Amazônia Real

Eu fiz o ENEM

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ENEM[Publicado originalmente no site Amazônia Real]

Queria ter elementos mais concretos para falar sobre o ENEM. Por isso, no sábado e no domingo, eu peguei minha caneta preta de corpo transparente, meu cartão de confirmação e fui lá. Sim, eu fiz o ENEM.

O exame é bem organizado. Fui um dos candidatos voluntários para testemunhar o deslacre dos pacotes. Na minha sala só tinha Sérgios. De todos os tipos. Sérgios que estudaram em escola pública, Sérgios que fizeram escolas particulares, Sérgios bem mais novos do que eu, Sérgios mais velhos do que eu. Houve um Sérgio que foi eliminado porque preencheu o cartão errado e marcou que ele estava ausente. Houve outro Sérgio que reclamou porque no ano passado não levaram em consideração a redação de sete linhas dele. Enfim, o exame atinge todo mundo. Mas todo mundo atinge o exame? Aí eu começo a reflexão sobre o ENEM do ponto de vista de alguém que lida com educação há algum tempo.

Definitivamente as provas do ENEM não são para qualquer um. O nível da prova está claramente acima do nível médio dos alunos oriundos da escola pública. Partindo dessa afirmativa, podemos perguntar: o nível da prova é mais difícil do que deveria ser? Ou: o nível da prova é adequado e a escola pública é que não prepara o aluno de forma satisfatória?

Minha leitura é a de que a prova é bem feita e é feita para testar o letramento linguístico e matemático do aluno. Isso é muito positivo. Eu penso que a prova é excelente para quem quer ter alunos safos e bons na sala de aula de um curso superior. Eu, como professor, quero. Nada de decorar fórmulas e gramática. Sem essa de saber quais são os afluentes do Rio Amazonas pela margem direita. Esqueça esse lance de xis é igual a menos b mais ou menos raiz quadrada de delta. Isso ficou para o antigo vestibular. O conhecimento que é testado no ENEM é o conhecimento aplicado. As únicas expressões de metalinguagem que me chamaram a atenção na prova de linguagem foram “frase adversativa” e “coesão por sujeito oculto por elipse”. Fora isso, a prova exigiu trabalho com gêneros e interpretação. Aí, quem tem capacidade lógica e um maior acervo sociocultural leva vantagem. Aí o aluno da escola pública leva desvantagem.

Capacidade lógica é algo que é exercitado e estimulado. Capacidade lógica se aprende. No entanto, salvas as exceções, as escolas públicas ainda estão no modelo linear de transmissão de informação. Depositam dados na cabeça do aluno, naquilo que na década de 70 Paulo Freire chamava de educação bancária. Poucas escolas, sejamos francos, trabalham com o conhecimento, que é a informação aplicada. Poucas são as que exercitam no aluno o conhecido para a vida, como deveria ser. É muito saber sobre as coisas e pouco saber para a vida.

Na questão do acervo cultural, novamente há uma correlação que privilegia quem faz escola particular. Quem tem em seu horizonte acesso a mais bens culturais tende a ter mais subsídios para aplicar no jogo cognitivo do que aqueles que não têm. Ter acesso à Internet, leitura, tv a cabo e etc faz diferença em relação a quem não tem.

É lógico que essa distinção entre escola particular e escola pública é para fins de argumentação. Há alunos de escola particular que não possuem acesso a bens culturais e há alunos de escola pública que arrebentam nos ENEMs da vida. Mas são pontos fora da curva. De tão fora da curva, viram notícia no Fantástico. Não dá para trazê-los para essa discussão.

O que fazer a partir desse cenário? Uma opção seria baixar o nível de exigência do ENEM. Não gosto dessa ideia. Penso eu, como professor de universidade federal há 22 anos, que o nível do exame é adequado para selecionar um bom aluno. Mas se não devemos mexer no nível, que outras opções teremos? Duas opções, que, a meu ver, não são excludentes, mas são complementares.

A primeira é melhorar a qualidade do ensino da escola pública. Quase um truísmo desnecessário de mencionar. Argumentos a favor dessa melhoria sempre tocam na questão de aumento de recursos. No entanto, a melhoria não requer apenas recursos, como pensam alguns. É claro que mais dinheiro para a educação é sempre bem-vindo. Mas o problema fundamental não é esse. Hoje temos a obrigatoriedade de uso mínimo em educação de 18% das receitas dos estados e da União e 25% da dos municípios. Manaus, por exemplo, comprometia em educação 30% na sua Lei Orgânica, mas a administração do ex-prefeito Amazonino Mendes tratou de voltar para 25% mínimos nos seus primeiros dias. Além do dinheiro que já se tem, há a promessa dos recursos do Pré-Sal. É bastante dinheiro. A questão é que o dinheiro é muito mal usado e muito mal fiscalizado. Mas isso dá um outro texto. O que interessa aqui é que não basta jogar mais dinheiro em um modelo metodológico anacrônico. Esse é o real problema.

A melhoria da escola pública passa necessariamente pela mudança pedagógica. Precisamos de um choque metodológico que desloque a escola pública do foco na informação para o foco no conhecimento, ou seja, na informação aplicada à vida. Isso é o que interessa. É isso que faz falta. É com um aluno com essa capacidade de ler o mundo que vibramos nós, professores, nas salas de aula. Uma mudança de paradigma, no entanto, requer muito planejamento, capacitação docente e é algo a ser alcançado em médio ou longo prazo. E até lá? Até lá entra uma política complementar.

As universidade federais públicas recebem, via ENEM, com o atual nível do exame, somente quem teve a formação adequada ao seu nível de exigência. Essa formação é quase sempre só recebida nas escolas particulares ou nas fundações e colégios militares, que, de fato, estão fora do sistema público. Para reduzir essa distorção, que amplia cada vez mais o fosso entre as duas pontas do espectro social, uma medida possível é a implementação das cotas sociais. Mas essas cotas precisam de um desdobramento que não têm. Não basta que o aluno entre na universidade pública federal por cota social. É preciso ter condição de se manter lá. Nesse sentido, seria muito interessante se o Governo instituísse bolsas para os cotitas. Igualmente importante seria que essa política supletiva tivesse prazo para terminar dentro de um planejamento maior. É muito trabalho pensar tudo isso, mas é para isso que o Governo está aí: para planejar o presente e o futuro. Vontade política é fundamental.

Resumindo o texto: é preciso investimento planejado e bem-feito na educação pública visando à justiça educacional e social em longo prazo. Até lá, o sistema educacional superior precisa ser equilibrado com cotas sociais com bolsa de manutenção durante o curso. A política de cotas deve ter prazos determinados por metas de qualidade, senão corre o risco de atrofiar e perder seu sentido. A cota social, sobre a qual eu tinha minhas dúvidas antes de conhecer mais sobre o ENEM, me parece extremamente necessária. Sim, eu mudei minha opinião sobre elas. Ainda há um bom debate sobre cotas raciais. Fica para outro texto.

O Sérgio eliminado no ENEM foi eliminado porque foi incapaz de seguir as intrusões elementares de preenchimento do exame. No quadro da sala, havia uma instrução escrita assim pela fiscal: “os três últimos candidatos só poderam (sic) sair juntos”. Enquanto problemas básicos, como o do Sérgio eliminado e o da fiscal de sala ainda acontecerem, não dá para não se incomodar com o nível da educação brasileira. Todavia, é preciso mais do que incômodo. É preciso ousar fazer. Quem trabalha de alguma forma com educação deveria fazer o ENEM. É uma experiência enriquecedora sob vários aspectos. Ano que vem, vou de novo.

A escrita do tempo

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Marina pescando[Publicado originalmente no site Amazônia Real]

Meus pais nunca curtiram fotografia. Até porque era caro demais curtir fotografia nas décadas de 60 e 70. As poucas fotos que meus irmãos e eu temos quando crianças estão espalhadas pelos álbuns de meus tios, de onde volta e meia surrupio um par delas para escanear ou para incorporar descaradamente ao meu acervo. Talvez uma incursão no divã de um psicanalista aponte que nessa falta nasceu a minha crescente paixão pela escrita com a luz. As compensações inconscientes que nos moldam a vida: bate aqui, Freud.

Quando a minha mulher engravidou pela primeira vez, eu me dei de presente uma Nikon D50. Depois comprei uma D7000, mais potente, e umas lentes. Essas máquinas estão a anos-luz de distância da Olympus Trip, das Kodaks e das Love com flash descartáveis da década de 70. Mas como qualquer leigo não sabe, não basta ter o equipamento. Se você quiser irritar um amante da fotografia, elogie uma foto sua e pergunte que máquina consegue fazer uma foto tão bonita. É como perguntar a Machado de Assis qual foi a caneta tinteiro que ele usou para escrever Dom Casmurro. Por isso, eu estudo, leio, experimento. Estou aprendendo. Até penso que acho que estou me saindo bem para um lambe-lambe autodidata. Enfim, tudo isso para não ouvir, lá na frente, reclamação das minhas filhas sobre não ter tido a vida registrada. Bem, não sei se elas vão se ligar nisso tanto quanto eu. Os tempos mudam. Talvez mais do que eu.

Cada época tem seu espírito. É o zeitgeist que faz com que sintamos que estamos ficando velhos, anacrônicos, descompassados em relação a conceitos, ideias, valores. Quando nos sentimos deslocados, o anseio pelo que passou traz um sentimento que nos faz voltar no tempo e recordar o que nos tocou a existência: nostalgia. Recordar, na etimologia, tem a ver com cordis – coração. Recordar é passar de novo pelo coração.

A memória é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É por meio da memória que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida. A minha geração fazia uso da memória biológica, que é basicamente a única que estava à sua disposição. Exceção para os mais abastados e suas filmadoras Super 8 ou seus projetores de slides. Mas, grosso modo, para lembrar o que passou, fechávamos os olhos e evocávamos lembranças de lugares e pessoas que estiveram em nossas vidas só na cabeça mesmo. Mas à medida que a memória biológica falhava, iam-se com ela as nossas lembranças do passado.

Com as novas tecnologias de informação, com o registro digital do mundo, a memória biológica tem tido o seu papel ampliado. A ele foi acrescentada uma memória virtual infinita. É a tal da extensão do corpo, pedra cantada por Marshall MacLuhan em 1964. Não cabe mais somente à memória biológica armazenar dados sobre nossa vida. Esses dados foram levados para fora do corpo, sendo registrados em fotos, vídeos, sites, Instagram, Facebook e coisas afins. Tudo isso nos permite recuperar rapidamente o momento passado com uma qualidade estética inigualável, qualidade essa que a memória biológica jamais poderia oferecer. É como se o passado se esticasse para dentro do presente em um eterno agora.

Por conta disso, as gerações atuais são muito mais nostálgicas do que as anteriores. Não é porque a minha geração, que nasceu no fim dos anos 60, deixou de gostar do passado. Mas é porque esse gostar está restrito ao limite de nossa memória humana. Com o tempo e com a idade, as imagens da cabeça vão esmaecendo e sumindo. Fora os registros impossíveis de determinada época. Eu nunca vi, por exemplo, um vídeo meu de quando eu era criança, coisa que qualquer adolescente pode trazer armazenado no celular ou no seu canal do YouTube. Fotos minhas quando era bebê são mais raras do que ouro de Ofir. Minha geração não sabe qual é a sensação dessa nostalgia de se ver presentificado de forma tão viva.

Para as novas gerações, a memória é rapidamente recuperável. O ontem vira hoje a um clique de mouse. A nostalgia não é mais a mesma. A geração atual tem um carinho maior por seu passado, por suas viagens, por seus momentos, pelas pessoas que passam nas suas vidas. Porque as têm à mão, muito mais do que as gerações de antes.

O poeta Paul Valery afirmou e Renato Russo popularizou a frase “O futuro não é mais como era antigamente”. Pensando na memória modificada pelos tempos atuais, dá para dizer que o passado também não é mais como era antigamente. Esse é o espírito dos tempos da Internet, das redes sociais. É um tempo em que nossos conceitos estão a toda hora sendo alterados, deslocados, repensados. Não é ruim nem bom. É apenas diferente. Àqueles que sentem nostalgia à moda antiga resta aproveitar o que de novo surge para recuperar aquilo que sua memória biológica não dá mais conta.

Minha memória humana já havia falhado e deixado escapar muita coisa da minha época de colégio. Eis que o Facebook coloca de novo na minha frente não só a minha escola, mas também meus amigos mais parceiros, com quem joguei bola aos sábados, com quem dividi meu tempo vivo de adolescente. Trinta anos de lapso entregues vivo para mim, com nome, sobrenome e fotos. Mais longe: uma amiguinha da terceira série me mandou uma mensagem, tímida e confessional dizendo: “sabia que sempre fui apaixonada por ti?” Os meios atuais ajudam o sentimento humano a se perpetuar. Precisamos da memória. Precisamos recordar. Precisamos passar de novo e sempre pelo coração. Não interessa como nem com a ajuda do que quer que seja. É isso que nos humaniza.

A fotografia tem algo de mágico. Há índios e caboclos que não gostam que tirem fotos suas. Dizem que a câmera lhes rouba a alma. Eu compreendo a leitura. Mas poetizando o imaginário, a fotografia também devolve a alma, trazendo junto o cheiro e os ares do instante em que foi tirada. Digamos, pois, que a fotografia nos pede a alma emprestada em um momento específico na vida e depois a devolve a nós em um tempo futuro. Eu gosto de escrever. Fotografar é escrever com luz. Há um interessante jogo de tempo aí. Escrita, luz e tempo. Matéria prima para uma vida. Escrever o tempo com luz é um pó de pirlimpimpim ao alcance de cada um de nós. Evocar o pó de pirlimpimpim em um texto é uma forma de voltar no tempo também e tentar tomar a história nas mãos. Como se fosse possível agarrar o tempo. Magia pura. E necessária numa vida finita.