Amor

A escolha de Sofia

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screen-shot-2017-01-29-at-11-04-37-amO filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

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Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

Meu pai morreu há três meses. Foi o mais próximo que a morte chegou de mim. Antes disso, ela tinha me visitado quando levou minha vó, há 15 anos. Um hiato que me fez esquecer da morte por um bom tempo, ocupado que estive em viver as coisas da vida.

Procurei entender a morte do meu pai. Eu li tudo que pude sobre perda, separação, angústia, luto. Li sobre a dor do amor. Livros, artigos, assisti a vídeos e filmes. Tentei buscar um sentido para a morte do meu velho, como recomenda o psicólogo judeu Vicktor Frankl. Ele sobreviveu à barbárie de Auschwitz dando sentido à experiência trágica. Frankl dizia a si mesmo que precisava explicar ao mundo a psicologia de um campo de concentração e isso o manteve vivo. Só de Frankl, eu li três livros.

Descobri nas minhas leituras que o luto normal demora pelo menos um ano. Tempo do primeiro tudo sem a pessoa: primeiro dia sem, primeiro mês sem, primeiro dia dos pais sem, primeiro aniversário seu sem, primeiro aniversário dele sem, primeiro Natal sem, primeiro ano sem, primeira falta de colo. A morte do meu pai me trouxe mais pesadamente a consciência da finitude. Mas me trouxe muito mais do que isso: trouxe uma maior clareza sobre minha própria existência.

Ter consciência sobre si mesmo é um dom que desenvolvemos com a idade. Podemos potencializar e acelerar esse dom por meio de eventos pontuais de dor. Aprendemos a ter consciência do que vale e não vale a pena investir, de quem vale e de quem não vale gostar. Fica clara a consciência de que a vida precisa ter qualidade. Abandonamos sem dó aquilo e aqueles que nos fazem mal. No entanto, esse ter consciência sobre si traz no pacote a ferida da mortalidade. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns) e vamos morrer. Simples assim. E complexo assim. Porque precisamos decidir o que é, afinal, a morte para nós e isso vai fazer diferença em como a gente vai viver.

As pessoas lidam com a morte de formas diferentes. Há graus de angústia da morte. Pensar nela geralmente nos paralisa porque é a única certeza que temos sobre o futuro. Como não podemos ficar paralisados, senão vira algo patológico, desenvolvemos formas de elaborar essa angústia do inevitável. Há quem não pense na morte, um grau zero que se toca com o grau cem: o medo é tanto que se evita falar sobre. Há quem desafie o medo da finitude buscando construir uma obra na terra que lhe perpetue, ou por meio dos filhos ou por meio de algo notável. Há quem busque na religião o exílio, a explicação e o conforto contra a ideia de que a morte seja o fim definitivo. Enfim, fato é que a angústia de morrer se faz presente de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, como pensamento casual ou ideia que persegue cotidianamente. A morte é pauta inevitável da vida.

A angústia de morrer vai e vem durante nossa existência. As crianças são introduzidas à morte pelos bichinhos de estimação que se vão, pelas folhas secas caídas que encontram ao pé das árvores, pelos avós que desaparecem de repente. Quando contei às minhas filhas Clara (dez anos) e Marina (nove) sobre a morte do avô, as reações foram diferentes. Marina chorou demais, trocou de mal com Deus por lhe levar o avô. Clara se manteve em silêncio. Marina vez por outra me vem dizer que está com saudade do avô e chora. Clara, não. No entanto, pegando sua agenda escolar para verificar o que tinha de tarefa, vi escrito no calendário, no dia 1o de setembro, com sua letrinha redonda, “Vô, três meses. Saudade. :.(“. Meu pai morreu no dia 1o de julho. As crianças, como todo mundo, também têm formas singulares de elaborar a perda de quem amam.

Os adolescentes, em geral, desafiam a morte. Nesse período a angústia explode com força. Arriscam-se em atividades radicais, saltam de paraquedas, fazem rachas. Adoram ícones da morte, como Hitler. Lançam a catexia fortemente em jogos como Grand Theft Auto, em que a morte é banalizada. Alguns chegam mesmo a considerar o suicídio. Este é o recado: “Dona morte, não tenho medo de você. Não me venha com close errado”. Assim se cruza o tempo da juventude. A vida segue e viramos adultos.

Como adultos, as preocupações mudam. Vem a carreira profissional para cuidar. Vem a família para zelar. Deixamos a morte de lado porque a roda-vida exige demais e quase não deixa tempo para pensar nisso. Só que, de repente, duas coisas acontecem: a meia-idade e sua crise e a morte recorrente de pessoas da geração anterior. Parentes, tios, pais de amigos, os próprios amigos mais velhos, nossos pais. Eles começam a ir. À medida que eles vão, a meia-idade vem. Esse encontro inevitavelmente faz da morte uma presença constante nessa parte da vida que é, fato, a parte descendente da existência. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns). O próximo passo é morrermos. Como lidar com essa certeza, que é a certeza derradeira da vida?

As pessoas lidam com a morte à espreita de várias formas. Por causa de sua história pessoal, de sua singularidade, umas buscam auxílio na família e nos amigos. Outras se aproximam da espiritualidade como forma inconsciente de buscar um seguro para o depois da morte. Alguns, mais cientes de sua fragilidade humana, vão à terapia. Outros, ainda, escrevem textos sobre a morte para lidar com a morte que se apresenta.

Meu pai morreu há três meses. Meu velho me deu um grande presente no fim da vida. Ele me fez redefinir minha relação com a morte. Eu tinha medo da morte. Hoje não tenho medo. Meu medo foi ressignificado. Hoje eu vejo a morte como algo que faz parte da vida, algo sobre o que você pode partilhar com outras pessoas, sem razão para ter medo ou vergonha de fazê-lo. Hoje eu converso sobre a morte, coisa que evitava fazer. Redimensionei a importância do velório como prática social. A presença em velórios tem uma função afetiva fundamental. São partículas de afeto que se juntam numa constelação de carinho e que ajudam a sustentar o corte abrupto do afeto roubado pela morte. Estar lá é dizer: eu me importo. E isso faz uma diferença imensa para quem está machucado.

Hoje a morte tem uma forma bem diferente para mim. Ela não é mais aquela morte de roupa preta com a foice na mão. Ela é bem distinta daquela morte dos nossos encontros cotidianos, em que a vemos como algo violento, assustador e tabu. Há outras mortes além daquela que a mídia nos entrega diariamente. Descobrir isso é libertador.

A lição que resume tudo isso é que o confronto com a morte não precisa ser um desespero. A morte sempre convoca um renascimento obrigatório de nós mesmos. Renascer é um sentido bom que podemos dar à morte porque pensar na morte requer pensar na vida. No fundo, eu acho que não seja da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca ter vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos porque nunca conseguimos descobrir o que é a vida de fato. Mas sempre é tempo. Cuide de seus canteiros, “antes que chegue a morte ou coisa parecida e nos arraste moço sem ter visto a vida”. Cecília.

Em “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens nos fala da morte. “Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho. Meu coração é tocado por lembranças que estavam há muito tempo adormecidas”. É isso. A morte é o nosso reencontro com um começo de que já não nos lembramos mais. Afinal, existirmos: a que será que se destina?

A morte é a noite da vida. É um laço que caça a infinitude. É o anzol que volta, sem falha, para fisgar a existência que se pensava eterna. É pau. É a pedra de Drummond. Mas definitivamente não é o fim do caminho.

Over

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Sério: quando um relacionamento termina, ele tem de acabar. “Ain, mas a gente é amigo!”. Amigo é meu ovo! Terminou, acabou! “Ain, mas ele está sofrendo!”. Problema dele, dos amigos dele e da família dele. Não existe uma forma de reequilibrar a vida pós-término sem se distanciar. Corte tudo que alimenta a centelha de esperança, apague os nomes das agendas, limpe o Facebook, bloqueie todo mundo que vai fazer mal. Depois, lá na frente, quando encontrar no shopping um dia, diga “oi, tudo bem?”. Mas lá na frente. No começo, mude de calçada mesmo. Vai por mim. Se não a bagaça não sara. Como sarar se ficar cutucando a casquinha?

Amor do avesso

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Toda maneira de amor vale a pena. Toda maneira de amor vale amar. Também acho. Mas há maneiras e maneiras de amar.

Há o amor escancarado, declarado, esparramado para o mundo. Rosas e poesia, mel e John Green. Há o amor tímido, que só se mostra de vez em quando, saindo da toca às vezes para mostrar seus afetos mais sinceros. Desconfiado. Há o amor platônico, que habita nossos desejos mentais e não ousa ganhar mundo. É aquele que a gente deixa assim ficar subentendido e que pode até parecer fraqueza. Que seja fraqueza então. E há o amor pelo avesso.

Quando sofremos um trauma muito grande, a gente desmaia. O corpo desliga o disjuntor para a gente aguentar o tranco. O corpo é uma máquina perfeita. Desmaiamos para não ter de encarar uma parada maior do que podemos suportar. O amor pelo avesso é mais ou menos isso: um desmaio nos afetos por amar demais. Explico melhor.

Há pessoas que amamos muito, mas reconhecer e exaltar esse amor é, de alguma forma e por alguma razão, algo absolutamente insuportável para nossa ordem das coisas. Por muitas razões: por vaidade (reconhecer que amo a pessoa é assumir que há coisas nela que admiro e – me poupe! – não posso dar esse cartaz para ela), por impossibilidade social (abrir meu amor me trará cobranças sociais imensas) ou até para não assumir gostar de alguém socialmente ingostável (“Ain, como assim você ama justamente essa pessoa, esse traste, esse lixo?!”). Aí o disjuntor do amor desliga – pela sobrecarga de amor intolerável – e a gente manda o amor achar outra forma de ser. Ele que se vire. É nessa hora que esse danado se vê desafiado e parte para a ignorância, para a força bruta.

Quem ama do avesso generaliza os defeitos e particulariza virtudes do ser amado. Critica quem queria elogiar, rejeita carinhos que amaria receber, empurra para longe quem se oferece para ficar perto e cuja pertidão – à moda de Guimarães Rosa – quer mais que tudo. Procura o ponto que machuca no outro para praticar sua acupuntura hostil.

O amador do avesso é um autossabotador e um narcisista. Autossabotador porque não se permite usufruir do amor aberto que, convenhamos, é gostoso pra caralho. É um narcisista porque acredita de verdade que todas as 7 bilhões de pessoas do planeta Terra têm a obrigação de entender sua forma de ser e se adaptar ao seu jeito de amar, esse com a costura para fora. Em ambos os casos, uma boa terapia pode ajudar a descobrir por que quem ama pelo avesso acredita que não merece ser amado plenamente – e daí se sabotar – ou pode ajudar a se tocar de que não se é o centro gravitacional do universo. Se achar a bala que matou Kennedy é muito peso para uma cabecinha só. Tem de ver isso aí.

Quem ama pelo avesso pensa que ninguém nota. Ok, uns não notam mesmo e preferem ir embora porque ninguém aguenta a insuportabilidade de quem só chora miséria e não abre a porta dos afetos. Nem se dão ao trabalho. As pessoas vão embora, saiba. Às vezes para sempre. Mas uns notam. Porque também amam, começam a devolver o amor do avesso. Começam a gostar ignorando, provocando, irritando, espezinhando, ironizando, cutucando e – eventualmente – machucando. Além de tudo, ainda tem essa: amar do avesso evoca o masoquismo. Se o amor direito traz prazer no próprio ato de amar, o amor do avesso traz prazer por meio da dor, que é para confirmar a certeza que habita a cabecinha dura de que só se pode amar assim, com o velcro virado para fora.

Qual é a saída desse labirinto? Nenhuma para quem não quer sair e curte ficar dando de cara com os becos sem saída. Mas se reconhecer amando do avesso é o primeiro passo para mudar esse estado de coisas. Identificar quem é o objeto do nosso amor pelo avesso e o porquê da impossibilidade do amor pleno, do lado certo da força, é um outro passo à frente. É preciso se mexer para sair do lugar. Botar a cara no sol, mana. Fazendo lobby para os psicólogos, uma boa ajuda de um bom eletricista pode ajudar a consertar a caixa de força da mente. Tem curto-circuito por aí, parceiro. Não adianta tentar derrubar paredes na marra. E quem está a fim mesmo, sabe, sai do labirinto é por cima. Porque a regra da vida não é força. É jeito. É jeito. SF

Gotas

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“Eu fiz o café para ela. Ela puxou a xícara, sorriu, pegou o adoçante e começou a pingar. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete gotas. As gotas pingavam e eu contava silenciosamente na cabeça. Ela parou na sétima. E sorriu. Eu sorri de volta. Aí eu vi que eu a amava. Eu sabia que ela ia parar na sétima gota. A cumplicidade está nos detalhes da vida.”

Ciúme

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“Ciúme é besteira. Ciúme é amor verde, amor que não chegou no seu melhor tempo. Preocupar-se com o outro é de lei para quem ama, mas não para lhe tirar o oxigênio, para lhe fazer mudar o trajeto, para lhe silenciar as palavras, para lhe fazer engolir sua liberdade de escolha, de ir e vir. Ciúme é um agrotóxico no jardim do afeto: pode até aparentar não ter bichos, mas ele é o próprio bicho. Ciúme bom é o do zelo, o tranquilo, o do cuidado, o do ‘estou prestando atenção em ti porque me importo’. Ciúme bom é o que consegue rir da vã tentativa dos outros de tentar beliscar o que é aparenta ser nosso e nem é. O amor maduro faz do ciúme um atestado de afeto, não uma causa de tormento. O amor maduro não faz do ciúme uma arma contra o outro, o oprimindo, o constrangendo. Para o amor maduro, o ciúme não passa de um recado contínuo de que aqui, o nosso colo, é o melhor lugar do parceiro.” SF

Sísifo de Amor

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A gente aguenta, segura, suporta. Não para ser forte, mas para proteger os nossos das intempéries da vida ao máximo. Vai levando, vai pulando buracos, desguiando de postes, subindo ladeiras com pedras nas costas. Mas a falibilidade humana chega e você quebra. É a hora em que os nossos, protegidos, vêm e acarinham nosso rosto, apertam a nossa mão. Para que a gente tenha força de chegar à próxima esquina, subir a próxima ladeira e começar tudo de novo. Até a próxima pausa.