Amor

Saudade

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É tão injusto quando as pessoas que amamos são arrancadas de nós pelos arranjos, rearranjos e desarranjos da vida. Pessoas que queríamos abraçar, beijar, sorrir juntos. Ainda que saibamos da impossibilidade de fazer isso todos os dias pelas contingências da vida de cada um, queríamos que elas estivessem sempre disponíveis para suprir nosso desejo quando ele reclamasse por elas. Pessoas queridas que se vão e são separadas de nós por muros construídos por motivos que nos escapam e nem nos dizem respeito. Com cada carreira de tijolo subida pelo tempo, elas ficam mais distantes, com mãos difíceis de serem alcançadas, com seus cheiros sendo levados pelo vento de outros lugares e paisagens. A ordem natural das coisas lhes queria coladas ao nosso peito, mas o mundo nos diz “não” por várias razões. Meus olhos se enchem de lágrimas quando a mente me traz a imagem dessas pessoas, com suas memórias e momentos que dividimos e que, agora, não mais podemos. Perder seus cotidianos é duro. Mas elas serão sempre parte de minha vida, ainda que levadas fisicamente para longe. Elas sempre terão morada em meu coração e no meu afeto porque deles nunca saíram e nem sairão. O vai-e-vem da vida machuca a gente, cruel como um cossaco russo. É preciso aprender a (con)viver com isso para não morrer em vida. Porque saudade dói fisicamente, arde os olhos, murcha a alma…

Canção pra você viver mais

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Nunca pensei um dia chegar/ E te ouvir dizer: “Não é por mal, mas vou te fazer chorar/Hoje vou te fazer chorar… Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só/Tenho medo de ser só um alguém pra se lembrar,/alguém pra se lembrar/alguém pra se lembrar…”/Faz um tempo eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais/Faz um tempo que eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais/Deixei que tudo desaparecesse/E perto do fim/não pude mais encontrar/O amor ainda estava lá/O amor ainda estava lá!/Faz um tempo eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais…

A única certeza que temos sobre o que nos vai acontecer no futuro é a morte. Ela vem, infalível. Vem para mim, vem para você, vem para todos.

Elizabeth Kubler-Ross, psiquiatra suíça, ficou famosa por seus escritos sobre a morte. Em 1969, ela escreveu “On Death and Dying”. Nesse livro, a autora apresenta os estágios pelos quais as pessoas passam quando estão na fase final de vida: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

O primeiro estágio, a negação, ocorre porque o Ego não aceita a notícia. Surge uma dor psíquica pela incompatibilidade do destino anunciado e os planos para a vida. Como o Ego não dá conta da coisa, vem a raiva. “Por que logo comigo? O que fiz para merecer?” Perguntas retóricas brotam férteis. O mundo todo recebe a culpa da proximidade do derradeiro destino. A pessoa fica amarga e revoltada. Sem forças para agredir o mundo, que é maior, passa-se a negociar com Deus uma sobrevida em troca de promessas de uma vida de fé, dedicada a outras pessoas, à caridade ou algo assim. Como Deus não fala mais diretamente com a gente, como fazia no Antigo Testamento, a impressão é a de que fica tudo na mesma. Daí vem a depressão, a tristeza, o fundo do poço. Sem forças para reverter o destino fatal, se aceita a morte como inevitável.

Kubler-Ross falava desses estágios vividos a partir de alguém destinado a fechar os olhos e perder seus 21 gramas de alma. Mas eu acho que os estágios servem para qualquer tipo de morte, não somente àquela que nos leva aos sete palmos do laborum meta. Servem para as mortes simbólicas também.

Quando a morte de um amor é anunciada, por exemplo, ocorre a mesma coisa: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Quando perdemos um emprego, idem. Um amigo que nos trai a amizade? Mesma coisa. Um relacionamento? Uma fé que falha? A gente nega, fica chateado, tenta negociar, se desespera e, por fim, aceita. Ou não, ficando estagnado em uma dessas etapas, com a vida congelada. Isso é importante: não estagnar. É necessário fechar ciclos. Faz parte de nossa constituição simbólica. A vida nos exige o clique no cadeado na saída.

Se tomarmos os estágios de Kibler-Ross como parâmetros da morte, real ou simbólica, talvez tenhamos mais margem de manobra de nossas dores, pois saberemos o caminho a ser percorrido. Talvez. Receitas não funcionam na dor. Certo é que a nossa morte real ou a morte simbólica daquilo que nos compõe a vida não é uma decisão nossa e elas vêm, infalíveis. Vêm para mim, vêm para você, vêm para todos.

Não queremos pensar no dia em que isso vai chegar. Mas tudo o que a gente gosta vai morrer. Não é por mal que quem vai vai nos fazer chorar. Vai porque tem de ir. Se é tão certo que a morte vem, é certo também que o amor sempre vai estar lá. Não deixemos, pois, que tudo desapareça antes do fim para que, arrependidos, perto do fim, não possamos mais encontrá-lo. Se ajeite, respire fundo e faça as pazes com quem você gosta e de quem você anda afastado. Seja você a dar o primeiro passo. É triste cantar a linda música do Pato Fu para alguém real, alguém que gostaríamos que tivesse vivido um pouquinho mais a ponto de receber um abraço reparador. Esse, amigo leitor, é um arrependimento irremediável.

Faz um tempo eu digo às pessoas que gosto o quanto gosto delas. Faço isso desavergonhadamente. Antes que elas se vão. Porque elas vão. Receber o calor do abraço amoroso de alguém é muito bom. Sabe, leitor, faz um tempo eu quis fazer uma canção pra você viver mais. Mais tempo, mais intensamente.

Detalhes

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Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo em sua vida eu vou viver…/Detalhes tão pequenos de nós dois/são coisas muito grandes pra esquecer/E a toda hora vão estar presents/Você vai ver…/Se um outro cabeludo/aparecer na sua rua e isto lhe trouxer saudades minhas a culpa é sua…/O ronco barulhento do seu carro/A velha calça desbotada ou coisa assim/ Imediatamente você vai lembrar de mim…/Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido palavras de amor como eu falei/Mas eu duvido, duvido que ele tenha tanto amor/e até os erros do meu português ruim/E nessa hora você vai lembrar de mim…/A noite envolvida no silêncio do seu quarto/Antes de dormir você procura o meu retrato/mas da moldura não sou eu quem lhe sorri/Mas você vê o meu sorriso mesmo assim/E tudo isso vai fazer você/lembrar de mim…/Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada/Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada…/Pensando ter amor nesse momento desesperada você tenta até o fim/E até nesse momento você vai lembrar de mim…/Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada do tempo que transforma todo amor em quase nada/Mas “quase” também é mais um detalhe/Um grande amor não vai morrer assim/Por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim…/Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver/Não, não adianta nem tentar me esquecer…

Um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada e por muito tempo insiste em viver ali, dentro de nós.

Passado um tempo, a cada esquina o dia a dia nos traz lembranças de um momento de uma vida a dois que se prometeu para sempre. No entanto, a promessa por alguma razão foi interrompida, abortada. Encerrou, mas não acabou.  Porque continuamos esbarrando em cheiros, cores, lugares e pessoas que são máquinas do tempo nos levando àquela época que hoje parece uma dimensão paralela, um tempo de cuja existência esquecemos quando nos pegamos distraídos com a vida. Pegos no susto da lembrança, exclamamos, surpresos: puxa, eu já amei essa pessoa!

Os detalhes tão pequenos de uma trama de afeto são coisas muito grandes para cair no vale do esquecimento. O tamanho de tudo quando se fala em amor não é físico, mas simbólico. Pode caber no espaço de um pingente ou numa aliança tosca de compromisso feita de tucumã. Há detalhes. Aquela história, aquele pôr-do-sol, aquela viagem. Aquela mania, aquela preferência, aquela implicância. O lugar na cama, a tampa da manteiga sempre aberta, a roupa sempre espalhada. Aquele perfume, aquela música, aquele boteco, aquele jeito de sentir prazer. Aquele defeito tão bonito. Como nós não podemos apagar o mundo que circunda aqueles que passaram em nossa vida, os detalhes sempre se farão presentes. Os detalhes moram do mundo, mas pertencem a enredo de dois.

No curso da vida surgirão outros amores. Esses amores novos nos amarão bem menos e pior do que o que se foi. Por isso, amores capengas nos farão lembrar do amor que passou justamente pela intensidade e pela qualidade de tudo o que vivemos e que não temos mais. Alguns outros amores, por outro lado, nos amarão bem mais e melhor do que o suspenso. Esses nos trarão à memória a tristeza da potencialidade não exercida daquele amor que acabou, que não foi tudo aquilo que poderia ter sido. Não tem jeito: a memória é um beco saída. Uma vez dentro, nos encurralamos contra o muro da lembrança. Só tem saudade quem viveu.

Se há uma coisa que constrange o coração é reconhecer em um novo amor a presença de um antigo. Um mesmo hábito, o mesmo jeito de sorrir, o mesmo perfume. A maneira de mexer no cabelo, os movimentos dos abraços ou do quadril… Ou falta de tudo isso. O novo faz assim, mas o antigo fazia assado. Ou cozido. Detalhes. Diz a frase que o diabo mora nos detalhes. Se assim é, o diabo e as lembranças são colegas de quarto. Nos detalhes, a essência do que se foi.

Sabe o que mais dói quando um amor entra em suspensão? É a perda dos detalhes do outro. Perde-se alguém quando se perde seu cotidiano, sua micro-história, suas tristezas e alegrias, que ficam incompartilháveis. Mais: outra pessoa está presente naquele dia a dia que era nosso por direito. Com certeza a vaca ou o babaca está lá com menos afinco do que nós. Outra pessoa está ouvindo frases que eram nossas, fazendo carinhos que deveriam estar vindo de nós e para nós. Humanos pretensiosos, temos a mais absoluta certeza de que o outro que está falando palavras de amor no ouvido que se foi não tem tanto amor como nós tínhamos. Apostamos um dedo polegar em que o impostor não fala do jeito que nós falávamos. É um ultraje esse outro viver a nossa vida, protagonizar os nossos atos, atuar em nossos enredos. Um canastrão qualquer agora encena esse papel que era nosso. Que triste espetáculo!

Detalhes. Arrumando as coisas, uma foto dentro de um livro. No livro, uma dedicatória feita em tempos outros para nós, que já não existimos mais. Como era verdadeira aquela dedicatória… Até a letra era caprichada. Há dúvidas se o cheiro de mofo é do livro ou dos sentidos contidos naquele pedaço de texto. Na foto, um sorriso que preenchia boa parte do nosso dia. Instante de um momento cujas circunstâncias passamos a recordar. Com detalhes. Mas tal qual em “De volta para o futuro”, a companhia da foto está esmaecida porque o futuro não aconteceu por um desvio de rota no passado.

Jogamos fora as fotos, apagamos e-mails e posts, colocamos uma outra foto no porta-retratos. De que adianta tudo isso se o cérebro continua mandando torpedos para o coração? Do que vale trocar as fotos se nas molduras onde há a presença de outra pessoa que lhe sorri, nós continuamos a ver outro sorriso mesmo assim? A lembrança é um espírito obsessor que nos acompanha no carro, no banho, na lua cheia que olhamos, pensando em cenas românticas.

Amores e suores. Delícias de enredos a dois. Se fosse um filme, seria um clássico. Se fosse um livro, seria um best-seller. Se fosse uma música, uma do Roberto. Mas foram-se as histórias. Saíram de cartaz. A vida seguiu e outros amores vieram para beijar nossa boca, lamber nossa carne, tocar nosso corpo. Evitamos falar qualquer coisa no frenesi do balé dançado nos lençóis com o receio apavorante e real de dizer o nome acostumado sem querer à pessoa errada. O breve segundo de consciência sobre quem está encaixado em nós nos tira a concentração. Desesperados, tentamos artifícios para ir até o fim. Recorremos aos olhos fechados para garantir a presença ausente naquele corpo que agora explora o nosso. Por instantes, fingimos acreditar em prazeres novos, nos iludindo em um hedonismo da carne, do sexo e da luxúria, sem sustança afetiva. O sexo é bom. Mas não é igual. É legítimo dublar corpos?

A longa estrada do tempo tem seus caprichos. Ela tende a transformar todo um amor imenso em quase nada, apagando os detalhes, deixando só os rascunhos da história em linhas muito gerais. Quase nada. Mas o quase é mais um detalhe também. É por esse fio de memória que um grande amor se oxigena na história de nossas vidas e não morre nunca. No máximo, fica cataléptico. Dorme para despertar ao seu capricho.

Não, não adianta tentar esquecer. Durante muito tempo os detalhes vão viver. Fato é que tentar apagar detalhes entranhados em nossa carne, em nossa alma, em nossa história é querer apagar uma parte de nós. Não se passa borracha em vidas. Memórias não são retornáveis. Nem devem ser. A antologia universal do amor guarda algumas páginas para os nossos amores. Amores que se foram, é verdade. Mas que deixaram em nós traços de si, nos tornando melhores e nos preparando para outro alguém que tecerá uma vida cheia de mais outros detalhes, feito um manto do Arlequim. É mais prudente guardar nossa caixa de detalhes dos que cruzaram nossas vidas e acarinhar cada souvenir deixado por quem passou do que fingir que não existiu histórias que nos trouxera até aqui. Ciclos precisam se fechar para que outros se abram. Mas não precisam sumir. Se o novo amor exige isso, livre-se dele. Ele não respeita seus pedaços. Ele não entende que nós somos o que nós temos sido. Que amores que passaram e de certa forma ficaram fizeram de nós as pessoas por quem ele se apaixonou.

Porque um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada dentro de nós e por muito tempo insiste em viver ali. Em detalhes.

Dias de chuva

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Sim, a gente se desentendeu…/Pense não ser bom fugir,/da paixão se proteger./Volta ao normal/Antes de nascer o sol/Se pintar tristeza, ouça o coração/Vi que ficou cinza a cor do azul/Mas por que chamar a dor/Antes de acontecer/Traga com o Sol/Paz aqui pro coração/Peça pra esse inverno chamar o verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Eu já sei de cor a cor do azul/Passou o vendaval/Voltou a brilhar o Sol/Tudo é amor/Se a paixão nos fez chorar/Não passou de chuvas, chuvas de verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Me perdoa por você chorar/Dias de chuva são/Véspera de tempo bom/Sigo com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixo a tristeza e ouço o coração/Siga com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixa a tristeza e ouça o coração.

Sim, a gente se desentendeu.  Mas quem não? Ah, eu não compraria um carro usado de um casal que diz que nunca brigou. Um amor idealizado, sem brigas, sem rusgas, é um amor que não range suas diferenças, fundamental para fazer a engrenagem da vida a dois rolar, tecendo a rede de memória que alicerça a história da relação. Buscar uma assepsia impossível na relação acaba com o sistema imunológico do amor. É preciso por os pés descalços na lama para pisar firme na grama.

Nossa briga é desvio, não caminho. Por isso, me ouça. Pense que não é uma boa fugir de nós. Eu sei, parece que a distância ajuda na hora da carne aberta pela navalha da palavra mal dita, pela lâmina do erro maldito. Todas as pessoas erram, mas só as que são grandes pedem desculpas olhando nos olhos. Olhe nos meus olhos. Quero-me grande para você, ainda que agora seja liliputiano. Quero pedir desculpas sinceras. Se veja no meu olhar sincero e me permita que eu me veja no seu. Foi assim que nos entendemos na primeira vez, lembra? Ficar longe, sem querer conversar, é se proteger da paixão.

Precisamos – eu, você, nós – voltar ao normal antes do nascer do sol. Está escrito nos estatutos do amor que ninguém que ama deve dormir sem dar um beijo de boa-noite para fechar o dia, tenha sido ele bom ou ruim. O beijo de boa-noite noite é Deus rendendo nossos anjos da guarda. Permita que Deus entre. Quem tem um lastro, uma história, como nós, pode apostar no coração como avalista quando pintar a tristeza. É preciso ouvir o coração. Como um velho sábio das montanhas do Tibet, ele sussurrará no ouvido de sua alma o que melhor há de fazer.

Na cromotipia da vida, às vezes a cor do azul fica cinza. Nublam o celeste as tristezas gris. Um erro, um deslize, um momento em falso pode alterar a meteorologia de nosso afeto. Mas nuvens, chuva, raios e trovoadas estão ali por instantes. O normal é a cor azul e sua paz infinita.  Mas por que chamar a dor antes de acontecer? Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Não nos abortemos por migalhas.

Não esmaeça por minha causa. Não se esvazie do seu gás por causa de uma alfinetada minha. Traga com o sol paz aqui para o coração. Sua luz se expande ao tocar em meus pontos escuros. E vice-versa. Porque somos diferentes. Precisamos da diferença para, dividindo a vida, somar os caminhos e multiplicar as possibilidades. Ah, “navegar é preciso, mas viver não é preciso”, como precisa é a aritmética. Olhe nos meus olhos… Invento joguinhos de palavras piegas e cito o  poeta para fazer uma ponte entre nossos olhares, a única forma de cruzar esse Rio Amazonas que nos separa.

Um inverno. De repente um gelo inesperado. Um inferno. Andávamos há pouco descalços na areia da praia, sob o calor do sol e das nossas mãos dadas. Um erro, um deslize, um passo em falso… Mas e nós? Olha, peça para esse inverno chamar o verão! Tem aquela praia que desenhamos no guardanapo, com um coqueiro e uma casinha esperando por nós, lembra? Lembra?

É bom demais sentir você por perto, mesmo sem te ver. O amor é fisicamente incoerente: o vazio da ausência não cabe dentro da gente. Transborda. […] Ei, eu estou desesperado com teu silêncio. […] Queria estar feliz a todo tempo, como antes. Claro para nós que não há nada mais a se fazer: só fazer voltar os bons momentos. […]

Um sorriso.

Você está me olhando nos olhos…

Eu já sei de cor a cor do azul. Passou o vendaval e voltou a brilhar o Sol. Tudo é amor. Se a paixão nos fez chorar, não passou de chuvas, chuvas de verão. As chuvas alimentam a vida à custa da falta de sol momentânea. Que nossas chuvas sejam nutrientes de nosso ecossistema e não deslizadoras das montanhas de nossas geografias. Bom demais sentir você por perto. Bom demais sentir o teu cheiro. Bom demais, ponto. Uma vida, uma história, uma trilha sonora, nossos detalhes, nossas manias: recuperamos tudo de uma quase perda total. Que buraco ficaria na antologia universal do amor!

Me perdoa por você chorar? É que dias de chuva são véspera de um tempo bom… Comecemos novamente o nosso tempo bom. Eu sigo com o sol, cai a chuva pelo chão e eu deixo a tristeza e ouço o coração. Siga você também com o sol, pois cai a chuva pelo chão. Deixe sua tristeza e ouça o coração…

Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Dias de chuva sempre vêm. Mas o sol surge indefectível. Um beijo, meu bem. Boa noite.

P-46

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Há um planeta distante da Terra. Como todos os planetas distantes da Terra, ele é identificado por uma sigla em vez de um nome. É o planeta P-46.

Os habitantes do P-46 são diferentes dos da Terra. Não em sua forma física. Os P-46 e os terráqueos possuem a mesma forma. Tanto é que habitantes do P-46 vêm à Terra e habitantes da Terra são mandados à P-46, sem que ninguém perceba que não são nativos dos planetas para os quais são enviados. O intercâmbio existe para equilibrar o plano cósmico.

Os P-46 são poetas por natureza. Alguns raros não fazem poesias e são homens de negócio. Esses fazem parte da Academia P-46 de Homens Comuns. Mas a maioria dos P-46 vê nas seis luas do planeta motivos e razões para compor músicas e poemas, para cantar canções e decantar belezas. Não só são artistas na música, mas suas vidas são levadas dentro de uma estética muito particular. Podem até fazer outras coisas eventualmente, mas são um povo das artes.

Os P-46 possuem outra característica: eles vivem a política da nave despressurizada. Quando uma nave, como um avião, por exemplo, para usarmos exemplos da Terra, é despressurizada, máscaras de oxigênio caem automaticamente em frente aos passageiros. Passageiros adultos devem colocar a máscara primeiro em si e só depois, já seguros, devem colocar a máscara nas crianças. Caso contrário, corre-se o risco de desmaiar e não poder ajudar ninguém. Os P-46, portanto, sabem que se amar e cuidar de si é fundamental e prioritário sobre tudo. Seguram sua máscara com força na mão.

No amor, os P-46 são serial lovers. Amam muito e com muita intensidade. Não guardam rastros de antigos amores, o que não significa que não gostem nem desvalorizem quem passou antes pelo seu coração. Não. Mas são seres intensamente focados no presente. Quando amam, amam 100% e sua atenção em mostrar à pessoa que amam o quanto amam faz o resto do mundo se tornar secundário.

Embora queiram se mostrar independentes, os P-46 nunca cortam o cordão com sua família imediata. São umbilicalmente ligados e dependentes do amor fraternal, maternal e paternal. Quando têm filhos, sempre muitos, distribuem seu amor paterno de uma forma toda peculiar, mas que sempre deixa nos filhos a certeza de que ele é pra valer. Para os P-46, paternidade não é presença física – é até impossível para eles, de tão filhentos que são. Paternidade é algo que se inventa de forma diferente que só eles e os filhos sabem, de uma forma verdadeira.

Por serem seres da arte, os P-46 são inquietos. Não gostam de planos. Gostam do impulso. O impulso os move. Quando querem algo, dane-se o resto do planeta. O desejo tem de ser preenchido sob risco de explosão da cabeça ou do coração. Às vezes, eles não se entendem e vão buscar ajuda nas ciências da alma da cosmologia P-46. Nem sempre conseguem. Porque, no fundo, nem precisam. São assim. Ponto.

Poesia, amor por si, amor para dar sempre e muito, dependência afetiva e impulso. Na Terra, alguns leem isso como porralouquice, egoísmo, inconstância, imaturidade e irresponsabilidade. Mas são efeitos da leitura dos olhos acostumados dos terráqueos. Sabe-se que os P-46 têm os olhos desacostumados de poeta. Todas as crianças do P-46 são mandadas para passar a infância na Terra. Por isso crianças são poéticas. Por isso se gostam, por isso abraçam e beijam sem pedir nada em troca. Crianças são seres que precisam de afeto, de amor. E sempre agem por impulso do prazer imediato. Quando entram na idade adulta, os P-46 regressam para o seu planeta, poético, artístico, leve, para continuar sendo o que são em essência e a viver lá sua poesia. Por isso, P-46 é o planeta mais poético e de alma leve do universo inteiro.

Sabe-se que alguns P-46 acabam ficando por aqui. Eles se misturam e se passam por seres desse planeta, não sem sofrer a rotulação dos terráqueos comuns e adultizados. Mas os que ficam na Terra continuam na essência um P-46. Sabe Pablo Picasso? Sabe Vinícius de Moraes? E um tal de Elvis Presley? Mick Jagger? Tom Jobim? Fábio Junior? John Lennon? Albert Einstein? Gretchen? Ah, tem aquela Elizabeth Taylor também… Pois é. Todos P-46 que ficaram.

Meu irmão Paulo faz 46 anos de Terra. Parabéns, mano. Não volta para lá tão cedo, não, tá? Caetaneando, com a ironia dos 32 canais, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”. Eu te amo, meu irmão. Do teu irmão terráqueo que tenta, em vão, imitar os P-46 autênticos.

Pra você guardei o amor

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Pra você guardei o amor/que nunca soube dar,/o amor que tive e vi sem me deixar/sentir, sem conseguir provar, /sem entregar e repartir./ Pra você guardei o amor/que sempre quis mostrar,/o amor que vive em mim, vem visitar,/sorrir, vem colorir, solar,/vem esquentar/e permitir/quem acolher o que ele tem e traz,/quem entender o que ele diz/no giz do gesto, o jeito pronto/do piscar dos cílios/que o convite do silêncio/exibe em cada olhar./Guardei/sem ter porque,/nem por razão/ou coisa outra qualquer/além de não saber como fazer/pra ter um jeito meu de me mostrar…/Achei/vendo em você/e explicação nenhuma isso requer/se o coração bater forte e arder/no fogo, o gelo vai queimar./Pra você guardei o amor/que aprendi,/vem dos meus pais,/o amor que tive e recebi/e hoje posso dar livre e feliz./Céu, cheiro e ar na cor que o arco-íris risca ao levitar./Vou nascer de novo./Lápis, edifício, Tevere, ponte./Desenhar no seu quadril,/meus lábios beijam signos feito sinos,/trilho a infância, teço o berço/do seu lar. Guardei/sem ter porque/nem por razão/ou coisa outra qualquer/além de não saber como fazer/pra ter um jeito meu de me mostrar…/ Achei/vendo em você./E explicação nenhuma isso requer/se o coração bater forte e arder/no fogo, o gelo vai queimar./ Pra você guardei o amor/que nunca soube dar,/o amor que tive e vi sem me deixar/sentir, sem conseguir provar,/sem entregar e repartir./ Quem acolher o que ele tem e traz,/quem entender o que ele diz/no giz do gesto, o jeito pronto/do piscar dos cílios,/que o convite do silêncio/exibe em cada olhar./ Guardei/sem ter porque/nem por razão/ou coisa outra qualquer/além de não saber como fazer/pra ter um jeito meu de me mostrar…/Achei/vendo em você./E explicação nenhuma isso requer/se o coração bater forte e arder/no fogo, o gelo vai queimar…

Para você que já achou a pessoa. Como eu.

                O amor é um crédulo. Toda vez que conhecemos alguém e sentimos o frio azul da paixão, ele sempre se apresenta como o grande e definitivo amor. A vida fica leve, gritamos palavras de amor no Vale do Eco. Amamos, apostamos e… poxa… perdemos a aposta. A vida vem, sem pedir licença, e muda nossos planos. Mas o amor não desiste e segue, cabeça erguida e otimista, nos becos da vida, esperando encontrar no próximo virar de esquina o grande amor da vida, aquele que, de fato e derradeiramente, será o par com quem dividiremos os últimos suspiros.

E aí encontramos esse alguém. Com esse alguém descobrimos um amor diferente de todos os amores amados. Carinhos melhores do que todos os carinhos acarinhados. Amizade de passar horas a fio desfiando assuntos impossíveis. Cumplicidade da vontade mútua. Admiração de brilhar os olhos e disparar o sorriso. Faz um click e encaixa. Descobrimos que para essa pessoa que, imagina, andava por aí à espera do nosso momento, guardamos um amor diferente dos amores já gastos. Mobilizamos um amor que nunca soubemos dar. E nunca soubemos porque nunca foi demandado daquele jeito. Um amor que sempre tivemos e vimos de relance em nós, mas que nunca nos permitimos sentir, provar, entregar ou repartir. Faltava alguém para dispará-lo na plenitude. A pessoa chegou.

Nós guardamos para essa pessoa o amor que sempre quisemos mostrar, latente, doido para se gritar ao mundo, sem, no entanto, conseguir. Um amor que vive em nós e, paradoxalmente, vem nos visitar trazido por essa pessoa. Um amor que nos enleva a alma, que gargalha a mais pueril gargalhada, que vem colorir com sua aquarela o branco e preto dos nossos dias, que vem trazer o sol e esquentar o frio e permitir o que nunca nos permitimos antes dele. Um amor que domina quem acolher o que ele tem e traz e acolhe quem entender o que ele diz escrito no giz do seus gestos. Com essa pessoa, compreendemos de primeira o jeito pronto do piscar dos cílios que o convite do silêncio exibe em cada olhar. Os sentidos são mais do que entendidos: são perfumados, numa sinestesia que só aquela pessoa foi capaz de produzir em nós.

E sabe o que mais? Nós guardamos esse amor para essa pessoa sem ter um porquê. Não tem uma razão específica a não ser não ter sido capaz de fazê-lo ser. Achamos a chave da porta para a plenificação desse amor nas mãos dessa pessoa. Explicação? Não precisa explicar o amor, esse amor diferente, novo, que desconfiávamos haver sem conseguir olhá-lo nos olhos antes da chegada da pessoa, dessa pessoa. Basta que o coração arda forte no fogo para que o gelo queime e derreta os amores de antes, que foram bons, mas não foram como esse que guardamos para essa pessoa. Amores que se apequenam diante desse gigantismo plácido.

Nós guardamos, para essa pessoa, o amor que aprendemos . Um amor que herdamos dos nossos pais como o valor que dá liga às relações. O amor que é carne, osso e alma da vida. O amor que tivemos de quem nos amou, que recebemos gratuitamente e que hoje podemos dar livres e felizes, devolvendo-o ao mundo, como fotossíntese dessa luz que chegou e tomou conta.

Um amor do tamanho do céu. Um amor com cheiro e ar que enchem os pulmões com as cores do arco-íris ao levitar. Foi para essa pessoa que nós guardamos. Quando ela chegou, renascemos. Seu lápis nos contorna novos sorrisos; sua matemática nos constrói novos edifícios. De frente ao Rio Tevere, ela nos põe com dois riscos uma ponte sob os pés para que atravessemos seguros. Com os lápis desse amor, desenhamos corações e mares de vai e vem no quadril dessa pessoa. Rabiscamo-nos, de fato, em toda sua geografia. Tatuamo-nos e ficamos colados em seu corpo indelevelmente. Nossos lábios beijam os signos de sua linguística corporal, suas sinuosidades, corremos pelo seu corpo como a criança que, determinada, corre atrás de algo. Com nossas mãos encantadas pela magia dessa pessoa, nós tecemos o berço de seu lar, onde dormirá serenamente quem sereno nos deixa por existir.

O amor é um crédulo. Por crer, sabe quando. E quando, sabe certo. E certo, afirma firme: “Foi pra você que eu guardei esse amor que eu nunca soube dar. Único. Seu. Nosso. E que agora eu sei”.

Meu casulo, meu mundo

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Meu primeiro lar foi ela. Não entendi quando me tiraram de lá.  Da seiva de seu corpo me alimentei. Sua voz me fez dormir os mais tranquilos sonos. Ele me vestiu de amor. Ela me calçou com sapatos que nunca pisaram em ninguém. Na sua linguagem compreendi o que é gostar. Nas suas histórias aprendi a força infinita da imaginação. Nas suas ações entendi o que é perseverar. Sob sua benção aprendi a decidir. No seu exemplo escolhi o que fazer na vida. No seu abraço celebrei minhas vitórias. No seu colo chorei minhas tristezas. Na sua ânsia de saber aprendi que aprender é bom. Na diversidade de seus filhos, meus irmãos, aprendi a aceitar a diferença e nela ver mais beleza que problemas. Nas suas renúncias aprendi o que é amor pela família. Na minha partida de casa vi o quanto de mim ficaria naquele lar para sempre. Nos meus casamentos, sua oração encomendou felicidade para mim. Nos meus desencontros, seu ninho me acolheu como no começo de tudo. Nas suas fraquezas aprendi o que é falibilidade humana da perfeição e aprendi a devolver colo. Nas suas fortalezas conheci a possibilidade da superação das fraquezas humanas. Nas suas certezas me soube permanente. Nas suas inesperadas mudanças me soube mutante de repente. Com sua presença, no nascimento de minhas filhas, me vi nascer pai. Na perseverança recorrente ao lado do meu pai me percebi feliz. Na frase de fé que acalmava aprendi a apostar no sucesso. Com o percurso de sua vida aprendi a gostar de gente. No seu beijo e com sua benção, eu me fiz gente. Parabéns, mãe, nesse aniversário e sempre. Eu te amo. Dindo.

Distância

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A distância dá certezas…

Amores e malas

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Parece simples, mas arrumar a mala é algo complexo. Nunca cabe numa mala o que a gente quer levar. Cabem roupas, sapatos, os fios dos vários carregadores das parafernálias eletrônicas que nos acompanham. O jogo de copo de vidros que a sogra comprou em promoção e deu de presente também tem de caber, bem acomodado para não quebrar, claro. Apertando um pouquinho, cabem aqueles livros comprados na viagem também, que nunca serão lidos talvez. Depois de fechada, tem sempre de abrir a mala de novo porque faltou colocar dentro o nécessaire. A gente sempre esquece o nécessaire.

Mas nunca cabe o afeto na mala. Quando a gente vai e deixa quem a gente ama dando tchau por trás do vidro do aeroporto é que a gente vê que afetos e amores são imaláveis. Pagaria horrores de excesso, mas faliria feliz se pudesse levar comigo o aconchego do abraço de bracinhos curtos da minha caçula, os pulos nas costas da minha mais velha, o beijo com gosto único da mulher que eu amo. Além de embalar tudo em caixas e caixas e caixas, passaria Protect Bag em cada uma delas para garantir que chegariam lá do jeito que pus nas caixas, carinhos e amores puros, viçosos, densos. Love-in-the-box.

Eu acho que arrumar mala não é de Deus. É o início de um ritual sempre doloroso. Sempre.

O vazio da sala de espera lotada será meu lugar. As inevitáveis reflexões sobre como resolver os problemas pendentes tomarão conta, aproveitando-se daquela paz insuportável da ausência das mil perguntas infantis, metralhadas sem pena em direção ao pai oráculo. Na chamada para o embarque, a minha espera será no fim da fila, sem prioridade alguma, porque as prioridades do mundo ficarão do lado de fora. Provavelmente sentada ao lado da mulher que ronca, a solidão do avião será distraída pelo MP3 que rola músicas escolhidas a dedo e que precisará ser monitorado para não tocar aquelas que lembram quem ficou. Todas lembrarão. Desligar o MP3 então. Dormir. Não adiantará. No sonho virá o sonho realizado de ter uma família bonita, feliz. É. Sou inescapável ao amor da minha família. Ele me pega onde quer que eu esteja. Daí a metáfora: meu ar.

Pousarei sem repouso. Chegarei sem ter de esperar os mil volumes. Irei embora direto. Irei para uma casa que, momentaneamente, terá revogada a sua licença de lar, porque lhe faltará o essencial para sê-lo. E arrumarei a mala de novo, para viajar a trabalho.

“Oi, pai. Te amo!”, dirá a voz ao telefone, rasgando um pai saudoso do beijo, do cheiro, do carinho, que não couberam na mala. São grandes demais dentro de pessoinhas pequenas. Saudade dói, contrai os músculos, dá tontura. Eu sei. “Aos olhos da saudade como o mundo é pequeno!”, já dizia Baudelaire. “Saudade é nossa alma, dizendo pra onde ela quer voltar”, me lembra o Rubem Alves.

Não, não dá para pôr amor em malas. Mas, paradoxos dos paradoxos, um amor do “tamanho do universo, das estrelas e do mar”, como dizem as minhas pequenas, cabe num velho coração de pai, cada vez mais sensível com o tempo, cada dia mais amolengado pelo martelo da vida, cada dia mais sereno nas suas escolhas.

Amores e malas. Definitivamente não combinam. E eu ia esquecendo o nécessaire aqui. É o inconsciente querendo que eu fique aqui, nesse lugar de onde nunca sairei, nos amores dos meus amores. Mesmo que meu corpo esteja a centenas de milhas daqui. Mesmo quando eu não estiver mais aqui.

Jura secreta

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Só uma coisa me entristece:/o beijo de amor que não roubei,/a jura secreta que não fiz,/a briga de amor que não causei./Nada do que posso me alucina/tanto quanto o que não fiz./Nada do que eu quero me suprime/de que por não saber ainda não quis./Só uma palavra me devora:/aquela que meu coração não diz./Só o que me cega, o que me faz infeliz,/é o brilho do olhar que não sofri…

Na vida da gente há os amores. Eles são cantados e decantados em poesias, músicas, textos. Quanta tinta se usou para falar no amor realizado, do encontro marcado e cumprido ou mesmo do não marcado, mas magicamente acontecido por diagramação do sr. Destino! Como são ternos os amores que dão certo! Como eles nos motivam a continuar a acreditar, a ter esperança de que o mundo tem esperança e que sua salvação passa pelos encontros afetivos desse planeta complexo chamado Terra. É um todo harmonioso em sua desarmonia.

Mas e os quase-amores? Desses ninguém quase fala, apesar da sua onipresença na vida de cada um de nós. Os quase-amores são patinhos feios dos contos de fadas. Os quase-amores são os amores que tinham tudo para ser e nunca foram? Os amores que bateram na trave do jogo da vida. Os amores que poderiam ter sido se não fosse apenas um capricho da sincronia do tempo, de um esbarrão que não aconteceu por pouco, de um encontro naquele dia em que todos foram para aquele bar, menos eu. Como diz Raul: “Ah, os amores que a vida me trouxe e eu não pude viver”…

Os quase-amores são quase por uma infinidade de razões. Porque não tivemos aquela coragem, porque tivemos aquela ousadia ou porque, ainda que tudo conspirasse a favor, não dava mesmo por aquele pequeno detalhe. O diabo mora no detalhe. E a gente sabe porque que não dava. A gente individualmente sabe. “Um lado carente dizendo que sim e a vida da gente gritando que não…” Impossibilidades de todas as ordens das impossibilidades. Se não fosse aquele detalhe, que grande amor poderia ter sido. Mas há o limite. E o limite é uma linha tímida que se encosta em outra sem ter a coragem de tocá-la.

Se começamos a pensar nesse quase-amor, nesse universo do futuro do pretérito, às vezes até entristecemos. Porque nunca roubamos aquele beijo de amor e com ele a chave do borboletário de nosso estômago. Sim, borboletas voam em nós quando amamos e as borboletas do quase-amor nunca bateram suas asas. Ficaram presas, como naqueles vidros de colecionadores. Para quem ama, borboletas são para voar e não para ficar inertes, quase-mortas. A inércia não combina com a paixão. A paixão bate asas e é colorida.

Ficamos tristes também porque não tivemos a chance de fazer aquela jura secreta que só nós dois saberíamos. E  mais ninguém. O nosso segredo que não houve. Nada mais triste do que um segredo a dois que não houve. Que desperdício de afeto num mundo carente de gostar! Uma história não escrita, no entanto, ainda é uma história. Os quase-amores são protagonistas de nossa história não escrita. O segredo que não houve entre quase-amores é uma falha irrecuperável, incompensável. Nada compensa. Quando não houve, não teve. Simples assim. E complexo e doloroso assim. Por que não? Porque quase.

E as brigas de amor que não causamos com os nossos quase-amores? O ciúme não alimentado, o zelo excessivo, o cuidado extremado. A posse é um elo entre o desejo e o amor. Mas essa ponte nunca terminou de ser construída. Sequer começou. E a briga não veio porque você não veio. Porque não houve o terceiro, feito do encontro de nós dois, para cuidar. Não tendo havido a briga de amor, como usufruir do fazer as pazes do amor? A delícia dos consertos dos passos em falsos que culminam em concertos amorosos que formam a trilha sonora dos recomeços? Como pensar em recomeço se não houve começo? E não houve por quê? Porque foi um quase-amor. Quase.

Fizemos tanto. A nossa vida que não foi quase pode até ser um filme premiado. Nada a retocar. Mas isso não suprime a dúvida sobre o como teria sido o que foi quase. Ou que quase foi. Nada do que podemos nos alucina tanto quanto o que não fizemos. Como teria sido se? Quem de nós nunca se fez essa pergunta? Como uma conjunção de duas letras é capaz de disparar na mente a vontade de seguir em hiperlinks por caminhos que nunca percorremos, por estradas em que nunca pisamos, por corpos em que nunca tocamos, por quartos que nunca visitamos? A imaginação desembainha a espada na ilharga do seu Ipiranga particular e grita sua independência do tempo, do espaço, do real. Mas é um quase.

Há coisa que ainda não quisemos. Porque nunca as soubemos. Como querer o que não se sabe ainda? Um quase-querer ou um querer inteiro? No quase-amor, há coisas que teriam de ser inventadas, produtos do quase-encontro. Quase-desejos, quase-canções, quase-histórias, quase-sorrisos, quase-prazeres, quase-você. Meios caminhos para meios lugares, para meia lembrança. Se não fosse o quase, quase.

No universo paralelo dos quase-amores, só uma palavra nos devora: aquela que nosso coração não diz. É o sentido do silêncio. O silêncio espesso, viscoso, denso. Quem disse que silêncio não significa? O silêncio é o estado primeiro da linguagem. Por isso dizemos “quebrar o silêncio” e  “ficar em silêncio”. As palavras não ditas pelo coração para um quase-amor ficam lá nos consumindo, ruminando seu significado represado, borbulhando como num pântano do Scooby Doo. Elas nos devoram. Cardiofagia semântica.

No mundo dos quase-amores, tudo se paradoxaliza. O que cega é o brilho do olhar que nunca sofremos. Um quase-brilho. O que corta é a faca do amor que nunca foi amolada pela paixão. Uma quase-lâmina. O que mata é a vida a dois que nunca pode nascer. Uma quase-vida. Um quase-amor é o inverso de um parto. O quase-amor é um aborto de uma vida a dois. Com todas as dores e vazios inerentes à interrupção de uma vida. De uma quase-vida.

Pense, querido leitor e querida leitora, nos seus quase-amores. Rascunhem seus roteiros a dois. Escolham as suas músicas que nunca tocaram, os versos em guardanapos que nunca foram escritos, as marcas de amor nunca deixadas nos lençóis. Pensem na sobremesa nunca dividida na mesma colher, no calorzinho de corpos nunca misturados sob a coberta, nos colos nunca visitados. Quase-amores fazem parte de nossa memória afetiva. Em seu silêncio. Em sua dimensão. Em seu quase-mundo. É parte do nosso quase-eu, o eu que não pode ou não pôde ou não pode existir.

É como dizia Paulo Leminski: “Não fosse isso e era menos. Não fosse tanto e era quase”. Foi tanto. Foi quase. Ah, o quase como motor da vida! Quem quase ganhou ainda joga. Quem quase passou ainda estuda. Quem quase morreu ainda vive. Nem que seja morrer de amor. Ou de quase-amor. Qual é a sua jura secreta?