentiu o drama?

Da mesma forma, na condenação ao ato dos alunos e da Universidade, podemos ver palavras cheias da intolerância e desrespeito à diferença. Alguns, se pudessem, pegariam os alunos e o reitor e os queimariam ou os empalariam em praça pública. Lei de talião pura. Olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazem na prática discursiva o mesmo que condenam na retórica linguística. Não, não adianta dizer que eu sou um reacionário defendo quem quer que seja. Se você está pensando assim, lembro que é de novo seu discurso dando os sentidos para os fatos. Só estou explicitando como os sentidos se fazem pela linguagem que, como disse, é minha praia e aonde vou de sunga, gostem ou não.

O que estou dizendo é que o que parecem dois discursos, por suas expressões linguísticas e enunciações diferenciadas, são de fato o mesmo discurso: o da intolerância, da irracionalidade motivada pela condenação do pensamento diverso, o discurso do pega pra capar. Há, no entanto, um outro discurso: esse sim é diferente porque condena a intolerância em todos os níveis e preza pela superação das diferenças dentro das regras jurídicas e sociais coletivas. Ainda bem que vi isso rolando também nas opiniões. O pensamento de base é: “Se há algo nas regras da Uniban proibindo saia curta, a moça errou e deve receber a punição prevista para a regra que quebrou. Se não há, morreu a história para ela. Se os alunos agressores igualmente quebraram alguma regra social, e devem tê-lo feito pela coisa cabeluda que foi, devem ser punidos também por quem de dever, no caso a Universidade”. Tolerância com o diferente, sem esquecer o respeito às regras. Ponto.

Agora sim, minha opinião. E, claro, ela se filia a esse último discurso. Acredito na democracia, no direito de ir e vir. Acredito também que isso só se conquista no exercício da tolerância e do regramento social. Sem isso, a sociedade vira anomia, vira barbárie. O fato da agressão à moça é lamentável sob todos os aspectos, só servindo para nós pensarmos em que raio de sociedade estamos vivendo. A posição da Universidade foi infeliz. Ficou numa saia mais justa do que a da aluna, legitimando o desrespeito à diferença e sendo injusta porque justiça é tratar desigualmente os desiguais.

Se Geysi feriu alguma norma da Uniban com seus trajes, que os incomodados fossem buscar no regramento suas razões e suas consequências. Se ela fosse minha aluna, como alguém me perguntou no Twitter, daria a ela minha opinião de que assim como ninguém controla os efeitos das palavras ditas, ninguém controla reações exageradas. Há a lei da física da ação e reação, que não pode ser ignorada. Mas diria também que há a lei da sociedade democrática que diz que ações e reações devem respeitar o estado de direito.

Não limitar o comportamento antissocial da turba com a autoridade institucional é criar no juridismo (as leis práticas não escritas, mas exercitadas) um jurisprudência para que outras intolerâncias se repitam. Errou a Universidade. E feio, em minha opinião. O papel de quem regula é regular. Para lá e para cá. E deixar as regras claras, punindo quem as extrapola. Sem isso, cairemos facilmente no reino da impunidade, do moralismo fácil, da hipocrisia e da democracia retórica.

Está na hora do MEC, que é quem regula a Uniban, que não regulou direito a questão, perdendo as rédeas da situação, se posicionar. Porque autoridade não pode ser confundida com autoritarismo, que é exatamente querer mostrar autoridade sem legitimidade. E liberdade não pode ser confundida com licenciosidade, com um laissez-fair, com um tudo-pode. Ou voltaremos todos a usar tacapes e pintar gravuras rupestres nas paredes.

E sabe o que mais? Eu acho muito bonita uma mulher de saia. Por mim, está liberado.

Um texto antigo pra recordar

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ETERNOS ALUNOS

Alunos, todos iguais... :)Adoro dar aulas: pessoas reunidas em volta do fogo da curiosidade, como faziam na pré-história os homens em torno do fogo para se aquecer. Um das belezas em ser professor é a possibilidade de conhecer muita gente. São 23 anos de magistério. Tenho colegas de trabalho que foram meus alunos. Tenho alunos que foram meus colegas de trabalho. São muitos os que me deram o prazer da convivência. Esse percurso fez-me pensar nos tipos de alunos que temos. Se você é professor vai saber do quer estou falando.

O primeiro tipo de aluno é o sabe-tudo. A cada frase do professor, o sabe-tudo levanta a mão. Se deixar, ele fala a aula inteira. Adora testar o professor. Por isso faz par com o desconfiado. O desconfiado assiste à aula com uma sobrancelha alta e outra baixa, como quem diz: “será que o que esse cara sabe do que está falando?” Esparrama-se na cadeira e põe a mão no queixo, como O Pensador de Rodin.

Há também o aluno concordante. É terminar uma frase e ver o concordante concordando, com sua cabeça de mola para cima e para baixo. Mas diferente do sabe-tudo, ele é humilde. Sabe que a educação pode lhe acrescentar algo. Ele concorda convencido. O que concorda para agradar é o puxa. Tive uma aluna que dizia: “Bom dia, professor. Sua aula é a razão de eu estar aqui hoje”. Descobri que ela dizia isso a todos os professores. E eu me achando.

Outro tipo é o reverente. Para ele, o professor é mestre, digníssimo ou, em caso de reverência suprema, digníssimo mestre. Sempre comenta as “sábias palavras muito bem colocadas pelo mestre”. Outra figura é o dialogador pós-aula. A aula termina e o dialogador se aproxima, devagarzinho, e começa a comentar a aula, acompanhando o professor até a sala dos professores. É um momento de individualização do ensino. O paciente é mais um tipo presente. Ele é paciente no sentido médico. O professor é Dr. Freud e dele o paciente espera conselhos sobre sua vida, trabalho, planos ou qualquer encruzilhada existencial.

Há o spammer, que lota o e-mail do professor com mensagens imensas. Os spammer são inofensivos quando se tem um bom antivírus. Há o citador, que a cada aula manda: “Como dizia Paulo Freire, ‘não há docência sem discência’”. O citador trabalha com palavras-chaves: é ouvir uma que está indexada e disparar de pronto. Se você for professor homem, um tipo típico é a apaixonada. Ela joga charme e o chama de fofo. As paixões no contexto educacional existem, mas são despertadas mais pelo lugar simbólico ocupado pelo professor do que por suas qualidades pessoais intrínsecas.

Poderia elencar mil tipos, mas é dispensável. Cada professor que faça sua lista. Como entendo deste assunto, só usei o espaço para fazer uma breve colocação, ainda que desconfie que você possa não gostar do texto. Se você discordar, tudo bem: o leitor é quem manda. Só saber que você está me lendo torna meu dia melhor. Qualquer dia desses, digníssimo leitor, a gente conversa e conto minha vida. Tenho certeza que sua opinião vai me ajudar. Por enquanto, a gente se comunica por e-mail. Vou enviar uma linda mensagem de apenas oito megas para você refletir. Porque é como dizia Barthes: “o autor está morto. É o leitor que constrói o sentido de um texto”.  A propósito, sou apaixonado por nossa relação. Não tem jeito: somos eternos alunos.

Primeiro dia de aula

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[Hoje foi o primeiro dia da aula da Marina, minha caçula. Para descrever um pouco a sensação, reproduzo o texto que escrevi por ocasião do primeiro dia da Ana Clara, ano passado].

MarinaO antropólogo alemão Arnold van Gennep fez um estudo sistemático dos cerimoniais que em diversas sociedades marcam a transição dos indivíduos de um status para outro. A esses momentos chamou de “ritos de passagem”. Gennep concluiu que a maioria dos ritos analisados observava uma seqüência que incluía “separação”, “transição” e “incorporação”. Mais do que uma transição particular para o indivíduo, esses momentos representam a sua progressiva aceitação e participação na sociedade na qual está inserido, tendo, portanto, tanto o cunho individual quanto o coletivo.

Segunda-feira foi o primeiro dia de aula da Ana Clara. A teoria de Gennep se atualizou naquele serzinho de um ano e sete meses. Uniforme, merendeira, mochila, além de dois lindos pitozinhos, faziam parte de sua apresentação para a cerimônia de sua iniciação no universo da escolarização. Como prevê o processo, houve a necessária separação. O corte afetivo gradual da presença dos pais fomenta na sua pequena subjetividade a inevitável individualização. Da separação, a pequena Clara partirá para a transição entre um mundo egocêntrico e um mundo ecológico, no sentido amplo do termo, de convivência entre os iguais, no caso seus coleguinhas do pré-infantil, incluindo aí um japinha chorão. Sua inserção nessa nova ordem simbólica é um inevitável passo para a incorporação do discurso pedagógico e de seu lugar na sociedade.

Parece pouco, mas não é. A escolarização e a conseqüente individualização do sujeito e sua acomodação ao lugar escolar a ele destinado têm conseqüências perenes na vida das pessoas. O rito de passagem para a educação sistemática escolar em nossa sociedade requer um cuidado e uma responsabilidade imensa dos agentes que a executam. Seus papéis, se não desempenhados de forma a proporcionar a inserção tranqüila dos sujeitos da educação, podem bloquear seu desenvolvimento na ordem do discurso educacional, limitando também, assim, sua inserção no mundo da cidadania protagonista, que vai além da cidadania presumida de ter um documento de identidade. Na verdade, a entrada na escola é um importante momento na formatação da identidade psíquica da criança, que é o que vai balizar seus comportamentos pelo resto de sua vida.

Como pais, nossos corações ficam miudinhos. Porque para nós também se trata de um rito de passagem, com as mesmas etapas de “separação”,” transição” e “incorporação”. A necessária separação de minha filha durante o período escolar serve para me lembrar que a vida é feita de desencontros, de acomodações ao inevitável e de incorporações de novas realidades ao cotidiano. É assim o tempo todo com tudo.

Eu estudo, trabalho com e pesquiso sobre educação. Faz parte da minha profissão. Mas nenhum livro me fez ver tanto a delicadeza e a fragilidade do momento educacional quanto o dia em que soltei a mão de minha filha e a entreguei às mãos de sua professora naquela tarde de segunda-feira. Com a humildade de um doutor acadêmico, tenho que admitir que aprendi uma lição sobre educação que não sabia. Tivemos, eu e ela, nosso primeiro dia de aula. E compreendi que os ritos de passagem não são iguais. Para uns são mais tranqüilos, como para a Clara. Para outros, mais dolorosos. Como para mim e para o japinha.

Sérgio Augusto Freire de Souza
Jornal Em Tempo, 13 de fevereiro de 2008

Professores conectados… cuidado!

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Olhem aí, meus caros alunos! Hoje os professores estão antenados, têm Orkut e sabem usar o Google! É melhor abrir o jogo e postar logo aqui… porque um dia eu descubro. 🙂