amor desfeito

Bilhete

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Quebrei o teu prato, tranquei o meu quarto/Bebi teu licor/Arrumei a sala, já fiz tua mala/Pus no corridor/Eu limpei minha vida, te tirei do meu corpo/Te tirei das entranhas/Fiz um tipo de aborto/E por fim nosso caso acabou, está morto/Jogue as cópias das chaves por debaixo da porta/Que é pra não ter motivo/De pensar numa volta/Fique junto dos teus/Boa sorte, adeus.

Um amor violento quando torna-se mágoa é o avesso de um sentimento: oceano sem água. É no intertexto das músicas que se tece este texto. Ele é sobre o fim do amor que deve acabar, sobre o amor que era mar violento e se tornou deserto árido. Que, vamos abrir o jogo, não vale mais o que o gato enterra, mas de que você não consegue se desvencilhar. É como se fosse um velcro atrofiado…

Há amores que são tóxicos. Começam a fazer mal, a escravizar. Amores que sufocam, afogam, nos alzeihmerizam a alma. Amores de quem queremos distância, mas dos quais não conseguimos nos despregar, tal o visgo que se construiu na época  em que ele era bom. Era. Foi-se.

É preciso morrer para viver. Sem se matar o amor apodrecido, fétido, não se pode recomeçar. A brisa do amor não sopra se não forem fechadas as janelas de um lado e abertas as portas de outro. Para deixar o amor putrefato ir embora. Tchau, adeus! É preciso coragem – que sempre falta. É preciso desprendimento – que nunca vem. É preciso culhão – que parece ter ficado perdido nas tórridas noites de sexo que se foram. Mas respire fundo e toque o barco!

Luto. É preciso curtir o luto. Deixar ir. Porque se sabe que faz mal. Muito mal. Todos sabem. Só um resto de nós, uma parte teimosa, insiste em ficar ligado ao amor parasita, que nos suga. Benefício lá, malefício aqui. Mas ele nos suga para ele unilateralmente. Diferente da época em que nos sugávamos mutuamente, por prazer. Deixe ir! Coragem! É preciso respirar! Mande embora essa coisa!

Quebre o prato! Tranque o quarto! Beba o licor! Rasgue os papeizinhos! Apague os e-mails! Delete o nome dele do seu celular e da agenda da sua vida! Dê-lhe um block na vida! Unfollow na sua alma! Dê um delete nele, inclusive na lixeira depois. Shift del nesse vírus da sua vida!

Arrume a sala! Arrume a vida! Retome o controle de seu coração! Expulse esse merda! Faça as malas deles e ponha no corredor! Limpe sua alma, dê uma polida em sua aura, retire esse troço do seu corpo! Assepsie-se! Sinta o Fenergan da decisão entrando em sua alma e limpando a alergia que esse ser te dá. É, não é fácil! Tem de arrancar das entranhas, é um tipo de aborto! Vai doer? Vai! No corpo e na alma! Vai ter vontade de chorar um rio? Chore! Tem medo da vida ficar sem sentido? Por uns tempos. Depois pega vento de novo! Não vale mais a pena! Não vale mais. Aceite! Vai por mim. Já estive aí! Tem de ser na porrada!

Se ele não quiser entender, problema dele! Não é você que tem de fazê-lo entender. Não caia nessa! É só o que resta de você preso nessa coisa que faz você ficar inventando desculpas fuleiras para não se desligar! Diga para ele: “Me larga, não enche! Me deixa viver, me deixa viver! Me deixa viver, me deixa viver… Cuidado, oxente!” Está no seu querer poder fazer o tal desabar… Complete: “Pra rua! Se manda!” A mala… a mala tá aí fora! Grite: “Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar! Pirata! Malandro! Me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar…”. Saque mil caetanos para esse lazarento!

Acabou! Está morto. Enterre. Chore. Gaste o luto. Sem isso, nada feito. Legal o que se passou de bom. Mas já era! Hello-ô! E não dê motivos, não tome o primeiro gole dessa pinga amarga… Não fale mais com ele… peça que jogue a cópia da chave por debaixo da porta que é para não ter  motivo de pensar numa volta.

Ah, e se ele sentir a perda? E se ele sofrer? Não é problema seu. Ele que fique perto dos seus e se vire. Não é você que vai tomar conta disso… você não é mais dele, não precisa mais fazer isso. Componha-se! Amor próprio! Isso! Não fique parada! Há uma estrada pela frente! Não permita ninguém bloquear seu caminho, o passeio de seu caminhar… Vá embora… Vá cuidar da vida! Quer algum recado para ele? Que papel é esse? Tá, eu entrego. Eu! Não você. O que está escrito aqui…? É. Boa sorte e adeus! Foi a melhor decisão…

Futuros amantes

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Não se afobe, não/que nada é pra já/O amor não tem pressa/ele pode esperar em silêncio/num fundo de armário/na posta-restante/Milênios, milênios/no ar/E quem sabe, então/O Rio será/alguma cidade submersa?/Os escafandristas virão/explorar sua casa/seu quarto, suas coisas/sua alma, desvãos/Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você.

O amor é líquido. Ele se conforma com as formas possíveis. Às vezes tem a forma plena de uma mar aberto. Às vezes cabe num guardanapo de lanchonete ou num vidrinho de perfume. Às vezes se presentifica somente nas ideias. Mas o amor é. Mesmo quando ele não pode ser, ele acaba sendo.

Diz Paulo, no livro que não finda, que o amor é paciente. Sim, o amor não tem pressa, ele pode esperar milênios, milênios no ar. Quem se afoba somos nós, súditos desobedientes que não compreendemos o seu tempo. Por causa disso, quase sempre estragamos tudo. O amor verde, antes do seu tempo, é duro. Não se conhece a textura na mordida da boca. Por vezes é amargo, mas não de si, mas amargo da língua aftosa e herpética de querências fora de tempo. Não dá para apressar o rio do amor: ele corre sozinho. Aprender a esperar o tempo do amor é um segredo para poucos felizardos. Uma pérola repousa por anos na ostra.

Se o amor é paciente e devemos nos espelhar nisso, onde guardar o amor que não pode ser? Depende da história. Uns guardam num fundo de armário. Outros, na posta-restante dos Correios, que andam ariscos demais, a propósito. Para quem não sabe o que é posta-restante: a gente pode pôr uma indicação no subscrito de uma carta quando quer significar que ela deve permanecer na repartição dos Correios até que seja reclamada pelo destinatário. A posta-restante é o lugar onde ficam tais cartas, as que restam. Assim, um amor sempre tem um remetente. Às vezes o destinatário não reclama o amor. Às vezes sequer sabe sobre ele. Porque não pode. Ou não quer. Para dar um F5 no texto, podemos dizer que hoje se guarda em e-mails nas caixas de rascunhos, em SMSs no draft, em tweets soltos na timeline, em cutucões reticentes no Facebook, em posts a postos para serem publicados, só esperando a coragem. Essas são versões modernas e descafeinadas do amor. Todos lugares mais modernos de se guardar um amor quando seu tempo não chegou ainda. Ou quando não pode chegar.

Mas se o amor não chegar, ele se perde? Não, o amor não se perde. Esse é o segredo. O amor não tem dono. É um grande erro pensar-se dono do amor. Quando não se acha aqui, o amor migra para acolá. Se não pode acontecer do jeito pretendido neste tempo e espaço, o amor corre, evapora, condensa e chove em outro lugar, para outras gentes, em outra geografia, em outras épocas.

Num futuro, como diz a música, escafandristas – só o Chico Buarque para colocar com pertinência escafandristas numa música – recolherão e arqueologistas consultarão os vestígios digitais e analógicos do amor não vivido. Os sábios de então procurarão, ávidos, a Pedra Rosetta, o granito negro que lhes permitirá ver o tamanho do amor que não se plenificou. Ficou na história universal dos amores não vividos, como aquele de Verona. Como o amor não se perde, mas se trasmuta, se metamorfoseia e migra, enquanto tentam os arqueológos decifrar de onde veio, futuros amantes estarão usufruindo com delírio desse amor diferido, de feridos, sem saber que ele é herança de uma impossibilidade passada.

Nada de tristeza. Pode-se sempre usar o amor viajante, deixado pelos amores proibidos do século XVI. Se não cairmos na falácia de que tem de ser um amor específico, podemos entender que podemos ser os futuros amantes de um passado no nosso presente. Não se afobe, não. Amores serão sempre amáveis. Nada é pra já.

Tô voltando!

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Texto escrito para o Portal D24AM.

Para eles, que sabem quem são.

Pode ir armando o coreto/E preparando aquele feijão preto/Eu tô voltando./Põe meia dúzia de Brahma pra gelar/Muda a roupa de cama/Eu tô voltando./Leva o chinelo pra sala de jantar/Que é lá mesmo que a mala eu vou largar/Quero te abraçar, pode se perfumar/Porque eu tô voltando/Dá uma geral, faz um bom defumador/Enche a casa de flor/Que eu tô voltando/Pega uma praia, aproveita, tá calor/Vai pegando uma cor/Que eu tô voltando./Faz um cabelo bonito pra eu notar/Que eu só quero mesmo é despentear/Quero te agarrar/Pode se preparar porque eu tô voltando./Põe pra tocar na vitrola aquele som/Estréia uma camisola/Eu tô voltando.Dá folga pra empregada/Manda a criançada pra casa da avó/Que eu tô voltando/Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar/Telefone não deixa nem tocar/Quero lá, lá, lá, ia, porque eu to voltando!

As relações humanas são bonitas porque são inexplicáveis. Pessoas que nem se conheciam passam a se amar para sempre e pessoas que se amariam para sempre nem mais se reconhecem de repente. Num passe de mágica, as vicissitudes da vida alteram os quereres e os gostares. O que era único metamorfoseia-se em comum; o que se tinha como certo se perde na poeira da incerteza.

Uma das piores e melhores coisas da vida está numa briga, seguida de separação e de reencontro. Nesse lapso de tempo, condensam-se dores impotentes, raivas de amor, saudades de ódio, perguntas sem respostas, vazios claustrofóbicos e alívios libertadores.

Mas o belo do amor verdadeiro é sua capacidade de Fênix. De uma pequena brasa daquilo que guarda a história e os detalhes vivos da vida a dois voltam à vida amores jurados de morte, desenganados por quase todos, com eutanásia marcada. Claro que nossa felicidade não depende de alguém específico. Podemos ser felizes com outras pessoas. Mas enquanto houver a certeza de ser feliz com aquela específica é porque a brasa ainda crepita uma trisca de fogo. Perseverar na áspera espera é uma arte para os amantes. E quando o que se espera chega de surpresa quando a surpresa já quase não era uma possibilidade, a dor da separação vira a ante-sala do renascimento.

É bom o retorno. Porque um retorno é encontrar-se de novo num lugar de onde, de fato, jamais se saiu. Daí o conforto. É o retorno à rotina, ao feijão preto, que parecia ter perdido o gosto pela recorrência diária sem atenção ao tempero que faz da vida agridoce nosso maior alimento. É o retorno à bebida que nos mata a sede e que, por vezes, nos embriaga docentemente. A ausência do outro veio porque, como cegos saramaguianos, deixamos de ver por culpa da brancura alva da presença. Mas no retorno, a roupa de cama, que nunca notamos, passa a ser a relva da doce selvageria afetiva.

No retorno, há a ânsia da presença do outro. Porque no lapso da separação, é a presença irritante da ausência alheia que se faz mais efusiva nas madrugadas. É seu silêncio o que mais nos atordoa com seus gritos. E atordoados, permancemos atentos. É não saber dele. É não saber dela. O que faz? Como? Com quem? Por quê? Por onde? Por isso a ânsia, por isso a vontade de largar a mala na sala. Não há tempo a perder porque um tempo precioso já foi perdido. Quer-se o conhecido olhar acolhedor, quer-se o beijo de cuja língua sabe-se o trajeto. Quer-se o perfume que lembram às alma daquele dia em que se conheceram. Ah, saudade! A saudade é a inconfortável esperança de um reencontro.

É na aposta do retorno que se defuma o peso da rotina, das coisinhas pequenas que transformamos em grandes, das sujeirinhas que tiram a assepsia da relação. Porque as coisas são do tamanho que as fazemos. Se as fizermos pequenas, serão pequenas. Se as fizermos grandes, serão grandes. A escolha é nossa. E a cada um de nós cabe cheirar a flor, pegar um mar, ficar bonito, arrumar-se para ser desarrumado por quem está voltando.

No retorno, nos arrumamos para a mais doce das desarrumações: a do corpo, no sexo saudoso. Sexo de conciliação é bom porque é como se o amor, um diretor de cena desacreditado pela crítica, dissesse a si próprio: “eu vou provar nessa porra que eu sou bom!”. E prova. Doce deleite. Oscar!

No retorno, retornam as nossas músicas nas vitrolas, as nossas histórias internas, os nossos dias especiais e a certeza de que todos os dias foram especiais. A gente é que não notou. Porque nos esquecemos de admirar. E é a admiração pelo outro o que cimenta uma relação. Enquanto há admiração, há amor. Quando ela se vai, a casa cai, rolando encosta abaixo e levando até a nossa identidade. Para amar urge admirar a cada despertar. É a admiração que segura as relações. Não é o amor. O amor é admiração perene.

Um tempo a dois. Foi assim que começou. É disso que se precisa num retorno. Puxar o plug do mundo por uns instantes, mandar a criançada para a casa da avó, dar folga para a empregada, desligar os telefones. É preciso lá lá lá ia. Porque uma volta é uma volta. Precisamos de um tempo de nós dois às vezes? Claro! Mas o tempo distante para quem ama só serve para dizer o quanto aquele espaço vazio tem dono. Por isso um retorno completa. Porque ele presentifica aquilo que, abstrato, nunca se ausentou.

O poetinha disse: embora com tantos desencontros, a vida é a arte do encontro. E do reencontro, diria eu.

Soneto da lona

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Traíste-me, em corpo e em pensamento.
Tripudiaste desse meu amor tanto.
Deu-me de beber o desencanto.
Abandonaste-me ao puro desalento.

Minh’alma, um descontentamento!
Fúnebre e triste é o murmúrio do meu canto.
Com o pingar amargo do meu pranto
Afoguei a vida em todo meu tormento.

Que nenhum sorriso falso me procure!
Nem mesmo aqueles bons que um dia tive.
Que não me aqueça aquela velha chama!

Como matar em mim o que ainda vive?
Triste súplica é a do que ser que ama!
A dor perdura, mesmo querendo que não dure…

Vambora, Miguelito!

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[Escrevi este texto há exatamaente dez anos, no dia 21 de julho de 2002. Nascia Miguel, meu sobrinho. Eu estava devastado pelo fim de um casamento. Hoje, em homenagem ao Miguel, que aniversaria, e à vida, que sempre se ajeita, republico]

Tabatinga, Alto Solimões, vinte e um de julho, 04:30h da madrugada. O galo canta. Aliás, os galos cantam. Cada um mais vaidoso que o outro. A impressão que tenho aqui do quarto do hotel é que a cada tufar de peito e explosão de som, eles olham para os lados e desafiam uns aos outros, como adolescentes se desafiam em concursos de arrotos.

À sinfonia de galos vaidosos se junta o cantar do celular, rasgando a madrugada de contemplação e introspecção. Mais uma, diga-se de passagem. Atendo entre ansioso e aliviado e vejo que é o Mauro, meu irmão. Feliz como pinto na merda. Nasceu o Miguelzinho, seu primeiro filho. Minha mãe toma-lhe o telefone para dizer que o menino é branquinho e pimbudo, avó vaidosa como os galos cantores tabatinguenses, falando do esporão do rebento. Espero que, se não ajudar, ele não atrapalhe. Que o menino seja a cara da mãe, linda.

Venho para o computador para escrever sobre isso, sobre ser pai. Não adianta dizer que sou desqualificado para falar sobre o assunto porque ainda não sou pai. Eu tenho um grande pai, conheço bons e maus pais. E quero ser pai. Qualificação suficiente. Os galos agora estão cada vez mais vaidosos e aumentam em número e potência seu cântico. Adolescentes desafiados, sabe como é… Abro o programa de música e mando tocar qualquer uma entre as que tenho aqui armazenadas. Talvez a música sobreponha o barulho do galinhame. Peço que o computador escolha aleatoriamente. Um cachorro faz o backing vocal da sinfonia dos galos aqui ao lado. Ele é barítono, o danado.

O computador escolhe Vambora, da Adriana Calcanhoto. Apropriada: Entre por essa porta agora/ e diga que me adora / você tem meia hora / pra mudar a minha vida/ Vem, vambora/ que o que você demora/ É o tempo que leva/ Ainda tem o seu perfume pela casa/ Ainda tem você na sala/ Porque meu coração dispara/ quando tem o seu cheiro/ dentro de um livro/ dentro da noite veloz.

Meu irmãozinho, o caçulinha dos homens, agora é pai. Lembra, mano, quando a gente brincava de super-homem contra “todos” lá na casa da rua três? Tu sempre eras o super-homem e eu era o “todos”. E tu sempre vencias nas nossas brigas imaginárias. Um a um, todos os inimigos que eu encenava sucumbiam dizendo um “ahhhhh” de morte antes de fenecer. Eu te deixava vencer. O super-homem sempre vencia. Aí fostes estudar em Niterói e eu te disse, numa carta cheia de saudades, que a partir dali deverias ser o super-homem mesmo porque o “todos” seria real, criaria mil armadilhas para ti, iria usar kriptonita sempre que pudesse para ti atingir. As brigas não seriam mais dos brinca, mas seriam dos vera. Pois é.

Hoje me volta à mente a brincadeira que costumávamos curtir na infância, rolando na cama do beliche ou no sofá da sala. E me volta com ela a vontade de dizer, com conhecimento parcial de causa, que está na hora, de novo, de ser o super-homem e se preparar para mais um embate contra o “todos”, sabendo que agora estás mais vulnerável porque tens uma coisinha que vais amar mais que tudo, mais até que a ti próprio. E que por isso não dormirás mais, tendo que estar sempre alerta para protegê-lo do malvado “todos”.

Como na trilha sonora do computador, Miguelito entrou pela porta agora, vai dizer que te adora e já mudou a tua vida. Ele olha para ti, com seus olhinhos que ainda não aprenderam a ler o mundo, e faz um convite ao qual tu não podes dizer não: “Vambora!”. O seu perfume vai impregnar a casa, teu coração vai disparar muito por ele, como sei que está disparado agora como um AR-15 recebendo policiais no morro. Esse moleque vai te roubar a mulher e tu, ainda assim, vai amá-lo sem medida. Vocês têm uma vida toda pela frente, sem pausa. Dias e noites velozes. Para sempre. A música da Adriana Calcanhoto foi muito bem escolhida. É uma luva. Às vezes penso que esse computador pensa…

Mano, sei que é difícil, senão impossível. Mas tenta ser um pai igual ao nosso. Acabei de falar para meus alunos para serem incrédulos em relação às receitas prontas, que eles precisam reinventá-las antropofagicamente e eu aqui dando uma para ti. Pri, minha irmãzinha, tenta ser uma mãe igual a nossa também. Eu sei que nossa família se mete muito, mas é por amor, como tu sabes. Como tu podes ver agora aí nos teus braços. Sabe, acho que só a intenção fará de vocês os melhores pais do mundo. Mas não quero ficar dizendo o que vocês têm que fazer. ‘Magina, logo eu. De toda forma,  com vocês converso depois, quando eu chegar aí. Deixa eu falar com ele, o palmitinho pimbudo.

Miguelito, titio. Seja bem-vindo. O titio está longe e triste. Longe por trabalho e triste por um monte coisa que você um dia irá entender, mas que espero que entenda como espectador, se bem que acho que ninguém se livra disso. Mas o titio está muito, muito feliz por ti, por tu vires mudar o mundo e nossa família de uma forma que ainda não descobrimos plenamente. E sabe, tio, deixa eu te dizer uma coisa que um dia disse ao teu pai: nesse mundo a gente tem de ser uma espécie de super-homem, pois o “todos” parece conspirar contra nós. Há pessoas más, há pessoas mesquinhas, há pessoas invejosas, há pessoas pegajosas, há pessoas falsas, há pessoas que cobram. Há pessoas insensíveis, há inimigos invisíveis. Há dores. Há tristeza.

Mas a conspiração do mal, por assim dizer, perde para a conspiração do bem, para os sangue-bons. Existe a Sala de Justiça. Há pessoas boas, pessoas generosas, pessoas solidárias, há pessoas amorosas, há pessoas verdadeiras, há pessoas que doam. Há pessoas sensíveis e amigos visíveis. Há amores. Há alegria. Você nasceu em uma família abençoada por Deus e protegida por Nossa Senhora. Teve a mesma sorte que nós. Que sorte, nada! Benção divina.

Os galos continuam cantando alto e forte, a despeito do sol que está chegando e já pedindo para eles pararem com esse festival de vaidades. Só que eles não param. E isso me faz lembrar outra história, contada pelo Rubem Alves, numa tarde de conversa em Campinas, de saudosas lembranças. É assim:

O galo cantava todo dia. Aprontava-se, penteava a plumagem, passava Neutrox 2 e ia para o lugar mais alto do galinheiro. Perguntado pelos críticos do galinheiro – há sempre críticos nos galinheiros – por que fazia aquilo todos os dias, ele respondeu: “Porque se eu não cantar o sol não nasce”. E na sua convicção, estufava diariamente o peito e cantava. E o sol nascia. E todos ficavam orgulhosos e agradecidos. Invejavam positivamente o galo e sua capacidade de trazer o dia na voz. Mas o galo, como o cachorro do Magri, também é um ser humano. E falha. Um dia dormiu demais e esqueceu-se de cantar. Mas o sol nasceu mesmo assim. E todos, surpresos, descobriram que o sol nascia independentemente do galo cantar. O galo ficou morto de vergonha e sumiu. Não apareceu por uns bons tempos. Sua razão de cantar – ou aquela que parecia ser sua razão – cessara, sumira. O sol era independente dele. Que pena.

Um dia, um belo dia como hoje, todos acordaram ao som do clarinar do galo. Forte, alto, tenor. Lindo e belo, abria suas asas e cantaricava seu galicanto. Os críticos vieram, já azedos e afiados, e perguntaram, preparando-se para a zombaria: “Ei, galo! Por que cantas? Para o sol nascer?” O galo respondeu: “Não. Canto porque sou poeta. E os poetas tem suas razões. Não canto para ele nascer. Canto porque ele nasce.” E continuou a cantar, deixando os críticos sem palavras.

Miguel, seja pois um poeta na vida. Cante com toda força de seus pulmões, ainda frágeis, conhecendo e se adaptando ao ar novo dos novos ares. Cante por suas razões, por suas causas. Cante não para o sol nascer, mas porque ele nasce. E não ligue para os azedos do galinheiro, para o “todos”. Apenas fique antenado e saiba que eles existem. Mas eles passam. Eu sei disso e vou ficar de olho. Seu pai sabe disso e vai ficar atento.

Os galos pararam de cantar. Recolheram-se para compor novos poemas. Como as flores que graciosamente recolhem suas pétalas uma a uma ao fim do dia. Amanhã estarão de volta. Porque o sol nasce.

Já que estamos em clima de Adriana, seguinte: dá a mão aqui pro titio, menino pimbudo. Vambora para vida nova! Nós dois. Vamos ver as cores cujo nome a gente não sabe, as cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo, cores. Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela. Enfim, pela janela das novas vidas, a tua e a minha, que se inauguram hoje.

Espelho, espelho meu…

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O que mais impressionou Elaine não era o fato de Eupídio ser carinhoso e atencioso com ela. Claro que isso também contava. Mas ela se interessou de vez por ele quando percebeu que ele deixava sempre o último pedaço, a última cereja do bolo, a última almondega, o último gole de coca-cola para ela. Elaine tinha uma teoria: enquanto o outro lhe cede o último pedaço de comida o amor ainda existe. Abrir mão de comida era para ela a prova suprema de que a felicidade do outro é prioridade, ainda que a custo de nossa fome. Ela chamava isso de jejum do amor.

Na verdade, Elaine era uma mulher de teorias. Defendia uma outra que chamava de banquete dos leões. Dizia que quando o casal não mais protegesse um ao outro, mas, ao contrário, quando um cônjuge começasse a oferecer o outro de bandeja para ser objeto de chacota da sua família, os leões da teoria, o amor já estava dando sinais que partira.

Eupídio, por sua vez, era um cara tranquilo. Levava as teorias da mulher na boa, como se fosse um jogo argumentativo no qual entrava por diversão, nunca a sério. Deixava a última porção sempre para ela porque era um cavalheiro, numa época em que isso soa démodé. Jamais permitia que ela fosse objeto dos papos ácidos de sua família, nos almoços de domingo, porque a amava. Era atencioso porque sabia que tudo que uma mulher precisa é de atenção, alguém que a ouça. Mulheres são movidas a silêncio dos outros.

Um dia, Elaine colocou na cabeça que Eupídio não gostava mais dela. Do nada. Ele continuava deixando a última colherada do mousse de cupuaçu para ela. Nunca havia deixado que ninguém da família dele falasse sequer uma vírgula a criticando, a despeito de suas infinitas manias que se sobressaiam a olhos vistos e de seu ciúme shakespeareano. Sempre que ela falava ele não só ouvia como escutava. Mas ela encasquetou. Na hora do café da manhã.

– Mas, Laine, por que…
– Você não gosta mais de mim! Pára de negar! Ontem, no aniversário da tia Dorzinha, meus irmãos e meus primos me fizeram ver isso. Você não cuida de mim, não me dá mais atenção. Eu falo e você já não me ouve. Eu estava cega e eles me trouxeram a luz.
– Mas, Laine. De onde você…
– Deve ter outra. Com certeza tem outra. Nem abre nem mais a porta do carro pra mim…
– A porta é automática, amor, abre com o alarme.
– Sem desculpa, Eupídio Augusto. Sem desculpa. E não gosto de ser interrompida! Pra mim chega!

Elaine raspou o pote de manteiga, passou no último pão de queijo da cestinha, tomou o gole de suco que restava na caixinha e saiu batendo a porta. Largou Eupídio, aquele insensível.

Carta de recomendação de mãe

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Esta carta foi mandada por minha mãe para a Bia, sem eu saber. Eu estava viajando para Campinas para vê-la pela primeira vez, depois de já estar namorando  à distância  há quase um mês. Tinha saído em frangalhos de um casamento. Apostava todas as minhas fichas restantes na Bia.  Jackpot! Mãe é mãe. Amo as mulheres de minha vida.

Classificados

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Procura-se um amor. Mas não qualquer amor. Um amor que considere as necessidades abaixo.
Procura-se um amor que goste de amar sem motivo, pelo simples prazer de amar.
Procura-se um amor que goste de dormir aconchegado, com um perna por cima da sua e tendo seus cabelos enrolados durante a noite inteira, com risco de nozinhos para tirar pela manhã.
Procura-se um amor que goste de arrumar contas em fichários, que goste de fazer listinhas de coisas a fazer e a comprar. E que mesmo que eu esqueça de falar, traga meu pacotinho de jujuba.
Procura-se um amor que goste de quem eu gosto como gosta de mim, pois será igualmente gostado por quem eu gosto e por quem gosta de mim.
Procura-se um amor que sorria ao me ver, que morda os lábios sempre que me abraçar.
Procura-se um amor que aceite pequenos defeitinhos como não ser capaz de achar nada, deixar a porta aberta sempre que passar e só tomar sopa passada no liquidificador.
Procura-se um amor que ralhe comigo quando houver exagero, mas que se delicie comigo de vez em quando com uma barra de chocolate com castanha de caju e uma compota de doce de cupuaçu.
Procure-se um amor extravagante nas suas formas de amar, que invente a cada gesto uma forma de mostrar o quando significo em sua vida.
Procura-se um amor com anomalia genética: que não tenha em seu DNA o gene da indiferença, cruel e dispensável.
Procura-se um amor disposto a uma entrega total, mesmo que isso às vezes pareça sufocar. Um ou outro. Beijo também sufoca.
Procura-se um amor que tenha sonhos, para que se possa sonhar juntos, que lute por causas, para que um possa carregar as flechas do arco do outro em suas batalhas. Mas procura-se um amor que tenha como sonho maior nosso futuro e como causa maior o nosso presente, o amor que nos une. E disso não abra mão.
Procura-se um amor que não tenha receio de encharcar-se ao enxugar as lágrimas de dor que eventualmente caiam sobre sua roupa, estragando-as; procura-se um amor que saiba igualmente se esbaldar como criança em banho de cachoeira com as lágrimas das vitórias compartilhadas.
Procura-se um amor que esqueça a razão e jure, de pés juntos e sem figuinha, que será para sempre, mesmo sabendo racionalmente que “o pra sempre sempre acaba”.
Procura-se um amor que goste de Coca Zero, com gelo e limão. De pimenta murupi. De tambaqui ao molho de camarão. De sorvete branco do Select. De tacacá da banca do Wande. De Pizza de pimenta. E que seja capaz de rir do day after.
Procura-se um amor que goste de verduras, para que possa receber em seu prato as que vierem para o meu.
Procura-se um amor que suporte saber tudo de mim, inclusive minhas fraquezas mais fracas. E que um dia não use essa informação contra mim.
Procura-se um amor que me faça queimar a pasta de planos alternativos para a vida, que seja capaz de me convencer de que não preciso mais dela.
Procura-se um amor que seja honesto e sincero, o que é uma redundância, pois todo amor verdadeiro o é.
Procura-se um amor que saiba ser menina, que saiba dengar. Procura-se um amor que saiba ser mulher entre as quatro paredes, amando sem medida, suando, gritando, gozando verdadeiramente com sua alma.
Procura-se um amor que não se sinta menor ou diminuído por cuidar de mim. Pois eu também vou cuidar desse amor.
Procura-se um amor que se orgulhe de minhas vitórias e saiba que a recíproca será sempre verdadeira; Que esteja lá, mesmo em silêncio, nas minhas derrotas, com uma mão em meu ombro e outro a me fazer cafuné.
Procura-se um amor que tenha ombro e colo, preferencialmente macios e aconchegantes, onde eu possa pousar minha cabeça e sonhar nossos sonhos ou simplesmente calar minha dor até adormecer.
Procura-se um amor que saiba que amar é mais do simplesmente dar as mãos. Que amar é dar as vidas, incondicionalmente, com todos os riscos.
Procura-se um amor que marque minhas consultas e vá comigo para ajudar na sempre chata sala de espera. E na saída pergunte, preocupado, o que o médico disse.
Procura-se um amor que me leve no aeroporto, que me apanhe  lá também. E que, mesmo quando a distância da viagem for infinita, não tire do coração o perfume que ficou no abraço da despedida, um amor que vibre com o reencontro como se fosse o primeiro.
Procura-se um amor que não minta, que não me faça sentir bobo (a não ser de amor), não diante dos outros, mas diante de si próprio, numa situação patética de amor desperdiçado num mundo carente de afeto.
Procura-se um amor que goste de eu comer seu nariz, num gesto imaginário de incorporação de sua carne à minha própria de tanto amor.
Procura-se um amor que saiba qual meu prato predileto, que saiba que eu odeio alcaparras e cebolas, que saiba que comeria bife-arroz-farofa todos os dias.
Procura-se um amor que goste de cachorro. Não precisa nem ter um, mas que goste. Não gostar de cachorro é sintoma de uma carência fundamental.
Procura-se um amor que acredite em mim. Mais importante: que acredite em si. Pois assim podemos, como diz Rubem Alves, jogar frescobol e não tênis, fazer a bolinha chegar ao outro e não buscar tirá-lo da jogada.
Procura-se um amor bom de coração como meu pai e decidido como minha irmã. Mas pouco impetuoso. Os impetuosos põem tudo a perder. Inclusive um grande amor.
Procura-se um amor que possa ser, comigo, alvo de frases como: “que casal lindo e feliz”, sem que o tom da frase seja de inveja, mas sim de uma melodia harmoniosa de admiração.
Procura-se um amor que saiba limpar meus óculos enquanto dirijo, para que eu possa ver melhor para onde estamos indo. Que segure os mapas em nossas viagens para que eu não me perca nas difíceis vias da vida.
Procura-se um amor e ele pode ser surdo, pois serei sua audição; ele pode ser cego, pois o conduzirei com segurança na falta de luz; esse amor pode ser inclusive mudo, pois gritarei por ele a todo momento.
Procura-se um amor romântico, que adore Norah Jones e Michael Bolton, que odeie o Rebolation, mas saiba, de repente, dançá-lo numa noite louca, regada à licor de chocolate.
Procura-se um amor que me faça rir com seus comentários e que possa entender meu riso como admiração pela genialidade e não desprezo por sua opinião inusitada.
Procura-se um amor que saiba não brigar com meu computador, pois ao fazer isso reduz-se a uma máquina.
Procura-se um amor que cuide de plantas, pois sou muito incompetente para fazê-lo e muito carente de verde ao meu redor para dispensá-las.
Procura-se um amor que tenha seu computador e que me chame para consertá-lo, instalar uma placa, colocar um programa. Que una sua necessidade a meu prazer e vice-versa. Que me peça para tirar um vírus. Seja do computador, seja de sua vida.
Procura-se um amor que negocie nossas coisas, nossas compras. Eu não sei.
Procura-se um amor que não me chame pelo meu nome. Nunca. Que me chame carinhosamente por um apelido tão nosso que os outros passem a me chamar assim também. Que me dê identidade sem tirar a minha, como os retalhos num manto de arlequim.
Procura-se um amor que não erre. E se errar, que reconheça. E que se reconhecer, que reaja.
Procura-se um amor que goste de tomar água de coco no final da tarde, vendo o sol se pôr. Que goste de vagar de carro pela cidade, sem rumo.
Procura-se um amor que converse comigo por olhar, por suspiro, por silêncio.
Procura-se um amor para quem eu possa dar a última almôndega do meu prato se ambos ainda estivermos com fome.
Procura-se um amor que me convença da inutilidade de classificados.
Procura-se um amor, enfim, que não saiba cuidar de mim quando eu estiver ferido de morte por ele. Pois se chegar a tal ponto, eu não o quero de início.
Procura-se um amor assim. Pode ser um pouquinho diferente. Aceitam-se contra-propostas.
Gentileza, caso haja interesse, procurar no fundo do poço mais escuro da terra.

Não precisa marcar hora. Há até uma certa urgência.

A perfeição poética

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O poeta é o que consegue dizer em palavras os sentidos que correm na veia. E conseguem juntar as palavras na técnica perfeita da obra literária. Vinícius e o Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do mometo imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Quando a fêmea se magoa

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Impagável a mente fértil que bolou isso. Vale uma boa risada.