Amor

Sísifo de Amor

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A gente aguenta, segura, suporta. Não para ser forte, mas para proteger os nossos das intempéries da vida ao máximo. Vai levando, vai pulando buracos, desguiando de postes, subindo ladeiras com pedras nas costas. Mas a falibilidade humana chega e você quebra. É a hora em que os nossos, protegidos, vêm e acarinham nosso rosto, apertam a nossa mão. Para que a gente tenha força de chegar à próxima esquina, subir a próxima ladeira e começar tudo de novo. Até a próxima pausa.

Amores ímpios

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às 10.33.45 PM“Por favor, reprime as chamas desse amor ímpio”. A frase é de Sêneca, o filósofo. O que seria um amor ímpio? Pela definição de um honesto dicionário, ímpio é tudo que ofende a moral, a justiça, a religião, o estado das coisas. Parêntese.

A linguagem separa o ser humano da natureza. Quando conhecemos a linguagem, deixamos de dar vazão aos instintos porque passamos a ser mediados por valores e conceitos que aprendemos junto com a sintaxe e a morfologia da língua. São valores morais, éticos, religiosos, jurídicos e outros que servem para nos regular as práticas e os comportamentos. Mas os desejos regulados não somem. Os desejos proibidos são reprimidos e jogados no gavetão do inconsciente, onde ficam fervendo, esperando uma chance de se realizar. São pulsões. Pulsam, falando a seu modo em nossa vida. Querem o que queremos e os outros não deixam. Algumas viram amores platônicos e o que se ganha e o que se perde ninguém precisa saber, como diz a música. Mas algumas não se contentam com o platonismo e pagam para ver. Vazam do controle e se permitem. Parêntese.

Ímpios são os amores proibidos. Ímpios são os amores impossíveis. Amores que desafiam as regras, a moral, a ética, a religião, os costumes. Não são menos amores, qualitativamente falando. São proibidos de fora para dentro, pois de dentro para fora anseiam por jorrar, por se lambuzar, por suar, por gozar até o corpo ficar dormente. São desejos de qualquer amor legítimo, embora sejam ilegais, por assim dizer. Quem nunca desejou em uma dessas circunstâncias? Quem nunca se viu entre a irracionalidade do querer que manda se jogar e a razão controladora que diz para sossega o facho.

O amor proibido tem sua mecânica: as hesitações, a sedução, o arrebatamento. Hesita-se enquanto se tem forças, na luta feroz entre o desejo e a razão. Seduz-se ludicamente porque a entrega é clandestina e homeopática. “Apenas amamos aquilo que não possuímos por completo”, diz Proust. Arrebata-se ao nirvana quando a razão joga a toalha, vencida por nocaute ou por pontos. Aí começa.

“Não pode!”, diz a grossa voz da moral. “Como se querem pessoas que estão ligadas pela compromisso social a outras? Como ficam as outras?” Se entrar a razão no meio, a coisa morre. Por isso amores proibidos são irracionais. Exemplo: se uma das duas pessoas é livre e entra na roda-viva, ela acaba entregando sua liberdade em troca de migalhas de tempo, de possibilidades de arranjos, de esquemas, de encontros fugazes. A razão diz que isso não é vida. Mas para ela, que se entrega, está tudo bem. Há para compensar as loucas horas de Guilherme Arantes, com as quais ela vive a sonhar. É nelas que os clandestinos se amam feito dois animais, pois o breve tempo da permanência juntos pode ser o último tempo. Nunca se sabe. O sexo do amor ímpio é sempre o sexo da saideira. O tempo mínimo tem de compensar o desejo máximo. Ah,o submundo do amor clandestino… ruas ermas, estacionamentos de supermercados, motéis em horas insuspeitas, o ritual do apagamento de mensagens, o duplo comportamento numa casualidade de um encontro a três. Além, claro, de uma brutal capacidade de encenação da vida. É possível não ser você mesmo por muito tempo? Não sei…

Na conta do amor proibido, cobra-se o cuidado redobrado para não ter o delito desvendado. Dobram-se os cuidados com os olhos de ressaca que se entregam a uma certa distância, dengosos demais. Dobram-se os cuidados com a leitura pública do que está acontecendo. O público jamais poderá saber ou impiedoso escreverá a letra escarlate no peito dos ímpios. Esse é um amor ímpio e o seu preço é ser um amor só dos dois, sem registro, sem história escrita, sem história alguma, o que é uma tristeza medonha em se tratando de amor. Deletar é sempre a ordem. Da lixeira inclusive. Amores precisam de história.

Por isso, um dia acontece. A razão chega e quer por ordem na casa. Amores proibidos sempre estancam mais cedo ou mais tarde na sua encruzilhada: e agora? Seu ponto de interrogação é a frase do Gonzaguinha dita por um dos dois: “Eu preciso é ter consciência do que eu represento nesse exato momento”. Porque há de se querer mais espaço, há de se querer mais tempo, há de se querer mais atenção, há de se querer prioridade. A vida reclama uma história. Ser figurante sem nome na trama da vida é muito pouco para quem sonhou ser protagonista de uma história de amor blockbuster.

E agora? A lógica aponta dois caminhos: zerar tudo – com todas as dores envolvidas – e buscar o protagonismo pleno ou continuar num amor sem passado e sem futuro, com breves e tórridos presentes – e esquecer desse papo de história. Não há receitas. A vida de cada um vem e não pede licença. Toda maneira de amor vale a pena, mas amar passa necessariamente por ser feliz. Se a infelicidade visita, há algo para rever, há rotas a alterar. Há quem, como Sêneca, implore para que se mate as chamas do amor ímpio no nascedouro: quem brinca com fogo, diz a sabedoria popular, pode se queimar. Mas há quem goste do calor dessas chamas ímpias. Pois então que elas sejam eternas enquanto durem. É uma questão de escolha. Como tudo na vida. Poetas ou filósofos: qual a sua?

Parceiro das Delícias

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Parceiro das DelíciasAmor/Vem me tirar a sede/Amor/Vem me tirar da rede/Amor/Nem que seja das intrigas/Vem me tirar/Vem me botar na vida/Amor/Vem me tirar o cinto/Amor/Vem me tirar a pele/Amor/Nem que seja sem malícia/Vem me tirar/Vem me fazer carícia/Vem me tirar/Às vezes pra dançar/Até me machucar, Amor/Vem me botar na rede/Reviver a sede/Vem me fazer aquele/Amor/Parceiro das delícias/Amor.

Foi Tom Jobim quem disse que fundamental é mesmo o amor e que é impossível ser feliz sozinho. A vida, muita sábia essa danada, com o tempo vai dando as dicas de como entender melhor essa necessidade do amor. Porque se fundamental é mesmo o amor, fundamentalmente não é o mesmo tipo de amor que nos move as querências. A idade vai mudando e com ela e a gente vai mudando o tipo de amor que acaricia a alma. O tempo chronos, contínuo, tem pressa. O tempo aevum, infinito, não tem. Na juventude, vivemos chronos em sua plenitude. Queremos aproveitar o máximo no mínimo de tempo. Na meia-idade, somos mais aevum. Preferimos aproveitar o mínimo no máximo de tempo.

No florescer da vida, queremos Bon Jovi. Guitarras gritando estridentes, fazendo nossos hormônios ferventes dançarem rock´n´roll. Mãos suadas, calafrios, frios na barriga, panapaná de borboletas zanzando em nosso estômago.  Saídas furtivas, escondidas dos pais ou da moral, guardam em si lembranças de histórias que só os dois, e mais ninguém, vão saber para sempre. Como foram especiais aqueles momentos de rock com aquelas pessoas que, que coisa…, não temos a menor ideia de por onde andam. Ou não tínhamos até aquela página do Facebook escancarar o passado num perfil que se oferece num susto. O Facebook acabou com o passado. Ele esticou o transformou num permanente agora. Quantas pessoas, quantos sorrisos trocados, quantos olhares olhados, quantos carinhos doados mutuamente… Tantos amores desajeitados de quem estava aprendendo as delícias dos tempos e dos movimentos do sexo. Quantos amores bateram na trave e hoje, ambos, ainda se arrependem de não terem levado a efeito. Por que não, né? Basta se encontrar para que os olhos, porta-vozes da alma, lembrem polida e secretamente a dívida que ficou para trás e que jamais será quitada nessa vida. Ok. Talvez jamais.

Eis que o tempo passa. A pressa passa. Com alguma bagagem no currículo em troca de vigor juvenil deixado na negociação, seguimos para a segunda metade da vida. A vida começa aos quarenta.

Na idade adulta, nós queremos Vivaldi. Em vez da guitarra, o piano. Em vez da adrenalina da paixão, a endorfina do amor. As mãos suadas dos calafrios são trocadas pelas mãos entrelaçadas da companhia. A inquietude das borboletas é substituída pelo voo do casal de arara que diária e rotineiramente rasga o céu na janela do escritório, onde guardamos as contas a pagar. As saídas são furtivas, mas das crianças. Nada de muita gente nem muito barulho. Um jantar, com vinho, para falar da vida, dos filhos, dos planos. A multidão do show de rock é transformada na solidão desejada da companhia única para apreciar o violino d´As Quatro Estações. Passadas a Primavera e o Verão da vida, envelhecer juntos no Outono de folhas caindo para esperar o Inverno inevitável da existência. Paramos de procurar desesperadamente pessoas para dormir para começar a procurar alguém com acordar junto o resto da vida.

Antes que alguém me acuse de dicotomizar a vida, eu peço meu habeas corpus preventivo. No geral é assim. Claro que há jovens cronológicos que querem a paz de Vivaldi. Como há outras pessoas, na meia-idade, que não abrem mão do seu rock. Gente que quer verão o tempo todo e gente que prefere o vento do outono a lhes lamber os rostos. Gente que no Verão se encapota e no Inverno quer dar uma saidinha de bermuda, se me entendem a metáfora. O que seria do amarelo se todos gostassem da mesmo cor?

Seja como for, precisamos de alguém para nos tirar a sede. Com cerveja ou vinho. Com vodka ou suco de laranja. Seja como for, precisamos de alguém que nos tire da rede e nos convide à vida, num bar de rock ou num piano bar. Que nos salve da rede de intrigas que a outra vida, real e de viés, nos inventa de colocar. A vida das coisas ruins, das pessoas más, da gente amarga, das injustiças, dos azedos pessimistas e de outras coisas que nesse texto não terão espaço para além dessa frase que você lê. A felicidade que dá quando encontramos alguém que nos bota na vida é algo que nenhum texto jamais fará justiça em descrever. Alguém semanticamente normal precisa de um parceiro para lhe tirar o cinto, seja arrancando num puxão impaciente ou  deslizando vagarosamente pelo cós da calça, como querendo que aquele tempo seja eterno. Alguém que nos tire a pele de roupas que nos envolve e nos envolva com a pele do seu corpo, com e sem malícia, no ritmo do rock´n´roll ou do violino clássico. Quem de nós, pobres mortais, não quer alguém para nos fazer carícias no rosto, nas mãos, nas costas, na nuca, no peito, na boca, nos pés, nas partes? Quem de nós, homens banais, não sucumbimos ao convite para dançar com a pessoa certa? Dançar, dançar, dançar, até se machucar… Quem de nós não quer acabar na rede e reviver a sede? Quem de nós não quer de novo e sempre fazer aquele amor com seu parceiro de delícias?

Chronos, Aevum. Muitos, um. Bon Jovi, Vivaldi. Violento, manso. Qualquer maneira de amor vale a pena. Tom Jobim foi preciso: “Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho”. Quem é o seu o parceiro das delícias?

Quando Barbies arrumam as malas

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Decidimos ir na sexta-feira à tarde ao Lar Batista Janell Doylle, uma casa que acolhe crianças de 0 a 12 anos abandonadas pela família, vítimas de HIV e com necessidades especiais. A visita tinha um duplo objetivo: doar os brinquedos com que minhas duas filhas não brincam mais e mostrar a elas a dura realidade de crianças sem uma família estruturada. Elas mesmas separaram os brinquedos, com a ajuda da mãe. Marina, de cinco anos, sempre muito apegada a tudo, desde a pessoas até a uma chupeta velha furada, teve mais trabalho para decidir se desfazer de alguns dos brinquedos. A maior dificuldade foi uma bicicleta de rodinha das princesas. Ela ganhou uma maior de aniversário. Para Clara, seis anos, mais decidida e desapegada, foi mais fácil. Várias Barbies arrumaram as malas.

Tudo e todos prontos. Caiu uma chuva torrencial em Manaus que impediu qualquer saída prudente de casa. Adiamos para o dia seguinte, então.

A ida teve minha tia Céu como cicerone. Ela disse que conhecia a Magaly Arruda, diretora do lugar, o que era verdade. Ela disse também que conhecia o caminho até o lugar, o que era mentira. Depois de um tempinho perdidos no Mauazinho, um dos bairros mais afastados da Zona Leste de Manaus, chegamos, contando para isso com a ajuda de um mototaxista e dos solícitos moradores. Um deles muito bêbado, é verdade. Mas muito solícito. No meio do caminho, Marina sussurrou no meu ouvido algumas vezes: “Pai, quando você puder, você compra outra bicicleta de princesa pra mim?”

Ao chegar, vimos que havia um grupo de pessoas de uma congregação religiosa com as crianças. Eles fizeram uma oração, distribuíram brinquedos e brincaram com elas. Nossos brinquedos tinham sido deixados na sala da administração. Eu e a mãe já havíamos explicado às meninas o que faríamos ali. Mas ao chegar, elas ficaram sentadas por alguns minutos olhando tudo e processando o ambiente e as informações. Conheço minhas filhas. Suas cabecinhas estavam a mil. As instalações nos foram mostradas. Depois,  aproveitamos e nos misturamos a todos, brincando e conversando com as crianças. Minhas filhas, como crianças que são, logo se misturaram também.

Quando ainda estava na sala da administração, fui surpreendido por um abraço apertado e carinhoso de uma criança muito simpática e conversadora. Fazia tempo que eu não era abraçado assim por uma criança sem ser minhas filhas. A ausência da figura paterna faz o afeto acumulado vir em estado bruto, em busca desesperada de uma pessoa sobre quem se derramar. Pergunto o seu nome e ele responde com um sorrisão aberto: É J. E saiu correndo para brincar.

Enquanto todo mundo se mistura, eu fico tirando fotos, devidamente instruído de que não posso publicá-las por razões óbvias. As fotos que tirei mostram crianças com olhos trazendo uma  felicidade gorda pelo brinquedo recebido, numa pausa momentânea da tristeza amarga pela situação de cada um. J chega abraçando e pede para eu bater uma foto sua. Depois pede para ele mesmo bater uma foto. Emprestei meu brinquedo para ele, uma Nikon D7000. Ele bateu umas três fotos e ficou felicíssimo. A foto acima é de sua autoria.

Minha mulher pede para eu dar a máquina para que ela faça algumas fotos em que eu apareça. Um menino meio lourinho logo se joga no meu colo, sem que eu precisasse fazer qualquer menção. A foto é batida e ele continua lá. A Bia leva a máquina e eu fico ali, sentado no batente com o menino recostado em meu peito, como se aquele fosse o lugar mais aconchegante do mundo para ele. Desconfio que era. Passo a mão em sua cabeça. Depois de uns cinco minutos, ele salta do meu colo, dá um sorriso e vai jogar bola.

De repente, uma menina um pouco mais nova que a Marina começa a chorar no colo de um moço da igreja. Eu chego perto, pergunto o seu nome e por que ela chora. O rapaz diz que ela queria um brinquedo que a outra pegou. Olho para a Bia e, sem falar nada, ela entende na hora. O amor tem dessas. Ela vai buscar duas Barbies lá no meio de nossos ex-brinquedos. Chamo Clara e Marina para entregar as Barbies. Marina entrega uma à menina que chorava. A menina abre um sorriso imenso. Minha filha também. Clara entrega a outra Barbie para uma criança maior, que acompanhava tudo de perto e se aproximou mais ainda se insinuando. Seu rosto era de uma alegria indescritível. Minhas filhas sentiram a felicidade que dá fazer alguém feliz, tenho certeza.

A ida ao Lar Janell Doylle não foi só uma lição de solidariedade para as minhas filhas. Teve seus efeitos em mim também. Algumas vezes fui até o fundo do pátio com o pretexto de trocar a lente da máquina ou qualquer desculpa assim. Mas fui mesmo enxugar algumas lágrimas que saiam por conta própria por causa de um monte de coisas: da pobreza, da desigualdade social, do destino daquelas crianças, do trabalho bonito feito por aquelas pessoas, pelo carinho recebido das crianças, por minhas filhas terem uma família. Minimizei centenas de problemas meus, da greve que estou fazendo na universidade à falta recorrente de grana, diretamente relacionada a ela. Tudo é questão de parâmetros. O que se tem de importante é intangível. O resto é resto.

A chuva da sexta nos fez ir no sábado, na hora da final do vôlei feminino. Pensei em ficar em casa para ver o jogo. Mas desliguei a TV no início do segundo set e fui tranquilo. Deus é sábio, fazendo chover na hora certa. Fiquei feliz ao saber pelo Twitter que o Brasil ganhou a medalha de ouro numa modalidade esportiva, mas inevitavelmente triste ao lembrar que se o Brasil é ouro no vôlei, ele ainda se encontra na rabeta da desigualdade social, que gera grande parte daquilo que estava vendo.

Na volta, no carro, Clarinha disse: “Pai, quando eu crescer eu vou fazer um lugar para tomar conta de todos os gatos e cachorros que não tiverem casa. Eu vou tomar conta deles todos.” Foi a sua forma de dizer o quanto aquilo tinha mexido com ela, que ama bichinhos. Marina disse, desapegada de fato: “Eu tenho certeza que o presente que elas vão gostar mais vai ser da bicicleta de princesa”. E completou: “Sabe, pai, estou morta de tristeza por dentro, mas viva de felicidade por fora”. Ninguém precisou dizer mais nada.

Feliz Dia dos Pais. Para você que teve ou tem um.

Entre iguais

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“Primeiro as sensações lhe incomodavam pelos sentidos depositados pela religiosidade. Melhor não lhes dar palco e deixá-las quietas. Mas escondido na gaveta da individualidade, o reclacado reclamava seu retorno. Queria ser e só se é à luz do dia. A infelicidade começara a brotar e precisava ser podada pela tesoura do desejo e pela liberdade dos quereres. Ela, então, abriu-se em flor. Grilhões e amarras explodiram em cacos que lhe deram a identidade. Entregou-se ao desejo do seu amor , tão verdadeiro quanto os amores normalizados pela sociedade. Mais verdadeiro até, por suposto, porque tinha que ser duplamente espesso tanto para se dar para uma igual como para se defender da hipocrisia dos falsos amores normais que inundam as ruas, as cidades, o mundo. Tinha, no entanto, a solidariedade dos amores verdadeiros, em todas as suas combinações. Os amores verdadeiros querem outros amores verdadeiros. Qualquer um, desde que verdadeiro. Supurar e superar. Ou separar. Era essa a encruzilhada dos dois caminhos lógicos albergando sua felicidade e sua infelicidade, respectivamente. Uma questão de vogais. Uma questão de prefixo. Uma questão de felicidade.” SF

A chave

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“Ora, mas eu não sei nada de você! Eu sei disso e é por isso que eu te ofereço a chave de mim. Não sei se posso, ainda que queira. E quem mais sabe qual a decisão, além de você? Você me oferece uma chave que não tem cópia? Ainda que justa, essa é uma pergunta que não deve ser feita a quem lhe estende a mão em convite. Mas veja que a chave está por dentro da porta, percebe? Entre quando e se quiser porque eu já abri…” SF

Amores inventados

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Falar de relacionamentos é entrar em terreno pantanoso. Mas se há uma lei geral, ela deve dizer que tudo o que se quer é ser feliz com outra pessoa e fazê-la igualmente feliz. A vida se resume a isso. O resto é farofa.

Há casais que se encontram, sabem-se pares perfeitos e enfrentam tudo e todos: almas gêmeas. Duas pessoas que proporcionam a felicidade mútua. Seguram as pontas quando elas estão soltas, se amam no sol e na chuva, passam por cima do mundo pela certeza que têm de que estar juntos é a condição básica para viver.

Há casais que se encontram, sabem-se pares perfeitos e, por alguma razão, abdicam de sua felicidade. Cada um segue a vida tentando ser feliz naquele máximo possível com uma outra pessoa. Eles, que abdicaram de si, tentam fazer genuinamente felizes as outras pessoas que vêm para suas vidas. No entanto, jamais se esquecem da certeza de como teriam sido felizes se tivessem lutado contra o mundo e a sociedade. São, enfim, almas conformadas.

Há casais que se encontram depois de um dos dois passar por um amor mal resolvido. Em alguns casos, um dos dois ajuda o outro a se resolver. Mas já diz a sabedoria popular: o pior cego é o que não está a fim de ver. Quando o outro não quer resolver, ferrou. Nesses casos, pode acontecer da relação ser apropriada somente por um dos dois, de modo sanguessuga. O mal resolvido suga o outro para preencher a sua infelicidade afetiva. É o encontro da alma altruísta com a alma egosísta. Amor tóxico, inventado. É aqui que surgem os amores-muletas.

O amor-muleta é uma pessoa que nos ama e que fingimos amar. É uma conveniência afetiva para menos pior passar. O amor-muleta é escolhido a dedo para nos dar afeto e suporte, seja afetivo, econômico ou social. E ele nós dá tudo isso, de forma verdadeira, real, sincera. Fazemos uma escolha calculada e ideal para nós, mas que é uma fraude patente para o mundo que nos conhece de fato. Como a erva-de-passarinho, nós nos hospedamos em seus galhos para parasitá-lo, tirar o que ele tem para dar de bom sem nada dar em troca, a não ser a ilusão de uma relação que aparentemente funciona. Aparentemente. A relação com o amor-muleta é de aparência. A pessoa-muleta não sabe disso, mas nós sabemos e deixamos rolar. Isso é o escroto da coisa.

O cruel da pessoa que recorre ao amor-muleta nem é o autoengano, que, embora egoísta, pode existir como uma forma de equilíbrio do eu. Só ter chegado à qualidade de parasita afetivo já é um atestado de fracasso total. A mim, dá pena desse coração já na casa do sem-jeito. Mas o mais cruel mesmo é transformar uma outra pessoa, com afetos, desejos, planos, entregas, em uma mera conveniência. Reduzi-la a uma bateria que alimenta o tic-tac do marcapasso de um coração falido. Apequená-la ao transformá-la em um instrumento para dar conta do nosso andar capenga de nossos passos mal dados, cujas (ir)responsabilidades deveriam ser assumidas exclusivamente por nós. Mas envolvemos o outro. Inocente, ele se doa feliz a esse papel que nem sabe que desempenha nesse triste teatro do absurdo.

Não adianta o ser que faz uso do amor-muleta fazer fisioterapia. Seu andar já está atrofiado demais. Não adianta tentar se encontrar na religião, na análise, na macumba, nas drogas ou no que o valha. Para mim, essa pessoa já se perdeu ao usar o amor sincero de alguém, um dos atos mais mesquinhos que consigo vislumbrar para um ser humano. O mesquinho do amor mesquinho é que ele se sabe mesquinho. Isso que lhe corroi a alma, tenho certeza, mas não ao ponto de abandonar sua mesquinhez. Seu egoísmo está na base de sua pirâmide de Maslow psíquica. Foda-se o outro que eu amo.

Nietzsche dizia que o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são. Estava certíssimo o filósofo. Por isso que no amor verdadeiro titubeamos, pisamos em falso, estendemos a mão e sorrimos. Por isso que no amor verdadeiro pisamos na bola, nos recompomos, sacodimos a poeira e vamos adiante. Por isso que no amor verdadeiro somos capazes de gritar ao mundo que amamos, sem vergonha de ser piegas ou invejado. O amor verdadeiro é nosso e o mundo, se quiser, que o entenda. Dane-se a racionalização, danem as explicações lógicas amparadas nas leis da física ou da química. Mas o amor-de-muletas… ah, ele não. Esse precisa se explicar, parecer equilibrado, manter as aparências para os paparazzi da vida. O amor-de-muletas não se sustenta comendo pão com ovo, com a despensa vazia e suas dores. Sabe, leitor, precisamos ler mais Nietzsche.

Abandonar a vida por um sonho é estimá-la exatamente por quanto ela vale. Essa frase é de Montaigne. Construir um castelo de vidro ou morar numa casa caiçara ouvindo o mar é uma sempre opção. Mas sonhos existem antes de nós. Eles se apresentam para que nos os busquemos. Sonhos feitos a posteriori, às custas alheias, não são sonhos: são pesadelos. Uma hora se acorda, todo suado, e a casa cai.

Todos temos o dever de ser felizes. Todos temos o dever de buscar um amor verdadeiro. Todos têm, por isso, o direito de errar nas suas escolhas: uma, duas, dez, cem vezes, que seja. Desde que a busca seja genuína. O que não se tem direito é de fazer dessa procura legítima uma busca calculada, que envolve outras pessoas como substitutos-fakes daqueles que ficaram para trás porque não os quisemos, porque não nos quiseram mais ou porque erramos nos passos e nas decisões tomadas. Viver com alguém e pô-lo à sombra e na sobra de nosso passado mal resolvido é cruel. Porque esse alguém tem uma vida e está apostando tudo também. Se vamos, então vamos por inteiro, não aos pedaços, como hansenianos do amor. Deixemos para trás as coisas boas na antologia universal do amor e mandemos as ruins para o raio que as parta. Encarnar um espírito de um velho amor obsessor na nova escolha afetiva é endemoniar uma alma boa. É um exorcisimo ao contrário.

Você pode discordar de tudo o que eu falei. É um risco que sempre se corre ao escrever. Porque falar de relacionamentos é entrar em terreno pantanoso. Mas eu pago para ver porque acredito que o que se quer é ser feliz com outra pessoa e fazê-la igualmente feliz. O resto é farofa. O problema é fazer da farofa o prato principal e não querer ser chamado de farofeiro.

Em cada frustração existe uma desilusão.Em cada desilusão uma oportunidade de recomeço. Frustrar-se é de lei para quem busca. Morar na frustração e compensar com enganos e autoenganos é de lei para os que ainda não compreenderam que qualquer maneira de amor vale a pena, que qualquer maneira de amor vale amar. Desde que seja amor de mão-dupla, sem muletinhas. Senão, cedo ou tarde, bate-se com a cara num beco sem saída. Um beco escuro e fedorendo. Vai por mim, leitor. Só vale a pena ser feliz se os dois forem.

Serendipidade

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Aquele encontro não era obra do acaso. O acaso não existe. Já está tudo escrito e planejado desde sempre. Quando seus olhares se cruzaram, sabiam-se de outros tempos. Os olhos refletem as memórias das almas. Ali havia uma convergência de afetos, recordações, momentos. Ela era o amor proibido e nunca consumado naquela tribo nômade da Mongólia. Ele foi o seu filho amado perdido para a Peste Negra na Europa no Século XIV. Ela havia sido levada e morta pelos invasores brancos, que devastaram sua tribo Catawba, na Carolina do Norte no massacre de 1890. Ele, soldado de Franco morto na Guerra Civil espanhola que nunca voltou para casa. Não estavam aprendendo a se amar. Estavam relembrando. Estavam retomando de onde não puderam continuar.

O amor atravessa os tempos. O poeta já escrevia isso. Acreditam os espiritualistas que todo encontro é sempre um reencontro. Duas almas que vagam por dimensões, emprestando corpos terrenos no vale de lágrimas para acertar as contas. A busca do amor. O amor é eterno. É uma linda concepção que nos ajuda a lidar com os desarranjos da vida real. Vamos tomá-la como pressuposto.

Se existe esse amor que nos busca nos labirintos do tempo das vidas, existe o amor que com a gente resiste ao tempo na vida. Alguém dessa vida que nessa vida nos acompanha, por onde a gente vai, do jeito que podemos ir.

Um dia a gente se encontrou. Seja destino, acaso, Deus ou serendipidade, uma palavra linda que sigifica uma descoberta afortunada. Não interessa. Interessa que a gente encontrou uma pessoa e sabe que é ela. Com ela, vem tudo aquilo que todo mundo já sabe: frio na barriga,mãos suadas, coração palpitante, tensão, tesão. A criatura entra na nossa vida e começa a fazer parte dela. Ela, a pessoa, vira ela, a vida. O par simplesmente se reconhece.

Essa cara-metade, alma gêmea, tampa da panela ou qualquer outra locução que a defina, se entranha na gente. Ela se confunde com a gente. Passamos a nos conhecer mutuamente por dentro, entregamos a ela a outra chave que nos abre. Misteriosamente passamos a sincronizar pensamentos, adivinhar reações, nos comunicar sem dizer, dizer sem se olhar, se olhar e se amar no olhar. Ficamos até fisicamente parecidos.

Essa pessoa é especial. Ela fala a coisa certa na hora certa. Ela também cala quando a gente só quer colo e cafuné. Ela sabe nos receber em si e ser bem-vinda em nós. Ela conserta nossos vasos quebrados, ela limpa a sujeira que os nossos pés deixam, ela concerta as músicas que fazem a trilha sonora de nossa vida.

E vem o mundo, azedo por natureza, para nos testar.

Outras pessoas surgem atravessando nossa vida, cutucando nossa felicidade e nossa fidelidade. Às vezes, quase conseguem. Os guerreiros destruidores do amor apostam na falibilidade humana. No entanto, essas almas, com suas contas para acertar com os nossos eus de outras vidas, encontram pela frente nossos exércitos mais espartanos e batem em retirada. Nada conseguem. A liga produzida pelo nosso encontro com a pessoa que amamos gera uma espécie de campo de força que nos protege. É, suas pessoas, vocês terão de esperar pela próxima vida para fechar sua conta.

Aí vêm as dificuldades mundanas para nos atormentar o equilíbrio. O estresse da vida cotidiana tensiona a relação, faz com que a paciência mútua falhe, como as velas de um carro que precisam de conserto. Mas o motor é bom e não pára. Uma pausa para reparo é suficiente para a máquina da vida a dois seguir azeitada. Descobrimos com nosso parceiro que os problemas são do tamanho que os fazemos: se os fizermos grandes, eles serão grandes; se os fizermos pequenos, eles serão pequenos.

A falta de grana vem pesada e derruba com seu choque de realidade. A impotência de não poder fazer acontecer os planos pensados frustra e deixa triste qualquer um. No entanto, quando há amor, existe um fio que segura o colar mesmo quando as pérolas faltam. Um fio feito de um material inincontrável na natureza, irreproduzível nos melhores laboratórios. Um fio feito de textura de almas, feito araldite, que precisa de dois para fazer-se forte. Uma liga que liga e nunca desliga. Grana vai e volta. Mas o fio perdura, intacto. Uma má fase.

Por vezes, pasmem, nosso encontro também é dasafiado pelos nossos. Amigos, pais, irmãos, parentes. Julgam que não combinamos, que não nos merecemos, que não, nada a ver. Isso dá um cheque no nosso xadrez porque afinal são pessoas que amamos. Acontece que elas também têm suas contas pendentes entre si, para continuar na linha espiritualista. Sorry. Elas terão que deixar fiado também para outros tempos porque esse tempo é nosso. Ponto. Passamos por cima de tudo e de todos porque o amor está acima de tudo isso.

Com a pessoa certa, quando chove, ouvimos os pingos na telha como cantiga de ninar. Quando faz sol, andamos de mãos dadas na praia. Se faz frio,nos aquecemos nos toques mútuos, bebendo vinho. Se faz calor, nos refrescaremos com o suor de nossos corpos se misturando sem fim numa tarde de setembro.

No mar bravo, surfamos na crista da onda. Na calma nascente do rio, ficamos de bubuia olhando a luz que rasga em raios a copa das árvores como se fossem holofotes a nos iluminar. No oásis, dormimos agarrados numa rede. No deserto, bebemos nosso beijo para matar a sede.

Na alegria, dividimos gargalhadas de tirar o fôlego. Na tristeza, fazemos do ombro aconchegante o nosso remanso. Na saúde, nos amamos em sintonias memoráveis, com corpos incansáveis a se penetrar em um balé horizontal, em um sexo lindo, sem fôlego, com suspiros em falsetes. Na doença, seguramos as mãos para amainar a dor e puxar para nós o desconforto da alma que amamos.

O tempo será a testemunha de nossa caminhada. Às vezes, caminhamos calçados; às vezes, pés desnudos. Às vezes, pisamos em terra firme, às vezes, areia movediça. Às vezes, pau; às vezes, pedra. E vem o fim do caminho.

Uma história, uma trilha sonora, um enredo. Um encontro, um acerto. Uma certeza. A certeza de que de todos os desencontros passados, seja aquele amor proibido na Mongólia, seja amor perdido para a Peste Negra, seja a morte trazida pelos invasores brancos, seja o soldado de Franco morto na Guerra Civil, todos, absolutamente todos foram caminhos, percursos, passagens para o nosso encontro final nessa vida.

Não há acertos a fazer nessa vida entre nós, a não ser o acerto da escolha. Sem contas a acertar, a gente pode ser feliz aqui e agora e plenamente. Até a hora de devolvermos os corpos. Como dois velhinhos, cansados e enrugados, vamos nos despedir quando um dos dois fechar os olhos. Quem ficar vai chorar. Porque pelo amor encantamos a vida e desencantamos a morte.

Há uma certeza final: a mão que será estendida para a nossa, vindo da derradeira luz, será a dela, será a mão da pessoa que amamos de verdade. É ela quem nos receberá do outro lado. O amor verdadeiro transcende vidas. Porque há encontros que não são obra do acaso. O acaso não existe. Já está tudo escrito e planejado desde sempre. A serendipidade é, certamente, Deus sendo humilde.

Andando em silêncio

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Para os que ainda amam e precisam lutar pelo amor.

Eu às vezes paro e pergunto à lua/Meu amor, por que você não vem/Eu preciso tanto ter você por perto/Pra esquecer de vez a solidão/As palavras vagam noite adentro/Não há noite não há nada, é só você/Não adianta o amor se derramar em prantos/Revelando um novo escândalo/Não servirá…Falta pouco tempo para um novo século/ E o que fizemos quase se perdeu/Da janela vejo quase tudo/À espera de um sorriso igual ao seu/Você é meu silêncio/Meu maior segredo/Tudo aquilo que escondo de mim/Pra não te ver chorar…

Há dias em que paramos para olhar o céu e se perguntar sobre a vida. Que rumos distintos daqueles rabiscados no guardanapo de papel tomaram aqueles nossos planos, não é?  Onde estávamos com a cabeça quando deixamos de lado aqueles sorrisos ainda impressos em nossas fotos daquele tempo que, que coisa!, eram tão bons? Cada descoberta, cada alegria, cada frio na barriga. O primeiro olhar, o beijo que nos laçou naquele sentimento que juramos para sempre. O chegar de mansinho com medo de pisar em falso… Que é deles?

Inevitável, no meio do corre-corre, colocar a vida em ponto-morto e perguntar à lua, que, aliás, anda linda, por que você não vem mais. Fico parado na esquina do meu pensamento desejando que tudo aquilo que aconteceu e que levou você de mim não passe de um pesadelo. Tudo vai sumir ao meu abrir de olhos no dia seguinte, dando aquele alívio leve que o acordar traz depois de uma noite ruim. Meu desejo… Sem você, engraçado, minhas noites têm sido ruins. Meu pensamento é meu lugar mais seguro, porque fora dele eu estou só. E eu preciso ter você por perto para esquecer a solidão. Você me enchia a vida. Hoje a presença da tua ausência me sufoca, me rouba os ares, me desconcentra. Vou perdendo o rumo porque você era a minha bússola, a minha nau, o meu marujo, o meu rum, o meu porto. Quando você foi, perdi o meu mapa, meu mar e minha terra firme. Quando deixei você ir, eu queimei meus navios.

Preencho, em vão, os buracos que você deixou com coisas mil. Alegrias chinesas que quebram ao menor choque com o real. Eu me engano no ritmo alucinante para fugir da alucinação da certeza da sua falta em mim. Mas agora estou gritando para o mundo: você me faz falta. Uma falta imensa. Doída. Lancinante. Era você e eu deixei ir. Fraquejei. Errei no cálculo. Qualquer lugar sem você é só mais um deserto. Eu, sedento de nós, na areia quente. Onde o oásis do seu corpo? Onde o remanso da sua companhia? Onde você? Queria de novo saber do teu cotidiano, que eu perdi…

Minha cabeça é invadida de palavras. Minhas, me questionando sobre minhas decisões;  suas, me trazendo momentos tão nossos, como nossa música, as nossas manias, os nossos apelidos secretos, a nossa história. Aquela noite especial? Aquela loucura de amor? Lembra? A lua olha e me ouve. E as palavras vagam noite a dentro. Perco o prumo, a referência, as vontades. Não há noite, não há nada. É só você.

O que que eu faço? Vou atrás de você? Você me quer ainda? Você pensa como eu penso? Você chora como eu choro? Porque eu choro com saudades da gente sem que ninguém saiba. Ninguém sabe. Só eu. – Puxa! Eu gostava tanto da gente junto… – Eu me fiz de forte  quando você foi. Hoje confesso: fiquei um trapo. Essas quatro paredes do meu quarto estão cada vez mais se fechando sobre mim. Você está em cada canto da casa, entrelaçada à minha sorte. Por que eu não disse as coisas que eu pensei em dizer? Podia até gritar como um dia gritei para que todos ouvissem. Que bobagem a minha achar que iam me considerar um fraco por voltar atrás sem mesmo ter ido! E quem tinha a ver com isso, senão eu e você? Como eu pude deixar você ir?… Agora, eu posso gritar, me derramar em prantos, fazer um escândalo… Não servirá. Você não está por perto.

Da janela eu vejo quase tudo. Fico à espera de um sorriso igual ao seu. Que não virá. Quero um cheiro igual ao seu. Que não existe. Querer você de volta é algo que não consigo falar, muito menos gritar, apesar do desejo estar alucinadamente frenético dentro do meu peito. Você é meu silêncio. Meu maior segredo. Ninguém sabe. Só eu. Vão passar anos, anos e ainda vou amar você.

Uma cigana me disse que você foi o amor da minha vida. Ela me disse também que o fim do mundo é a gente que faz. O fim do mundo é o horizonte. Sabe… eu preciso ser feliz. E eu só vou ser feliz com você. Hoje eu sei. Por você, para lhe ter a sorrir seu sorriso para mim, eu irei até o fim do mundo e se preciso for mais longe e mais longe. Preciso me despir das vergonhas, dos julgamentos, do medo. Preciso deixar para traz os temores, a ansiedade, a falsa alegria que engana a tristeza. Preciso me jogar na reconquista como os navegadores do Século XVI.

Existem provas vivas de que a gente se amou. Você sabe. Não, não há tempo certo para ser feliz. Todo o tempo é tempo de felicidade. A demora  só faz o caminho ficar mais pedregoso. Mas mesmo com uma pedra no meio do caminho, eu vou. Porque há sempre um tempo para quem se perdeu ter nova chance de se encontrar. Eu quero você de volta. Sem você, eu tenho andado em silêncio.

O mapa do amor

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“‘Como é possível se apaixonar por alguém que você nunca viu?’, ela se perguntou intrigada. E apaixonada. É que nós construímos na vida um mapa do amor que guia nossos caminhos. O jeito como meu pai sorria para mim, a maneira como minha mãe tratava os estranhos, o carinho de meu irmão com os animais, a forma como aquela professora tratava os alunos… tudo aquilo que sempre nos encantou é absorvido nesse mapa e ajuda em nossas escolhas. Quando a gente encontra alguém com algumas dessas características armazenadas inconscientemente, a luz acende: é essa pessoa! Mas ela nunca o viu! Isso a deixava inquieta… Sim, se antes era preciso encontrar fisicamente para ligar o plug, hoje o plug acende com um interruptor digital: as redes sociais. A flecha do cupido vem pelo fio do mouse. Ela sabia que não era nada virtual. Era real mesmo: as sensações, a ansiedade para ver de novo, o frio na barriga, o contato, o emoticon sorrindo e piscando. Cada post, um susto. Cada foto, um sorriso. Cada curtir, um beijo. Ela estava mesmo apaixonada…” SF