Angústia

À sombra da Castanholeira

Postado em Atualizado em

O caminho era o mesmo todos os dias. O muro azul descascado da casa ao lado, o latido ardido do cachorro da vizinha para quem passava. Sentado na cadeira de macarrão puído em frente à porta da casa a observar tudo e todos, o velho Português madrugador com sua ferida insarável na perna.

No campo de futebol que atrevessava para chegar à parada de ônibus, duas traves de madeira, sem redes, e um chão de barro com muita poeira. O campinho da rua sete resistia bravamente à especulação imobiliária que havia desconfigurado o bairro onde nascera. Ao passar por ali, era inevitável lembrar dos dribles e chagões do Maddy, o craque da infância, a sua inveja branca mais remota. Inevitável lembrar também do goleiro que fora, das defesas que ele próprio fizera, se jogando no chão feito um gato anestesiado. O campo parecia ter aprendido com eles: driblava e se defendia como podia das investidas das construtoras. A infância lhe era cara.

Atrás da trave que dava para a casa dos Smurfs, uma família de doze irmãos que tinha seu próprio time, havia uma árvore. Ele viu aquela árvore crescer. Quando criança, os moleques passavam e puxavam seus galhos de zoação, arrancavam suas folhas por divertimento. Em termos atuais, diríamos que sofria bullying. Ela cresceu. Dizem que à noite alimentava morcegos. De dia, no entanto, cedia sua sombra para o descanso do time-fora enquanto o grupo esperava o fim dos dez minutos ou dos dois gols, o que viesse primeiro. A Árvore era como se fosse mais um do time. Todos creseceram e foram cuidar das vidas. Ela sempre esteve  ali, claro, a observar os raros moleques que ainda trocavam o computador pela bola de futebol vez por outra e punham o pé no chão sem medo do bicho-de-pé e das frieiras. As mães daquela época eram menos histéricas do que as de hoje.

Todo os dias ele olhava para a árvore e lembrava de alguma coisa daquela época: os causos, as brigas, as risadas, as pessoas. Era um tempo bom. Por isso estava na memória.

Todos têm amigos esquisitos. Ele também tinha. Moisés era um garoto que sempre estava lá no campinho, mas nunca jogava bola. Cabeçudo, cabelo liso, sempre caindo nos olhos, olhos que nunca se viam. Ficava na dele e só respondia provocado. A molecoreba o chamava de “Guardião”. Sim, porque todo menino tem um apelido. Ou tinha, antes dessa chatice do politicamente correto. A escolha da alcunha veio exatamente porque ele não desgrudava da Árvore. Bem dizer, a Árvore era dele. Alguns até a chamavam de “A árvore do Moisés”. Ele era, definitivamente, o “Guardião”. Fazia sentido, como todos os apelidos fazem.

Além de introspectivo, alguns diziam que o Guardião era meio doido. Muitos tinham medo dele e de suas reações. Walter Vovó, um menino que tinha feições de velho, tinha verdadeiro pavor do Guardião. Da mesma forma que alguns tinha pavor do próprio Walter Vovó, parecido com o Smeagol. Se fosse hoje, certamente seu apelido seria Gollum. Mas ele não tinha. Ao olhar a árvore, enquanto olhava também o relógio para não perder o 306, lembrou de uma conversa que puxou com Moisés.

“Moisés, por que tu não desgruda dessa árvore?”

“É minha.”

“Sim, mas ninguém quer roubar a árvore. Todo mundo sabe que é tua…”

“É minha consciência.”

“Tua consciência?”

“É. Ela fala comigo. Ela me diz o que fazer. Quando eu preciso de ajuda, eu venho aqui e ela me diz o que eu preciso ouvir.”

Aquela conversa nunca lhe saiu da cabeça. Porque o Guardião falou com uma convicção que lhe parecia muito real. Assim ele leu a cena. Apesar de não conseguir olhar nos olhos do Guardião, ele possuia um certo dom de ler as pessoas quanto a falar ou não a verdade. Sabia que Moisés falava a verdade.

Demorou demais preso pelas lembranças e se atrasou. Perdeu o ônibus. Faltaria o trabalho naquele dia de sol escaldante de setembro por causa do devaneio no passado. Voltou para casa pelo mesmo caminho. Passou pelo campinho e olhou a árvore. Resolveu se aproximar e reencontrar uma velha conhecida que lhe emprestava sombra.

Ao chegar perto, largou a mochila encostada no muro dos Smurfs e chegou mais perto ainda. A árvore parecia pequena demais. É engraçado como quando reencontramos os lugares de nossa memória eles sempre parecem pequenos, como se tivessem passado por uma máquina do encolhimento.

“Oi, Árvore. Eu sou amigo do Moisés Guardião”, falou brincando e passando a mão no tronco marcado pelo tempo.

“Eu nunca te agradeci pela sombra do descanso. Obrigado.”

“Amigos de meus amigos são meus amigos”, uma voz saiu do meio das folhas.

Por um instante o seu coração disparou, saindo do ritmo. Suas mãos ficaram suadas de nervoso. A respiração em suspenso. O sol que lhe queimava antes de estar no abrigo da sombra da árvore só podia estar lhe causando alucinações.

“Por que demoraste tanto a vir falar comigo? Eu te vejo passar todos os dias a me olhar. Estava a te esperar.”

Os olhos arregalaram ao som da voz.

“Mas… como… que diacho…”

“Não tenha medo. Sou do bem. Como eu disse: amigos de Moisés são meus amigos.”

“O Moisés falava a verdade! Você fala!…”

“Claro. Mas as pessoas têm uma dificuldade de escutar os diferentes. Rotulam-nos de loucos, esquistos, malucos. Esquecem que cada um tem um mundo seu que partilha com o outros e um mundo seu todo particular, cujos segredos são nossos e verdadeiros para nós. Todo mundo tem um segredo inconfessável.”

“É…”, disse ele, lembrando com agonia do seu.

“Tu, por exemplo. Estás a viver um dilema imenso que te atormenta a existência”.

“Como assim? Como você sabe?”

“Árvores conversam com ventos, meu amigo. E ventos trazem os pensamentos.”

“Então se você sabe o meu dilema, me diga o que fazer. O Moisés um dia me disse que você era a consciência dele. Seja a minha então.”

“Passa-fome?”, a voz desviou-lhe a atenção. “Passa-fome, meu velho!”, falou agora alguém reconhecendo-lhe os traços esticados de adulto. “Passa-fome” era seu apelido de infância porque sempre tinha um pão com manteiga na mão.

“Keviny?”, ele também reconhecera o Smurf. “O Smurf número…”

“Sete. Smurf sete.” E fechou a cara com a lembrança do apelido que o irritava.

“Mas sim, Passa-fome. O que que tu tá fazendo aqui, cara? Tá igual ao Moisés Guardião, batendo papo com árvore agora?”

“Não… é que eu estava passando e resolvi parar para ver o campinho. Bons tempos aqueles, hein, Sete?”

“Porra, nem me fale… Não tinha contas, cheque-especial desses bancos agiotas, mil coisas que vão matando a gente todo dia aos pouquinhos. Não tinha de lidar com esses doidos de hoje. A vida tá doida, Passa… Tá foda pra todo mundo. Doidos, na nossa época, só o Guardião e Lambe-Lata da rua doze. Aquele moleque era doido pra caralho”. Os Smurfs sempre foram desbocados.

“É mesmo…”, riu se lembrando do Lambe-Lata. O menino tinha mania de passar a língua em latas e em tudo que era de metal. Só a lembrança da coisa arrepiava. Mas ele tratava o Lambe-lata com afeto porque ele era irmão protegido da Carla, filha da professora do grupo. Carla era linda. E disputada platonicamente. Estava no centro das paixões dos garotos de nove anos. Mas não dava bola para ninguém. Muito menos para ele, um menino magrelo, cabeludo, mirrado.

“Eu não sabia que tu ainda morava aí, Sete…”

“Não, cara, não moro. Depois que meus pais morreram, a casa ficou para a Keila…”

“A Smurfete…”

“Vai te ferrar, Passa-fome maldito!”, falou rindo, num misto de divertido pelo passado e chateado com ele também.

“Já comeu teu pão hoje?”, provocou sarcástico. E continuou. “Então, ela casou e foi morar em Campinas com o marido militar. A gente vendeu a casa. Tô aqui dando uma guaribada geral para entregar. Cara, deixa eu ir que a vida segue. Do caralho te ver, mano velho! Bom mesmo.”

“Falou, Keviny! Te cuida!”

“Falou.”

Pegou a mochila, evitou olhar para a árvore e se foi. Na volta, o Português feridento ainda perguntou:

“Que cara de espanto é essa, rapaz? Parece que estava a ver um fantasma!”, coçou a ferida e riu. Ele também riu de volta, comprimentou com um meneio de cabeça, ignorou a pergunta e seguiu. O cachorro ardido latiu quando passou em frente ao portão. O muro azul continuava descascado.

Ele ficou com medo de que estivesse enlouquecendo. Conversar com uma árvore? Mas o seu conflito era grande e estava consumindo a sua paz. Ele resolveu voltar lá quando retornasse do trabalho, à noite.

“Oi.”

“O bom filho retorna…”

“Desculpa ter saído daquele jeito… É que o Smurf…”

“Não peças desculpas por aquilo que tu tens certeza que o outro jamais entenderá. Não somos responsáveis pela compreensão alheia dos fatos do mundo. Cada um é responsável pelos seus caminhos. É o livre arbítrio. Não justifique os outros.”

“Você é o quê, afinal?”

“Sou o que você quiser que eu seja. É importante que tu saibas quem eu sou para seguir conversando comigo? Ou é importante que conversemos a sua angústia? O copo altera a água que mata a sede? O prato altera o pão que mata a fome?”

“Certo… Estou mal. Quero muito algo, mas os valores sociais não aceitariam nunca. Isso me consome.”

“Angústia é estar em dois lugares incompatíveis ao mesmo tempo. É querer os dois e não conseguir se decidir por nenhum. Tu estás angustiado. Não há decisão sem ganhos. No entanto, não há escolhas sem perdas. Resta decidir ir por onde a perda, que virá, machuque menos. Não mores na indecisão. Morar na indecisão corroi a alma. Quando eras criança e sentia fome, o que fazias? Corrias em casa e tomavas em tuas mãos um pedaço de pão. Comias o pão em público, o que te valeu um apelido. Essa foi a tua dor: o apelido. Mas tu tomaste a decisão de saciar a fome pela qual passavas. Esse foi teu ganho. Podias morrer de fome se fosses poupado do apelido. Mas decidiste. Quando a decisão é tomada e ela te traz paz é porque está certa. Faça-o agora!”

“Decidir doi. Às vezes sangra, dona árvore…”. Achou estranho o “dona árvore”, mas enfim…

“O que não doi no mundo, amigo? A dor renova a vida. A dor é o fim de um ciclo. É preciso morrer o velho para que o novo ocupe o espaço. Lembre-se de uma coisa: não se procure fora de si. Aprenda a buscar as respostas conversando consigo. É sua garantia. Os outros podem de repente não estar mais. Mas você sempre vai estar com você.”

A noite caiu e ele voltou. Havia algo estranho no caminho.  O velho português feridento! Onde estava, se não estava na sua cadeira da observação do mundo, onde sempre estava? A curiosidade lhe tomou as carnes.

“O Português, né? Ele morreu”, disse a vizinha, Dona Déa. Dona Déa era uma senhora paraplégica que se locomovia revezando banquinhos. Sempre odiou o português. Ela o acusava de fofoqueiro, maledicente e coisas assim. Mas dona Déa lhe deu a notícia chorando. O muro entre o ódio e o amor é fino como um muro de vizinhos. Ao mesmo que tempo que divide, também liga.

Ficou triste pelo Português. O cachorro também não latiu. Talvez em respeito. O muro azul ainda descascado.

Naquele fim de semana, olhando o ventilador rodando em falso no teto, ele tinha tomado a sua decisão. Iria definitivamente romper com sua angústia. Iria tomar para si as rédeas de seu caminho e de sua vida. Pagaria os preços em troca da paz de espírito. A Árvore tinha razão. Moisés tinha razão.

Na saída, ao fechar o portão de ferro de sua casa, já via um mundo diferente. Compreendeu naquele momento que os crayons das paisagens da vida ficam guardados dentro da pessoa e é sua paz de espírito que abre a caixa.

“Preciso contar para a Árvore que tomei a decisão”, pensou feliz enquanto caminhava. O cachorro não latiu. Viu o Português sorrir para ele, coçar a ferida e mostrar o polegar em sinal de positivo, apesar da cadeira de macarrão já recolhida.

Ao chegar no campinho, a surpresa. Tapumes com dizeres: “Em breve, mais um empreendimento da Construtora Feitoza”. Um frio lhe percorreu a espinha. A Árvore! Os tapumes iam para além do terreno do campinho. Pegava umas duas casas para cada lado de cada trave. Pegava a casa dos Smurfs. Ela tinha sido vendida, claro!

Como o moleque Passa-fome, num salto, ele pulou o tapume para ver do outro lado um terreno já limpo de tudo. Sem traves, sem árvore, sem memórias. Sentiu uma faca a rasgar-lhe o peito. No lugar da Árvore, apenas um buraco tapado com barro vermelho. Ela fora arrancada dali. Ela fora arrancada dele.

A placa dizia: “Engenheira responsável: Carla Feitoza”. Seu primeiro amor era o seu mais recente ódio. O muro entre o amor e o ódio é fino como um muro de vizinhos. Ao mesmo que tempo que liga, também divide. Ele se sentiu abandonado, engolido pelo mundo, que não respeita histórias. Amaldiçou a cidade pequena em que todo mundo conhecia todo mundo. Um ovo aquilo.

Voltou para a casa, triste, doído. O cachorro latiu. Cachorros sentem. O muro azul ainda descascado. Sem o Português dessa vez. Na porta da casa do Português uma mulher com um bebê no colo. O bebê mamava alheio a tudo.

Nunca mais campinho da sete. A árvore não existia mais. Mas sua decisão estava tomada. No lugar do futebol, um condomínio fechado. Mesmo fechado, ele não bloqueava o vento. Pelo vento ele conversava com a Árvore e, mais importante, aprendeu a conversar consigo. Porque ventos carregam pensamentos. O cachorro ardido fugiu. O muro descascado foi pintado de rosa. Sua paz, que sempre esteve dentro de si, agora descansava à sombra daquela castanholeira.

Dias de chuva

Postado em

Sim, a gente se desentendeu…/Pense não ser bom fugir,/da paixão se proteger./Volta ao normal/Antes de nascer o sol/Se pintar tristeza, ouça o coração/Vi que ficou cinza a cor do azul/Mas por que chamar a dor/Antes de acontecer/Traga com o Sol/Paz aqui pro coração/Peça pra esse inverno chamar o verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Eu já sei de cor a cor do azul/Passou o vendaval/Voltou a brilhar o Sol/Tudo é amor/Se a paixão nos fez chorar/Não passou de chuvas, chuvas de verão/Bom demais sentir você por perto mesmo sem te ver/Estar feliz a todo tempo/Claro para nós que não há nada mais a se fazer/Fazer voltar os bons momentos/Me perdoa por você chorar/Dias de chuva são/Véspera de tempo bom/Sigo com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixo a tristeza e ouço o coração/Siga com o Sol/Cai a chuva pelo chão/Deixa a tristeza e ouça o coração.

Sim, a gente se desentendeu.  Mas quem não? Ah, eu não compraria um carro usado de um casal que diz que nunca brigou. Um amor idealizado, sem brigas, sem rusgas, é um amor que não range suas diferenças, fundamental para fazer a engrenagem da vida a dois rolar, tecendo a rede de memória que alicerça a história da relação. Buscar uma assepsia impossível na relação acaba com o sistema imunológico do amor. É preciso por os pés descalços na lama para pisar firme na grama.

Nossa briga é desvio, não caminho. Por isso, me ouça. Pense que não é uma boa fugir de nós. Eu sei, parece que a distância ajuda na hora da carne aberta pela navalha da palavra mal dita, pela lâmina do erro maldito. Todas as pessoas erram, mas só as que são grandes pedem desculpas olhando nos olhos. Olhe nos meus olhos. Quero-me grande para você, ainda que agora seja liliputiano. Quero pedir desculpas sinceras. Se veja no meu olhar sincero e me permita que eu me veja no seu. Foi assim que nos entendemos na primeira vez, lembra? Ficar longe, sem querer conversar, é se proteger da paixão.

Precisamos – eu, você, nós – voltar ao normal antes do nascer do sol. Está escrito nos estatutos do amor que ninguém que ama deve dormir sem dar um beijo de boa-noite para fechar o dia, tenha sido ele bom ou ruim. O beijo de boa-noite noite é Deus rendendo nossos anjos da guarda. Permita que Deus entre. Quem tem um lastro, uma história, como nós, pode apostar no coração como avalista quando pintar a tristeza. É preciso ouvir o coração. Como um velho sábio das montanhas do Tibet, ele sussurrará no ouvido de sua alma o que melhor há de fazer.

Na cromotipia da vida, às vezes a cor do azul fica cinza. Nublam o celeste as tristezas gris. Um erro, um deslize, um momento em falso pode alterar a meteorologia de nosso afeto. Mas nuvens, chuva, raios e trovoadas estão ali por instantes. O normal é a cor azul e sua paz infinita.  Mas por que chamar a dor antes de acontecer? Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Não nos abortemos por migalhas.

Não esmaeça por minha causa. Não se esvazie do seu gás por causa de uma alfinetada minha. Traga com o sol paz aqui para o coração. Sua luz se expande ao tocar em meus pontos escuros. E vice-versa. Porque somos diferentes. Precisamos da diferença para, dividindo a vida, somar os caminhos e multiplicar as possibilidades. Ah, “navegar é preciso, mas viver não é preciso”, como precisa é a aritmética. Olhe nos meus olhos… Invento joguinhos de palavras piegas e cito o  poeta para fazer uma ponte entre nossos olhares, a única forma de cruzar esse Rio Amazonas que nos separa.

Um inverno. De repente um gelo inesperado. Um inferno. Andávamos há pouco descalços na areia da praia, sob o calor do sol e das nossas mãos dadas. Um erro, um deslize, um passo em falso… Mas e nós? Olha, peça para esse inverno chamar o verão! Tem aquela praia que desenhamos no guardanapo, com um coqueiro e uma casinha esperando por nós, lembra? Lembra?

É bom demais sentir você por perto, mesmo sem te ver. O amor é fisicamente incoerente: o vazio da ausência não cabe dentro da gente. Transborda. […] Ei, eu estou desesperado com teu silêncio. […] Queria estar feliz a todo tempo, como antes. Claro para nós que não há nada mais a se fazer: só fazer voltar os bons momentos. […]

Um sorriso.

Você está me olhando nos olhos…

Eu já sei de cor a cor do azul. Passou o vendaval e voltou a brilhar o Sol. Tudo é amor. Se a paixão nos fez chorar, não passou de chuvas, chuvas de verão. As chuvas alimentam a vida à custa da falta de sol momentânea. Que nossas chuvas sejam nutrientes de nosso ecossistema e não deslizadoras das montanhas de nossas geografias. Bom demais sentir você por perto. Bom demais sentir o teu cheiro. Bom demais, ponto. Uma vida, uma história, uma trilha sonora, nossos detalhes, nossas manias: recuperamos tudo de uma quase perda total. Que buraco ficaria na antologia universal do amor!

Me perdoa por você chorar? É que dias de chuva são véspera de um tempo bom… Comecemos novamente o nosso tempo bom. Eu sigo com o sol, cai a chuva pelo chão e eu deixo a tristeza e ouço o coração. Siga você também com o sol, pois cai a chuva pelo chão. Deixe sua tristeza e ouça o coração…

Há um ponto tênue de controle entre o silêncio regulador e a palavra descarrilada. Um ínfimo hesitar ou um micromovimento que altera tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos vir a ser. Dias de chuva sempre vêm. Mas o sol surge indefectível. Um beijo, meu bem. Boa noite.

Um dia de domingo

Postado em Atualizado em

Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

Um dia, um adeus

Postado em Atualizado em

Só você pra dar à minha vida direção, o tom, a cor… /Me fez voltar a ver a luz/ Estrela no deserto a me guiar/Farol no mar da incerteza… /Um dia um adeus/ E eu indo embora…/Quanta loucura por tão pouca aventura…/Agora entendo que andei perdido/ O que é que eu faço pra você me perdoar?…/ Ah! que bom seria se eu pudesse te abraçar/beijar, sentir como a primeira vez… /Te dar o carinho que você merece ter /E eu sei te amar como ninguém mais… /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou…/ /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou como eu, como eu…

Quando o céu é azul e o mar é plácido, o que leva alguém a buscar as nuvens pesadas? O que move alguém a caçar ondas ferozes que podem arrebentar na areia, lhe levando junto? A saída da rota conhecida na busca de estradas vicinais nos afetos pode desviar e fazer se perder do caminho sempre percorrido de forma indelével, irreparável. É só nos descaminhos que se percebe a beleza do caminho que temos por garantido.

Os novos caminhos são meras miragens. Tais quais oásis criados pela mente dos sedentos, as trilhas da aventura não trazem aventura: trazem a falta de rumo, a escuridão, a miragem, assim que se estende a mão para pegá-las. É nessa hora que percebemos, tardiamente talvez, que só aquela pessoa pode dar direção à nossa vida. Ela estava lá e nós caminhamos na direção contrária. Só ela, ali, perfeita, pode nos pôr de volta no tom correto da canção planejada a dois. Só ela pode nos avivar a cor à vida do pálido trapo em que nós, aventureiros ignóbeis, nos tornamos. Só ela nos conhece mais do que nós mesmos.

Será que não dava para ver que aquela pessoa é a luz a nos guiar no deserto desse latifúndio maluco que é a vida? Será que a cegueira pelo prazer fast-food sempre apaga mesmo a luz do farol que nos leva a salvo à terra firme das escolhas afetivas no mar das incertezas dos relacionamentos? Quanta loucura…

Mesmo com todo o calor, a certeza, a luz, a cor, o tom, a gente às vezes ousa ir. Irracional escolha. Arrisca a própria vida, o próprio equilíbrio, a própria aposta certa de duas pessoas que construíram castelos de sonhos, que desenharam seu reino perfeito e nele tudo investiram. Por tão pouca aventura…

E rotos voltamos. Mendigos de dignidade, moral esfarrapada pelos arames-farpados dos descaminhos. Retornamos fedorentos pelos odores de trilhas cheias de capim-navalha que nos cortou, além das carnes, também a alma. A alma cabisbaixa… os olhos sem força para se erguerem, com vergonha da luz, que tanto guiou, que tanto afinou o tom, que tanto retocou impecavelmente a cor…

E aí, nessa hora, cai a ficha. Tudo foi puerilmente posto em jogo. Um jogo com fichas com as quais não se joga. Um jogo em que nem se entra para jogar, porque todo jogo traz a possibilidade da derrota. E o que o leva quem já obteve a maior vitória à roleta russa da infelicidade?

Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

Tão certo quanto o dia amanhece, no entanto, a luz ainda ilumina nosso rosto marcado por pesadas lágrimas de pesar… Caminhos negros trilham e riscam rosto abaixo nos caminhos das lágrimas… negros da sujeira que nos cobre… A luz, límpida como sempre, agora ofusca os olhos que andaram desacostumado da luz na escuridão da perdição. Sim, andamos perdidos… E agora? Sem forças… sem voz… sem chances… Como retornar à direção? Como ganhar a cor pelas mãos macias que largamos por vaidade, por desejo fugaz? Como sincronizar o nosso ao coração que, irresponsáveis, colocamos em arritmia? O farol quer se apagar e não há nada para nos apegarmos para não sucumbir… Nem voz sai. Se recusa. Não tem o que dizer… Não depende de nós… Já dependeu. E a escolha foi errada…

Ah, tanta loucura… ah, tão pouca aventura…

Perdão. Só nos resta o fio do perdão. A pergunta vem, com medo da resposta: “o que que eu faço pra você me perdoar?” Com a pergunta, no segundo antes da resposta, feito um acidentado que no minuto da iminente morte vê um filme completo passar na mente, a gente lembra da primeira vez, do beijo, do abraço, dos risos, dos amores, dos momentos, dos olhares, do carinho, do consolo, do companheirismo, dos planos… A gente lembra das milhares de borboletas que levantaram voo no nosso estômago… que bom seria poder beijar, abraçar, sentir como a primeira vez… a luz… está indo… tão pouca aventura… é insano! O farol… apagando… A estrela-guia no deserto… cadê? Quanta loucura…

Que bom seria perceber o prumo da vida que perdemos voltar a aprumar… Que bom seria se nos pudéssemos dar o carinho que essa pessoa merece ter… Nós não a merecemos… Nós fizemos escolhas pela escuridão quando tínhamos a luz presente, aquecendo a vida…

Buscamos, enfim, o apelo final: a promessa da afirmação de que nós sabemos amar essa pessoa como ninguém jamais a amou. Ninguém jamais! Ninguém jamais a amou como nós… Trincamos o cristal que nos servia o melhor champagne do mundo, apedrejamos a luz de nosso próprio farol no mar da vida, esmaecemos a nossa cor, como se estragássemos nosso Van Gogh particular… Mas ninguém jamais a amou como nós. Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

“O que que eu faço pra você me perdoar?”…

William Blake

Postado em Atualizado em

Faça! Deixe de tolice! A vida é uma só. É. Exatamente. A vida é uma só. Vale a pena fazer? Correr o risco de mudar o rumo de algo que corre em seu leito de forma suave? Suave?! Quem gosta de suavidade é amaciante! A vida é mais do que uma propaganda, meu caro. A vida é a vida! Cada estação merece ser visitada e não apenas contemplada pela janela do trem da existência. Ledo engano.  A vida é uma propaganda. E linda! E há estações e estações. Há estações que valem nossa parada, nosso repouso, nossa passagem com calma. Há outras que devem ser vistas de longe, são portos de passagem e só de passagem. É isso que faz a história da viagem da vida. O que faz essa história, me desculpe, é ter história. E não há história sem arrebatamento, sem atitude. Ou você vai de encontro à vida ou vai de encontro com ela. O que é masoquismo, pois a decisão é sua. Exato. Porque a decisão é sua, por causa do livre arbítrio, é que traçamos os caminhos que decidimos. Daí a responsabilidade. É temerário sair pulando pelas estações sem rumo, sem prumo. Ou não. É uma vida que não se preenche, que é vazia… Só tem saudade quem tem histórias, meu caro. É essa vida em hiperlink que a torna verdadeira. É isso que faz com que cheguemos à idade adulta sem arrependimentos por não ter pulado de cabeça naquilo. Mas quem disse que a escolha pelo estável não é pular de cabeça em algo? Por que ‘pular de cabeça’ tem de ter necessariamente o sentido de ‘bater a cabeça’ para aprender? Não é ‘bater a cabeça’ para aprender. É deixar-se aprender e apreender pelo novo, pelo que se apresenta. O novo é renova. Você acha que as coisas vêm assim, do nada, sem uma razão? Que nada, meu velho… Tudo vem com um propósito. E o sabor da vida é descobrir esse propósito. Por isso eu digo: Faça! Calma! Não faça! Pense bem. Toda decisão tem ganhos e perdas. Já avaliou as perdas possíveis? São menores do que os ganhos? E mesmo menores, são perdas aceitáveis? Segura! Devagar! Que nada! Pisa fundo! Fecha os olhos e vai. Racionalizar demais estagna a alma. Depois que foi, foi. Na vida, a gente começa sempre com um não pras coisas. O sim só vem se a gente correr atrás. Deixe de medo. É prudência. É medo. Prudência! Prudência é o medo do indeciso, do arregão. E medo é a racionalização do inconsequente, do porra-louca. Acho que discordamos. Muito. É. Faça! Não, não faça! Já pensou no que você pode perder com essa decisão? E já pensou no que você pode ganhar? Vai por mim! Não vai, não. Se há dúvida, é porque você já decidiu. Pare de se enganar. Não vá na corda do cordeiro. Se há dúvida, é porque o que é ainda conta. Não se deixe influenciar pelo tigre.  Deixe ele decidir. Deixe ela decidir. Ok. Ok. Faça! Não faça… Vamos todos ler Blake, enquanto decidimos… Mas faça! Não faça…

Os cisnes que nos habitam

Postado em Atualizado em

“Quero falar de sua mania de negar o que é
e de explicar o que não é”.
Edgar Allan Poe
Duplo Assassinato na Rua Morgue

As contradições internas de nossa subjetividade e a dificuldade de se lidar com elas. É esse o tema de fundo de Cisne Negro (Black Swan). Assisti ao filme e gostei demais.

À primeira vista, a bailaria Nina Sayers (Natalie Portman, magnífica e merecedora do Oscar) é movida pelo desejo de superação. Quer se tornar a “prima ballerina” da companhia de Thomas Leroy (Vincent Cassel). Uma parede psicológica, no entanto, precisa ser superada: O Lago dos Cisnes, o balé de Tchaikovsky, que Leroy decide montar e que serve de trigger para os conflitos.

Para Nina, viver Odette, o “Cisne Branco”, não é problema. Ela é a própria metáfora do cisne branco: pura e inocente. Seu desafio é a interpretação de Odile, o “Cisne Negro”, o seu outro, a sensualidade, a  sedução. O público acompanha a desintegração de sua sanidade enquanto ela enfrenta a pressão do diretor, a projeção da mãe superprotetora  (Barbara Hershey) e a chegada de uma bailarina concorrente (Mila Kunis), em si própria um cisne negro por default.

Acompanhei o filme pensando em duas coisas: os conflitos internos que compõem a subjetividade e a relação da histórias com os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário, do psicanalista Jacques Lacan. Vou de trás para frente.

Longe de querer simplificar e rasterizer os conceitos lacanianos, tentarei trazê-los para parâmetros de reflexão sobre o tema. Para Lacan, quando o indivíduo entra na linguagem, ele se subjetiva e se desnaturaliza. A linguagem se interpõe entre o sujeito e seus desejos, suas querências. Não dá mais para realizar o gozo dos desejos animais porque a linguagem nos ensina valores, conceitos e regras que nos limitam em nossas ações e omissões. A linguagem, que é o Simbólico,  carrega os sentidos do mundo que aprendemos, monta o nosso mapa conceitual desse mundo, muitos conceitos dos quais não temos domínio sobre. É um processo do inconsciente. Esse mapa, o conjunto de imagens, é o Imaginário. Mas para onde vão os desejos represados pelo simbólico? Vão para o inconsciente, em forma de pulsão e lá ficam malucos para sair. Saem às vezes em atos falhos e lapsos. Aquilo que o sujeito não consegue atingir, o estado bruto, é o Real.

Ok. Lacan em um parágrafo é querer demais. Mas dá para fazer o link com o tema do filme.

Todos nós, por meio da moldagem da linguagem, formamos uma personalidade visível e uma espécie de personalidade pulsional, o outro eu: o cisne negro, no caso de Nina. O branco andava livre, respaldado pela mãe superprotetora, numa naivité característica. O cisne negro de Nina vai ganhando espaço, se realizando na mudança do imaginário quanto a seu papel no mundo. O sujeito normal encontra formas de aliviar a pressão do que é recalcado, mas quando essa pressão é muita, o sujeito quebra, como Nina, que rompe com os limites do Simbólico, deslocando o Imaginário, reconfigurando-o. Ela rompe ao dar-lhe asas quando toma ecstasy e faz sexo com sua rival, quando a mata, quando se liberta da mãe. Desejos. Pulsões. Seu Real é magnificamente pictorizado no filme pela materialização do cisne negro em seu corpo, como se o aparecimento do mesmo fosse a transformação real do corpo humano no corpo do animal. Ela vai perdendo a razão – isso! a razão! – e a sua desrazão vai tomando conta, dando um 180 na parte dominante de sua personalidade. Sai Odette, entra Odile.

E nós, homens banais, que podemos pensar a partir do filme e de sua leitura lacaniana? Papo acadêmico apenas? Como analista de discurso, creio que nem todo academicismo é masturbação teórica. Eu me arrisco no que segue.

Nós, homens banais, precisamos ouvir Tchaicovsky. Metáfora. Necessitamos achar o equilíbrio entre os cisnes que nos habitam. Entre o eu permitido e o eu pulsional. Entre as contradições. Muito recalque, o sujeito implode psiquicamente. Muita alternância, eis que surge um terreno fértil para a esquizofrenia. O sujeito não pode tocar o Real puro. Tocar o Real puro é atingir a loucura. Precisamos do Simbólico a nos definir o Imaginário, que sempre está se movendo, sob o risco de alienação. É imperioso para o sujeito simbolizar o Real, dar-lhe sentido: pela arte, pela música, pela escrita, pelas tatuagens, pelas mil formas que cada um encontra para deixar vazar aquilo que é demais para lidar cara-a-cara. Somos todos, enfim, Odette e Odile.

Nietzsche dizia: “a alegria deve ser buscada não na harmonia, mas na dissonância”. Dou RT em Nietzsche. Porque nada jamais é descoberto: tudo é reencontrado, trazido à tona graças a um gatilho. Por falar nisso, o que que é aquele sinalzinho no rosto da Natalie Portman… =X

Adoro um livrinho chamado “O Real e seu Duplo”, de Clément Rosset. Já o li inúmeras vezes, cada uma de forma diferente. Diz ele: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível – o do real a ser percebido -, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sob certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa”. Só que o controle dessa tolerância não é nosso…

Quantos cisnes e de que matizes existem dentro de você, leitor? E como eles convivem entre si? Quem subjuga quem? Até quando continuaremos com essa mania de, como diz Poe lá em cima, negar o que é e explicar o que não é?

No fundo, todos nós sabemos muito bem que só viveremos uma vez, que somos um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de cisnes fundidos em um todo. Resumo do texto: dance o ballet da vida com suas contradições e sem medo. Duplo sentido para a palavra suas.

Bilhete

Postado em Atualizado em

Quebrei o teu prato, tranquei o meu quarto/Bebi teu licor/Arrumei a sala, já fiz tua mala/Pus no corridor/Eu limpei minha vida, te tirei do meu corpo/Te tirei das entranhas/Fiz um tipo de aborto/E por fim nosso caso acabou, está morto/Jogue as cópias das chaves por debaixo da porta/Que é pra não ter motivo/De pensar numa volta/Fique junto dos teus/Boa sorte, adeus.

Um amor violento quando torna-se mágoa é o avesso de um sentimento: oceano sem água. É no intertexto das músicas que se tece este texto. Ele é sobre o fim do amor que deve acabar, sobre o amor que era mar violento e se tornou deserto árido. Que, vamos abrir o jogo, não vale mais o que o gato enterra, mas de que você não consegue se desvencilhar. É como se fosse um velcro atrofiado…

Há amores que são tóxicos. Começam a fazer mal, a escravizar. Amores que sufocam, afogam, nos alzeihmerizam a alma. Amores de quem queremos distância, mas dos quais não conseguimos nos despregar, tal o visgo que se construiu na época  em que ele era bom. Era. Foi-se.

É preciso morrer para viver. Sem se matar o amor apodrecido, fétido, não se pode recomeçar. A brisa do amor não sopra se não forem fechadas as janelas de um lado e abertas as portas de outro. Para deixar o amor putrefato ir embora. Tchau, adeus! É preciso coragem – que sempre falta. É preciso desprendimento – que nunca vem. É preciso culhão – que parece ter ficado perdido nas tórridas noites de sexo que se foram. Mas respire fundo e toque o barco!

Luto. É preciso curtir o luto. Deixar ir. Porque se sabe que faz mal. Muito mal. Todos sabem. Só um resto de nós, uma parte teimosa, insiste em ficar ligado ao amor parasita, que nos suga. Benefício lá, malefício aqui. Mas ele nos suga para ele unilateralmente. Diferente da época em que nos sugávamos mutuamente, por prazer. Deixe ir! Coragem! É preciso respirar! Mande embora essa coisa!

Quebre o prato! Tranque o quarto! Beba o licor! Rasgue os papeizinhos! Apague os e-mails! Delete o nome dele do seu celular e da agenda da sua vida! Dê-lhe um block na vida! Unfollow na sua alma! Dê um delete nele, inclusive na lixeira depois. Shift del nesse vírus da sua vida!

Arrume a sala! Arrume a vida! Retome o controle de seu coração! Expulse esse merda! Faça as malas deles e ponha no corredor! Limpe sua alma, dê uma polida em sua aura, retire esse troço do seu corpo! Assepsie-se! Sinta o Fenergan da decisão entrando em sua alma e limpando a alergia que esse ser te dá. É, não é fácil! Tem de arrancar das entranhas, é um tipo de aborto! Vai doer? Vai! No corpo e na alma! Vai ter vontade de chorar um rio? Chore! Tem medo da vida ficar sem sentido? Por uns tempos. Depois pega vento de novo! Não vale mais a pena! Não vale mais. Aceite! Vai por mim. Já estive aí! Tem de ser na porrada!

Se ele não quiser entender, problema dele! Não é você que tem de fazê-lo entender. Não caia nessa! É só o que resta de você preso nessa coisa que faz você ficar inventando desculpas fuleiras para não se desligar! Diga para ele: “Me larga, não enche! Me deixa viver, me deixa viver! Me deixa viver, me deixa viver… Cuidado, oxente!” Está no seu querer poder fazer o tal desabar… Complete: “Pra rua! Se manda!” A mala… a mala tá aí fora! Grite: “Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar! Pirata! Malandro! Me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar…”. Saque mil caetanos para esse lazarento!

Acabou! Está morto. Enterre. Chore. Gaste o luto. Sem isso, nada feito. Legal o que se passou de bom. Mas já era! Hello-ô! E não dê motivos, não tome o primeiro gole dessa pinga amarga… Não fale mais com ele… peça que jogue a cópia da chave por debaixo da porta que é para não ter  motivo de pensar numa volta.

Ah, e se ele sentir a perda? E se ele sofrer? Não é problema seu. Ele que fique perto dos seus e se vire. Não é você que vai tomar conta disso… você não é mais dele, não precisa mais fazer isso. Componha-se! Amor próprio! Isso! Não fique parada! Há uma estrada pela frente! Não permita ninguém bloquear seu caminho, o passeio de seu caminhar… Vá embora… Vá cuidar da vida! Quer algum recado para ele? Que papel é esse? Tá, eu entrego. Eu! Não você. O que está escrito aqui…? É. Boa sorte e adeus! Foi a melhor decisão…

Bola de meia, bola de gude

Postado em Atualizado em

Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto balança/Ele vem pra me dar a mão/Há um passado no meu presente/Um sol bem quente lá no meu quintal/Toda vez que a bruxa me assombra/O menino me dá a mão/E me fala de coisas bonitas/Que eu acredito/Que não deixarão de existir/Amizade, palavra, respeito/Caráter, bondade alegria e amor/Pois não posso/Não devo/Não quero/Viver como toda essa gente/Insiste em viver/E não posso aceitar sossegado/Qualquer sacanagem ser coisa normal/Bola de meia, bola de gude/O solidário não quer solidão/Toda vez que a tristeza me alcança/O menino me dá a mão/Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto fraqueja/Ele vem pra me dar a mão…

 

Vez por outra na vida é preciso parar para um balanço. Sim, o balanço infantil mesmo, aqueles dos parquinhos. Sentar, jogar o corpo para frente e para trás, simbolizando o movimento do pensamento que, inquieto, vai para trás em busca das compreensões do que já passou e se joga para frente em projeções da vida por vir.

Estou nesse exato momento sentado no meu balanço. O ano está terminando, outro prestes a começar. O que ficou para trás? O que vem pela frente? Enquanto busco impulso, perguntas começam a brotar na minha cabeça com uma fertilidade nordestina.

Na ida para trás, o balanço faz pensar nas escolhas. Foram acertadas? De todas as certezas que tenho hoje, a mais certa é da opção pela minha família. Não falo da família que já está aqui antes da gente. Essa Deus escolhe por nós e, sem dúvida, Ele foi muito generoso comigo. Falo da família que vem depois da gente. Da companheira com quem você divide ônus e bônus dessa coisa doida que é viver. Dos filhos que daí vêm. Minha família é o meu melhor acerto. Andei em descaminhos em outras tentativas, na vontade sincera de acertar. Não deu. Não era para dar para que desse agora. Lapsos, erros, aprendizagem. Quedas. Reerguidas. Quem não?

Olhando para trás, penso em minha escolha profissional. Com o benefício do tempo passado, tenho certeza de que a escolha da profissão é algo que, como diz o lugar-comum, deve contemplar dois parâmetros: a satisfação pessoal e o retorno financeiro. Esses parâmetros vão dançar, brigando pela prioridade, dependendo do nosso plano de vida. Sou absolutamente realizado como professor. Gosto de gente. Gosto de mexer com cabeças. Gosto de fazer a pessoa sair positivamente diferente de alguma forma em relação a como ela chegou para nosso encontro. Sou doutor, estou bem na carreira, tenho certo reconhecimento profissional. Nota dez no quesito realização. Mas hoje vejo que ignorei o outro lado. Escolhi uma profissão que não traz reconhecimento suficiente do ponto de vista financeiro para o investimento de vida que se faz. Eu gostaria de dar à minha família bem mais. Errei no planejamento. Tivesse eu investido na medicina ou no direito, com esse tempo de estrada, estaríamos bem melhor. A essa altura do campeonato não era para eu estar mais dando aulas aos domingos para fazer as contas fecharem. Nota 2. Na média, 10+2/2 = 6.0, eu passo, mas não convenço. Isso tem me incomodado e me inquietado.

A vida vale a pena quando vivemos inquietações diferentes. Não dá é para morarmos nas mesmas inquietações. Então jogo a cadeira do balanço para frente: é preciso mudar, fazer algo. Não sei viver na mesma inquietação perene. Coisas de quem trabalha com a linguagem, sempre nervosa e mutante. No balanço das horas tudo pode mudar. No entanto, não é fácil. É complicado começar de novo quando a mudança tem impactos em pessoas que você ama. Incertezas para si é um a coisa. Incertezas para os seus é outra. O medo, confesso, paralisa. Já ensaiei e refuguei. Já me convenci e me dissuadi. Já me empolguei e me entorpeci. Há uma dúvida que bate como o badalo do sino que se dobra cotidianamente: o dois certo, com frustração, ou um dez incerto, com risco real de um zero? O medo de ir adiante, de abrir essa porta, faz o mundo parar, a vida procrastinar a vida. 2010 foi um ano inerte.

O banco do balanço volta no rumo de trás. Quando estava como subsecretário de Educação de Manaus, vivi a tal da solidão do poder. Só quem passa por isso sabe o que é. Não me peça para explicar. Em um dia particularmente ruim, abri meus e-mails e lá estava um que dizia: “Não deixa que ninguém te cobre mais do que podes dar. Te amo muito e vou continuar aqui no meu cantinho rezando por ti e por tua família. Que Deus te abençoe e Nossa Senhora te cubra com seu manto, te livre de todos os males que apareçam e te proteja contra a incompreensão, a inveja, a mesquinharia… Te amo muito, muito e te desejo toda a felicidade do mundo”. Era de uma tia minha, a quem amo de paixão, embora o corre-corre da vida não nos deixe muito tempo para abraços e beijos merecidos. Ela mandou isso do nada. Do nada, não. Ela, me conhecendo como me conhecia, tendo me carregado no colo, sentiu a necessidade de chegar perto com carinho, do jeito possível. Quem ama tem uma antena poderosa para captar a angústia silenciosa do ser amado. E foi na hora certa, no dia certo. E teve um efeito balsâmico sobre a minha alma chorosa que talvez nem ela saiba, pois só revelo agora. Não seria eu a me cobrar demais? Guardo o e-mail até hoje. Releio-o quando me sinto fraco, errante, debilitado. Ou em momentos de balanço, como esse.

É essa força invisível incomensurável que me faz, junto com a certeza da minha melhor escolha, arranjar mais forças. Daí eu enxugo minhas lágrimas, que insistem em vir mais recorrentes, e dou um impulso para frente no balanço. E me vejo sorrindo, como uma criança de cinco anos que um dia se balançou feliz, sem preocupações, no playground do jardim-de-infância de uma escolinha no Parque Dez, numa imagem achada na memória afetiva. “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. É essa criança que grita para o adulto de 42 anos: “Empurra! Mais forte! Ainda temos tempo de brincar!”. Preciso fechar os olhos e sentir o vento no rosto… Preciso…

Estreitos

Postado em Atualizado em

Texto escrito  para o Portal Amazônia.

O sujeito se constitui na linguagem. É desse pressuposto que sempre parto para pensar o assunto sobre o que escrevo. É desse pressuposto, leitor querido, que parto neste texto para explicar, pela linguagem, o que é a angústia.

Sempre que usamos a língua, falamos de algum lugar. Embora sejamos uma só pessoa de carne e osso, somos constituídos por vários sujeitos de linguagem, lugares simbólicos de onde somos ouvidos. Às vezes eu falo do lugar de professor, às vezes do de pai. Por vezes significo do lugar de filho, por vezes do de marido. Quando converso com a Lidi, que trabalha aqui em casa, minhas palavras são entendidas por ela como vindas do patrão. Nas inúmeras vezes em que reclamo da Net, sou um cliente falando. Acontece que vez por outra esses lugares se sobrepõem.

A angústia é um sentimento incômodo que vem dessa sobreposição. Por causa da coincidência de lugares, a angústia envolve a sensação de ficar estagnado sem saber o que vai acontecer, se vai acontecer, quando vai acontecer. Tudo isso temperado com a incerteza sobre o que devemos fazer. Há uma ansiedade seca para que algo se resolva e um medo assustador de que a resolução que ocorra tenha impacto ferrado na vida da gente. Estar angustiado é ter a consciência doída de que se quer duas coisas incombináveis. Ambas são verdadeiras e desejadas e, por isso mesmo, impensadas como descartáveis. Ficamos sem alternativas. Etimologicamente, angustiar é “tornar estreito”, reduzir possibilidades, escolhas, caminhos.

Discursivamente, angustiar-se é estar ocupando dois lugares de fala incompatíveis. É querer ser dois sujeitos onde só cabe um. É aspirar admirar a beleza da perfeição da encarnada maçã e, ao mesmo tempo, desejá-la como ingrediente de uma deliciosa torta. É querer estar em junho em Fortaleza, curtindo de mãos dadas a brisa do mar a lamber-lhes os rostos cúmplices e, ubiquamente, agasalhar-se, no mesmo junho, num abraço de carinho quente sob o edredom no friozinho de Campinas. É desejar ter a flor eternamente enfeitando o jardim da existência e querer desesperadamente arrancá-la de suas raízes para entregá-la sem remorso ao amor de sua vida.

Pela metáfora, outra das propriedades da linguagem pela qual pensamos o mundo, tento pedagogicamente mostrar como, angustiados, estamos em posições inconciliáveis. A angústia é o entremeio dessas posições. A angústia é a interseção impossível. É a certeza da perda de uma escolha a ser feita, perda que não se resume à decisão deixada para trás, mas perda que inevitavelmente arranca e arrasta para longe parte de nós mesmos que vai à reboque da decisão. A angústia é a certeza da mudança inevitável. Como diz Clarice Lispector, mudar não é fácil e às vezes escorre sangue.

A vida é feita de decisões, pequenas e grandes. Mudar envolve decidir.  As decisões vez por outra nos paralisam na incapacidade de escolher, estreitando nossa mobilidade subjetiva. É assim. Quem não se angustia é porque não se permite viver a vida na sua plenitude, na beleza dos caminhos e nas descobertas dos descaminhos que ela apresenta. Quem não tem dilemas não compreende que o labirinto é um jeito de ir tanto quanto a linha reta o é. Há até quem prefira a sinuosidade do labirinto a se confortar com a previsibilidade da linha reta. Ter escolhas, ainda que dolorosas, é ter vida. Viver é escolher. Vivemos nas escolhas. E morremos em parte nas escolhas que matamos para que a vida siga no seu contínuo devir. A semente tem de morrer para germinar. Mas a semente fica, queira-se ou não, na planta que rasga o solo. É morrendo que se nasce, não foi isso que disse um cara aí?

Assim, angustiar-se é desejar duas coisas e ser incapaz de decidir por uma. Por tudo que envolve. No passado, no presente, no futuro. Em nós. Na estação da vida não dá para ficar no saguão da angústia e perder o bonde da história que passa lá fora. Fincar-se na angústia é masoquismo. Deixar alguém na angústia é sadismo.  Não é simples, não é fácil, mas o sujeito só sai da angústia quando arranja forças sabe-se lá de onde e puxa o pé que está no lugar declinado, cravando-o com força no lugar escolhido, ao lado do outro que lá já estava.

No bonde da história, que corre veloz, pode-se colocar a cabeça na janela e sentir o vento soprando no rosto. Ou se pode deitar no leito do corredor e descansar da vida. Uma coisa ou outra. Nunca as duas simultaneamente. E lá se vem outra angústia. Porque disso ninguém foge. Ignorar isso não é uma boa escolha. Para a serenidade do sujeito, quanto mais plenamente falar de um só lugar, menos angustiado e mais feliz tende a ser, em tese.

O sujeito se constitui na linguagem. É desse pressuposto que sempre parto para escolher o assunto sobre o que escrevo. Por isso, tenho uma forte desconfiança da razão deste texto, meu caro leitor. Desconfiamos, eu e o meu eu-lírico. Angustiados, mas buscando nos esgueirar nos e dos estreitos das escolhas dessa coisa doida de viver.