amizade

Jogando caxangá

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O escritor francês Georges Bernanos disse uma vez: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Essa frase tem muito a ver com a amizade. Tenho pensado muito na amizade recentemente.

A amizade é um sentimento que tem sofrido as adequações dos novos tempos, quando tudo é fugaz e escorre pelas mãos. Zygmunt Bauman, um velhinho polonês do cacete, chamou essa fugacidade de liquidez. No mundo em que vivemos, tudo se liquefez: os valores, as identidades, os afetos e, claro, as amizades.

Grosso modo, as pessoas não possuem mais as amizades de uma vida inteira. As amizades deixaram de ser pessoas para ser lugares vazios ocupados por pessoas por e para a nossa conveniência. Ninguém mais é amigo de ninguém. As pessoas estão amigos até que a vida cante “Escravos de Jó” e mude tudo de lugar.

Antes que você, leitor amigo, pule daí querendo deixar de ser meu amigo porque você tem, sim, um amigo à moda antiga, eu faço uma ressalva: claro, há bons amigos que ainda se enquadram na versão vintage em que amizades eram alicerçadas em afeto, companheirismo, ombro nas cagadas, colo na tristeza, divisão na vitória ou na derrota. Mas por toda a vida e não por um período sazonal somente. É dessa amizade de que eu falo neste texto aqui. Elas ainda estão por aí, lógico. Como o Mico-Leão-Dourado também está. Mas, convenhamos, manter uma amizade sólida em tempos de liquidez é correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada…

Uma boa metáfora para a amizade de hoje é o amigo do Facebook. Ser amigo em tempos de redes sociais é estar o tempo todo no interruptor do liga/desliga. É comum ouvir as pessoas dizerem: “Ah, é meu amigo no Facebook!” e logo depois “ah, era meu amigo no Facebook. Bloqueei”. Bloquear equivale a dizer: tranquei a porta desse lugar para o qual dedico um pouco de atenção diferenciada. Não me interessa mais. O Facebook ressignificou a palavra amigo.

Não estou aqui advogando que amizades de Facebook não valem. A minha questão não é essa. A minha questão é o conceito de amizade, que  mudou porque o mundo mudou. As amizades do Facebook valem de outra forma. Eu mesmo tenho quase cinco mil amigos no Face. Muitos eu nunca vi pessoalmente, mas por eles tenho um carinho verdadeiro. Com eles eu adoraria ter uma amizade estendida, aos moldes do século passado, daquelas em que as pessoas olham nos olhos em vez de ficar de cabeça baixa de olho na tela do smartphone. Com alguns, a amizade migrou, apesar de eu furar com eles de vez em quando como os bons amigos às vezes furam e pedem desculpas na cara dura sabendo que vão ser desculpados [Oi, Briglia! Oi, Mari!]. É. estou falando daquelas amizades do tipo fazer coisas juntos, comer um churrasquinho cada-um-leva-o-seu, jogar Imagem & Ação, ver a final da copa no mesmo lugar, rir de si e um dos outros. Há pessoas nas redes sociais com quem adoraria sentar  numa mesa de bar e falar do mundo e das coisas, da poesia da vida, da política cada vez pior, do Fluminense líder, dos filhos que estão crescendo, do novo iPhone 5, enfim, de tudo aquilo que falamos e postamos nas redes sociais. Conviver e partilhar de verdade em vez de somente compostar e compartilhar.

Mas esses amigos virtuais irão até quando? Eu tive vários amigos que se foram com a morte do Orkut. Nem sinal deles. Esses de quem gosto tanto também irão com a morte do Facebook e com o fim do Twitter? E os amigos reais, carne-e-osso, com quem convivi até semana passada? Se liquefizeram pelo ralo ao deixar os lugares que ocupavam vazios? Amizades de 140 caracteres? Não são, ou melhor, não estão mais meus amigos? Estão confirmando a hipótese da migração da fugacidade da rede para a vida real? Juro que com toda a minha capacidade reflexiva de um pesquisador dos sentidos, algo ainda me escapa à compreensão. No entanto, depois dos quarenta a gente desenvolve a capacidade de usar a serenidade como um dos mais importantes parâmetros avaliativos para amortecer os solavancos da vida. Tranquilo.

Quem pertence às gerações mais novas talvez nem perceba a volatilidade dos afetos porque já nasceu na época da amizade líquida, que se liga e se desliga num botão de unfollow. Mas nós, velhinhos com mais de 40, vez por outra ainda tomamos um susto danado quando um amigo que deixamos no seu lugarzinho querido na noite anterior desaparece quando a gente abre a porta na manhã seguinte. É complicado pensar nessa rotatividade afetiva quando o coração da gente foi feito antes da obsolescência programada do mundo. Dói de verdade. Mendigar amizade, no entanto, dói mais. Cada um tem o direito de suas escolhas e rumos. É um egoismo danado insistir em amizades quando uma pessoa não quer mais.

Fui fazer as contas aqui. Tirando família, meus amigos no sentido antigo da palavra não me ocupam todos os dedos das mãos. Gente que, qual Forrest Gump, vai passando junto com a vida da gente, sempre lá, do lado. Aquele amigo para quem você liga de madrugada para dizer que está mal e ele lhe escuta. Aquele parceirão para quem você pede para ir tirar você do prego ou da cadeia e ele vai, com sono, mas com a gasolina na garrafa de coca-cola ou com o dinheiro da fiança.

A amizade nos tempos líquidos mora em Las Vegas. Tem uma hora em que a mesa da vida de bits & bytes lhe cobra e você tem de optar: ou aposta tudo no vermelho 23 e se ganhar ganha big time ou sai do jogo para não perder o que lhe resta. É assim que rola o jogo hoje. Tudo é binário, sem meio-termo. Mas e quem não sabe jogar apostando afetos na roleta russa da vida líquida? E quem prefere jogar Imagem & Ação, em que a gente joga para rir, pelo lúdico, como as amizades – das antigas – fazem?  E quem nem queria estar no Cassino? E quem nem é preto nem branco, mas cinza?

Ok. Sem essa de dizer que “no meu tempo era melhor”. Não. No meu tempo era diferente. Nesses tempos, as coisas são outras. É uma mera constatação. Perdoem minha nostalgia. Não quero ser valorativo, já sendo. Se antes os amigos eram sólidos e referenciados nas pessoas, hoje eles são, como disse, lugares ocupáveis que abrimos e fechamos quando nos é conveniente. Se não nos interessam mais porque não têm prestígio, dinheiro, afagos, poder, talento, felicidade para dar ou porque têm tanto isso a ponto de não caber em nosso mapa afetivo sem nos incomodar, nós clicamos o mouse e resolvemos. A maré alta da amizade se desertifica num oceano sem água, geralmente com mágoa. Estamos facebookeando a amizade offline. Sabe o controle de realidade do filme “Jogos Vorazes”? Pois é… Acho que tudo isso vale para amores também. Mas aí é papo para outro texto.

“Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Os tempos atuais reescreveram a frase de Bernanos. Agora ela está assim: “Saber encontrar a minha alegria na alegria que os outros me proporcionam é o segredo da minha felicidade”. Houve uma mudança de vetor. O foco cada vez mais é no eu. Se não nos interessa mais, a gente canta a plenos pulmões: “Escravos de Jó, jogavam caxangá, tira, bota, deixa o Zambelê ficar… Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá”. Ao ritmo e ao som da música, as pessoas ficam trocando as peças das amizades com os jogadores ao lado. Quem erra a disposição das pedras é eliminado. Big Brother, brother. E sai do jogo. Porque a pedra é minha. Dane-se o Zambelê. A fila anda no mundo prêt-àporter. Até nas amizades.

Sobre a amizade

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A amizade nasce no momento em que uma pessoa diz para outra: “O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único!” (C.S. Lewis)

Hoje é o Dia da Amizade. Esses dias temáticos são bem propícios para ajudar na escolha de um tema sobre o que escrever. Suspendi até um texto em que estava trabalhando, e que vou retomar mais tarde, sobre o exagero como causa dos problemas da vida.

Segundo o honesto Houaiss , “amigo” vem do latim “amicus”, aquele “que ama, que gosta de; benévolo, propício; aliado confederado; aprazível, deleitoso; querido, amado”. Vou usar essa etimologia como roteiro das minhas mal digitadas.

Amizade é um sentimento que envolve amor. Amor no sentido de querer bem, de vibrar com o sucesso e se lamentar solidariamente com o fracasso do amigo. Abraçar esse amigo apertadamente com um abraço quebra-costela num momento de grande felicidade compartilhada. Querer falar loguinho com ele para contar que algo deu certo. Espalmar as mãos no ar num “yessssss” de felicidade conjunta. Amigo é correr junto, como no atletismo, passando o bastão da vida, na confiança de que ele não cairá na hora da passagem. É roubar minutos de um tempo impossível para compartilhar segredos mais íntimos ou um sorvete de três bolas.

Amizade é um sentimento que envolve gostar. Gostar é diferente de amar? É. O gostar é a sintonia gratuita em relação a alguém de pouca convivência contínua. É aquela sensação deliciosa que sentimos quando vemos aquela pessoa chegando ao mesmo ambiente em que nós estamos e aquela sensação lamuriante de “já vai?” quando ela sai. Gostamos de várias pessoas sincera e profundamente pelos mais variados motivos. Colegas de trabalho, alunos, o porteiro do prédio, a moça da limpeza, o @ do Twitter ou aquele friend do Face que nunca vimos pessoalmente. Há conhecidos, pessoas que cruzaram com a gente uma vez na vida, lá na época da copa da México, que quando encontramos na fila do banco ou numa happy hour qualquer faz questão de dar um abraço sincero comemorando o encontro casual. E você sabe que é sincero mesmo.  Você sente na força do amplexo hercúleo. É assim: há níveis de amizades, sem que um seja melhor que outro, entende? Há os amigos que amamos, até por que convivemos mais, e os que gostamos. Mas como eu disse, não significa que aqueles de quem gostamos são menos amigos do que aqueles que amamos. São sentimentos diferentes, incomparáveis. Fico tão feliz em estar com um amigo que amo quanto em estar com um de quem gosto.

Amizade pressupõe benevolência. Sem dúvida. A boa vontade em relação ao amigo sempre existe e é gratuita, quando a amizade é sincera. Um bom amigo tem um coração do tamanho da China, com uma batida caribenha, salsada e merengada. Sempre se dá um jeito: está precisando de uma informação? Vou dar meus pulos aqui para conseguir para você. Está numa sinuca-de-bico e precisa de uma mãozinha? Vou mudar meus planos aqui para a gente encaçapar essa. Quer que eu resolva isso pra você, já que estou por aqui? Vou lá agora que isso não pode ficar assim mesmo. Acredito que a boa-vontade gratuita – porque existe a forçada! – é um dos melhores parâmetros para avaliar uma amizade, se é que uma amizade precisa de avaliação. Tem gente que se diz amiga e até engana (eu sou um amigável ingênuo demais nesse aspecto), mas na hora da prova da boa-vontade falta uma afabilidade que chega a doer pela expectativa frustrada por aquele comportamento. Para um bom amigo, o relógio é instrumento inútil: não há hora. Os meteorologistas podem ser todos demitidos: não há tempo ruim. A não ser que o relógio seja presente do amigo metereologista…

Amizade envolve propiciosidade. Ser propício é estar disposto favoravelmente como opção padrão. É ser compadecido, oferecer proteção. Ser propício é ser conveniente, oportuno, adequado. Só o bom amigo, aquele que conhece a lixeira da sua caixa de correios e não se escandaliza com ela. Só ele é capaz de sacar no ar o momento de ir e vir, de falar e calar, de te puxar pelo braço e de te empurrar no tatame. Ser amigo é ser encorajador. Mas um encorajador que não decide por você: decide com você. O que você decidir, brou, estou nessa contigo.

Ser amigo é ser aliado confederado. Gostei dessa definição do Houaiss. Porque é isso mesmo. Ser amigo é ir à guerra juntos. Unir forças para combater um inimigo comum. É saber que na hora H, como nos filmes, o amigo vai estar lá para dar o tiro fatal naquele cara que está vindo para cortar sua garganta quando você está ali, preso na areia movediça do pântano. Bang! Cai o inimigo, sangue na boca. Corta a câmera: aparece o amigo, arma fumegando. E sorri. Nossas guerras, diferentemente das dos filmes, são metafóricas e diárias. Precisamos dessa certeza da proteção. Precisamos desse aliado contra os combates da roda-vida, de alguém que dê uma voadora por nós e só depois que estamos salvos pergunte o que houve.

Amizade envolve deleite e prazer. Saber que você faz parte do bem estar do outro, prestando atenção a detalhes, lhe fazendo bem. Ser amigo envolve pensar em mil razões e desculpas para estar junto. Pensar que você é capaz de passar o dia todo ali, no tapete da sala, ouvindo música, comendo pipoca, contando piada, falando besteira, lembrando dos bons tempos idos ou imaginando os bons tempos a vir. E que no dia seguinte seria capaz de repetir tudo de novo. Ou que você passaria o dia todo ali, do lado do amigo doente, botando o termômetro no sovaco, dando remedinho na boca ou fazendo compressas na testa. Não há nada pior, na humilde opinião desse escriba, do que você perceber indícios de que você não agrada mais como agradava, que sua presença não traz o brilho que trazia aos olhos do outro. É duro dar conta de que agora há sempre uma razão, um motivo, uma desculpa para interromper o fluxo que antes fluía como  o volume d’água de um Rio Amazonas, que o relógio está sendo usado pelo amigo e que ele voltou a assistir à previsão do tempo. A gente meio que murcha por dentro. Eu, particularmente, fico triste. Não sei disfarçar. O Rio Amazonas vira um riozinho moribundo: pobre, sem velocidade, sem vida. Você até tenta recolher as garrafas plásticas da indiferença, as espumas da poluição afetiva, mas… eventualmente morre. Como o Tietê. E ficam as boas memórias de um tempo que não volta mais. Um amigo tem de ser querido. Querido no sentido de desejado. Sua presença, sua opinião. Tudo seu é importante. Menos sua indiferença.

Um amigo tem de ser radical. Tem de ser capaz de amar quando você é inamável. Abraçar quando você é inabraçável. Suportar quando você é insuportável. Tem de ser fanático. Aplaudir quando todos vaiam, porque você, a despeito de tudo, é amigo. Vaiar quando todos aplaudem, para lembrar que a vida tem fissuras, é cíclica e que não se pode ignorar que a bola cheia um dia esvazia. Um amigo tem de dançar com suas boas notícias e compartilhar a lágrima furtiva que rola na hora da tristeza. Acima de tudo, um amigo tem de ser matemático: deve multiplicar a alegria de compartilhar as vidas, buscar dividir as tristezas e os momentos de vazio e desânimo; deve subtrair o passado nocivo e adicionar o futuro desejável na relação. Um amigo deve calcular a necessidade mais profunda do seu coração e sempre, sempre, ser maior do que a soma de suas partes.

Que delícia quando você acha alguém assim para, além de tudo, dividir a vida com você. É quando as pessoas casam e são felizes. Um casamento começa a terminar, digo eu, quando a amizade fenece. Amor e amizade são as duas bisnagas de Araldite de um relacionamento duradouro. É perfeitamente possível querer bem as outras pessoas sem querê-las para si. Amizade sincera existe mesmo. Dialeticamente se desenvolve na própria amizade, ganhando ou perdendo espaço, achando ou perdendo o rumo. Mas existe.

Enfim, meus amigos. Tenham um bom Dia da Amizade. E já que estava escrevendo um texto sobre o exagero, dizendo inclusive que ele pode ser positivo, quero um número exageradamente grande de amigos. Hoje lembrarei dos meus amigos de ontem e os de hoje no meu bate-papo noturno com Deus. Se faz um tempo que a gente não se vê, não se preocupe: qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar…

O Sal da Terra

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Discurso proferido na festa de formatura da Turma de Letras, Língua Inglesa, da Universidade Federal do Amazonas, em 19/02/2011, turma da qual fui paraninfo.

Anda, quero te dizer nenhum segredo/ Falo nesse chão da nossa casa/ Vem que tá na hora de arrumar / Tempo: quero viver mais duzentos anos/ Quero não ferir meu semelhante / Nem por isso quero me ferir/ Vamos precisar de todo mundo/ Pra banir do mundo a opressão/ Para construir a vida nova/ Vamos precisar de muito amor/ A felicidade mora ao lado/ E quem não é tolo pode ver / A paz na Terra, amor!/ O pé na terra/ A paz na Terra, amor!/ O sal da …/ Terra: és o mais bonito dos planetas/ Tão te maltratando por dinheiro/ Tu que és a nave nossa irmã/ Canta, leva tua vida em harmonia/ E nos alimenta com teus frutos/ Tu que és do homem a maçã / Vamos precisar de todo mundo/ Um mais um é sempre mais que dois /Pra melhor juntar as nossas forças/ É só repartir melhor o pão/ Recriar o paraíso agora/ Para merecer quem vem depois / Deixa nascer o amor / Deixa fluir o amor/ Deixa crescer o amor/ Deixa viver o amor/ O sal da terra…

A música e a poesia são caminhos para eternizar na memória afetiva momentos que representam as dobras no origami de nossas vidas. Formar-se: pôr-se numa forma, pôr-se numa fôrma. Que forma, que fôrma? Não, eu não vou assumir a responsabilidade de lhes dizer isso sozinho, mas eu vou assumir a responsabilidade da escolha da música que vai mapear o que eu tenho para lhes dizer. Empresto de Beto Guedes a sua O Sal da Terra.

O que vou lhes dizer, meus queridos amigos, não é nenhum segredo. E lhes trago o óbvio porque no óbvio estão as bonitezas que passam batidas aos olhos acostumados. É preciso desacostumar os olhos para o óbvio. Essa é a matéria prima dos poetas, dos artistas, do bom professor.

Eu falo nesse chão da nossa casa. Falo do nosso planeta. Falo da Terra. Mas estendo a música metaforicamente para o nosso planeta individual, nossa alma, nossa vida, onde moramos. Venham! Aproveitem essa dobra do origami de suas vidas, esse momento de alegria, para junto com os seus arrumarem as coisas, arrumarem a casa naquilo que vocês sabem que precisam de um olhar arrumador.

Tempo: quem não quer viver duzentos anos? A nossa forma de se perenizar é estar presente em quem por nossa vida passa, nas conversas, na sala de aula, no carinho, nos ombros, nos silêncios, nos conselhos. Mais longevos seremos quanto mais não ferirmos os nossos semelhantes, quanto menos nos ferirmos. Nós temos o desafio de fazer com que cada pessoa que venha até nós, ao sair do nosso encontro, saia uma pessoa melhor, mais feliz, menos amarga. E isso não é um trabalho individual: nós vamos precisar de todo mundo para banir do mundo a opressão.

Não, isso não é idealismo piegas. O que torna a leitura desse desejo algo piegas é a incapacidade embrutecida de alguns que já desistiram. São esses, meus lindos, que precisam de nós que resistimos acreditando na amizade, no afeto, no amor. Eu acredito no amor. Nós vamos precisar de todo amor para construir a vida nova.

Ser feliz. Guimarães Rosa diz que “a infelicidade é questão de prefixo”. Quem sou eu para discordar de alguém que diz que “professor nem sempre é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”. Eu aprendi, meus queridos amigos, que ser feliz é uma escolha. A escolha de eliminar o prefixo. Vamos lá! Vocês se graduaram em Letras! Vocês sabem do que eu estou falando! A felicidade mora ao lado e  quem não é tolo pode ver.

A paz na Terra, meus amores. Precisamos de paz entre os homens. Precisamos de paz entre os pais. Precisamos de pais entre os filhos. Precisamos de paz entre os irmãos. Precisamos de paz entre os amigos, precisamos de paz entre os colegas, precisamos de paz entre professor e aluno. Precisamos construir a paz entre os inimigos. Nós, professores, temos a bela e desafiadora missão de ser construtores de paz, de pontes para serenidade do mundo. Portanto, tenham o pé firme na terra e tenham certeza do que vocês querem, mas não se esqueçam dos preços para chegar lá. Há preços altos. Nenhum objetivo vale subjugar um semelhante. Nenhum.

Ecossistema é muito mais do uma discussão chata sobre meio ambiente. Ecossistema é a nossa própria vida. Ortega y Gasset, filósofo, dizia com propriedade: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”. Cuidem das suas circunstâncias. É de si próprios que vocês estarão cuidando.

Não se maltratem e nem maltratem ninguém por dinheiro. Trabalhem, mas não esqueçam do tempo para os seus. “A abelha fazendo o mel vale o tempo em que não voou”. Sobre o dinheiro, Victor Hugo nos dá a deixa: “Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga ‘Isso é meu!’ só para que fique bem claro quem é o dono de quem”.

Harmonia. Levem suas vidas em harmonia. Quando vocês, jovens, chegarem à minha idade saberão porque sempre eu desejo serenidade ao cumprimentar alguém pelo seu aniversário. Porque a serenidade é um das qualidades mais importantes para lidar com as desigualdades do mundo, com as injustiças da alma, com os caracteres rotos que vez por outra grassam no jardim de nossa existência. A serenidade traz o equilíbrio e o equilíbrio traz a harmonia.

O que estou lhes dizendo, meus queridos amigos, não é nenhum segredo. É o óbvio. Vocês são os frutos dessa Terra. Alimentem quem vier com fome. Vocês são a água do conhecimento. Saciem a sede dos que vierem beber. Nós vamos precisar de todo mundo. Um mais um é sempre mais que dois.

Para melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão. Sejam justos. A justiça é a melhor cama do homem e a injustiça a sua cama de prego. Com justiça, preparemos um mundo melhor para quem vem depois. Precisamos merecer quem vem depois. O mundo não se encerra em nós. Nós é que nos alongamos no mundo. Resta escolher como.

Eu termino pedindo para que vocês ouçam a música do Beto Guedes. Mas mais do que isso: leiam a música de Beto Guedes. E deixem nascer o amor, deixem fluir o amor, deixem crescer o amor, deixem viver o amor. O amor é o sal da terra. Essa é a forma. Essa é a fôrma.

A última frase do professor Sérgio Freire nesse ciclo que finda: Não se apequenem para o mundo pequeno. Sejam felizes, grandes e bonitos, como o mundo, como a vida.

Carmelitas digitais

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Caro amigo. É com grande tristeza que sinto informá-lo: você está sendo deletado desta rede social como meu amigo. O motivo é simples. Sou ciumenta e controladora – sei que isso não deve ser novidade para você – mas enfim, eu e meu namorado entramos em um acordo, e a fim de cumprir minha parte neste acordo estou deletando todos os meus amigos do sexo masculino apenas de minhas redes sociais, exceto parentes. Dou a você o direito de achar isto uma idiotice, uma puta falta de sacanagem, etc, imaturidade, etc. Chame do que quiser, mas saiba que espero continuar contando com sua amizade e vice-versa. Meu e-mail está sempre disponível e você poderá contar sempre comigo, menos para aquilo que você já sabe o que é – pedir dinheiro emprestado. Se quiser culpar alguém, não culpe a mim, que sou uma pessoa apaixonada e boboca, não culpe o meu namorado tampouco – culpe a Deus que te fez homem, porque se tu fosses mulher continuarias na minha lista. Kkkkkkkkkkkkk Um grande abraço. E um Feliz 2011.

Recebi essa mensagem de uma ex-aluna no Facebook e achei um barato. Ela é um exemplo prático da paranoia que as redes sociais trouxeram para o relacionamento a dois.  Merece alguns comentários.

Por que as redes sociais digitais assustam algumas pessoas no quesito pôr em risco o relacionamento? Que perigo podem representar para uma relação do mundo real? Há perigo de fato? Fiquei pensando com minhas teclas…

Somos dependentes de nosso mapa do amor. Seguindo o raciocínio estatístico, quanto mais estivermos expostos aos círculos sociais, maior a probabilidade de encontrarmos alguém que preencha os requisitos desse nosso mapa do amor, composto das características que uma vez preenchidas fazem acender a luz: pode ser amor! Assim, quanto mais convivemos com pessoas, real ou virtualmente, maior será a nossa vulnerabilidade para que isso aconteça.

Até aqui beleza: as redes sociais são mais possibilidades de conhecermos pessoas legais que talvez nos interessem. Um achado para quem é solteiro. Dá para conhecer as pessoas a fundo porque ninguém consegue não ser si mesmo por muito tempo. Mas para os casados e comprometidos, o  potencial positivo das redes passa a ser encarado como uma bomba de nêutrons para os relacionamentos: pode fazer a pessoa amada se evaporar para outras bandas. Do jeito que vem, vai. É quando há algumas possibilidades de encarar as coisas.

A primeira: as partes do casal (ou uma delas) passam a proibir, abertamente ou não, que o parceiro participe das redes sociais. Como o casal aí em cima. É o princípio “melhor não arriscar”. Na minha avaliação, é enxugar gelo. Por essa lógica, logo estarão proibidas as amizades do trabalho, da faculdade, de infância e afins. A verdadeira liberdade do amor se encontra na certeza da reescolha no livre arbítrio. Por poder escolher é que a escolha em mim faz dessa escolha uma escolha especial. Desse jeito aí de cima, retirando espaços de circulação, ambos viverão numa mosteiro feito as irmãs carmelistas descalças: isolados do mundo. It’s trying to catch the deluge in a papercup… Fail.

Uma segunda opção: entende-se que o caminho dos relacionamentos na sociedade da informação é feito pelos nós das redes sociais e que isso necessariamente não coloca em risco o relacionamento a dois. Não é bom nem ruim. É assim. Pelo menos não há mais risco do que na própria convivência nos demais círculos sociais. Ficar monitorando à distância é o que resta ao cônjuge – casado ou não – com aquele ciuminho regulatório, aquele que não faz mal e sinaliza que a gente está ligado. Vez por outra pode vazar algo para além do aceitável e uma dê-errezinha corrige tudo. Cada casal acaba definindo sua ética online do que pode ou não. Acho digno. Faz parte da construção da vida a dois. É com o tempo que percebemos que podemos querer bem as pessoas sem querê-las para si. Quando um dos dois não está online, aí o problema se dilui consideravelmente. Só sobram os olhos de Deus a olhar nossos tweets e status.

Uma terceira opção é mais radical. O casal vive as redes sociais como se realmente elas fossem uma second life. Ali, naquele universo digital, tudo que se fala e se faz não tem nada a ver com a vida real. Ou pressupõe-se que. Acompanho alguns casais assim no Twitter. Eu acho estranho. Não dá para esquecer que entre o mundo real e o mundo virtual existe o dedo no mouse como ligação. Que o suporte é digital, mas os sentimentos são analógicos e bem humanos. Para mim, essa escolha é um ato inconsciente e sintomático de egoísmo. E sem valoração aqui. Egoísmo como escolha paradigmática subjetiva. É uma escolha válida. Não é a minha, mas está valendo também.

Nas redes sociais as pessoas podem se encantar por alguém. Podem odiar alguém. Podem se apaixonar e desapaixonar. Podem conhecer o grande amor da vida ou podem chegar a conclusão de chegaram atrasadas naquela história. Quando há compromisso afetivo, são sensações reais que vão aparecer não por causa das redes sociais, mas por causa de algum vácuo no relacionamento que se dá fora delas. Porque no trabalho, na política, na guerra e no amor é assim: quando não se ocupa o lugar vem alguém e o ocupa. É uma lei da física. Da física dos afetos, inclusive.

Mas essas são só impressões minhas. Pode discordar à vontade, leitor. Há pessoas que encontram nas redes sociais o espaço para o exercício de seus outros eus. Um eu-lírico, um eu-literário, um eu-personagem. Nesses eus abrigam-se desejos inquietos, querência contidas, deslimites. E, como num romance pós-moderno, o personagem vaga de rede em rede social, cutucando, aparecendo, sumindo, brincando de esconde-esconde, numa ludicidade que faz bem à alma. A graça está aí. Ser um nó na rede não significa que se precisa ficar parado, feito um nó-cego. Assim, forçar alguém a sair da rede sem querer sair é estragar o gozo do menino na brincadeira de roda. É igual à cena d’O Meu Malvado Favorito: dá o balão para ter o prazer de estourá-lo. Não é amor: é maldade. Fail de novo.

Não busquemos atribuir nossas neuras ao suporte quando elas são dos sujeitos. Vamos resolvê-las aqui fora, numa boa conversa, com olhos nos olhos, porque o sol continua a passar pelos furos da peneira. Aliás, hoje tudo é liquido hoje e escorre pelas mãos. Quem consegue viver fechado para o mundo conectado? Nem as irmãs carmelitas descalças. Dá uma olhada no perfil do Papa no Orkut e vê lá as últimas visitas. É uma metáfora, claro. O Papa não tem Orkut. Só Facebook.

Sabe como eu respondi a mensagem da minha ex-aluna? Assim: Beleza. Feliz 2011. Até a volta. =)

A borboleta e o vulcão

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Contava-se na China a história que ocorrera há muitos e muitos anos e que fazia parte da tradição milenar chinesa: a história da borboleta cantora e do vulcão extinto.

Dizem que tudo começou quando uma bela borboleta cantora quebrou sua asa pela segunda vez. Passeando pela floresta em busca de um remédio para sua asa quebrada, foi informada que havia um vulcão nas redondezas cuja lava poderia curá-la. Disseram à borboleta cantora da asa quebrada que o vulcão, porém, estava inativo, logo sendo inútil sua busca.

Mas a borboleta não se deu por satisfeita e passou então a procurar mais atentamente o vulcão. Localizou-o e passou a observá-lo diariamente enquanto caminhava até ele, uma vez que não podia voar, pois sua asa estava quebrada. E a borboleta seguiu, então, montanha acima, conquistando lentamente espaços e territórios que muitos diziam ter donos e donos ferozes. Mas a determinação da borboleta era algo realmente muito forte. Não se abalou e seguiu, com a asa quebrada, mas cantando belas canções. Havia algo que lhe dizia que aquele vulcão, mesmo caladinho, estava a ponto de explodir e inundar as adjacências com sua lava, o esperado remédio para a sua asa quebrada de borboleta cantora.

A cada dia, a borboleta cantora da asa quebrada subia, andando sem pressa e pacientemente a montanha onde ficava o vulcão. Era uma borboleta incansável. Andou tanto que chegou ao topo, ficando cara a cara com o vulcão. O vulcão, sempre silencioso, esperou que a borboleta, sempre falante, falasse.

“Vulcão”, disse a borboleta, “sou uma borboleta cantora e como vês a minha asa está quebrada. Vim andando até aqui, mesmo estando machucada e exausta, porque me contaram que sua lava serviria como remédio. Eu sei que dizem que você está extinto e inativo, mas como sou uma borboleta sensível sei também que há muita lava aí pronta para ser cuspida para fora, basta haver uma razão. Uma boa razão. Eu e minha música somos uma boa razão”, falou a borboleta cantora da asa quebrada.

“Borboleta”, respondeu o vulcão desconfiado, “o que queres tu de mim?”. Estou aqui quieto no meu canto, com minha vidinha definida e vens me perturbar com tua asa quebrada e tua música”.

“Não gostas de minha música?”, perguntou a borboleta.

“Na verdade gosto e muito. Gostaria que cantasses para mim todos os dias. Mas não sei se devo explodir e derramar minha lava sobre ti e sobre os campos só por causa da tua asa quebrada. Essa asa quebrada me perturba muito, confesso. Talvez a lava te cure, mas queime muito pasto e muita gente. Inclusive você e minhas amigas montanhas rochosas aqui ao lado, amigas de muito tempo”.

“Mas vulcão, que opções eu tenho?”

“Duas: ficar aqui cantando para mim e esperar que a asa se cure com o tempo ou…”

“Ou…?”, perguntou a sempre curiosa  borboleta ao vulcão, sempre misterioso e de frases incompletas.

“Ou o quê, vulcão?”, insistiu a borboleta.

Mas o vulcão não respondeu. Jogou as sobrancelhas para lado como quem diz algo que não consegue verbalizar. Tinha essa mania. Fazia sempre isso.

“Já sei. Ou canto e espero sarar ou te convenço a me cobrir de lava para me curar, mesmo afetando os pastos e as montanhas rochosas. Certo?”

“Pode ser…”, disse o vulcão, como sempre em meias palavras. “Sabe o que é, borboleta cantora: tenho a impressão de que você só veio cantar para mim, coisa que confessadamente adoro, por causa de sua asa quebrada. Que se eu ajudar a consertar sua asa, você vai voar para outras florestas e eu vou ficar aqui, em companhia dessas montanhas rochosas que já me acompanham há algum tempo. Tenho medo que isso aconteça. O medo sempre me perseguiu”.

“Entendo sua preocupação, vulcãozinho, mas devo lhe dizer uma coisa: eu gosto de cantar como gosto da própria vida. E jamais cantaria somente para ter sua lava para curar minha asa quebrada. Ela está quebrada, sim, mas minhas cordas vocais não estão e minha música é verdadeira”.

O vulcão ficou todo enrolado, em dúvidas sobre o que fazer. Como medo, como sempre. Continuar ao lado das montanhas rochosas ou explodir, curar a borboleta, mesmo com algumas baixas no processo, coisa que de fato já há muito estava com vontade de fazer.

“O que você quer de mim, borboleta? Fale. Seja sincera”, perguntou agoniado o vulcãozinho, mesmo sem demonstrar que estava. Ele não era muito bom para demonstrar sentimentos…

“Sabe, vulcão. Na minha vinda para cá confesso que pensei muito em mim e na minha asa quebrada. Mas como vim devagar e andando, confesso que me apaixonei por você”.

“Como?! Apaixonou?! Que história é essa?”

“É. Paixão. Vontade de estar junto, de cantar para dormir, de querer ficar perto, de conhecer mais. Acho que se eu for embora agora morrerei de saudades”.

“Mas eu sou um vulcão e você é uma borboleta!”.

“E paixão lá quer saber dessas coisas, vulcão! Ela simplesmente chega e invade. Pronto! Sabe, decidi uma coisa. Vou cantar para você todos os dias que você quiser. E nem precisa explodir para me curar. Acabo de descobrir que só o fato de ter chegado perto de você já melhorou minha asa. Quem sabe se você me permitir ficar perto e cantar, vez por outra, me cure completamente?”

“Estou confuso”, disse o vulcão remexendo as sobrancelhas, enquanto os outros bichos da floresta, loucos pelo canto da borboleta, gritavam: “Vulcão leso! Vulcão besta! Explode logo, cura a asa da borboleta! Assim ela vai poder voar de novo e irá aprender novas músicas para ti!”

O vulcão pensou, pensou, pensou. E disse, meio desconfiado:

“Borboleta, você gosta mesmo de mim mesmo?”

A borboleta não respondeu. Sorriu. E bateu asas e voou. Estava curada. Descobriu que não era a lava do vulcão o remédio para sua asa, mas a paixão dentro de si que acabou por curá-la. O vulcão, sob os gritos coletivos de “leso, leso!”, viu a borboleta ir embora, sem explodir. Sentiu um misto de tristeza e de alívio. Tristeza porque perdera as músicas inebriantes da borboleta, de que tanto gostava e que, apesar das tentativas, conseguia disfarçar mal e porcamente. Sentiu alívio porque não teve que mexer em nada na sua vidinha, ali sedimentadas junto às montanhas rochosas. O tal do medo.

À noite, quando o vulcão já estava quase adormecido (mas sem esquecer da borboleta, com quem até já sonhara), ele ouviu a suave voz da borboleta a cantar. Sentiu um frio na barriga. Ou seria um quente? Era um quente! Estava preste a explodir. A borboleta disse:

“Minha paixão por ti me curou. Voltei e voltarei quando quiseres para cantar para ti”.

“Sabes que não posso sair daqui. Minha única forma de me movimentar é explodindo, entrando em erupção, botando para fora todo esse fogo que tenho dentro de mim”.

“Então, vulcão, faça isso quando achar que deve. Não faça por mim, mas por você. Vir aqui cantar quando você quiser independe disso. É meu prazer. É minha gratidão pela cura de minha asa”.

Diz a lenda que todas as vezes que o vulcão chamava, a borboleta vinha cantar. E diz a lenda também que o vulcão chamava a borboleta através de pequenas erupções, que nem destruíam os pastos, nem as montanhas rochosas.

Não há registro de grandes erupções. Não há registro de que a borboleta cansou de cantar. Mas cada um, a seu modo, ficou curado. E cada um, a seu modo, ficou feliz. A borboleta cantora, cantando apaixonada e grata e o vulcão das pequenas erupções, sempre silencioso e mexendo as sobrancelhas quando ficava sem graça. E assim foi, apesar dos bichos da floresta terem apelidado o vulcão de vulcãozinho leso, por não ter tido coragem de explodir.

A borboleta e o vulcão, no entanto, sabiam no fundo que eles, os bichos da floresta, queriam mesmo era só ver o show de lava e explosões. E em segredo então se amaram. Até hoje só eles e eu, o narrador, sabemos da verdade. Ninguém nunca soube. Nem saberá.

Lições, laços e urnas

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“(…) Pois de tudo fica um pouco”.
Carlos Drummond de Andrade

Ando meio reflexivo ultimamente. Mais do que de costume. Milhões de coisas têm acontecido de repente em minha vida em um período tão curto de tempo. É  como um curso intensivo, daqueles que a gente só pára para o almoço, de meio-dia às duas. Essas coisas têm mexido comigo, existencialmente falando. Percebo-me mais reflexivo, mais contido e menos ansioso do que antes. Mais maduro, se é que alguém pode se avaliar sem ser suspeito. Mais velho, diriam os mais cruéis. Em crise, diria meu irmão Paulo.

Cada período da vida da gente, que avança feito o rio em busca do mar, pode ser e geralmente é marcado por algo especial, um aprendizado que fica depois do balanço das dores e amores vividos. Lições. Concordo com Caetano quando diz que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Ninguém, além de nós mesmos, sabe o que se passa em nosso íntimo pensamento, no momento em que nossa mente avalia o teto branco naquela hora final do dia, antes do sono tomar conta do corpo sem que nós percebamos. Ninguém penetra em nossa mente naquela hora em que apoiamos o queixo na mão cerrada em momentos solitários de meditação no banheiro.

Muito cedo aprendi com meus pais a dar valor ao estudo. E esse é uma das maiores heranças que ele podiam me deixar. Para estudar não há limites. Faz-se das tripas coração e do coração o motor. Uma grande lição. Foi minha lição número dois, na verdade. A primeira tinha sido a de que é preciso ter uma família feliz para se poder viver bem, antes de qualquer coisa. E eu a tenho tido desde sempre. Quanto a isso, o próprio tempo tem se encarregado de deixar cada vez mais claro a importância dos laços familiares. Lá em casa não temos laços, mas nós de marinheiro.

Aos meus vinte e poucos anos, contrariando Fábio Jr, desfiz-me dos meus planos em nome de um amor, em nome de um laço matrimonial para sempre. Um amor verdadeiro e real, mas que acabou, pois o para sempre sempre acaba. Aprendi, amargurado, que amores, mesmo verdadeiros e reais, podem acabar, sim. Acabam geralmente por causa de outros amores, mais verdadeiros e mais reais para um ou para outro parceiro. Foi o que aconteceu. Apesar de ter sido minha a escolha da ruptura, sofri e chorei. Mas aprendi. Na minha segunda entrega afetiva, fui mais incerto da certeza, mas fui para valer. E a valência do grande amor que surgiu fez-me esquecer completamente a lição que aprendera antes: grandes amores acabam. E por ter esquecido, sofri, chorei, dessa vez do outro lado do rio. Aprendi outra lição: a vida vem e não pede licença. A frase, verbalizada em uma conversa com minha orientadora do doutorado em uma das minhas sessões de orientação, era a que eu buscava há tempos para resumir a fase. A frase da fase. Preparemo-nos, pois, para as surpresas.

Junto com esse aprendizado, outra lição me veio: não há opção, estrada escolhida, que seja só paz e tranquilidade. Sempre há espinhos nas rosas, sempre há pedras no caminho, para lembrar Drummond, que faz cem anos. Mas, como corolário dessa lição, aprendi que o cheiro da rosa vale algumas espetadas. Dei-me conta de que para chegar aonde leva o caminho, topadas são inevitáveis. E aprendi, então, a desenvolver mecanismos para conviver menos traumaticamente com as adversidades. Não há nada que não seja resolvido com diálogo e boa vontade. Só o inexorável fim da vida não tem jeito. Quer dizer, os espiritualistas conseguem até dar um jeitinho ainda.

Hoje, aos trinta e quatro anos, acho que todos os nossos inimigos deveriam ser cruelmente mortos, ter seus corações varados a lança e suas tripas queimadas e jogadas aos porcos. Mentira. Não acho isso, não. Mas é que toda crônica tem de ter um quê de polêmica, daí eu ter que escrever algo assim… Na verdade, é o contrário. Percebo que não há bem maior do que querer bem as pessoas. Todas elas, sem exceção, mesmos as mais carnes-de-tetel. Umas são mais fáceis de amar, outras mais difíceis. E aí que está o grande baratinho: descobrir a cada dia como ganhar um sorriso daquele poste que não ri nem com a singela piada do tomatinho atropelado, desvendar uma forma de como ouvir um comentário confidente e arreganhado daquela desconfiada que mal abre a boca, quanto mais o coração. Desafios diários.

Já há algum tempo que faço desse o meu passatempo: conquistar pessoas. Dou bom-dia a todos, sorrio na passagem, converso com meninos nos sinais, caixas de supermercado, frentista de posto. Pergunto pelo seu dia, se já votou, se está chateado com o clima e tal. Irrito-me com a arrogância de certas pessoas no tratamento com outras que estão trabalhando para lhe servir, o que, pra mim, demonstra uma carência fundamental. Arrogância é a fumaça que sai do motor psíquico, queimando óleo por falta de amor e humildade. Aprendi nessa curta vida que querer bem verdadeiramente é muito bom e alimenta o espírito. E que arrogância só serve para amargurar o próprio arrogante, num processo autodestrutivo. Bom mesmo é fazer amigos.

E aí chego aonde queria. Os amigos. Os amigos, de verdadão, são fantásticos. A verdadeira amizade, ao contrário do que se possa pensar, não está relacionada ao tempo. É claro que ela resiste a ele, como as arcas de tesouro dos velhos galeões do Séc. XVI, descobertas hoje intactas. No entanto, ele – o tempo –  não é condição para que pessoas sejam e se considerem amigas. Há pessoas que não vemos há anos, mas que certamente se jogariam na frente da gente para cortar a trajetória da bala direcionada ao nosso coração. Por outro lado, há outras que mal conhecemos e que, por um olhar ou um sorriso cruzado, sinalizam que ali existe uma cumplicidade gratuita, desinteressada, um querer bem sem querer pra si, uma felicidade mútua ao se ver, ainda que seja um ver esporádico. São as amizades pós-modernas, rápidas, pontuais, mas nem por isso menos verdadeiras. É o encontro de pessoas boas. É um estar junto que faz bem. Tenho conhecido pessoas recém-amigas assim.

Tenho vários grandes amigos. E hoje, modéstia à parte, só conheço uma pessoa que não gosta declaradamente de mim. Tudo bem. Fazer o quê? Gosto dele. Ele é a exceção que confirma minha regra, tendo lá seu valor social e estrutural. Ele permite que meu senso de atenção contra as maldades não perca o emprego por falta de uso. Meu senso de atenção é um burocrata, como essa pessoa que não gosta de mim.

Ser professor, nesse aspecto de conhecer pessoas, é muito bom. Não tenho bens, mas tenho bem-quereres. De alunos, colegas e professores. Tenho amigos e ter laços de amizade é fundamental para ser um três-quatrão feliz. Trinta e quatro, gente… Por que será que estou fazendo tanta referência à idade? Será que o Paulo tem razão quanto à crise?…

O país começa a mudar com o novo presidente. Já sinto outros ares entrando pela janela do meu apartamento. Mas não estou feliz como deveria, como venho esperando ser desde 1989. No dia que nasce um país novo, morre a velha Dona Maria.

Dona Maria, comadre de meus pais, foi vizinha de trás da casa da rua três, a casa de minha infância. Dona Maria era vizinha naquela época em que conhecíamos os vizinhos. Mais: gostávamos deles, integrando-nos às suas família. Tornávamos seus compadres. Por várias vezes, Dona Maria tomou conta do Mauro, meu irmão mais novo, para que meus pais fossem buscar a caça para alimentar as crias. A Dona Maria nos fornecia a pimenta murupi do almoço, cotidianamente solicitada por sobre o muro, missão tacitamente sempre delegada a mim na hora do almoço. “Dona Maria!!! Tem pimenta?”, ecoava o grito do menino, seguro por saber que a resposta era sempre um sim feliz por fazer feliz os vizinhos queridos.

Urnas. O país comemora a nova vida, vinda das urnas. Os filhos de Dona Maria choram sua partida, ao lado do seu corpo, ali na urna. Eu não via alguns deles há mais de vinte anos: Zé, Vavá, Totoca… Alguns amigos de infância também, fiéis, apareceram na hora do ombro silencioso: Manel, Chico, Sorte, Caroço, as filhas da Bolota. No velório, Dona Maria deitada. Coração. O mesmo coração grande que motorizou sua vida a levou, quando resolveu parar. Cheguei perto, e enquanto olhava seu rosto inchado, uma lágrima rolou pelo meu. Minha memória não está lá essas coisas, mas meu corpo jamais deixaria cair uma lágrima se não houvesse escrito por dentro em letras afetivas uma gratidão aprendida por meus pais. Pousei minha mão sobre as suas, agradeci, de novo, pelas pimentas murupi. É o que o que me lembro. Mas sei, que nesse agradecimento, agradeci por ter sido uma grande amiga de meus pais em coisas que nem lembro e nem sei, que escapam às minhas memórias, mas não ao meu inconsciente. Com certeza, sua relação com meus pais chegou em mim na importância da palavra amizade, a mim passada por Seu Jefferson e Dona Helena que, como bons amigos, sentiram muito a ida de Dona Maria.

Por tudo, atentei triste, hoje, para outra lição: os bons também se vão. Mas certamente ficam, fortes como o sabor da pimenta murupi, dentro da vida dos amigos, por conta dos laços que fizeram com fitilhos de vida. Vá em paz, Dona Maria. E separe aí em cima umas murupas boas, como as da senhora. Como a senhora. Da próxima vez que colocar a cabeça sobre o muro, eu espero lhe dar boas notícias daqui. Eu e 170 milhões de brasileiros. Porque há lições, porque há urnas, porque há laços.

Manaus, 01 de novembro de 2002

Amigos

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Texto escrito para o Portal Amazônia

A amizade nasce no momento em que uma pessoa
diz para outra: “O quê? Você também?
Pensei que eu fosse o único!” (C.S. Lewis)

Hoje é o Dia do Amigo. Esses dias temáticos são bem propícios para ajudar na escolha de um tema sobre o que escrever. Suspendi até um texto em que estava trabalhando, e que vou retomar mais tarde, sobre o exagero como causa dos problemas da vida.

Segundo o honesto Houaiss , “amigo” vem do latim “amicus”, aquele “que ama, que gosta de; benévolo, propício; aliado confederado; aprazível, deleitoso; querido, amado”. Vou usar essa etimologia como roteiro das minhas mal digitadas.

Amizade é um sentimento que envolve amor. Amor no sentido de querer bem, de vibrar com o sucesso e lamentar-se solidariamente com o fracasso do amigo. Abraçar esse amigo apertadamente com um abraço quebra-costela num momento de grande felicidade compartilhada. Querer falar loguinho com ele para contar que algo deu certo. Espalmar as mãos no ar num “yessssss” de felicidade conjunta. Amigo é correr junto, como no atletismo, passando o bastão da vida, na confiança de que ele não cairá na hora da passagem. É roubar minutos de um tempo impossível para compartilhar segredos mais íntimos ou um sorvete de três bolas.

Amizade é um sentimento que envolve gostar. Gostar é diferente de amar? É. O gostar é a sintonia gratuita em relação a alguém de pouca convivência contínua. É aquela sensação deliciosa que sentimos quando vemos aquela pessoa chegando ao mesmo ambiente em que nós estamos e aquela sensação lamuriante de “já vai?” quando ela sai. Gostamos de várias pessoas sincera e profundamente pelos mais variados motivos. Colegas de trabalho, alunos, o porteiro do prédio, a moça da limpeza, o @ do Twitter que nunca vimos pessoalmente. Há conhecidos, pessoas que cruzaram com a gente uma vez na vida, lá na época da copa da México, que quando encontramos na fila do banco ou numa happy hour qualquer faz questão de dar um abraço sincero comemorando o encontro casual. E você sabe que é sincero mesmo.  Você sente na força do amplexo hercúleo. É assim: há níveis de amizades, sem que um seja melhor que outro, entende? Há os amigos que amamos, até por que convivemos mais, e os que gostamos. Mas como eu disse, não significa que aqueles de quem gostamos são menos amigos do que aqueles que amamos. São sentimentos diferentes, incomparáveis. Fico tão feliz em estar com um amigo que amo quanto em estar com um de quem gosto.

Amizade pressupõe benevolência. Sem dúvida. A boa vontade em relação ao amigo sempre existe e é gratuita, quando a amizade é sincera. Um bom amigo tem um coração do tamanho da China, com uma batida caribenha, salsada e merengada. Sempre se dá um jeito: está precisando de uma informação? Vou dar meus pulos aqui para conseguir para você. Está numa sinuca-de-bico e precisa de uma mãozinha? Vou mudar meus planos aqui para a gente encaçapar essa. Quer que eu resolva isso pra você, já que estou por aqui? Vou lá agora que isso não pode ficar assim mesmo. Acredito que a boa-vontade gratuita – porque existe a forçada! – é um dos melhores parâmetros para avaliar uma amizade, se é que uma amizade precisa de avaliação. Tem gente que se diz amiga e até engana (eu sou um amigável ingênuo demais nesse aspecto), mas na hora da prova da boa-vontade falta uma afabilidade que chega a doer pela expectativa frustrada por aquele comportamento. Para um bom amigo, o relógio é instrumento inútil: não há hora. Os meteorologistas podem ser todos demitidos: não há tempo ruim. A não ser que o relógio seja presente do amigo metereologista…

Amizade envolve propiciosidade. Ser propício é estar disposto favoravelmente como opção padrão. É ser compadecido, oferecer proteção. Ser propício é ser conveniente, oportuno, adequado. E só o bom amigo, aquele que conhece a lixeira da sua caixa de correios e não se escandaliza com ela. Só ele é capaz de sacar no ar o momento de ir e vir, de falar e calar, de te puxar pelo braço e de te empurrar no tatame. Ser amigo é ser encorajador. Mas um encorajador que não decide por você: decide com você. O que você decidir, brou, estou nessa contigo.

Ser amigo é ser aliado confederado. Gostei dessa definição do Houaiss. Porque é isso mesmo. Ser amigo é ir à guerra juntos. Unir forças para combater um inimigo comum. É saber que na hora H, como nos filmes, o amigo vai estar lá para dar o tiro fatal naquele cara que está vindo para cortar sua garganta quando você está ali, preso na areia movediça do pântano. Bang! Cai o inimigo, sangue na boca. Corta a câmera: aparece o amigo, arma fumegando. E sorri. Nossas guerras, diferentemente das dos filmes, são metafóricas e diárias. Precisamos dessa certeza da proteção. Precisamos desse aliado contra os combates da roda-vida, de alguém que dê uma voadora por nós e só depois que estamos salvos pergunte o que houve.

Amizade envolve deleite e prazer. Saber que você faz parte do bem estar do outro, prestando atenção a detalhes, lhe fazendo bem. Ser amigo envolve pensar em mil razões e desculpas para estar junto. Pensar que você é capaz de passar o dia todo ali, no tapete da sala, ouvindo música, comendo pipoca, contando piada, falando besteira, lembrando dos bons tempos idos ou imaginando os bons tempos a vir. E que no dia seguinte seria capaz de repetir tudo de novo. Ou que você passaria o dia todo ali, do lado do amigo doente, botando o termômetro no sovaco, dando remedinho na boca ou fazendo compressas na testa. Não há nada pior, na humilde opinião desse escriba, do que você perceber indícios de que você não agrada mais como agradava, que sua presença não traz o brilho que trazia aos olhos do outro. É duro dar conta de que agora há sempre uma razão, um motivo, uma desculpa para interromper o fluxo que antes fluía como  o volume d’água de um Rio Amazonas, que o relógio está sendo usado pelo amigo e que ele voltou a assistir à previsão do tempo. A gente meio que murcha por dentro. Eu, particularmente, fico triste. E não sei disfarçar. O Rio Amazonas vira um Igarapé do Mindu: pobre, sem velocidade, sem vida. Você até tenta recolher as garrafas plásticas da indiferença, as espumas da poluição afetiva, mas… Eventualmente morre. Como o Tietê. E ficam as boas memórias de um tempo que não volta mais. Um amigo tem de ser querido. Querido no sentido de desejado. Sua presença, sua opinião. Tudo seu é importante. Menos sua indiferença.

Um amigo tem de ser radical. Tem de ser capaz de amar quando você é inamável. Abraçar quando você é inabraçável. Suportar quando você é insuportável. Tem de ser fanático. Aplaudir quando todos vaiam, porque você, a despeito de tudo, é amigo. Vaiar quando todos aplaudem, para lembrar que a vida tem fissuras, é cíclica e que não se pode ignorar que a bola cheia um dia esvazia. Um amigo tem de dançar com suas boas notícias e compartilhar a lágrima furtiva que rola na hora da tristeza. Acima de tudo, um amigo tem de ser matemático: deve multiplicar a alegria de compartilhar as vidas, buscar dividir as tristezas e os momentos de vazio e desânimo; deve subtrair o passado nocivo e adicionar o futuro desejável na relação. Um amigo deve calcular a necessidade mais profunda do seu coração e sempre, sempre, ser maior do que a soma de suas partes.

Que delícia quando você acha alguém assim para, além de tudo, dividir a vida com você. É quando as pessoas casam e são felizes. Um casamento começa a terminar, digo eu, quando a amizade fenece. Amor e amizade são as duas bisnagas de Araldite de um relacionamento duradouro. É perfeitamente possível querer bem as outras pessoas sem querê-las para si. Amizade sincera existe mesmo. E dialeticamente se desenvolve na própria amizade, ganhando ou perdendo espaço, achando ou perdendo o rumo. Mas existe.

Enfim, meus amigos. Tenham um bom Dia do Amigo. E já que estava escrevendo um texto sobre o exagero, dizendo inclusive que ele pode ser positivo, quero um número exageradamente grande de amigos. Hoje lembrarei dos meus amigos de ontem e os de hoje no meu bate-papo noturno com Deus. Se faz um tempo que a gente não se vê, não se preocupe: qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar…

PS: Amanhã é o aniversário do Miguel, filho do meu irmão Mauro. Há exatamente oito anos eu escrevia um texto chamado “Vambora, Miguelito”, no qual brindava as duas vidas que começavam: a dele e a minha, que recomeçava após um casamento recém-desfeito. O Miguel já tá grande, é bonitão e é safo. Eu já tenho um novo amor e duas filhas. Estamos bem na fita…

A química do amor

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Um tema que está e sempre estará nas bocas e pautas cotidianas é o amor. O amor é um sentimento rico em suas várias vertentes e interpretações. Há quem viva por amor e há quem mate por amor. Há diversos tipos de amor. Hoje eu quero falar sobre um tipo de amor bem específico: o amor romântico, aquele amor cantado nas músicas de Roberto Carlos e chorado nas de Adriana Calcanhoto e dos sem número de sertanejos e pagodeiros.

Começo com uma pergunta provocativa: é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? Não, não me venha com esse negócio de dizer que sim usando a mãe e a esposa como exemplo. Estou falando do amor Eros. É possível amar simultaneamente duas pessoas em termos afetivo-sexuais? Essa pergunta possui várias respostas e, antes de dar a minha, gostaria de fazer algumas ponderações.

No meu livro didático de inglês, há um texto do qual gosto muito e que é usado como elemento provocador da unidade sobre relacionamentos. O texto, chamado Love Chemistry, foi publicado pela revista Time e apresenta algumas afirmações muito interessantes sobre o amor e a paixão. Resumidamente, diz a revista que o amor romântico e a paixão avassaladora nada mais são do que rótulos que nós, humanos sentimentalóides, usamos para descrever meras reações químicas que ocorrem em nosso corpo, reações essas motivadas por situações envolvendo o sexo oposto (ou até o mesmo sexo, para ser politicamente correto). Possuímos um mapa do amor que durante nossa vida vai registrando tudo aquilo que gostamos e não gostamos nas pessoas. Esse registro é utilizado para decidir se uma pessoa passa ou não passa na nossa triagem afetiva. Se ela apresentar um número de características suficientemente compatíveis com a maioria dos requisitos de nosso mapa, a luz acende: é essa pessoa! Na verdade, o texto afirma que esse tchans é o momento em que surge a paixão. Ela, a paixão, antecederia o amor na cronologia dos relacionamentos.

O texto segue explicando cientificamente as sensações afetivas. A paixão é causada por uma espécie de anfetamina natural produzida pelo cérebro, uma tal de PEA. Essa substância, que existe no chocolate, é a responsável pelo frio na barriga, pelas mãos suadas, coração na boca e por todas as outras sensações que nos assaltam quando balançamos por alguém.

No entanto, depois de um certo tempo, o corpo desenvolve resistência a essa substância. É necessária uma quantidade cada vez maior dela para dar o mesmo efeito, numa espécie de vício. Daí há dois caminhos lógicos a seguir. O primeiro caminho é o caminho do viciado: sem conseguir manter o mesmo nível de excitação do início do relacionamento e incapaz de fazer o movimento de abandono do egocentrismo, a pessoa abandona a relação – pois o fornecedor não dá mais conta de seu vício – e começa tudo de novo, buscando novas paixões, pulando de galho em galho sem nunca parar quieto com um parceiro. Quando o efeito do PEA acaba, acaba junto com ele o relacionamento. Literalmente é o vício de estar sempre apaixonado. No segundo caminho possível, por outro lado, o sentimento fogoso se transforma em um sentimento de companheirismo, sendo a roqueira anfetamina PEA substituída por outra substância também produzida pelo cérebro, uma espécie de endorfina, relaxante, calmante, zen. As coisas mudam: em vez de você gostar de como você se sente perto da pessoa, você passa a gostar do jeito que ela se sente perto de você. Saí o prazer egoísta e entra o prazer altruísta. É a passagem da paixão para o amor, como se fosse assim de Bon Jovi a Beethoven. Por isso que dói tanto quando alguém que amamos morre ou nos deixa: deixamos de ter a dose diária do nosso narcótico. Temos crise de abstinência que, se não tratada, pode levar à loucura e até à morte.

Se entendermos então a paixão e o amor como reações químicas, podemos afirmar que é possível que elas ocorram concomitantemente. Ao mesmo tempo em que tenho um amor companheiro e altruísta, posso cair na tentação de emoções disparadas por uma situação conspiratória nova que produza o frio na barriga, as mãos suadas, etc e tal. Posso então amar e estar apaixonado ao mesmo tempo. Eu concordo com isso, sendo essa minha resposta para a pergunta provocativa colocada lá em cima. Amar duas pessoas? Não. Amar uma e se apaixonar por outra? É possível. No entanto, há ainda outras questões que se desdobram aqui.

Pensemos nas combinações. Primeira combinação: você pode estar apaixonado por alguém e não amá-lo. Você gosta de estar junto, curtir um chamego, misturar calorzinhos. E só. E só isso pode ser muito bom. Digamos que seja o típico ficar da moçada. Paixão instantânea. Corpo. Segunda combinação: você pode amar uma pessoa e não estar mais apaixonada por ela. Você quer tudo de bom para ela, se preocupa com seu bem-estar, com sua felicidade. Alma. Mas aquela sensação de coração disparado há muito não mais lhe visita. E você ama tão verdadeiramente a pessoa que é capaz de sacrificar sua própria felicidade na vida afetiva, permanecendo junto a ela até o fim da vida, só para não machucá-la. Há milhares de casais que vivem esse tipo amor. Terceira opção lógica: você pode amar e ser apaixonado pela mesma pessoa. Essa é a meu ver a situação ideal para um relacionamento. Nem só rock, nem só música clássica. Tudo tem seu momento. No entanto, essa perfeição requer muita coisa.

Pelo lado do amor requer, por exemplo, querer  bem ao outro sem medida, evitar machucá-lo a todo custo. Fazer tudo o que for possível para seu conforto e bem estar físico e psíquico, priorizá-lo, pô-lo em primeiro plano. Tratá-lo não como nota de rodapé, mas como página principal da sua vida. Pelo lado da paixão, requer descobrir a capacidade de descobrir um ao outro a cada dia, como se fosse o primeiro dia. Requer fazer loucuras de amor típicas dos apaixonados mesmo aos vinte anos de casado. Requer, do nada e sem motivo, saber provocar momentos de encantamento, com um tradicional, mas sempre eficiente, buquê de rosas ou com um filé ao vinho feito especialmente para um jantar a dois. Requer telefonar para o outro do nada ou mandar um torpedo de celular só para dizer o quanto gostaria de estar junto dele, o quanto o ama. Ou mandar um cartão por e-mail do trabalho naqueles dois minutinhos em que o chefe desgruda. Requer, por fim e entre outras coisas, descobrir como manter aceso o brilho no olhar do primeiro contato e a admiração pelo outro, que para mim é a super bonder das relações. Essas combinações são válidas, diga-se, para um relacionamento a dois: ou só paixão, ou só amor ou amor e paixão.

Mas pode acontecer dos espaços não ocupados virem a ter candidatos a complementar a equação. Se há amor e paixão entre um casal, não há espaço para mais ninguém. Se há só paixão fogosa, há espaço para um amor, que surgirá de outra paixão que depois vire esse amor. Se há só amor, o espaço da paixão, da pele, do desejo e da atração pode vir a ser pleiteado por um terceiro elemento, com ou sem risco para o amor. Será que sem risco? Bom aqui tem outro xis na questão.

Quem define as bordas entre amor e paixão é quem vive as situações. Se há espaço para novas paixões em um relacionamento onde há amor altruísta, esse espaço pode ser preenchido automaticamente por uma aventura que lhe faça suar de prazer. Ou pode ser visto como um sintoma de que a relação não anda lá bem das pernas, sendo necessário encarar o famoso “precisamos discutir a relação”. É mais ou menos como aqueles remédios para dor de dente comprados na taberna do Seu Nóbrega que minha mãe usava na gente quando nossos panelões doíam. A dor passava na hora, mas depois voltava doendo mais forte. O negócio era mesmo tratar a causa da dor na cadeira do Dr. Altair.

Todos somos seres humanos e por isso vulneráveis. Todos desejamos e fantasiamos com outras pessoas além de nossos parceiros. Que menina gostosa! Que cara sarado! Wow, se eu pego essa aí! Olha que pitchula… Isso é normal. Desejar e fantasiar exercita a mente e sinceramente acho que é saudável porque funciona como a válvula da panela de pressão, deixando sair o excesso para não explodir. Reprimir o desejo é criar neuroses, já nos dizia o velho Sigmund. Possibilitar, permitir e concretizar o desejo de um terceiro no jogo são outros quinhentos. Se pode haver um ganho pelo preenchimento de um prazer desejado, pode igualmente haver a perda da capacidade de reconhecer que algo está errado e que precisa ser revisto. Não há escolhas só com ganhos. Toda escolha tem perdas. E essa é uma escolha que pode pôr tudo a perder numa relação construída em uma sociedade como a nossa, oficialmente monogâmica. Pode botar a perder inclusive um grande amor que apenas está mal cuidado. Chupando a frase do Guilherme Arantes, será que vale a pena tanta loucura por tão pouca aventura?

Talvez explicar relações pela ciência e por reações químicas não convença ninguém. Talvez você ache que sou idealista demais ou hipócrita demais. Talvez, quem sabe, eu tenha mesmo simplificado algo que sempre fugirá da nossa capacidade de compreensão, esse sentimento belo e complicado chamado amor. O que continuo afirmando, no entanto, é que imperioso não esquecer que em última instância somos nós que escolhemos entre as opções que a vida nos traz. É pesar e ver onde há mais ganhos e menos perda. A opção pelas perdas é masoquismo. Diz a Neila, a menina que limpa e arruma aqui em casa, que nessa hora a gente deve se concentrar mesmo é nos ganhos, ignorar solenemente as perdas e ser muito muito feliz. Concordo.

08 de abril de 2004

Sinais

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Um homem tinha um cachorro que havia criado desde pequenino. Seu carinho era retribuído com uma fidelidade canina. O que dono fazia era aplaudido pelo animalzinho, que o lambia como a dizer “Você é meu ídolo!” Sinais de cumplicidade. O homem amava o cão e o cão amava o homem. Brincavam, explorando o terreno da chácara em que viviam.

O tempo passou e o cãozinho cresceu. O homem confiava no cão e o cão retribuía com sinais de carinho.  As pessoas da cidade, no entanto, viviam dizendo para o homem não dar muita  confiança para o cão. Bicho é bicho e nunca se sabe quando o instinto vai falar mais alto. Mas o homem confiava no cão. O homem casou e sua esposa teve um bebê. Fofo, como todos os bebês. Um riso de Curinga.

Um belo dia, o cão comia sua ração quando o homem se aproximou para lhe fazer um afago. Mas não era um afago sincero. Era um afago de teste. Ele queria ver se o cão preferiria o afago à comida. No fundo queria testar o que diziam na cidade. O cão não vacilou à aproximação. Rosnou e ameaçou morder. O homem forçou a barra, o que era uma sacanagem com quem só havia dado sinais de lealdade até então.

Ferido com a quebra de confiança, o cão mordeu o dono. Esse, assustado, recuou. Reagindo instintivamente, lançou um pedaço de pau contra o animal. Chegou a atingi-lo. O cão e o homem deram sinais de que ficaram ressabiados um com o outro. Principalmente o cão, que estava na dele no início de tudo.

E lá se foi o homem à cidade de novo. Ouviu as mesmas histórias sobre o instinto. Mas dessa vez os sentidos daquelas palavras foram outros. Passou a acreditar no que ouvia. Voltou  para casa convencido de que se desfaria do cão.   Ao chegar, a cena de horror. Rastros de sangue no chão.

O homem pensou na família. Entrou em casa, pegou sua arma, muniu-se de ódio para matar o cão. Eles tinham razão: o instinto se manifestara. Correu em busca da esposa e de seu  bebê. Ela estava no corredor, com as pernas dilaceradas. Fora pega antes de chegar ao quarto, para onde ia para proteger o bebê.

O homem começou a sangrar por dentro. Não queria ver a próxima cena. Fechou os olhos. Rezou para o bebê estar lá. Ao fechar os olhos, sentiu uma lambida na mão e ouviu um  grunhido. Era o cão, todo estropiado, ali na sua frente. O seu ex-melhor amigo era a razão de sua maior dor.

O cão olhou o homem nos olhos. E sorriu. Um riso de sarcasmo talvez. “Viu o que fiz com sua família!”.  O homem mirou e disparou. O cão caiu morto. Não teve nem tempo de gritar de dor. E o bebê? Dirigiu-se ao quarto, já preparando o espírito para o impreparável. Cão miserável!

De repente um choro. O bebê! Vivo! Correu para tomá-lo no colo. Ao entrar no quarto, o bebê estava no berço, chorando, respingado de sangue. Do lado do berço, a onça morta. A mordidas de cachorro. Deu-se o silêncio. Deu-se o vazio. Sentiu uma dor.   O homem sentiu-se só.  Os sinais! O olhar sorridente! A lambida na mão!  O grunhido de orgulho pela guerra vencida…  O homem  deixou de perceber os sinais. Não entendeu os sinais. Irreversível. O bebê, lindo, passa bem, com seu sorriso de Curinga, sem nada saber da história.

A vida é feita de leituras dos sinais do mundo. Às vezes nos equivocamos.