Amor

Um certo alguém

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um certo alguémPai e mãe são escolhas de Deus. Caímos na vida de um casal e dele dependemos de toda sorte na formação de nosso caráter, na consolidação de valores humanos, no modo de ver o mundo e a relação com o próximo.  Assim é com irmãos e irmãs. Não os escolhemos. Calhamos de co-existir e nessa relação inevitável aprendemos a compartilhar, a dividir, a brigar por espaço, a brigar pelo sangue, a tomar dores pelo amor que atravessa a convivência e as cicatrizes na pele e na alma. Assim é com filhos. O bebê que vem habitar o ventre da mãe e o sonho do pai, num primeiro momento, e o berço no quarto e o espaço mais nobre no coração dos pais, num segundo, é posto em nossa existência também por escolha direta de Deus. O livre-arbítrio não chega ao ponto de definir qual filho queremos. Filho vem, nasce e se demora por toda a vida.

Contudo, com a pessoa com quem dividimos a vida é diferente. Essa somos nós que escolhemos. Por ser nossa, não faz sentido ser infeliz se a escolha tiver sido infeliz. Por isso as pessoas casam e descasam às vezes. Erro humano de análise. Há ex-maridos e ex-mulheres, mas não há ex-pais, ex-filhos, ex-irmãos. Eu, por exemplo, passei por três escolhas, sendo as duas primeiras equivocadas às suas formas. Por inversão, este texto se apresenta para dizer que a terceira foi a escolha certeira, feliz e inequívoca. Se Deus não mete o bedelho como faz no caso dos pais, irmãos e filhos, ele certamente trisca no traçado que nos permite encontrar um certo alguém que, dentre 6,6 bilhões de pessoas, vai mexer com você, fazer você perder o ritmo da respiração, causar suor nas mãos e fazer seu corpo cair morto de prazer. Alguém com quem você dividirá alegrias, comida, sorrisos, vitórias. Alguém com quem você amargará tristezas, vazios, lágrimas, derrotas. Alguém de quem você conhecerá segredos. E cada forma de olhar.  Alguém que saberá no tom da sua voz que algo ameaça a ordem das coisas.

Não somos perfeitos. Acertamos no atacado e erramos no varejo. Por isso, entre as belas paisagens de nosso trajeto a dois, vez por outra escorregamos e magoamos esse certo alguém. Sem querer deixar de chegar ao objetivo conjunto – repousar lado a lado no sono eterno – , desviamos por caminhos estranhos, desaconselháveis pela censura social. O que nos resta é lembrar que nosso certo alguém é escolha nossa e, por isso, somos responsáveis por sua proteção, por sua impermeabilização dos sofrimentos do mundo. Nas falibilidades humanas, saber cair antes para poder amortecer a queda do nosso certo alguém passa a ser a arte da convivência feliz, a condiçào da permanência da escolha certa.

Meu certo alguém é uma linda mulher de 35 anos hoje. De público,  eu peço que tome as minhas eventuais cambaleadas como passadas passadas no passado. Espero e desejo, como na música, que você me dê a mão, porque é ela que me dá a firmeza mais firme. Venha ser a minha estrela, para iluminar o que nos resta de percurso a dois no caminho da existência. Com você, toda complicação é tão mais fácil de entender. Hoje é seu dia: vamos dançar? Vamos luzir a madrugada? Porque eu desejo com todas as minhas forças que você seja a inspiração para absolutamente tudo que eu viver. Pai, mãe, irmãos, filhos: não escolhemos. Mas você eu escolhi. Meu certo alguém, que cruzou o meu caminho, que me mudou a direção. Mais do que meu certo alguém: o meu alguém mais certo. A minha melhor escolha na vida. Parabéns, Bi.

Um soneto meio “Lígia”, do Tom Jobim

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Futuro do pretérito

Saudade do que não tive
Dos beijos que não roubei
Dos casos que não mantive
Das flores que não te dei

Saudade daquele dia
No qual eu não te abracei
A música, eu não ouvia
Nos quartos onde não pousei

Saudade, amor, dos sussuros
Dos suores, calores, urros
Do amor que nunca fizemos

Saudade de ti, mulher
Teu rosto não vi sequer
Pois jamais nos conhecemos

Uma frase para começar a semana…

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Se o amor é fantasia eu me encontro ultimamente em pleno Carnaval…

Escravo da alegria, Toquinho e Vinicius

A razão pela qual homens não trabalham em revistas femininas…

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Leitora:

Caro Roberto,

Espero que você possa me ajudar.
Outro dia, de manhã, eu peguei meu carro e saí para trabalhar, deixando meu marido em casa vendo televisão, como sempre.
Eu rodei pouco mais de um quilômetro, quando o motor morreu e o carro parou. Voltei para minha casa para pedir ajuda ao meu marido.
Quando cheguei lá, nem pude acreditar naquilo que meus olhos estavam vendo. Ele estava no quarto, com a filha da vizinha!

Eu tenho 32 anos, meu marido 34, e a garota 22. Nós estamos casados há dez anos.
Quando eu o interpelei, ele confessou que eles estavam tendo um caso há seis meses.
Eu disse a ele para parar com isso, senão eu o deixaria.
Esclareço que ele foi demitido do seu emprego há seis meses e desde então tem estado muito deprimido. Eu o amo muito, mas desde que eu lhe dei aquele ultimato ele tem estado muito calado, ausente, distante.

Ele não está se cuidando e eu temo não poder tê-lo de volta nunca mais. Estou desesperada. Você pode me ajudar?

Agradeço antecipadamente.
Patrícia

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RESPOSTA de um homem

Cara Patrícia,
Quando um carro pára, depois de haver percorrido uma pequena distância, isso pode ter ocorrido devido a uma série de fatores. Comece por verificar se tem gasolina no tanque.
Depois veja se o filtro de gasolina não está entupido. Verifique também se tem algum problema com a injeção eletrônica. Se nada disso resolver o problema, pode ser que a própria bomba de gasolina esteja com defeito, não proporcionando quantidade ou pressão suficiente nos injetores.
Espero ter ajudado.
Roberto. Colunista revista feminina

Por essa e outras que homens não trabalham em revistas femininas…

Assisti a "Vicky Cristina Barcelona"

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Gosto muito de Woody Allen. Acabei de chegar do cinema. O filmo é ótimo. Em vez de resenhá-lo, transcrevo texto de Contardo Calligaris, embaixo do qual assino.

VICKY CRISTINA BARCELONA

Contardo Calligaris



O amor-paixão é uma tentação irresistível, é o protótipo da vida intensamente vivida


“VICKY Cristina Barcelona”, de Woody Allen, estreou no Brasil na semana passada. Com muita leveza e muito bom humor, o filme me levou a pensar nos percalços da vida amorosa.
A história do verão em Barcelona de Vicky e Cristina é um pequeno tratado do amor-paixão: os espectadores terão o prazer (ou desprazer) de se reconhecer em algum lugar do leque de experiências amorosas que o filme apresenta -é um leque pequeno, mas do qual escapamos pouco. Sem resumir, eis umas notas:

1) Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -com faca, revólver ou qualquer outro instrumento (cf. Juan Antonio e Maria Emilia). É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível (cf. Cristina, Vicky, Judy) por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida.

2) Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos “interessantes” e menos fatais -relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark). Não seria tão mal, salvo pelo detalhe seguinte: em geral, nesses casais “normais”, ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: “O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar…”

Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (as más línguas diriam, aliás, que é mais fácil idealizá-la sem tê-la vivido em momento algum).

3) Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a “normalidade” amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais “razoáveis” do que racionais (cf. Mark, Doug). Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark).

4) A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida (cf. Cristina). Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.

Pode ser que, um dia, se ela conseguir matar Juan Antonio com um tiro certeiro, Maria Emilia seja internada ou presa. Pode ser que Juan Antonio seja um sujeito amoral e, por isso, perigoso. Pode ser que Vicky seja desesperadamente normal, trocando a chance de amar por uma casa num subúrbio norte-americano (estou sendo injusto com Vicky: na verdade ela tenta…).
Mas, para mim, a mais “patológica” de todas as personagens do filme é Cristina. Sua aparente abertura para a vida (“Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria”, narra a voz em off) é apenas uma versão “bonita” e literária de sua “insatisfação crônica” (diagnosticada por Maria Emília, com razão). Nisso, Cristina é muito próxima da gente: ela quer e consegue brincar com a paixão, mas sem perder a ilusão da liberdade ou o sonho do que ela poderia encontrar na próxima esquina.

Por isso, sua voracidade é a do turista: tira muitas fotos pelo mundo afora, mas será que ela se deixa tocar pela vida?

5) Disse que “Vicky Cristina Barcelona” trata dos percalços da vida amorosa com leveza e bom humor; de fato, saí do cinema sorrindo, e não era o único. Mas a amiga que me acompanhava comentou: “Adorei, mas é um filme triste”. “Como assim?”, estranhei. Ela respondeu, com razão: “É um filme triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas, no fim, tudo isso não transforma ninguém. Vicky e Cristina vão embora iguais ao que elas eram no começo, sobretudo Cristina…”.

Minha amiga tinha razão. O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona…

Um texto antigo para recordar…

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O homem romântico

O homem romântico, dizem, é como o tangará: ser raro em extinção, cujo nome poucos reconhecem. O tangará é uma ave que raramente pousa no chão, passando a maior parte do tempo em árvores. O homem romântico também é um nefelibata, habitante das nuvens do pensamento, procurando sempre formas diferentes de cortejar sua amada. Sim, robertocarlianamente ele ainda chama de querida a sua amada.

O homem romântico sabe que não precisa inventar muito para demonstrar o seu amor verdadeiro. Por isso, o homem romântico recorre à dúzia de rosas, caixas de chocolate e cartões com mensagens lindas nos dias especiais. Ele nunca esquece um dia especial. Para o homem romântico, a propósito, qualquer dia pode virar um dia especial. Ele sabe que isso só depende dele. Ele, como ninguém, vive o tal carpe diem.

Um homem romântico se importa com os detalhes. Nos detalhes que moram as diferenças. Um homem romântico abre a porta do carro, da sala, do coração. O homem romântico cede seu lugar. O homem romântico escreve bilhetinhos desejando um bom-dia ou boa sorte na entrevista para aquele emprego novo e o coloca escondido na bolsa da amada. O homem romântico é um Anchieta de espelho de banheiro, escrevendo mensagens poéticas que acordam o dia da mulher com palavras especiais. O homem romântico, se preciso, tira sua camisa para abrigar a mulher na chuva torrencial sem medo de que ela pense que ele quer compensar alguma desvantagem com essa atitude.

O homem romântico sabe da praticidade de uma geladeira, mas prefere como presente um jantar a dois naquele mesmo restaurante onde a história registrou momentos da concepção do romance. Naquela mesma mesa. Para repetir os mesmos gestos. De preferência sob a mesma trilha sonora. Um homem romântico constrói a dedo a trilha sonora. Escolhe as músicas, como escolhe as formas de agradar.

O homem romântico vive em qualquer lugar como se fosse sua casa. Ser feliz e fazer os outros felizes é sua guerra particular. O homem romântico é um sonhador, não um deslumbrado. Age por paixão, mas a paixão do tipo que liberta e não a do tipo que escraviza. Cortês sem excesso, para o homem romântico ninguém pode tratar uma mulher melhor do que ele. Fraterno sem invasão, para o homem romântico a sua é a mais confortante das companhias possíveis. Pelo menos, não mede esforços para que seja. O homem romântico provoca sorrisos quando chega e vazios quando vai. Deixa no ar o desejo de sua presença. Faz com que anseiem pelo seu perfume.

O homem romântico gosta de mulher. Não só no sentido sexual do termo. Também, claro. Mas o homem romântico sabe que gostar de mulher é prestar atenção nela, é ter a sensibilidade para cativá-la a cada momento e compreender sua peculiaridade. É ter paciência para conviver com sua necessidade de falar ou para sobreviver quando isso estiver além de sua limitação masculina. É respeitar seu tempo. É ouvi-la contar como foi seu dia, sorvendo cada palavra e lastimando genuinamente não ter estado presente. O que faz um homem romântico é a vontade de entender a mulher. Porque a mulher é um bicho complicado e difícil de entender. Mas essa curiosidade é constitutiva do homem romântico e ele tem essa curiosidade. Mas o homem romântico, registre-se, pode virar um ogro se sentir que outro homem corteja a sua mulher.

O homem romântico, apesar de pleno, é um incompleto. Sabe ele que se completa em sua mulher. Quando a beija, quando a abraça, quando suam juntos, quando a penetra. Todavia, o homem romântico sabe que a penetração do corpo nada vale sem a prévia penetração da alma. E é fato: o fazer amor do homem romântico começa bem antes do encontro dos corpos, nos sorrisos, palavras, silêncios que antecederam, cheios de sentidos compartilhados. O homem romântico deriva seu prazer do prazer que faz a mulher sentir. A medida de seu prazer é a realização do dela. O homem romântico vive a saga de encher sua mulher de beijos de todos os tipos: carinhosos, fogosos, apaixonados, molhados, permitidos, roubados, fortes e delicados. Um festival deles. Em todos os lugares. Várias vezes. Por breves e longos tempos. Na aparente e inocente leitura de fragilidade que acompanha o homem romântico se esconde um amante único, inesquecível. Como ninguém ama sozinho, o homem romântico sabe que sem o feminino o masculino não existe. Ele sabe-se um Yang frágil, completamente dependente do Yin fontal.

O homem romântico adora surpreender sua mulher. Inventar um programa especial sem hora marcada. Enviar uma pizza em que esteja escrito “I Love You” com catupiri. Ligar às seis da manhã para desejar bom-dia, mandar uma mensagem só para dizer que sente sua falta. Fazer aquele prato que ela gosta tanto. Ser chef de sua degustação. O homem romântico consegue num toque de pés sob a mesa dizer o que quer e ser plenamente entendido.

O homem romântico olha sua mulher dormindo como se fosse a mais bela escultura de Michelangelo. Para ele é. Seu olhar pousa em seu corpo em repouso com a maciez de seus pensamentos. Analisa a boca, acompanha a respiração. Admira os cabelos emaranhados na beleza selvagem do momento que segue a ternura. O homem romântico acorda sua mulher com beijos em seus olhos, pescoço e uma mordidinha muito de leve na ponta do seu nariz. O homem romântico não sai sem um carinho de despedida.

O homem romântico é um romântico gratuito. Faz tudo isso sem cobrar nada, a não ser a eterna presença do olhar terno que recebe ao ser romântico. Ele é movido à ternura. Ele é movido a carinho. Ele é movido a amor. O homem romântico é um total flex afetivo.

Um homem romântico, poucos sabem, está em cada homem. Nuns, adormecido e amordaçado, esperando o seu resgate por um amor verdadeiro, daqueles que nos deixam bobos e leves. Noutros, já liberto e tresloucado, fazendo a hora de seu romantismo, fazendo de sua mulher a mulher que mais deseja um homem. Aquele homem que a encanta, que a seduz, que lhe dá prazer, que a enreda em seu olhar, que a prende no seu infalível visgo, que a entrelaça na sua sombra e que a atrai feito imã, obliterando sua razão porque chaveia nela a emoção mais pura, que vem sabe-se lá de onde e que ela sequer sabia que tinha dentro de si. O homem romântico é um irresistível que não resiste a uma paixão verdadeira, paixão que, num círculo virtuoso, não resiste a ele igualmente. Com o homem romântico, simplesmente acontece. Que me perdoem os trogloditas, mas ser romântico é fundamental. Homem que é homem chora de e por amor. Porque é verdadeiro, porque é macho. Porque é romântico. Quando lhes dão asas, o homem romântico voa alto. Que nem o tangará. Que nem o tangará.

S.

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Sérgio Augusto Freire de Souza
27 de agosto de 2008.

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Uma frase num sábado de dezembro

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“O amor é um lugar estranho”
Lost in Translation

Se eu quiser falar com Deus

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Texto de 2002, era de turbulência afetiva. Descobri que você só pode amar desprendido dos amores que se foram. Hoje amo na plenitude porque entreguei o que não era mais meu.

Se eu quiser falar com Deus /Tenho que ficar a sós /Tenho que apagar a luz /Tenho que calar a voz /Tenho que encontrar a paz /Tenho que folgar os nós /Dos sapatos, da gravata /Dos desejos, dos receios /Tenho que esquecer a data /Tenho que perder a conta /Tenho que ter mãos vazias /Ter a alma e o corpo nus/Se eu quiser falar com Deus /Tenho que aceitar a dor /Tenho que comer o pão /Que o diabo amassou /Tenho que virar um cão /Tenho que lamber o chão /Dos palácios, dos castelos /Suntuosos do meu sonho /Tenho que me ver tristonho /Tenho que me achar medonho /E apesar de um mal tamanho /Alegrar meu coração/Se eu quiser falar com Deus /Tenho que me aventurar /Tenho que subir aos céus /Sem cordas pra segurar /Tenho que dizer adeus /Dar as costas, caminhar /Decidido, pela estrada /Que ao findar vai dar em nada /Nada, nada, nada, nada /Nada, nada, nada, nada /Nada, nada, nada, nada /Do que eu pensava encontrar

Uma vez uma aluna perguntou, durante um curso de Introdução à Análise de Discurso, se eu acreditava em Deus. Eu disse que sim. Ela rebateu dizendo que eu estava sendo incoerente com a teoria do discurso. Eu disse a ela que não. Primeiro porque nossa relação com Deus no plano da intimidade não dá para ser explicada por nenhuma teoria. Por isso é fé. Segundo, aí já no campo da teoria que explica o funcionamento de um discurso religioso, o fato de eu saber como é produzido esse regime de verdade não torna essa verdade menos verdadeira para mim. Não sei se ela se convenceu, mas eu estou convicto da minha relação com Deus, relação que andou meio abalada, confesso publicamente.

Andei meio distante de Deus nesses últimos tempos. Usei as desculpas de praxe: pouco tempo, os padres estão chatos, a missa é muito longa e repetitiva, a política me enoja, o Equador vai jogar com a Croácia, enfim, mil desculpas.

Nesse aspecto, Deus é legal, pois Ele não nos força a nada. É como disse há muito tempo o Pe. Cânio Grimaldi, o personal father da nossa família: as coisas do espírito não podem ser obrigadas. Então, se você está a fim de chegar perto de Deus, ser afagado, lá está Ele, tal qual nossa mãe. Chamá-lo de Pai é herança do patriarcado dos hebreus. Ele é mais mãe. Se você se afasta, busca outros rumos, outras prioridades, Ele não reclama. Aliteração necessária: Deus deu a dádiva do livre arbítrio foi para isso. Mas mais cedo ou mais tarde, quem d’Ele sentiu o carinho volta.

Eu voltei um pouco hoje. Um muito. E como um católico básico, um-ponto-zero, voltei porque estava angustiado, perdido, dolorido com as coisas que a vida traz. O católico-padrão age assim: só volta estropiado, feito menino-barrigudo que não ouve conselhos. Hoje eu estava assim. Entre as várias coisas que me ocorreram fazer para minimizar minha angústia, entre algumas opções sensatas e outras nem tanto, estava a de entrar numa igreja e rezar. Entrar, sentar lá no banco de trás e rezar. Visitar um velho amigo. Tomar um cafezinho, perguntar pelos seus.

Parei e estacionei. Nem me importei com o flanelinha pedindo para “reparar o carro”, coisa que geralmente me irrita. Concordei e fui. Na verdade, acabei me convidando para uma missa de 15 anos que estava para começar. Peguei o boletim personalizado que todas as missas de 15 anos têm, ajoelhei meio sem jeito no fundão, deslocando até o menisco por falta de calo. Afrouxei o nó da gravata, dos desejos, dos receios. Calei a voz, e fechei os olhos. Dispus-me a lamber o chão dos palácios e castelos suntuosos dos meus sonhos, como na receita de Gilberto Gil.

Fui muito bem recebido, senti uma paz de espírito que não sentia desde que, ainda limpo da vida suja e mesquinha de cada dia, fiz minha primeira comunhão num domingo ensolarado na Igreja de Aparecida. Parece que Ele estava me esperando. Até a leitura impressa no boletim parecia conter, acima do texto, um post-it amarelinho colado e escrito à mão: “Para o Sérgio”.

A festa era para a Érika, felicíssima, e para mim, tristíssimo. Ela, 15 anos de vida. Eu, 15 anos de ausência. Ok, uma missa aqui, outra ali, Natal, Páscoa, mas nada tão inclusivo quanto à época em que fazia parte do grupo de jovens, da pastoral da música, num ato de nepotismo religioso muito grande do Paulo, meu irmão, que tocava o violão. Eu carregava o violão. Mas carregava com uma fé!

As músicas eram só músicas “do meu tempo”. Ave-Maria do Pe. Zezinho, Renova-me, Fica sempre um pouco de perfume, Utopia. De repente eu voltei no tempo, vi-me criança no catecismo do sábado à tarde. Senti a mão da minha vozinha correndo por entre meus cabelos, sentindo que ela olhava ternamente para mim com seus olhos infinitamente azuis e seu sorriso lindo e contornado por seu batom vermelho que deixava uma cicatriz de amor em nossas bochechas a cada beijo. Era como ela fazia naquelas tardes de sábado. Teria sido um anjo? Minha vó era um anjo. Eu senti, juro. Pensei comigo: “Meu Deus, que paz!”. Alguém respondeu sorrindo: “Eu sei”.

Fiquei ali por mais de uma hora. Não queria mais sair. Entrei pesado, triste, amargo, quebrado, sozinho. Tudo foi-se no primeiro fechar de olhos. Tudo. Olhei lá frente, pois já tinha recuperado a força para erguer a cabeça, e vi Jesus na cruz. Pensei naquele amor todo. Pensei em quão pequeno se tornara meu problema, minha dor, diante de tal resignação, de tal entrega. Resolvi entregar. Resolvi me entregar. Deixar de ser um humano arrogante, racional, e reconhecer que não estava conseguindo e nem iria conseguir. Descobri que minha dor era fruto de meu egoísmo, de eu querer algo para mim, sem pensar nos outros envolvidos. A leitura falava do manjadíssimo “Amai-vos uns aos outros”. Simples, direto. Eu estava no “Amai-me a mim mesmo”. Era esse o nó. Desatei. Desatamos. Desataram.

Renovado, como o pedido da música, dei os parabéns para a Érika, para seu Wladimir e para dona Ivone, os seus pais. Devem estar se perguntando até agora quem era aquele rapaz com olheiras profundas, mas tão feliz. Não tive a cara de pau de ficar para os comes & bebes, apesar da idéia ter me passado pela cabeça.

Saí e, na porta, voltei. Esqueci de agradecer a acolhida. Olhei para Jesus na cruz e agradeci. Olhei Nossa Senhora de Nazaré e vi que ela estava feliz, com um sorriso maroto. Era como se dissesse: “Volta, hein!” Voltarei, sim. Cantei para ela a música do Pe. Zezinho, que também parecia ter sido feita para mim. Prometi que a próxima vez não seria só na missa do aniversário de 30 anos da Érika.

Minha mãe Helena me disse que não há amor maior do que o que os pais sentem pelos filhos. Não tenho filhos ainda, mas amo muita gente. E com uma intensidade mil pontos na escala Richster dos amores. O amor por um filho deve, então, ser um amor muito grande mesmo. Mais uma vez vou com a minha gordinha e vou acreditar nela. Até porque hoje eu senti esse amor, como filho. Por parte dela, minha mãe, e na igreja. E re-aprendi que, diferentemente do que a gente aprende no mundo sem Deus, é preciso dar para receber, que meia bolacha na cara não tem graça, pois é preciso dar o outro lado ao bofete. Que amor é doação. É renúncia. É abrir mão. Como quando você solta uma pombinha pela paz. E paz não é utopia. Não busque explicar tudo isso pela razão. Não dá.

Tal qual Abraão, decidi depois dali oferecer e entregar a Deus algo muito especial, tão insubstituível para mim como seu filho Isaac era para ele. E essa renúncia era a razão da minha angústia inicial. Tinha que fazê-la, mas me angustiava, faltava-me algo. Depois dali, passou a angústia, veio o conforto. Lembrei que fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas.

E o conforto é explicável: o aniversário era da Érika, mas quem ganhou um presente fui eu, o penetra: ganhei minha fé de volta. E que presente. Coisa de pai para filho mesmo.


12 de junho de 2002

 

Um texto antigo para recordar…

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Este texto escrevi em 2002. Mas é como jornal velho. Já encontrei quem procurava.

CLASSIFICADOS

Procura-se um amor. Mas não qualquer amor. Um amor que considere as necessidades abaixo.

Procura-se um amor que goste de amar sem motivo, pelo simples prazer de amar.

Procura-se um amor que goste de dormir aconchegado, com um perna por cima da sua e tendo seus cabelos enrolados durante a noite inteira, com risco de nozinhos para tirar pela manhã.

Procura-se um amor que goste de arrumar contas em fichários, que goste de fazer listinhas de coisas a fazer e a comprar. E que mesmo que eu esqueça de falar, traga meu pacotinho de jujuba quando vier da rua.

Procura-se um amor que goste de quem eu gosto como gosta de mim, pois será igualmente gostado por quem eu gosto e por quem gosta de mim.

Procura-se um amor que sorria ao me ver, que morda os lábios sempre que me abraçar.

Procura-se um amor que aceite pequenos defeitinhos como não ser capaz de achar nada, deixar a porta aberta sempre que passar e só tomar sopa passada no liquidificador.

Procura-se um amor que ralhe comigo quando houver exagero, mas que se delicie comigo de vez em quando com uma barra de chocolate com castanha de caju e uma compota de doce de cupuaçu.

Procure-se um amor extravagante nas suas formas de amar, que invente a cada gesto uma forma de mostrar o quando significo em sua vida.

Procura-se um amor com anomalia genética: que não tenha em seu DNA o gene da indiferença, cruel e dispensável.

Procura-se um amor disposto a uma entrega total, mesmo que isso às vezes pareça sufocar. Um ou outro. Beijo também sufoca.

Procura-se um amor que tenha sonhos, para que se possa sonhar juntos, que lute por causas, para que um possa carregar as flechas do arco do outro em suas batalhas. Mas procura-se um amor que tenha como sonho maior nosso futuro e como causa maior o nosso presente, o amor que nos une. E disso não abra mão.

Procura-se um amor que não tenha receio de encharcar-se ao enxugar as lágrimas de dor que eventualmente caiam sobre sua roupa, estragando-as; procura-se um amor que saiba igualmente se esbaldar como criança em banho de cachoeira com as lágrimas das vitórias compartilhadas.

Procura-se um amor que esqueça a razão e jure, de pés juntos e sem figuinha, que será para sempre, mesmo sabendo racionalmente que “o pra sempre sempre acaba”.

Procura-se um amor que goste de Coca-cola, com gelo e limão. E de pimenta murupi. E de tambaqui ao molho de camarão. De sorvete branco do Select. De tacacá da banca do Wande. De Pizza de pimenta. E que seja capaz de rir do day after.

Procura-se um amor que goste de verduras, para que possa receber em seu prato as que vierem para o meu.

Procura-se um amor que suporte saber tudo de mim, inclusive minhas fraquezas mais fracas. E que um dia não use essa informação contra mim.

Procura-se um amor que me faça queimar a pasta de planos alternativos para a vida, que seja capaz de me convencer de que não preciso mais dela.

Procura-se um amor que seja honesto e sincero, o que é uma redundância, pois todo amor verdadeiro o é.

Procura-se um amor que saiba ser menina, que saiba dengar.

Procura-se um amor que saiba ser mulher entre as quatro paredes, amando sem medida, suando, gritando, gozando verdadeiramente com sua alma.

Procura-se um amor que não se sinta menor ou diminuído por cuidar de mim. Pois eu também vou cuidar desse amor.

Procura-se um amor que se orgulhe de minhas vitórias e saiba que a recíproca será sempre verdadeira; Que esteja lá, mesmo em silêncio, nas minhas derrotas, com uma mão em meu ombro e outro a me fazer cafuné.

Procura-se um amor que tenha ombro e colo, preferencialmente macios e aconchegantes, onde eu possa pousar minha cabeça e sonhar nossos sonhos ou simplesmente calar minha dor até adormecer.

Procura-se um amor que saiba que amar é mais do simplesmente dar as mãos. Que amar é dar as vidas, incondicionalmente, com todos os riscos.

Procura-se um amor que marque minhas consultas e vá comigo para ajudar na sempre chata sala de espera. E na saída pergunte, preocupado, o que o médico disse.

Procura-se um amor que me leve no aeroporto, que me busque lá também. E que, mesmo quando a distância da viagem for infinita, não tire do coração o perfume que ficou no abraço da despedida, um amor que vibre com o reencontro como se fosse o primeiro.

Procura-se um amor que não minta, que não me faça sentir bobo (a não ser de amor), não diante dos outros, mas diante de si próprio, numa situação patética de amor desperdiçado num mundo carente de afeto.

Procura-se um amor que goste de eu comer seu nariz, num gesto imaginário de incorporação de sua carne à minha própria de tanto amor.

Procura-se um amor que saiba qual meu prato predileto, que saiba que eu odeio alcaparras e cebolas, que saiba que comeria bife-arroz-farofa todos os dias.

Procura-se um amor que goste de bichos. Não precisa nem ter um, mas que goste. Não gostar de bichos é sintoma de uma carência fundamental.

Procura-se um amor que acredite em mim. Mais importante: que acredite em si. Pois assim podemos, como diz Rubem Alves, jogar frescobol e não tênis, fazer a bolinha chegar ao outro e não buscar tirá-lo da jogada.

Procura-se um amor bom de coração como meu pai e decidido como minha irmã. Mas pouco impetuoso. Os impetuosos põem tudo a perder. Inclusive um grande amor.

Procura-se um amor que possa ser, comigo, alvo de frases como: “que casal lindo e feliz”, sem que o tom da frase seja de inveja, mas sim de uma melodia harmoniosa de admiração.

Procura-se um amor que saiba limpar meus óculos enquanto dirijo, para que eu possa ver melhor para onde estamos indo. Que segure os mapas em nossas viagens para que eu não me perca nas difíceis vias da vida.

Procura-se um amor e ele pode ser surdo, pois serei sua audição; ele pode ser cego, pois o conduzirei com segurança na falta de luz; esse amor pode ser inclusive mudo, pois gritarei por ele a todo momento.

Procura-se um amor romântico, que adore Mariah Carey e Michael Bolton, que odeie o Funk batidão, mas saiba, de repente, dançá-lo numa noite louca, regada à licor de chocolate.

Procura-se um amor que me faça rir com seus comentários e que possa entender meu riso como admiração pela genialidade e não desprezo por sua opinião inusitada.

Procura-se um amor que saiba não brigar com meu computador, pois ao fazer isso reduz-se a uma máquina.

Procura-se um amor que cuide de plantas, pois sou muito incompetente para fazê-lo e muito carente de verde ao meu redor para dispensá-las.

Procura-se um amor que tenha seu computador e que me chame para consertá-lo, instalar uma placa, colocar um programa. Que una sua necessidade a meu prazer e vice-versa. Que me peça para tirar um vírus. Seja do computador, seja de sua vida.

Procura-se um amor que negocie nossas coisas, nossas compras. Eu não sei.

Procura-se um amor que não me chame pelo meu nome. Nunca. Que me chame carinhosamente por um apelido tão nosso que os outros passem a me chamar assim também. Que me dê identidade sem tirar a minha, como os retalhos num manto de arlequim.

Procura-se um amor que não erre. E se errar, que reconheça. E que se reconhecer, que reaja.

Procura-se um amor que goste de tomar água de coco no final da tarde, vendo o sol se pôr. Que goste de vagar de carro pela cidade, sem rumo.

Procura-se um amor que converse comigo por olhar, por suspiro, por silêncio. Procura-se um amor para quem eu possa dar a última almôndega do meu prato se ambos ainda estivermos com fome.

Procura-se um amor que me convença da inutilidade de classificados.

Procura-se um amor, enfim, que não saiba cuidar de mim quando eu estiver ferido de morte por ele, pois se chegar a tal ponto, eu não o quero de início.

Procura-se um amor assim. Pode ser um pouquinho diferente.

Aceitam-se contra-propostas. Gentileza, caso haja interesse, procurar no fundo do poço mais escuro da terra. Não precisa marcar hora. Há até uma certa urgência”.

Limites…

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