Amor platônico

Click

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“Aí eu abro o browser. E vi que ele curtiu um post meu. Uma sensação de ser pega no flagra me invade porque eu não consigo disfarçar o sorriso que veio automático. Eu nunca o vi pessoalmente. Só nas redes sociais. Sei do que ele gosta, o que pensa, onde está. Sei quando está triste, quando está alegre, quando está irônico. Sei que músicas ele ouve, a que séries assiste, o que está lendo. Não, não sou stalker. Apenas fico feliz em saber que ele existe. Ai, que boba eu… Saber dele me faz bem. Desconfio de que ele me sabe também. Mas a gente mantém a distância prudente. Eu às vezes sinalizo. Ele às vezes mostra que me entende. A gente flerta veladamente, embora não admitamos. Aí ele posta uma foto com a namorada. Eu curto. Ele entende o que essa curtida quer dizer. Ele vai e curte uma foto minha de um álbum antigo. Mas ele nunca curte uma foto minha acompanhada. Eu entendo o que ele quer dizer. A gente nunca se cutucou. Quem se quer de verdade não se cutuca nunca. E assim a gente vai construindo a nossa história. Sim, a gente já tem uma história. Todo dia de manhã, quando eu entro no Face, vou direto no perfil dele e falo em voz alta para ele, meio que cantando: ‘Bom dia, meu amor!’ Não quero nunca encontrá-lo de verdade. Eu morro de medo de no encontro perder a intimidade que já temos. E que cresce a cada dia. A gente se sabe tanto já…” SF

Se não nesta, em uma outra…

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“Fazia tempo que eu me via pensando nele. Como seria estar a seu lado, conviver com ele, saber-lhe o cotidiano. Claro, era tudo exercício dos meus quereres, pois a gente era impossível, ele era inalcançável. Imagina. Mas eu acompanhava seus passos – ou seriam seus clicks? – pelas redes sociais. Me inseria mentalmente nas fotos que ele postava, dava print nos seus posts como se fossem bilhetes que ele escrevera para mim, ficava imaginando sua boca bonita dizendo coisas sobre mim, sobre meus cabelos longos, sobre meus olhos graúdos, sobre querer morder as maçãs do meu rosto, sobre meus lábios que possuem uma parte incolor em suas bordas. Já estivemos perto, mas sempre fui muito discreta. Hoje nem sequer nos vemos pessoalmente e só nos falamos em posts e comentários comportados no Facebook. Mas me tremo toda, quase em êxtase, quando isso acontece. Eu morro de vontade de contar tudo a ele, só para vê-lo assustado com a revelação. Se bem que eu acho que ele me sabe. Desde que a gente se viu pela primeira vez, ele sempre me olhou com olhos de sorriso. E eu também. O encontro dos sorrisos de nossos olhos inaugurou a gente, começou a história de nós dois. Se não para esta vida, para qualquer outra ainda por vir…” SF

A chave

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“Ora, mas eu não sei nada de você! Eu sei disso e é por isso que eu te ofereço a chave de mim. Não sei se posso, ainda que queira. E quem mais sabe qual a decisão, além de você? Você me oferece uma chave que não tem cópia? Ainda que justa, essa é uma pergunta que não deve ser feita a quem lhe estende a mão em convite. Mas veja que a chave está por dentro da porta, percebe? Entre quando e se quiser porque eu já abri…” SF

Futuros amantes

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Não se afobe, não/que nada é pra já/O amor não tem pressa/ele pode esperar em silêncio/num fundo de armário/na posta-restante/Milênios, milênios/no ar/E quem sabe, então/O Rio será/alguma cidade submersa?/Os escafandristas virão/explorar sua casa/seu quarto, suas coisas/sua alma, desvãos/Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você.

O amor é líquido. Ele se conforma com as formas possíveis. Às vezes tem a forma plena de uma mar aberto. Às vezes cabe num guardanapo de lanchonete ou num vidrinho de perfume. Às vezes se presentifica somente nas ideias. Mas o amor é. Mesmo quando ele não pode ser, ele acaba sendo.

Diz Paulo, no livro que não finda, que o amor é paciente. Sim, o amor não tem pressa, ele pode esperar milênios, milênios no ar. Quem se afoba somos nós, súditos desobedientes que não compreendemos o seu tempo. Por causa disso, quase sempre estragamos tudo. O amor verde, antes do seu tempo, é duro. Não se conhece a textura na mordida da boca. Por vezes é amargo, mas não de si, mas amargo da língua aftosa e herpética de querências fora de tempo. Não dá para apressar o rio do amor: ele corre sozinho. Aprender a esperar o tempo do amor é um segredo para poucos felizardos. Uma pérola repousa por anos na ostra.

Se o amor é paciente e devemos nos espelhar nisso, onde guardar o amor que não pode ser? Depende da história. Uns guardam num fundo de armário. Outros, na posta-restante dos Correios, que andam ariscos demais, a propósito. Para quem não sabe o que é posta-restante: a gente pode pôr uma indicação no subscrito de uma carta quando quer significar que ela deve permanecer na repartição dos Correios até que seja reclamada pelo destinatário. A posta-restante é o lugar onde ficam tais cartas, as que restam. Assim, um amor sempre tem um remetente. Às vezes o destinatário não reclama o amor. Às vezes sequer sabe sobre ele. Porque não pode. Ou não quer. Para dar um F5 no texto, podemos dizer que hoje se guarda em e-mails nas caixas de rascunhos, em SMSs no draft, em tweets soltos na timeline, em cutucões reticentes no Facebook, em posts a postos para serem publicados, só esperando a coragem. Essas são versões modernas e descafeinadas do amor. Todos lugares mais modernos de se guardar um amor quando seu tempo não chegou ainda. Ou quando não pode chegar.

Mas se o amor não chegar, ele se perde? Não, o amor não se perde. Esse é o segredo. O amor não tem dono. É um grande erro pensar-se dono do amor. Quando não se acha aqui, o amor migra para acolá. Se não pode acontecer do jeito pretendido neste tempo e espaço, o amor corre, evapora, condensa e chove em outro lugar, para outras gentes, em outra geografia, em outras épocas.

Num futuro, como diz a música, escafandristas – só o Chico Buarque para colocar com pertinência escafandristas numa música – recolherão e arqueologistas consultarão os vestígios digitais e analógicos do amor não vivido. Os sábios de então procurarão, ávidos, a Pedra Rosetta, o granito negro que lhes permitirá ver o tamanho do amor que não se plenificou. Ficou na história universal dos amores não vividos, como aquele de Verona. Como o amor não se perde, mas se trasmuta, se metamorfoseia e migra, enquanto tentam os arqueológos decifrar de onde veio, futuros amantes estarão usufruindo com delírio desse amor diferido, de feridos, sem saber que ele é herança de uma impossibilidade passada.

Nada de tristeza. Pode-se sempre usar o amor viajante, deixado pelos amores proibidos do século XVI. Se não cairmos na falácia de que tem de ser um amor específico, podemos entender que podemos ser os futuros amantes de um passado no nosso presente. Não se afobe, não. Amores serão sempre amáveis. Nada é pra já.

Paula e Bebeto

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Ê, vida, vida, que amor brincadeira, à vera/ Eles se amaram de qualquer maneira, à vera/Qualquer maneira de amor vale a pena/Qualquer maneira de amor vale amar/Pena, que pena, que coisa bonita, diga/Qual a palavra que nunca foi dita, diga/Qualquer maneira de amor vale aquela / Qualquer maneira de amor vale amar /Qualquer maneira de amor vale a pena /Qualquer maneira de amor  valerá/Eles partiram por outros assuntos, muitos/Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito/Qualquer maneira que eu cante esse canto/Qualquer maneira me vale cantar/Eles se amam de qualquer maneira, à vera/Eles se amam é pra vida inteira, à vera/Qualquer maneira de amor vale o canto/Qualquer maneira me vale cantar/Qualquer maneira de amor vale aquela/Qualquer maneira de amor valerá/Pena, que pena, que coisa bonita, diga/Qual a palavra que nunca foi dita, diga/Qualquer maneira de amor vale o canto/Qualquer maneira me vale cantar/Qualquer maneira de amor vale aquela/Qualquer maneira de amor valerá!

Quando o corpo sofre efeitos de doenças inexistentes diz-se que é um efeito psicossomático. A mente, no seu poder desconhecido, encontra motivos para fazer doer partes do corpo em dores reais. A mente comanda, soberana, e o corpo responde, subserviente.

O amor platônico seria um tipo de dor psicossomática. Primeiro, vamos à  explicação do nome: o amor é platônico em referência ao mito das cavernas, de Platão. O filósofo dizia que tudo o que existe é mero produto da mente a partir da percepção humana, sempre enganosa. Por extensão, o amor platônico é um amor que só existe na cabeça do apaixonado.

Tá bom! Senta lá, Platão. Psicossomática coisa nenhuma! Quem já viveu um amor platônico sabe como ele é à vera ou dos vera, como a gente diz no Amazonas.

O amor platônico faz a gente sentir aqueles já conhecidos sintomas: mãos suadas, coração palpitante, respiração ofegante. Não por acaso, esses são os sintomas que caracterizam o estresse e o sexo também. Está tudo embolado. Na cabeça do apaixonado platonicamente, é tudo a mesma coisa.

O amor platônico bom, de raíz, é aquele em que o objeto da paixão não tem a mínima ideia de que é objeto do amor alheio. A gente devaneia, viaja no enredo: Machados de Assis escrevendo Dons Casmurros particulares. A gente imagina situações, reza para um encontro casual, ouve as músicas preferidas dele, entrega a alma ao Cramunhão por um sorriso. A gente é tão carente desse amor, que nem sabe da gente, que um olhar já nos derrete: como neve num vulcão. Escrevemos cartas e poemas (que guardamos), tweets (que apagamos ou largamos solto na timeline) e SMS (que mandamos com o ID do celular bloqueado). Mandamos recados pelo status do Orkut, do MSN. Ele não sabe da gente, mas a gente se comunica mesmo assim. Ah, se ele soubesse ler os sinais…

Há outro tipo de amor platônico: o que sabe de nossa paixão. Esse ainda se subdivide em os que sabem e fingem não saber, se fingindo de morto, e os que sabem e alimentam nosso platonismo de forma a manter vivo o fogo da paixão que, sabe ele, jamais lhe aquecerá. O que se finge de morto o faz porque não quer corresponder, por motivos variados. Mas, ao saber, sente certamente aquela sensação gostosa de ser desejado. O objeto do amor platônico que alimenta teme perder essa sensação. Não se conforma em deixar a coisa ir por si. O que alimenta é o tipo de pessoa que toma as rédeas das coisas. Ele quer decidir a hora de parar. Inclusive de parar de ser objeto do desejo alheio.

Há, por fim, o amor platônico declarado. Ambas as partes se sabem, se curtem, mas não se podem. Aqui eu não escrevo nada. Só coloco o link da declaração de amor do filme Simplesmente amor, em que o cara se declara para Juliet, a mulher do melhor amigo na antológica cena dos cartazes. Aqui: http://bit.ly/99h9Td. E esse amor mútuo proibido acaba encontrando formas sublimes de ser sublimado, como a surpresa feita à mulher amada em seu casamento: http://bit.ly/93bp03, no mesmo filme. Ou a escrita de um texto sobre amor platônico.

Mas classificações e subclassificações à parte, o amor platônico tem tudo de um amor real. Ele surpreende, ele abate, ele assusta, ela dá frio na barriga, ele incomoda, ele se acomoda. Ele deixa na dúvida, ele traz certezas. Ele aparece nos sonhos e nos pesadelos. Ele devolve ao objeto do desejo o ar de “ainda estou vivo”. O amor platônico tem ciúme, fica puto, quebra as coisas. Chifre de amor platônico dói igualzinho.  Pior ainda é quando nosso amor platônico encontra em nós o seu confidente. Como diz a música: “se abre e acaba comigo”.

O amor platônico faz parte da enciclopédia do amor. Nem melhor, nem pior. Só diferente. E tão verdadeiro quanto. Produto das ideias coisa nenhuma!  No coração de quem ama platonicamente também bate um coração. Explique para a alma que tudo isso é fake. Convença o coração que ele bate mais forte em vão. Como os amores em geral, o amor platônico vem e um dia vai. Ou não. E se ficar, prova para todo o mundo e para o mundo todo que toda maneira de amor vale a pena. Que toda maneira de amor valerá.

E você? Nunca viveu um amor platônico? Está vivendo um? Já pensou aí qual a palavra que nunca foi dita? Diga.